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All in the Mind

meiro apenas na rádio @BBC 4, hoje ainda nesta rádio e em podcast, o “All in the Mind” será um dos programas que semanalmente tratam temas da psicologia com maior longevidade no Mundo, indo a caminho dos 20 anos de edições.

Aprendi e pensei muito, portanto, a partir de vários dos seus episódios, particularmente desde que, via podcast, é mais simples seguir e acompanhar o programa. Foi por isso com uma certa emoção que conheci a sua actual apresentadora (@Claudia Hammond) em Julho, quando apresentou o meu keynote no European Congress of Psychology 2023 (Brighton, UK), conforme aqui havia referido: https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_quando-estou-fora-de-portugal-num-pa%C3%ADs-onde-activity-7084070839926628353-UPqL?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

Foi também com emoção que, fará amanhã 15 dias, ouvi um dos seus episódios, apresentado pela @Claudia Hammond e produzido pela @Lorna Stewart. Episódio cujo link partilho e que conta com um contributo meu a propósito do papel da psicologia enquanto ciência e prática para um “ponto final à pobreza”, a partir da estratégia da @Ordem dos Psicólogos Portugueses que venho coordenando, conjuntamente com um grupo de colegas. Episódio cuja sua descrição refere a forma como procuro sublinhar como “as psicólogas e psicólogos estão numa posição fulcral para comunicar acerca das causas e consequências da vivência em situação de pobreza e para usar essa informação para exigir mudanças e contribuir para melhores políticas públicas”.

Na conversa com a @Claudia Hammond procuro também reflectir o porquê deste contributo ser diferenciador e como podem as psicólogas e psicólogos, dia-a-dia, nos seus diversos contextos de intervenção, também contribuir para este gigante mas tão importante desafio societal, salientando o seu papel na promoção da transformação social e a forma como, nas suas intervenções, nos seus últiplos contextos, devem considerar a especificidade das dimensões sócio-económicas e adaptar as intervenções, procurando ser mais sensíveis a estas dimensões e, logo, potencialmente mais eficazes e efectivas/os nos seus objectivos. Procurei, ainda, tratar as questões dos impactos da pobreza na infância e dos ciclos intergeracionais de pobreza, bem como explicitar o período específico (e a janela de oportunidade) que constitui os (primeiros) “1000 dias”, conceito e abordagem que neste artigo há meses desenvolvi: https://www.linkedin.com/pulse/1000-dias-tiago-pereira/

Termino, como terminei. Perguntou-me se estava optimista que as psicólogas e psicólogos poderiam “erradicar a pobreza”. Respondi que não, certamente que não, mas… Que estou optimista que, se isso for nossa prioridade, enquanto sociedade podemos efectivamente caminhar para a erradicação da pobreza e que será sempre mais simples fazê-lo se usarmos mais o conhecimento da ciência psicológica e o contributo da prática das psicólogas e psicólogos.

Assim o disse. Assim o sinto. Assim o espero que o sintam.

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Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas (Ao redor…; 21.11.2023)

Ontem levei o meu filho mais novo à Creche de pijama. Comemorou, com as amigas e os amigos, mais um Dia Nacional do Pijama e, em simultâneo, mais um aniversário da adopção pela Assembleia Geral das Nações Unidas da Declaração dos Direitos da Criança (1959) e da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989).

A convenção, quase universalmente ratificada, assenta em quatro pilares fundamentais que incluem: a não discriminação e a aplicação dos direitos a todas as crianças; o princípio do seu superior interesse nas decisões que lhes digam respeito; a sua participação e consideração das suas posições e opiniões; e a garantia de sobrevivência, desenvolvimento integral e da promoção da sua qualidade de vida e bem-estar.

