Categories
Educação Filantropia Política Psicologia

Hoje, amanhã e depois…

9130. No passado Sábado reencontramo-nos na nossa Évora, cerca de 9130 dias depois. Passam, por estes dias, 25 anos do início do nosso curso e, por isso e “em turma”, juntamo-nos para almoçar. Se quiserem pensar esta quantidade de tempo em vós (e se tiverem “idade que o permita”), pensem no momento em que souberam dos atentados que a 11 de Setembro de 2001 aconteciam nos EUA e que, entre outros, conduziram à queda das Torres Gémeas e a um Mundo necessariamente diferente. Eu penso-o muito também para me “pensar” e perspetivar… Em como o que fazemos hoje impacta o futuro. Nosso e do e de quem nos rodeia. Penso-o, especialmente, hoje.

E, pensando-o hoje, 25 anos levar-nos-ão sensivelmente a 2050. A meio deste complexo, incerto e imprevisível (não terão sido todos?) mas “ultra-veloz” século que partilhamos e para o qual as nossas ações, hoje, contribuem para o presente e futuro. Também por isso, há dias, pensando em algo que teve, tem e (espero) continuará a ter um papel fundamental de agregador de pessoas e comunidades – alimentação/refeições – e que, simultaneamente, se cruza com importantes dimensões pessoais (económicas, saúde e bem-estar, auto-estima, pertença, etc.) e sociais (economia, clima e biodiversidade, serviços de saúde, etc.) escrevi um artigo que aqui convosco (ver comentário).

“Uma ideia para a sustentabilidade futura do SNS? Investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância”, chamei-lhe. Com ele procuro suscitar que se pense em como investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância é uma das formas mais eficazes — mas pouco intencionalizada — de cuidar do que aí vem. Da saúde, desenvolvimento e bem-estar das crianças. Da comunidade que, também, se constrói “à volta de uma mesa”. E para a própria sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

…“os espaços de refeição – na escola e em casa – podem ser um importante “educador silencioso” (…) porque uma criança não aprende a comer apenas e só porque lhe explicam o que é saudável. Antes, aprende porque observa, repete, associa e sente. Aprende com o espaço, com a rotina, com o tempo que lhe é dado e que é dado à refeição. Aprende com a calma ou com o stresse de quem a rodeia, com a possibilidade de escolher e de participar, com o prazer e o respeito com que vê os adultos comerem. A cada refeição, este educador silencioso está a contribuir para as memórias, a criar relação e a formar o comportamento (alimentar, e não só) das crianças, hoje, e dos adultos de amanhã.” Escrevo. Sinto.

“Porque investir nos ambientes de refeição da primeira infância é um dos exemplos mais claros daquilo que hoje rareia: um contributo que não polariza, não simplifica e não promete o impossível. Que não é particularmente caro, que é eficaz e que tende a, de forma evidente, contribuir para melhorar, hoje e amanhã.”

Como o que somos hoje foi, em boa parte, semeado no que se fez e aconteceu, o que seremos amanhã está a ser co-construido, hoje. Pelo futuro de todos.

