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The Global Community Foundation Leaders Summit

Há uma semana viajava de autocarro entre capitais europeias numa mesma ilha, mudando de país (sem fronteira física) e saindo da UE. Pouco depois perguntava (quando visitávamos os Muros da Paz): “estes portões ainda se fecham?” – “Sim, fecham à noite”, responderam-me.

Em Belfast pude testemunhar como uma Fundação Comunitária (Community Foundation Northern Ireland) teve e tem um papel determinante no que de mais importante existe: a paz e o caminho de construção de diálogo e coesão social nas comunidades, mesmo numa sociedade (ainda) com fortes tensões políticas/religiosas.

Lá estava, integrado num grupo de 32 líderes de Fundações Comunitárias de todo o Mundo (EUA, UK, Irlanda, Canadá, Alemanha, Itália, Palestina, Espanha, Hungria, Roménia, …), umas mais recentes (a nossa Fundação Mendes Gonçalves), outras não tanto (incluindo a primeira de todas – Cleveland Foundation | 1914), reunidas pela Community Foundation Ireland para 4 dias de intenso trabalho e uma honesta e segura discussão sobre temas/desafios partilhados globalmente.

“Communities everywhere are facing complexities and challenges”, disse Denise Charlton a abrir (aproveito para agradecer o convite e a oportunidade de me e nos integrar em tão importante momento, grupo de líderes e organização – Jerry O’Connor e Isabel Pergande), tal qual diria mais tarde Kathrin Dombrowski (a quem também agradeço).

É assim, como sabemos e concretamente testemunhamos, entre sessões de trabalho e visitas a organizações em Dublin e Belfast e em temas como a paz e a coesão social; as comunidades e lideranças; o clima, a natureza e a resiliência; a democracia e o desenvolvimento; ou a inteligência artificial, a tecnologia e a (des)informação. Da Golegã a Toronto, de Messina a Bucareste, de Dublin a Pecs, de Nova Iorque à Palestina, de uma pequena ilha Canadiana a Essex.

Ainda que com impactos e em fases diferentes em cada contexto, vivemos tempos desafiantes, incertos e de desconfiança, onde a filantropia comunitária (de proximidade), a coragem e o dever da esperança que ali partilhamos são fatores protetores e base do que as comunidades (e a confiança e coesão que nelas podem ser desenvolvidas) de melhor têm para florescerem nestes tempos e garantirem possibilidades de bem-estar (e futuro) para todos.

Venho do “The Global Community Foundation Leaders Summit” com a ideia reforçada do quão privilegiado sou e somos mas, também, comprometido com o fazer bem com a nossa equipa e órgãos e, humildemente, contribuir(mos) para o ecossistema das Fundações Comunitárias em Portugal e no Mundo.

Caroline Taylor Rob Williamson OBE DL Tonia Wellons Kyra van Hoof Nour NusseibehRichard Williams Justin Sargent OBE Giacomo Pinaffo Rüdiger Ratsch-Heitmann Susanne Hauswaldt Sharon Avery Andrea Dicks, ICD.D Roisin Wood Alina Kasprovschi Paul Buchanan MBE Ulrike Reichart Emma de Closset Steph Taylor Danielle Gibbie Michelle Prater Cristina González Alcalá, PhD Helen Wray Martin O’Brien Aleix Pujol Puigmal Jan Despiegelaere