Mesmo considerando as enormes melhorias, Mundo fora, nestes quatro pilares desde 1959 ou de 1989, pensemos por um momento nos últimos anos. Este meu filho nasceu em Junho de 2021 e, em menos de 30 meses de vida, viveu parte da pandemia por COVID-19 e um conjunto de outras crises e catástrofes em lugares diversos do Mundo, a continuação de um conjunto de Guerras, incluindo civis, e o início da Guerra desencadeada pela Federação Russa na Ucrânia. Viveu o hype da inteligência artificial (generativa), as primeiras mortes em contexto de guerra por armas autónomas, o início das viagens turísticas espaciais e, mais recentemente, a (a cada dia mais) trágica situação na Faixa de Gaza, os tenebrosos ataques de 7 de Outubro e a escalada assombrosa da Guerra Israel-Hamas, com bombardeamento e invasão pelo exército Israelita da Faixa de Gaza e incursões na Cisjordânia. Pergunto, portanto, estarão, Mundo fora, melhor as crianças nestes quatro pilares desde 2021?

Mesmo com esta vertigem, com esta ambiguidade, com esta incerteza, penso em pessoas que responderiam, taxativamente, sim e noutras que responderiam não. Penso, também, em pessoas que responderiam sim e não, mas não taxativamente. Mais, penso em pessoas que teriam dificuldade em responder, reconhecendo as profundas diferenças entre diferentes lugares no Mundo e Portugal, fugindo a uma generalização estatística que pode suportar a resposta à pergunta, mas desafiar a universalidade dos direitos e ser profundamente injusta para muitas crianças, Mundo fora. Que pode ser muito injusta para muitas crianças, até, em qualquer país, independentemente do seu nível de desenvolvimento. Que pode ser muito injusta para muitas, em Portugal.

Em Portugal, apesar de alguns indicadores terem melhorado nos últimos anos e de termos hoje compromissos políticos significativos, persistem níveis de pobreza e exclusão, na primeira infância e juventude, que condicionam decisivamente o cumprimento da Convenção, os direitos e a possibilidade de desenvolvimento integral, qualidade de vida e bem-estar de muitas crianças e jovens. Que o impossibilitam no presente e que o obstaculizam para o futuro, gerando injustas e continuadas iniquidades e perigando o desenvolvimento futuro do país. Também por isso, cumprir a Convenção deve ser nosso desígnio. Também por isso, humilde mas comprometidamente, deixo quatro propostas para aprofundarmos e sermos mais efectivos nesse caminho:

  1. Uma estratégia, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé, considerando os 9 meses de gestação e os dois primeiros anos de vida extrauterina. Considerando os impactos negativos no seu desenvolvimento integral[1], incluindo mesmo nas suas estruturas cerebrais e neuronais, da exposição a situações de stresse significativo (particularmente presente em famílias expostas a situação de pobreza, exclusão ou marginalização), devemos desenvolver medidas que permitam eficazmente a redução da exposição a estas condições no período da gravidez e primeiros dois anos de vida do bebé, acompanhadas de suporte emocional e de desenvolvimento de competências parentais, disponíveis para todas as famílias;
  1. A revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde que permitam responder, precocemente e de forma contingente, a primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias, activando e promovendo competências das e dos cuidadores e comunidade para a identificação e resposta a crianças, nos seus direitos. Revitalização de um modelo, referência internacional na área, fortemente dependente de um compromisso para maior afectação de recursos e para a garantia de condições de continuidade, enquadramento e desenvolvimento sócio-profissional das equipas técnicas e respectivas coordenações;
  1. Ao objectivo de generalizarmos a possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos, juntarmos o importante objectivo de garantirmos a qualidade dos ambientes educativos, ainda pouco considerada, contribuindo para o desenvolvimento integral de bebés e crianças. Neste âmbito, creio relevante acompanharmos o importantíssimo trabalho que o laboratório colaborativo ProChild, presidido pela Isabel Soares, recentemente agraciado pela Assembleia da República com o Prémio Direitos Humanos de 2023 (em conjunto com a P.A.J.E.) e promotor do “Pacto para a Infância”[2], tem desenvolvido e apoiarmos a sua disseminação e generalização;
  1. Sabendo-se hoje o papel que as educadoras e educadores e as professoras e professores, particularmente nos primeiros ciclos de estudo, têm na possibilidade de prevenir o aprofundamento dos desfasamentos educativos de bebés, crianças e jovens provenientes de contextos mais vulneráveis, investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto. Neste âmbito, creio também relevante conhecermos o trabalho que o Ambition Institute (UK), que tem como Director Associado o Miguel Herdade, tem realizado e a forma como os seus programas contribuem para a diminuição dos desfasamentos nos resultados educativos e no desenvolvimento da crianças e jovens provenientes de contextos mais vulneráveis.