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política Psicologia

Ainda a confiança…

Uma equipa multidisciplinar é reunida para procurar soluções para as pragas constantes de percevejos nas habitações de um bairro em Lowell, Massachusetts (USA). Na equipa surge uma proposta: disponibilizar aos moradores capas de colchão seladas. Proposta sensata, pensamos… Porém, também na equipa, alguém sugere que se converse sobre este problema com os moradores. É dessas conversas (focus groups) que se conclui que na maioria das casas não existem (sequer) os colchões que seriam protegidos pelas capas seladas.
Um de inúmeros exemplos que poderia partilhar de como soluções incríveis, se não contextualizadas e personalizadas, são ineficazes ou, pelo menos, ineficientes e que trago a partir de um texto que abaixo partilho. Texto que reflete sobre como a ciência psicológica deve assumir outro envolvimento com o “público” (contextos e pessoas a que se destina) para obter confiança e legitimidade, bases fundamentais de uma ciência com um contributo determinante em períodos de desafio ou crise significativos (pessoais ou sociais), onde muitas vezes a confiança se encontra mais seriamente ameaçada.
E é exatamente sobre ela, neste momento em que movimentos sociais e políticos a procuram fragilizar, intuindo os “ganhos” que para si que daí resultam (fingindo ignorar o mal pessoal e social que resulta da quebra da confiança e da coesão social), que gostava de partilhar duas ideias que penso, paradoxalmente, simples e poderosas:
a) Tal como as soluções maravilhosas só funcionam (maravilhosamente) se adaptadas aos contextos e públicos, também só podem ser eficazes se os contextos e públicos confiarem nelas e nas pessoas/organizações/entidades que as implementam. Daqui sucessivamente resulta que construir confiança é fundamental para a intervenção social e para apoiar a mudança no sentido de mais oportunidades de bem-estar e autodeterminação para todos;
b) Que todos – todos – temos um papel pessoal (e profissional) neste processo. Todos inclui a própria economia social que, não raras vezes, também a partir dos incentivos do próprio sistema (incluindo do Estado) que a financia e dos apoios que recebe (incluindo das Fundações) é ela própria, também paradoxalmente, organizada em torno da desconfiança e pouco promotora de confiança. É certo que existem (talvez mais hoje que ontem) exemplos em que assim não é como os que o Ricardo Garcia aponta no excelente texto que também partilho, mas são ainda assim a excepção.
O André Barata – excelente, sempre – escrevia este fim de semana que “a vida não se faz escassa quando nos dispomos a vivê-la. Passamos tanto tempo a pensar que viver é conquistar e não deixar escapar. E depois basta um dia de praia para o corpo descobrir que viver não é ganhar a vida. Ela está aí”.
É, não é? E é assim com a desconfiança… Passamos tanto tempo dedicados a ela que nos esquecemos do bom que é confiar, não é?
Até porque, conforme a desconfiança gera desconfiança, a confiança gera confiança. Construamo-la. Pelo futuro de todos.
……..
. “Publicly Engaged Science” | @Zara Abrams | @AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION |  http://resources.magappzine.com/feeds/production/comboapp/2335/media/262502/17e216f4-47dc-4f27-97b1-246cf10be01a.html
. “Financiar a confiança: o que o caso de MacKenzie Scott nos deve fazer pensar” | @Ricardo Garcia | @SAPO | https://sapo.pt/artigo/financiar-a-confianca-o-que-o-caso-de-mackenzie-scott-nos-deve-fazer-pensar-6a677580fb226a497b8f6b9e
. “Sobrar” | André Barata | @PÚBLICO | https://www.publico.pt/2026/08/21/culturaipsilon/opiniao/sobrar-2185314
Categories
Democracia Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política Psicologia

Comunidade, comunidade…

“Vivemos, dizem-nos, uma crise de saúde mental: milhões de pessoas em listas de espera, serviços incapazes de responder à procura, crianças a chegar às urgências em desespero”. Assim afirma, num artigo já de 2022 mas atual e que convoca à reflexão (até porque não concordaremos todos com todo o seu conteúdo), Sanah Ahsan, psicóloga com anos de experiência no SNS do UK, para logo nos interpelar com a seguinte questão: “Doesn’t it make sense that so many of us are suffering?” Fará – mesmo – sentido que tantos de nós estejamos a sofrer?

 

Também eu, tantas vezes, o penso e faço esta pergunta. Fará sentido, neste nosso tempo, que tantos de nós soframos? Que tantas crianças e jovens sofram?

 

É certo que vivemos um momento de instabilidade, incerteza e desconfiança. Mas é também certo que, além de mais recursos, temos hoje mais conhecimento que pode(ria) ajudar a contrabalançar estes movimentos. Um, fundamental, a importância das relações e da forma como participamos na construção de comunidade e nos sentimos parte dela, como fatores fundamentais de proteção face a este Mundo incerto e fontes de suporte, confiança e capacidade de adaptação. Como as relações e a comunidade nos aproximam de um propósito e da possibilidade de bem-estar.

 

É, também por isso, que tenho procurado refletir sobre qual pode ser o meu e nosso papel como cidadãos e profissionais, nas mais diversas áreas, na revitalização do que significa hoje construir comunidade e, simultaneamente, criar confiança e reforçar a coesão (social).

 

A este propósito sugiro, também, a leitura de uma interessante reflexão de David Sharpley sobre como a reconstrução da confiança (e coesão) social – muitas vezes “perdida” por via de sentimentos de injustiça e do ressentimento e dúvida que se instalam – começa, precisamente, pelo sentido de pertença.

 

Sentido de pertença base de um estudo recente – que também aconselho – publicado pela BIT e que analisou seis mil milhões de amizades (em redes sociais) no UK e que conclui que crianças de famílias com menos recursos que crescem em comunidades mais conectadas entre diferentes estratos sócio-económicos podem ter salários 28% superiores aos 28 anos face às que crescem em zonas mais isoladas… Isso e que a proximidade física, por si só, não é suficiente… São as atividades (e propósitos) partilhados que transformam vizinhança em vínculo. Conexão. Comunidade.