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Ainda a confiança…

Uma equipa multidisciplinar é reunida para procurar soluções para as pragas constantes de percevejos nas habitações de um bairro em Lowell, Massachusetts (USA). Na equipa surge uma proposta: disponibilizar aos moradores capas de colchão seladas. Proposta sensata, pensamos… Porém, também na equipa, alguém sugere que se converse sobre este problema com os moradores. É dessas conversas (focus groups) que se conclui que na maioria das casas não existem (sequer) os colchões que seriam protegidos pelas capas seladas.
Um de inúmeros exemplos que poderia partilhar de como soluções incríveis, se não contextualizadas e personalizadas, são ineficazes ou, pelo menos, ineficientes e que trago a partir de um texto que abaixo partilho. Texto que reflete sobre como a ciência psicológica deve assumir outro envolvimento com o “público” (contextos e pessoas a que se destina) para obter confiança e legitimidade, bases fundamentais de uma ciência com um contributo determinante em períodos de desafio ou crise significativos (pessoais ou sociais), onde muitas vezes a confiança se encontra mais seriamente ameaçada.
E é exatamente sobre ela, neste momento em que movimentos sociais e políticos a procuram fragilizar, intuindo os “ganhos” que para si que daí resultam (fingindo ignorar o mal pessoal e social que resulta da quebra da confiança e da coesão social), que gostava de partilhar duas ideias que penso, paradoxalmente, simples e poderosas:
a) Tal como as soluções maravilhosas só funcionam (maravilhosamente) se adaptadas aos contextos e públicos, também só podem ser eficazes se os contextos e públicos confiarem nelas e nas pessoas/organizações/entidades que as implementam. Daqui sucessivamente resulta que construir confiança é fundamental para a intervenção social e para apoiar a mudança no sentido de mais oportunidades de bem-estar e autodeterminação para todos;
b) Que todos – todos – temos um papel pessoal (e profissional) neste processo. Todos inclui a própria economia social que, não raras vezes, também a partir dos incentivos do próprio sistema (incluindo do Estado) que a financia e dos apoios que recebe (incluindo das Fundações) é ela própria, também paradoxalmente, organizada em torno da desconfiança e pouco promotora de confiança. É certo que existem (talvez mais hoje que ontem) exemplos em que assim não é como os que o Ricardo Garcia aponta no excelente texto que também partilho, mas são ainda assim a excepção.
O André Barata – excelente, sempre – escrevia este fim de semana que “a vida não se faz escassa quando nos dispomos a vivê-la. Passamos tanto tempo a pensar que viver é conquistar e não deixar escapar. E depois basta um dia de praia para o corpo descobrir que viver não é ganhar a vida. Ela está aí”.
É, não é? E é assim com a desconfiança… Passamos tanto tempo dedicados a ela que nos esquecemos do bom que é confiar, não é?
Até porque, conforme a desconfiança gera desconfiança, a confiança gera confiança. Construamo-la. Pelo futuro de todos.
……..
. “Publicly Engaged Science” | @Zara Abrams | @AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION |  http://resources.magappzine.com/feeds/production/comboapp/2335/media/262502/17e216f4-47dc-4f27-97b1-246cf10be01a.html
. “Financiar a confiança: o que o caso de MacKenzie Scott nos deve fazer pensar” | @Ricardo Garcia | @SAPO | https://sapo.pt/artigo/financiar-a-confianca-o-que-o-caso-de-mackenzie-scott-nos-deve-fazer-pensar-6a677580fb226a497b8f6b9e
. “Sobrar” | André Barata | @PÚBLICO | https://www.publico.pt/2026/08/21/culturaipsilon/opiniao/sobrar-2185314
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A IA: uma certeza, uma inquietação

Tenho para mim que não devemos ignorar a complexidade. Antes a devemos assumir, pensar, talvez “navegar”. Penso-o a propósito de um contributo enquanto “júri” do Big Impact 26, organizado pela imatch • amplifying innovation e de desse dia ter trazido uma certeza e uma inquietação.

Primeiro a certeza. Que há uma geração de empreendedoras/es com ambição, rigor e vontade genuína de contribuir para desafios societais e para a resolução de problemas que impactam a possibilidade de bem-estar. Assisti à apresentação de 11 ideias e projetos sólidos (listagem em comentário), bem pensados, com potencial de impacto concreto e, onde, a ancoragem à tecnologia e, especialmente, à inteligência artificial (IA) e ao que hoje (e amanhã) permite (e permitirá) foi evidente.

Depois a inquietação. A IA está, portanto, a abrir possibilidades com potencial incrível, mas… E o mas vem, mesmo e também, dessa sua omnipresença nos projetos: O que nos cabe e caberá a nós?

Diria, o fundamental. As competências base. A leitura, a escrita, o raciocínio, a atenção e concentração, o pensamento crítico. A capacidade de avaliar, duvidar, de decidir. E os valores… E a criação de comunidade e, com ela, de suporte social. Porque o Mundo será certamente muito diferente se usarmos a IA a partir de uma base sólida de conhecimento, valores e de capacidade de juízo, decisão e crítica face a, no limite, dependermos dela exatamente por não termos essas bases.