Quatro propostas assentes na ciência e evidência, que melhorariam e tornariam mais efectivas as políticas públicas. Quatro propostas que sedimentariam o desígnio de cumprirmos a Convenção sobre os Direitos das Crianças e minimizar obstáculos e barreiras que se colocam à equidade e ao desenvolvimento futuro de crianças e jovens expostos a contextos de pobreza, exclusão ou marginalização, com foco intergeracional e de investimento para o desenvolvimento económico e coesão social futura do país.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, considerar “que a criança deve estar plenamente preparada para uma vida independente na sociedade e deve ser educada de acordo com os ideais proclamados na Carta das Nações Unidas, especialmente com espírito de paz, dignidade, tolerância, liberdade, igualdade e solidariedade”, conforme a Convenção define, depende de contribuirmos para a universalização destes direitos, tornando-os mais equitativos no país e entre países. No presente e para o futuro.

 

Tiago Pereira

Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas

in Sábado (Ao redor…); 21.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cumprir-a-convencao-sobre-os-direitos-da-crianca—um-designio-e-quatro-propostas

 

[1] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias

[2] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=pacto-para-infancia

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Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas

“Ontem levei o meu filho mais novo à Creche de pijama”. Assim começo referindo-me a anteontem, explicando, depois, que para comemorar “com as amigas e amigos mais um Dia Nacional do Pijama e, em simultâneo, mais um aniversário da (quase universalmente ratificada) Convenção sobre os Direitos da Criança.”

“Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, 70º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre o facto de, apesar de alguns indicadores terem melhorado nos últimos anos e de termos hoje compromissos políticos significativos, persistirem em Portugal “níveis de pobreza e exclusão, na primeira infância e juventude, que condicionam decisivamente o cumprimento da Convenção, os direitos e a possibilidade de desenvolvimento integral, qualidade de vida e bem-estar de muitas crianças e jovens.”

Defende, também, que “cumprir a Convenção deve ser nosso desígnio” e apresenta “humilde mas comprometidamente quatro propostas para aprofundarmos e sermos mais efectivos nesse caminho”. A saber:

 

  1. Uma estratégia, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé (…) que permita eficazmente a redução da exposição a condições de pobreza e exclusão no período da gravidez e primeiros dois anos de vida do bebé, acompanhadas de suporte emocional e de desenvolvimento de competências parentais, disponíveis para todas as famílias;

2. A revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde que permitam responder, precocemente e de forma contingente, a primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias;

 

3. Ao objectivo de generalizarmos a possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos, juntarmos o importante objectivo de garantirmos a qualidade dos ambientes educativos (ver o trabalho do @ProChild, presidido pela @Isabel Soares, recentemente agraciado pela Assembleia da República com o Prémio Direitos Humanos de 2023 (em conjunto com a P.A.J.E.) e promotor do “Pacto para a Infância”);

4. Investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades (ver o trabalho do Ambition Institute (UK), que tem como Director Associado o @Miguel Herdade).

 

Quatro propostas assentes na ciência e evidência, que melhorariam e tornariam mais efectivas as políticas públicas. Quatro propostas que sedimentariam o desígnio de cumprirmos a Convenção sobre os Direitos das Crianças e minimizar obstáculos e barreiras que se colocam à equidade e ao desenvolvimento futuro de crianças e jovens expostos a contextos de pobreza, exclusão ou marginalização, com foco intergeracional e de investimento para o desenvolvimento económico e coesão social futura do país.