 

Ahsan termina o seu artigo com a imagem de uma planta a murchar: “não lhe diagnosticaríamos uma “síndrome de murchidão”, procuraríamos alterar as suas condições”. Certo. E porque não nas comunidades, pergunto eu? Para “criarem raízes” e as pessoas que as constituem tenham espaço de crescimento e desenvolvimento. Porque não reforçar, hoje e no futuro, aquilo que mais protege(u) (sempre) o bem-estar e desenvolvimento? Uma comunidade, coesa e baseada na confiança.

Ps. A imagem que partilho é da Cueva de las Manos onde quem habitava a Patagonia, algures entre há 13000 e 9500 anos, pensava a comunidade, assim.

 

….

 

I’m a psychologist – and I believe we’ve been told devastating lies about mental health | Sanah Ahsan | @The Guardian | https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/sep/06/psychologist-devastating-lies-mental-health-problems-politics

Why social trust is failing – and how Psychology can restore it | The Psychologist @David Sharpley | https://www.bps.org.uk/psychologist/why-social-trust-failing-and-how-psychology-can-restore-it

Friends with benefits: How to connect communities to create opportunities | @The Behavioural Insights Team | https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf

Cova de las Manos | @UNESCO | https://whc.unesco.org/en/list/936/

Categories
Fundação Mendes Gonçalves Psicologia

2 de 4

Estórias abensonhadas. Lembro bem, também porque o recordo muitas vezes, o jardim onde li parte dos contos deste livro do Mia Couto. Como me lembro dele, também, pela curiosidade que me despertava e desperta a forma como, quais legos, construía e constrói palavras com outras palavras.

Como no fundo transporta para a escrita o que pensa de nós, pessoas, conforme escreveu noutro conto, mas de um outro livro: “Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens” (seres humanos, diria eu).

Bem o compreendo e sinto por estes dias.

Depois da Teresa Raquel Pereira, que saiu, primeiro, para a porventura mais bela tarefa de uma vida (dar vida) e que hoje coordena a área “Smart Child” da Fundação Primavera, na sexta-feira foi o último dia de trabalho connosco da Quaiela Costa. Daquela nossa task-force inicial de 4 pessoas que apoiaram a instalação da Fundação Mendes Gonçalves, particularmente entre janeiro e abril de 2025, passamos a restar apenas nós, Maria Beatriz Filipe.

Os quatro sabemos como foram aqueles dias, semanas, meses. Intensos, “abensonhados”. Acho que também sabemos e sentimos (pelo menos eu sei e sinto) que, quando nos cruzamos, verdadeiramente, com um conjunto de pessoas com quem temos um objetivo e propósito comum, “saímos” diferentes de como “entrámos”. Vemos, fazemos, sentimos e somos de forma diferente. E contribuímos para que outras e outros vejam, façam, sintam e sejam de forma diferente.

Penso mesmo (e muitas vezes) que uma das mais bonitas formas de impacto de uma entidade da economia social como é a nossa Fundação Mendes Gonçalves e minha, a partir do meu atual papel e responsabilidade, é conectar pessoas com uma visão e missão que possa nelas ficar, sempre. Que possa influenciar que em cada papel futuro, pessoal ou profissional, lá esteja a sensibilidade, a responsividade, a atenção ao outro e ao que a/o rodeia.

Mais, no nosso caso, a ideia maior da filantropia de proximidade e a crença baseada na agência de que é possível, também pela educação, nutrição e regeneração, um mundo melhor com mais possibilidades de bem-estar e futuro para todos. Teresa Raquel Pereira e Quaiela Costa, levam-no para sempre convosco? E fazem por se cumprirem e estarem bem?

E nós Maria Beatriz Filipe, hoje com a Inês Queiroz, o Manuel Paiva dos Santos, a Vanessa Esteves e, de certa forma, a Liliana Oliveira e a Madalena Bento (e “amanhã” com as duas pessoas que brevemente se juntarão), continuamos este nosso caminho, “abensonhado”?

Tenho muita sorte por o poder fazer convosco e por, todos os dias, me fazerem ver, fazer, sentir e ser de forma diferente…

“Porque [sou], em todo o tempo, ainda nascente”.

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Nós, verdadeiramente, não sabemos

Certamente já viveram acontecimentos de vida significativos que, mais ou menos positivos, foram para vós transformadores e tornaram claras questões que podiam não ser claras antes.

 

Assim aconteceu comigo. Amanhã, dia duplamente importante para a nossa família, é um daqueles dias em que ela poderia sorrir, orgulhosa. Não pode. Perdemo-la antes de ter oportunidade de conhecer quem amanhã cumpre mais uma bonita etapa profissional e quem amanhã cumpre mais um aninho. Perdemo-la e essa perda tornou claro, claríssimo, para mim algo que, sabendo, talvez não sentisse como passei a sentir: nós, verdadeiramente, não sabemos. Julgamos, pensamos, cremos que sim, mas, muitas vezes, não sabemos. E inscrevermos isso em nós é exigente, duro até, mas, simultaneamente, muito libertador.