E aqui há sinais que nos devem (pre)ocupar. Um extraordinário recente texto do The Economist (ver nos comentários) reflete sobre como estão hoje as/os alunas/os dos “países ricos” a chegar ao ensino superior sem mínimas competências básicas de numeracia e literacia. Em média, 8% das/os estudantes de ensino superior dos países da OECD – OCDE não chegam hoje a valores esperados nestas áreas em crianças de 10 anos (em alguns países são 10, 15, 20% das/os alunas/os – ver gráficos abaixo). Isto enquanto a IA “generativa” é quase plenamente utilizada mas tende a agravar o problema quando substitui o compromisso, em vez de o potenciar. Diz mesmo o artigo que a IA “induz resignação” e isso (…) já “não é pragmatismo; é rendição”.

É aqui que se cruzam, para mim, as duas realidades. Quanto mais poderosa e de maior potencial for a IA, mais decisivo se torna investir no que nos torna capazes de a utilizar, com racionalidade, discernimento e a partir de uma ideia de bem, de bem-comum. E isso deve começar muito cedo.

Também por isso, na Fundação Mendes Gonçalves temos insistido na necessidade de trazer mais investimento e mais acesso e qualidade para a educação no período 0-10 anos. É aqui a base. É aqui que podemos desenvolver “as bases”. É aqui que, com maior eficácia, podemos promover equidade e o desenvolvimento de todos.

O futuro construir-se-á certamente com IA. Mas construir-se-á, antes de tudo, com pessoas capazes de o imaginar. E isso — esse tal fundamental — não é delegável e nele devemos investir. Verdadeiramente desde o início.

 

Comentários:

Aqui partilho link para artigo mencionado no texto: “Students are doing worse than you think  Some at college or university are testing no better than ten-year-olds“| https://www.economist.com/international/2026/06/25/students-are-doing-worse-than-you-think
E, aqui, a listagem das 11 startups e projetos finalistas: @Mena.ai, @ConnecTee – Education, @Gripwise, @Trash4Goods, @Simpl.care, @Curya, @Parlensky by McMinsky, @Telos Care, @Equivalence, @Tacitum e @GreenDash. Uma palavra especial de encorajamento à @Telos Care, vencedora do pilot grant atribuído.
E, finalmente, um especial agradecimento à @imatch, e em particular ao @André Costa, pela organização e pela confiança no convite. À @Siemens Portugal e à @Sofia Tenreiro, pela forma como nos receberam. Aos colegas de júri, parceiros e investidores com quem, também, foi um gosto partilhar a tarde e os debates e comentários: @Helio Jonathan Jesus, @Alisson Avila, @Casa do Impacto, @Gaspar João, @Pedro Cortez, @Carlos Alves, @Paulo Dias. E ao @Tomás Archer de Carvalho, que tão bem dinamizou e geriu a sessão.
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Comportamento FMG Fundação Mendes Gonçalves

O espaço das refeições é um educador silencioso

Creio que o sabemos mas importa que o lembremos: cada refeição na primeira infância é muito mais importante que o mero cumprir de uma necessidade (biológica). É um espaço, tempo e momento de relação, com os alimentos, com as pessoas e com o que rodeia os bebés e as crianças, que pode, verdadeiramente, nutrir – ou não – o futuro dessa criança e da sua comunidade.

Na Fundação Mendes Gonçalves e no nosso Programa Nutrir, assumimos a “nutrição saudável como um bem público”. Assumimos que uma nutrição saudável não promove apenas a saúde da população, mas também a equidade e a justiça social, e promove a economia e a sustentabilidade ambiental.

Trabalhamos estes temas de diversas formas. Desde logo, pensando a importância dos espaços de alimentação na primeira infância em ambiente escolar e “familiar” com o projeto “Ambientes que Nutrem”. Nele reforçamos que não basta “pensar no que se coloca no prato”; é preciso pensar o ambiente físico, o tempo disponível, quem está presente, como se comunica e como se organizam as refeições.

Para tal desenvolvemos 3 recursos que queremos que sejam ferramentas de ação para famílias, profissionais de educação e saúde e decisores (políticos):

. Documento “Ambientes que Nutrem”;

. Flyer de sensibilização para famílias/profissionais;

. Policy brief dirigido a quem define políticas públicas e prioridades de investimento.