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Mental Talks, Lo(u)cotorio

Contribuir para uma comunidade mais informada em saúde mental e participativa no combate ao estigma associado à doença mental. É esta a relevante visão (missão, acrescento) do “Lo(u)cotório”, projecto de literacia em saúde mental, promovido pela ARTAC na Região Autónoma dos Açores.

Do conjunto das iniciativas previstas fazem parte três debates televisivos designados de Mental Talks, incidindo, exactamente, sobre a promoção da informação e literacia, combate ao estigma e de identificação de factores protectores, de risco e de estratégias de actuação (precoce e contingente) individuais, comunitárias e societais no âmbito da promoção e protecção da saúde mental e prevenção da doença mental.

Sob uma activa moderação do jornalista Rúben Medeiros, gravei ontem o primeiro destes três debates com o Daniel Rijo e com a Marta Bulhões. Neste “(Des)equilíbrios em Saúde Mental”, exploramos e reflectimos, com o enquadramento específico da realidade específica da RAAçores, os determinantes sociais de saúde/doença mental, qual a sua importância, como a literacia e o estigma impactam e por vezes determinam a saúde mental e a relevância das emoções, comportamentos e estilos e hábitos de vida na saúde mental. Apresentamos e discutimos, ainda, projectos e estratégias concretas e como podem as pessoas, as comunidades, as organizações da sociedade civil, os serviços públicos e as políticas públicas contribuir para mais oportunidades de saúde, bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas.

Fizemo-lo num debate “com tempo”, também motivado por uma interessante reportagem inicial onde participa o Nuno Pavão Nunes. Num primeiro de três debates, dizia, os seguintes dedicados a “(Des)construir a identificação e o tratamento da doença mental” e a “(Des)stressar e (con)viver com a ansiedade” e num contexto de um projecto cientificamente sólido – conta com a coordenação científica da Célia Maria Barreto Carvalho – e superiormente coordenado e produzido pela Sara Ponte e pelo Filipe Tavares, respectivamente, e em boa hora apoiado por um conjunto de entidades diversas, que inclui o @Governo Regional dos Açores, a RTP Açores, a Fundação Gaspar Frutuoso e a FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Um projecto com uma imagem forte, com qualidade, pertinência, seriedade e, creio, impacto. Um projecto a seguir, a continuar e com potencial de inspiração para a acção de outras pessoas e entidades, de outros territórios, nesta importante área.

Aqui e a vós voltarei quando, muito em breve, a RTP Açores transmitir o debate. Hoje agradeço à equipa o empenho, o convite que me fizeram e o facto de sentirem como potencialmente útil o meu contributo. Oxalá tenha correspondido.

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Chão pegajoso.

“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.

Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).

Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.

A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.

“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.

Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.

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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? (Ao redor…; 17.10.2023)

Sim, estamos. Absolutamente. E, creio, todos somos um pouco responsáveis por esta situação e temos um papel na sua potencial alteração.

Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Chegamos a este dia com os últimos dados consolidados a demonstrarem-nos que 1 milhão e 700 mil pessoas no nosso país vivem, mensalmente, com um valor de rendimento agregado inferior a 551€, valor praticamente idêntico ao preço, hoje, da mais actual consola Playstation, apenas ligeiramente superior a um sofá simples de médias dimensões, mas claramente inferior a alguns Smartphones. Estas famílias, estas pessoas, vivem em situação de pobreza e, necessariamente, com os seus direitos humanos e a sua possibilidade de bem-estar condicionados. Como diz a placa inaugurada na Praça dos Direitos Humanos e Liberdades, em Paris, aquando da primeira comemoração deste dia, em 1987, “onde homens e mulheres são condenados a viver na pobreza, os direitos humanos são violados…” Acrescento, e a justiça e coesão social e a confiança nas instituições, na democracia e nas outras e nos outros ameaçadas.