Simultaneamente realizamos ações dirigidas a creches e JI, na nossa região e no concelho de Lisboa, um evento de sensibilização e temos procurado estimular o debate público com participações em eventos e comunicação social (ex: https://observador.pt/2026/03/09/falta-de-regras-para-alimentacao-nas-creches-compromete-desenvolvimento-das-criancas/).

Tudo também a procurar evidenciar que tendemos a subestimamos a influência que realmente temos. Um/a educadora que organiza o espaço da sala e de refeição, um/a cozinheiro/a, um/a autarca que decide sobre um espaço de refeitório ou sobre as refeições escolares, um pai, mãe ou cuidador/a que cria uma rotina à mesa… Todos têm frequentemente mais poder do que imaginam para tornar os ambientes de alimentação mais nutritivos e a nutrição mais saudável, no sentido mais amplo das palavras.

É essa a verdadeira ambição do “Ambientes que Nutrem”: reunir e disponibilizar evidência científica, transferi-la para instrumentos de literacia, advocacia e informação das políticas públicas, garantir ferramentas objetivas e práticas para que cada pessoa, a partir dos seus papéis, possa usar melhor a influência que já tem – na creche, JI ou escola, em casa ou na comunidade – para cuidar melhor da alimentação na primeira infância.

Lembrando finalmente que “o espaço das refeições é um educador silencioso: Que a maneira como organizamos os refeitórios e as mesas de alimentação em casa também ensinam o que é comer, em grupo e família, e o que é partilhar e cuidar.”

……

Programa Nutrir (Nota Conceptual) | @Fundação Mendes Gonçalves | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/07/NC-002-FNU-Nota-Conceptual-Nutrir_Funda‡AEoMendesGon‡alves-0_VF_CAPA.pdf

Ambientes que Nutrem | @Fundação Mendes Gonçalves | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/12/AmbientesQueNutrem.pdf

Ambientes que Nutrem [Policy Brief] | @Fundação Mendes Gonçalves | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2026/02/Policy-Brief-Ambientes-Que-Nutrem.pdf?eg_sub=3c14571f94&eg_cam=0253a7f3c60ca4c4228148170ae7a4b0&eg_list=14

Ambientes que Nutrem [Flyer Literacia] | @Fundação Mendes Gonçalves | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2026/02/Flyer-Ambientes-Que-Nutrem.pdf?eg_sub=3c14571f94&eg_cam=0253a7f3c60ca4c4228148170ae7a4b0&eg_list=14

…..

. No Need to Shout: Recognizing the Influence That’s Already Yours | @Vanessa Bohns | https://behavioralscientist.org/no-need-to-shout-recognizing-the-influence-thats-already-yours/

. Evento de Sensibilização – Cuidar da Primeira Infância | https://www.instagram.com/reel/DVRK3iigDIK/ |

. Fundação Mendes Gonçalves alerta para risco na alimentação das creches | @Lusa |https://noticiasdosorraia.sapo.pt/fundacao-mendes-goncalves-alerta-para-risco-na-alimentacao-das-creches/

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Comportamento Emergência Climática Fundação Mendes Gonçalves

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?

“Porque caem tantas árvores durante as tempestades?”, interpela-nos Helena Freitas, num título de um texto que escreveu a propósito de “nos últimos anos Portugal [ter] assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas”, referindo-se – também – aos papel do solo. “Um dos fatores críticos [para tal] é o estado do solo [em Portugal]. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades”, escreve.

Este é momento para todos nos associamos à dor da perda e ao sofrimento do conjunto de pessoas impactadas pela forte tempestade da última semana e pelas condições meteorológicas dos últimos (e, eventualmente, próximos) dias e suas terríveis consequências.

Sendo-o, é fundamental, diria até por respeito a este sofrimento, que não saltemos deste fenómeno para um outro futuro sem espaço de reflexão na sociedade civil e decisoras/es sobre o que podemos fazer para prevenirmos, na medida do possível, e estarmos mais preparados e resilientes para enfrentarmos, enquanto comunidade e país, este tipo de fenómenos climatéricos, que infelizmente tudo indica tenderão a ser mais intensos e frequentes.

Também em texto de opinião, Pedro Adão e Silva refere que a Agência Europeia do Ambiente estima que, desde 2000, Portugal tenha perdas anuais de cerca de 630 milhões de euros (acima da média europeia) derivadas de fenómenos climáticos extremos (incêndios, inundações, tempestades). Podemos e devemos portanto perguntar-nos sobre o que podemos fazer e mobilizarmo-nos nesse sentido. Um caminho possível? Pensarmos o solo e internacionalizarmos os objetivos da nova directiva europeia que, desde Novembro, insta os países membros a monitorizarem os seus solos e promoverem um conjunto de ações no sentido de os tornar mais saudáveis e resilientes como factor-chave para a segurança alimentar, qualidade da água e ambiente. Acrescento, para a prevenção e resiliência face a fenómenos climatéricos extremos.

Este (novo) olhar para o solo, para a sua actual degradação e para a sua (potencial) regeneração, tem tanto de fundamental quanto de possível e desejável.

Como Thomas Oudman e Charles Mann referem, “pensando as práticas ancestrais” e, com ciência, trazendo-as para a contemporaneidade a partir de “culturas que previnam a desertificação e poluição e promovam a biodiversidade, trabalhando com a natureza e não contra a natureza.”

Como, na Fundação Mendes Gonçalves procuramos contribuir, a partir do programa Regenerar, para maior investigação e conhecimento, literacia, advocacia e para estimular mudanças de práticas para solos mais saudáveis e resilientes.

 

Para leituras aprofundadas e/ou complementares:

. Helena Freitas | Porque caem tantas árvores durante as tempestades? | https://www.linkedin.com/posts/hfreitas_porque-caem-tantas-árvores-durante-as-tempestades-activity-7422962653251371008-QX3A/?originalSubdomain=pt

. Pedro Adão e Silva | As tempestades, a Kristin e a aprendizagem coletiva | https://www.publico.pt/2026/02/01/opiniao/opiniao/tempestades-kristin-aprendizagem-coletiva-2163188

. Directive (EU) 2025/2360 of the European Parliament and of the Council of 12 November 2025 on soil monitoring and resilience (Soil Monitoring Law) | https://eur-lex.europa.eu/eli/dir/2025/2360/oj/eng

. Thomas Oudman e Charles Mann | The future of agriculture lies in the past | https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past

. Fundação Mendes Gonçalves | Nota Conceptual – Programa Regenerar | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/07/NC-003-FRE-Nota-Conceptual-Regenerar_Funda‡AEoMendesGon‡alves-0_VF_CAPA.pdf

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Comportamento Desafios da Psicologia Fundação Mendes Gonçalves

Voracidade…

Por estes dias pudemos confirmar a actual voracidade do tempo e da comunicação no espaço público… nos últimos 4 ou 5 dias, ainda as Autárquicas, as Presidenciais, as Leis dos “Estrangeiros” e Nacionalidade, o relatório do trágico acidente do Elevador da Glória, o debate sobre a proposta de projecto de Lei sobre as “roupas destinadas a ocultar ou a obstaculizar a exibição do rosto”, os julgamentos e crimes bastante mediatizados, os conflitos armados Mundo fora, etc, etc.

Tudo isto e a perda de Francisco Pinto Balsemão (e agora mesmo de Laborinho Lúcio), verdadeiros democratas, conforme tantas e tantos não se têm cansado e não se cansarão de, bem, sublinhar. O primeiro, aliás como o segundo, “dono” de um “projeto de sociedade, que nunca abandonou”, conforme Clara Ferreira Alves anotou. “Uma sociedade livre e civilista, sem tutelas militares ou policiais ou autocráticas. A sociedade civil era o sonho que ele ajudou a tornar realidade.”

É. Mesmo que nem todas as pessoas concordem com tudo (como poderia ser de outra forma?), assistimos nas últimas horas ao reconhecimento do legado de uma figura ímpar da democracia e liberdade. Uma pessoa que sempre lutou por uma sociedade civil, livre, civilista e empoderada. Atenta e com agência face aos problemas e às dificuldades que se colocam a nós próprios mas, também e particularmente, às outras e outros, particularmente às e aos com maiores vulnerabilidades. Uma sociedade civil, livre, civilista e participativa. Capaz de identificar e debater as necessidades e expectativas e de co-construir e implementar potenciais soluções que melhoram a vida das pessoas e das comunidades.