Este é, portanto, um dia que deve ser mobilizador de decisoras e decisores e um pouco de toda a sociedade civil para este desígnio, possível e, até, provável se, enquanto sociedade, nisso investirmos. Dia que devemos usar para advogar por uma melhor compreensão do fenómeno, estímulo para a mudança progressiva de determinados preconceitos e crenças a ele associados e, particularmente, para uma melhor informação das políticas públicas neste âmbito a partir da melhor evidência científica.

É que, mais que números e abstrações, é de pessoas, famílias, das suas vidas, histórias e experiências que falamos. Pessoas que vivem em todo o país, ainda que mais em determinados “nichos urbanos”, mas, sobretudo, em meios rurais e nas regiões autónomas. Famílias, muitas vezes, monoparentais ou com mais filhas e filhos. Pessoas em situação de isolamento e mais velhas. Pessoas com baixas qualificações e baixos níveis de escolaridade. São, ainda, pessoas em situação de desemprego. Mas, são, também, pessoas que trabalham e recebem salário. Quase uma em cada três pessoas que trabalham em Portugal não consegue, com o seu salário, sair da situação de pobreza ou contribuir para a retirada do seu agregado familiar de uma situação de pobreza.

Não apenas em Portugal, ter um emprego remunerado não é pois, por si só, suficiente para se não viver em situação de pobreza. O tema, em 2023, das comemorações do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza sublinha-o. “Trabalho digno e proteção social: Pôr a dignidade em prática para todos” vem reforçar a necessidade de políticas e de uma governação integrada para responder de forma estruturada e estrutural a um problema complexo, prevenindo tentações discursivas ou opções políticas simplistas, de medidas pontuais e/ou oportunistas, não integradas. São fundamentais políticas que incluam as dimensões do emprego, é certo, mas também as da educação, saúde, habitação, organização dos territórios e mobilidade ou acesso a desporto, cultura e outras oportunidades. Políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras.

Esta governação integrada é fundamental para quebrar os ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam. Aqui são essenciais políticas nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.

Infelizmente, em Portugal, parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável. Senão vejamos. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings. Temos, por isso, a não continuidade das intervenções em contextos onde o conhecimento da realidade e as relações são fundamentais, além, naturalmente, de muita rotatividade pela saída de profissionais quando têm outras oportunidades, condicionando a qualidade, o sucesso e a sustentabilidade da intervenção.

Mas mais. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, reitero, temos instituições, organizações, quando não apenas projectos, também eles com dificuldades estruturais. Por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade ou projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e de maior integração do conhecimento e da evidência científica nas mesmas.

Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação – que precisam de bases sólidas – têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito. Tempo fundamental, com outro ecossistema, à co-construção com as pessoas suas destinatárias das práticas, à efectivação de mudanças e sua avaliação, melhorando-as pela aproximação às necessidades e desejo das comunidades.

Hoje mesmo é apresentado o “Plano de Acção da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2022-2025” que, quando escrevo este artigo, não conheço ainda. A estratégia nacional de combate à pobreza “ganhou” coordenação neste dia em 2022 e ganha agora um plano de acção que comtemplará medidas já em curso. Uma excelente oportunidade para reforçar esta prioridade, a integração das políticas e, espero, garantir recursos e impulso para apoiar mudanças consistentes na realidade da intervenção social, das e dos profissionais e instituições, organizações e projectos. Reduzir a escassez a que estão expostas que tanto condiciona capacidades e impede a exploração das potencialidades.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível. A tal placa, inaugurada há 36 anos em Paris, também diz “…Unirmo-nos para garantir que esses direitos sejam respeitados é nosso dever solene.” É esse o tempo. Que o plano hoje apresentado seja motor disso e nos mobilize.