Um exemplo? O tenho “Voto na Matéria”, promovido pela UNICEF e cuja

edição de 2025 (https://lnkd.in/dUb5qxHe) demonstra que as “preocupações das crianças e jovens estão a mudar” e que a “pobreza e o custo de vida estão, pela primeira vez, entre as maiores preocupações de crianças e jovens, a par da saúde mental, discriminação e segurança digital”. Ora, não fora a voracidade deste nosso tempo e, talvez, ainda estivéssemos a viver ecos das “comemorações” próximas do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) e o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (17.10).

Entendo e entendemos que parte do meu e nosso, Fundação Mendes Gonçalves, contributo é, junto da nossa comunidade e do nosso país, contribuir(mos) para estes temas também a partir do empoderamento e participação das pessoas e da sociedade civil. Partilho duas participações enquadradas nesse objectivo: a) um trabalho publicado no dia 10.10.2025 no Jornal Notícias de Ourém sobre Saúde Mental; b) A participação num evento, promovido anteontem pela Just a Change que tratou a (in)dignidade habitacional e, no caso da minha mesa, a sua relação com a saúde mental.

Temas fundamentais e preocupações “reais”, infelizmente por vezes secundados pela “voracidade” do tempo. Temas fundamentais à tal “sociedade livre e civilista”, de oportunidades para todas e todos puderem florescer e cumprir-se.

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Comportamento Democracia Filantropia Fundação Mendes Gonçalves Política

12.06.2012, gestão do bem-comum e inovação social

Recuemos ao dia 12 de Junho de 2012. Comemorava-se mais um Dia Nacional da Rússia e centenas, senão milhares, de adeptos da Rússia marcharam em comemoração deste dia em plena capital da Polónia, situação que resultou em confrontos com adeptos da Polónia. Mais tarde jogar-se-ia um Polónia-Rússia do Europeu de Futebol de 2012 e, mais uma vez, o o futebol cruzava-se com tensões políticas históricas e com desafios societais complexos. Também neste dia o Mundo perdia Elinor Ostrom.

Elinor Ostrom, além de ter sido a primeira mulher a receber o prémio Nobel da Economia (em 2009, a par de Oliver Williamson), estudou e reflectiu durante décadas sobre a gestão do bem-comum (ou dos bens comuns). No seu discurso de aceitação desse Nobel – intitulado “Beyond Markets and States: Polycentric Governance of Complex Economic Systems” [Para além dos Mercados e do Estado: Governança Policêntrica de Sistemas Económicos Complexos] e cuja leitura muito aconselho – sublinha a necessidade de desenvolvermos abordagens colaborativas e baseadas na inovação para a resolução dos desafios mais complexos, defendendo que a gestão eficaz dos recursos comuns e a resposta a problemas sociais complexos exigem sistemas de governo policêntricos, com diferentes camadas de tomada de decisão que envolvam diferentes pessoas e as comunidades locais e organizações não governamentais a par dos governos.

Partilho-o a propósito de uma reflexão que considero muito relevante e que li, em artigo no Público da autoria da Sofia Lai Amândio e Jürgen Howaldt e cuja leitura também aconselho, intitulado: “Vinte anos de políticas de inovação social na Europa em risco” (https://lnkd.in/d8mEqBEz).

Artigo que, fazendo uma resenha histórica do caminho percorrido nos últimos anos na área da inovação social na União Europeia, reflecte sobre os riscos de regredirmos nos estímulos e suporte conferidos à co-criação e à participação mais ampla na reflexão e desenho de respostas para os desafios societais complexos que vivemos: “A experiência dos últimos 20 anos prova que a inovação social não é acessória. É indispensável para enfrentar desafios societais, fomentar coesão e abrir caminho a um futuro sustentável.”

Enfrentar desafios societais, fomentar coesão e abrir caminho a um futuro mais sustentável com co-criação, inovação social e com modelos policêntricos de gestão e preservação do bem-comum.

Que não desistamos… Pelo presente. Pelo futuro de todos.

Ps. O Polónia-Rússia desse dia terminou 1-1.