 

Tiago Pereira

Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

in Sábado (Ao redor…); 17.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/estamos-a-falhar-as-pessoas-em-situacao-de-maior-vulnerabilidade

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3 Semanas, 3 Dias

Ontem comemorou-se o Dia das Nações Unidas, dia que assinala o aniversário da entrada em vigor da Carta das Nações Unidas em 1945. “Nós, os povos das Nações Unidas decididos”, assim começa, para logo referir: “A promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”.

Sempre me interpelou este “conceito mais amplo de liberdade” no quadro de um Mundo profundamente diverso. De um Mundo profundamente desigual. Isso e a curiosidade deste Dia das Nações Unidas (24.10) se comemorar, exactamente, duas semanas após o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) e uma semana após o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10), quando os problemas de saúde mental e a pobreza (e exclusão a ela associada) condicionam de forma tão significativa a liberdade, o bem-estar e a coesão social.

Hoje, no evento “Diálogos sobre Pobreza – Saúde, pobreza e desigualdades”, organizado pela EAPN – European Anti Poverty Network (Bragança) darei um contributo sobre as interfaces entre a saúde mental e pobreza, pensando o contributo da ciência, da prática, da cidadania e das políticas públicas.

Faço-o após ter, no âmbito do I Fórum Intermunicipal para a promoção da Saúde Mental da Região do Vale do Homem (obrigado Sofia Pinto), discutido contributos potenciais da psicologia (enquanto ciência e prática) e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, através da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt), para a erradicação da pobreza e para melhorar a possibilidade de saúde e bem-estar de todas e todos.

Faço, também, após três outros contributos nestes temas que provêm no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza:

a) O artigo “Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?” (https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_estamos-a-falhar-%C3%A0s-pessoas-em-situa%C3%A7%C3%A3o-de-activity-7120308409584791552-1n4h?utm_source=share&utm_medium=member_desktop)

b) A participação no fórum da TSF (https://www.youtube.com/watch?v=cdnaUyJoH84)e), onde abordei o papel do plano de acção da estratégia nacional de combate à pobreza, a medida das/os “gestoras/es de caso” e a necessidade de reforço, capacitação e empoderamento das organizações/instituições sociais;

c) E na Antena Aberta da Antena 1 (https://www.youtube.com/watch?v=ibUgO6pcISc), onde discuti o quão determinante será fazer do combate à pobreza desígnio nacional para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e equidade no Sistema Educativo e como a ciência deve informar mais as políticas e práticas nesta área, particularmente no que toca à pobreza infantil.

A psicologia pode, efectivamente, contribuir para a mudança, para a transformação e para promover “o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”, para todas e todos.

Nisso, contam sempre comigo. Contam sempre connosco.

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A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições”.

 

Escrevi-o há 11 meses. Parte de um artigo intitulado “Menina-Rapariga-Mulher” que partilho, naturalmente, mas infelizmente, actual ontem, hoje e, certamente, num futuro próximo mas espero não, num futuro necessariamente menos próximo.

 

Para tal, e para que tal aconteça rapidamente, iniciativas como as promovidas pelo cluster “Igualdade de Género” da @Grace – Empresas Responsáveis, liderado pela @Margarida Couto e pela @Susana Almeida Lopes, são fundamentais. Agradeço-lhes, juntamente com a @Mariana Silva, o convite, o cuidado e o facto de me confiarem espaço de contributo neste assunto tão fundamental, desta vez no evento do passado dia 28 de Setembro, organizado pelo cluster com o título “A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?”.

Conforme me foi solicitado, reflecti a partir do tema (“Os enviesamentos inconscientes, dados atuais e tendências”), discutindo contributos da ciência e da prática psicológica para, nesta matéria, melhor se compreender o impacto de heurísticas e vieses e as condições de mudança individual, organizacional e societal, nomeadamente os obstáculos e estímulos que se lhes colocam. Mais, discuti a importância de introduzir mais ciência nas práticas, prevenindo os efeitos do placebo e nocebo nesta área, e o papel da comunicação efectiva, da eficiência de processos, da co-construção da decisão e avaliação e no papel das tecnologias e ferramentas de apoio na promoção da igualdade de género nas organizações. Terminei sublinhando o papel fundamental da promoção do bem-estar e da segurança psicológica de todas e todos neste caminho.

Um contributo que se seguiu a um outro, exactamente focado no bem-estar. Falo do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado pela Margarida Couto e Susana Almeida Lopes, e cuja leitura recomendo, também pelas práticas que reúne e que podem estimular e inspirar pessoas e organizações face a este desígnio e justa (legitima e possível) aspiração.

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A 21 de Outubro de 1879, Thomas Edison apresentou, formalmente, o pedido de patente para um projecto – a lâmpada incandescente – que viria a transformar a vida das pessoas. Creio-o um momento simbólico e creio-o, particularmente, num momento em que algum obscurantismo parece querer, metaforicamente, um regresso a alguma penumbra.

Num momento em que por cá e um pouco por todo o Mundo a saúde, particularmente a saúde mental, e o bem-estar são desafiados (veja-se as administrações hospitalares do Reino Unido a classificarem a “saúde mental como uma emergência nacional”), dados e informação científica sobre esta área, particularmente nas/os jovens (onde os desafios são muito significativos) é, julgo, como que uma “patente para uma lâmpada incandescente”, 144 anos depois.

É, também por isso, que venho partilhar o Ebook “Saúde Mental dos Jovens”. Coordenado pela Tania Gaspar, pelo Fábio Botelho Guedes e pelas Ana Cerqueira e Margarida Gaspar de Matos, resulta de um estudo colaborativo da World Health Organization sobre o bem-estar de adolescentes (6º, 8º, 10º e 12º anos), envolvendo 51 países e promovido em Portugal pela Aventura Social – Associação, com colaboração de um conjunto de entidades, incluindo a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Os seus resultados sublinham o agravamento dos problemas de saúde mental e bem-estar, nomeadamente no que se refere às preocupações, relações interpessoais e expectativas futuras. Procuram detalhar e discutir as causas (e consequências), para melhor informar políticas públicas.

Conta com um capítulo (“Estatuto socioeconómico, saúde mental e bem-estar em adolescentes em contexto de pandemia”; página 45-67) para o qual contribui com as/os autoras/es e a que se juntaram, ainda, a Marta Barata e a Sofia Sousa. Artigo que analisa, especificamente, o impacto da condição sócio-económica na saúde mental e bem-estar, que surgem penalizados em populações com os mais baixos níveis, procurando, também, apresentar e reflectir outras variáveis que os condicionam, mais uma vez, para melhor informação às políticas públicas, numa matéria particularmente sensível.

Perguntava a Margarida Gaspar de Matos na sessão de apresentação o que podemos fazer para que esta informação chegue mais e com maior impacto a decisoras/es. Três curtas sugestões, tornar e manter “salientes” os determinantes sociais da saúde, bem-estar e sucesso educativo. Envolver todo o ecossistema no processo de investigação e acção. E, particularmente, reforçar um esforço e empenho conjunto de promoção da confiança, que permita mais possibilidade, quando justificada, de mudança e mais envolvimento e compromisso na mesma de todos. Todos.

Muito obrigado por este trabalho. Muito obrigado por terem procurado o meu contributo e por me darem esta oportunidade.

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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

“Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? Sim, estamos. Absolutamente.”

Assim começa o 68º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) publicado ontem, Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Nele reflicto sobre a necessidade de “políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras” de combate à pobreza e de uma governação integrada capaz de “quebrar ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam”. Políticas, portanto, “nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.”

Porém, em Portugal, “parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável.”

“Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings (…) Temos instituições e organizações, por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade/projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e maior integração do conhecimento e da evidência científica.”

“Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito.”

“Falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível.”