Ps2. Nesse Europeu, co-organizado pela Polónia e Ucrânia, Portugal foi eliminado nas meias-finais, em grandes penalidades, pela Espanha (que o venceria). Esse jogo aconteceu na cidade de Donetsk, num estádio que, tendo sido inaugurado em 2009, desde 2014 não recebe qualquer jogo, em resultado de uma Guerra com já mais de uma década que nos últimos 3 anos e meio se agudizou e tomou proporções que em 2012 dificilmente se imaginariam.

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Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global

Ainda a propósito da minha última partilha que começava com 2 bebés que terão hoje 4 dias, volto com outro recurso que complementa – porque amplifica a outros desafios societais – o texto da passada 2ªF que se referia principalmente à desigualdade/iniquidade.

Falo de uma publicação que parte da colaboração entre a American Psychological Association e as United Nations, da responsabilidade de Odile Frank intitulada: “Psychological aspects of multilateral social development policy and the global development agenda” [Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global] | https://www.apa.org/international/united-nations/social-development-policy.pdf

Documento que parte da identificação de 3 dimensões psicológicas importante ao momento actual de progresso (ou da ausência de progresso ou mesmo do retrocesso) em vertentes da agenda global de desenvolvimento:

. O impacto da pobreza e exclusão no bem-estar e o que podemos fazer para o prevenir;

. A compartamentalização de disciplinas científicas (quando os desafios societais complexos carecem de abordagens interdisciplinares) e a centração em ideias (por vezes preconceitos) e modelos conceptuais de intervenção que nem sempre são os mais custo-eficazes, condicionando o progresso;

. A nível global as tensões mais hedoinistas de maximização e, consequente, concentração da riqueza e algum desequilibrar da balança para mais empatia que altruísmo – a empatia é importantíssima, não me entendam mal, mas, por si só, insuficiente à mudança.

Convido, pois, à sua leitura e a reflectirmos sobre:

. Como pode o desenho de políticas atender mais significativamente às questões sociais, valorizando o impacto nas pessoas e comunidades das necessárias decisões de base económica;

. Como podemos co-construir e desenvolver de forma eficaz e ampla a segurança económica de todos, a partir de redes de proteção mais inclusivas;

. Como podemos renovar e actualizar os princípios de solidariedade entre pessoas, comunidades e gerações, a partir do fortalecimento dos laços e da coesão social e intergeracional e da confiança nas instituições, visando sociedades e um Mundo mais resiliente e com futuro.

É difícil? Certamente.

Os temos ajudam? Nem por isso…

Mas ignorar que o necessitamos de fazer enfraquecerá, sempre e mais ainda, as instituições e a agenda de desenvolvimento global, com repercussões que imagino duras e que historicamente conhecemos com o sofrimento e sacrifício de muitas pessoas. Já fazer destes desafios desígnio, pode dar-nos um propósito, primeiro individual, depois de comunidade e, finalmente, global que estimule uma sociedade mais justa, equitativa e melhor equipada para o presente e futuro.

Farei por isso. Faremos por isso.

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2 bebés. 2 Mundos.

Hoje nascerão certamente dois bebés, sem problemas de saúde, cuja família vive em Birmingham. Espera-se, no entanto, que daqui a 5 anos um deles possa ter mais de 4 meses de atraso em termos desenvolvimentais e 4 a 5 vezes mais probabilidade de desenvolver um problema de saúde mental que o outro. A diferença? Um destes bebés nascerá em contexto de pobreza e o outro não. Hoje (2025!), nada mudando, é o que os espera no Reino Unido (UK).

A desigualdade é, certamente, uma das causas maiores das camadas de ressentimento, desconfiança e desesperança que pairam sobre um UK que, pós-Brexit, parece caminhar para que Nigel Farage, um dos seus mais radicais e sinistros obreiros – porque optou por declaradamente ludibriar, se não mentir, aquando da campanha do referendo – possa vir a ser o seu primeiro-ministro.

Nessa Birmingham, na convenção do Reform UK (o seu partido de direita populista/radical, já líder na maioria das sondagens), Farage anunciou a adesão ao partido de Nadine Dorries, ex-ministra da cultura de Boris Johnson e outrora sua grande apoiante que defende hoje que Partido Conservador está “morto” e que só Farage pode “mudar o UK”.

Infelizmente conhecemos cada vez melhor esta proposta de mudança que “varre” a Europa e as Américas do Norte e do Sul e como se foca em políticas de curto prazo, de questionamento de direitos humanos que muitas/os consideramos universais e de fragilização das instituições democráticas e da política baseada em factos e evidência (científica).

Ora, as desigualdades que atrás menciono persistirão se nada de significativo for feito para prevenir a exposição de bebés e crianças a situações de pobreza e exclusão e, particularmente, para os que nascem em alguns contextos considerando que os valores e princípios destas políticas ao invés de os protegeram, tendem a vulnerabilizá-los mais, com graves consequências para o seu desenvolvimento e possibilidade de bem-estar futuros e para o contrato e coesão social.

O “Child Poverty Action Group” publicou este ano o relatório “Building Blocks – How to deliver a child poverty strategy” cuja leitura recomendo. Dele, com o meu viés, destaco:

. A importância de definir metas/objectivos e serem publicamente assumidos;

. Uma reforma dos diversos apoios sociais informada pela ciência;

. Expandir refeições escolares gratuitas, habitação social e creches (de qualidade);

. Garantir responsabilização através de uma monitorização independente dos resultados das políticas;

. E, finalmente, investir nos primeiros 1000 dias de vida, quando comprovadamente as políticas de equidade têm maior impacto e custo-efectividade, se perspectivadas a médio/longo prazo.

Vamos a isso?

Ps. O presente texto poderia ser totalmente sobre Portugal se alterando – apenas – a menção a uma cidade, o nome de um partido, do seu líder, de um/a sua/seu apoiante e de alguns (poucos) números.

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Nuno Portas, tolerância, liberdade, ternura

“Camila Sosa Villada, escritora, actriz, travesti”, escreveu Isabel Lucas em Abril deste ano para titular a sua entrevista para o Ipsilon (Público) a Camila Villada acentuado, a seguir, uma frase sua: “Cada dia era o último dia”.

Este “cada dia era o último dia” é uma descrição de Camila do que refere ser o facto das pessoas travestis estarem, a cada dia, perante um abismo. Escreve-o e descreve-o, com profundidade e intensidade, no seu primeiro livro – “As Malditas”.

História em parte autobiográfica, que acabo de ler num momento particularmente sensível do nosso país onde a intolerância, a reacção hostil ao diverso e a invisibilidade parecem cavalgar um território não imune ao ressentimento, onde a vergonha (de insultar, inventar, mentir, lubridiar e de assumir publicamente os instintos mais básicos) parece ter desaparecido e extremamente permeável aos discursos e narrativas simplistas e de facção (nós vs. outras/os) e à balada da (des)informação das redes sociais.

Que acabo de ler, também, no momento do desaparecimento de Nuno Portas, figura e pessoa maior de um tempo que, em parte, pude viver e de um tempo em que benefício significativamente do seu trabalho, pensamento e, por vezes abnegação. Seu e de seus companheiros de tempo, mesmo quando uns e outras/os, naturalmente, não concordavam em tudo.

Também no Público na homenagem de Paulo Portas (e da família) ao Pai leio: “o nosso Pai [Nuno Portas] viveu a vida que quis viver e não me lembro de o ouvir falar pelos outros, ou por nós. É um homem inteiramente livre e ensinou-nos a viver apenas como a nossa liberdade determinasse. Numa família tão plural, essa lição de tolerância e ternura está guardada nos nossos corações.”

De tolerância e de ternura, que se guarda, que se inscreve, nos corações dos que toca e dos que o rodeiam e nele se inspiram. Uma lição que contrasta com a frase final (pequeno mas inócuo spoiler, desculpem) do livro de Camilla Villada: “Nós, as esquecidas, já não temos nome. É como se nunca tivéssemos estado ali.”

Que não nos esqueçamos, nunca. Do e do que representa Nuno Portas. De todas as pessoas.

E que não esqueçamos que, por vezes, pequenas lutas (eventuais vitórias) no presente têm significativos e não previstos impactos no futuro. E que não esqueçamos que por vezes, pequenas lutas programáticas ou ideológicas (eventuais vitórias) no presente têm reais e não previstos impactos na vida de pessoas reais, concretas. As ou os sem nome são, afinal, muitos nomes, muitas vidas, muitas histórias, não raras vezes de muito empenho, sacrifício e sofrimento de pessoas. De pessoas como cada um/a de nós.

Parte, portanto, de nós.