 

Há semanas, aquando da missão Ártemis II em torno da Lua e do que invariavelmente sucede quando os seres humanos realizam feitos extraordinários (o consequente surgimento de narrativas de que tudo é falso, de que só alguns predestinados sabem a verdade), o jornal Público publicou um “Prova dos factos” que garante – sim é necessário hoje garanti-lo – que “fomos mesmo à Lua” mas que “narrativas que garantem que é encenado existem desde 1969”.

 

Este “Prova dos factos” cita um artigo que escrevi com um amigo e colega (Miguel Ricou), em 2021, quando coordenava o Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, num tempo em que a incerteza e o desconhecido eram parte permanente do dia-a-dia. Escrevemos então o agora citado: que quem acredita em teorias da conspiração procura, no fundo, uma sensação de segurança e controlo, “a segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais”. Uma ilusão entendível, humana se quisermos, mas tremendamente perigosa a meu ver.

 

Quem acredita que sabe tudo tende a fechar-se ao outro. Quem recusa a incerteza torna-se menos disponível para aprender, adaptar-se e de, genuinamente, relacionar-se. A humildade de aceitarmos que não sabemos (tudo), que podemos estar errados, que há mais do que o que vemos e que as outras pessoas são, também elas, capazes não é uma fraqueza. É uma força, felizmente também humana, que nos aproxima dos outros e de ser e estar mais, melhor.

 

O “Global Flourishing Study”, o maior estudo sobre florescimento, confirma-o: o que mais nos faz florescer não é a certeza (e controlo), nem a riqueza. São, antes, as relações que estabelecemos connosco, com os outros (com abertura à surpresa e diferença e sem julgamento) e com o que nos rodeia. É, antes, como nos integramos e contribuímos em comunidade e como criamos sentido e propósito.

 

Por isso na Fundação Mendes Gonçalves procuramos algo que vai além dos projetos e programas: novas formas de estar em e criar comunidade. Acreditando que o florescimento e um futuro de maior e mais equitativo bem-estar começa precisamente no reconhecimento de que não estamos sozinhos e que não sabemos e podemos tudo, sós.

Categories
Democracia Emergência Climática Psicologia

2026

Nos últimos tempos, para parte significativa de pessoas (em que me incluo), não é fácil olhar para o Mundo com bastante optimismo. À desigualdade, juntam-se os frequentes fenómenos climatéricos extremos, a polarização e divisões crescentes, a desinformação, o autoritarismo, conflitos geopolíticos e a guerra que nos (me) inquietam.

Mas, como que paradoxalmente, 2025 foi um ano em que muitas coisas correram realmente bem. Uma pessoa, muito importante para mim e que desde há muito me “faz” mais optimista, partilhou um artigo comigo (ver comentário), mesmo no final do ano, com 1084 boas notícias de 2025 em áreas como o ambiente, os direitos humanos (sim, os direitos humanos), a economia ou a tecnologia. Dois exemplos: a primeira dessas notícias é sobre como a IA está a contribuir para se produzir melhor vinho; a última sobre como 2025 foi o ano desde 2006 com menor número de “assassinatos em massa” nos EUA.

Neste Mundo desafiante, complexo, polarizado, assumir estes paradoxos, como assumir as nuances conforme Anne-Laure Fayard pensa (ver comentário) é, por si, um acto de coragem. Reconhecer a complexidade, resistindo à tensão simplista e aos binários tipo “tudo certo” Vs. “tudo errado”. Abraçar a incerteza, a diversidade e reforçar o diálogo abrindo espaço a soluções criativas e coletivas é fundamental para navegar o dia-a-dia e o Mundo actual.

Isso e, nesse movimento, exercitarmos (sim, exercitarmos) a esperança e o optimismo. Identificar riscos e perigos, procurar a agência possível sobre os mesmos e desenvolver e treinar as nossas capacidades de propor alternativas e procurar novas possibilidades. Tudo isto em cima do conhecimento que temos de que os seres humanos são, no geral, mais “bons de coração” do que por vezes consideramos… Veja-se o artigo que, também abaixo, partilho em torno de 10 evidências científicas que vão desde a capacidade de partilhar das crianças muito pequenas (1ª) à forma como têm sido questionados nos métodos e resultados um considerável número de estudos/experimentos muito mediáticos em torno do “pior” dos seres humanos (10º).

Por aqui anda a minha reflexão sobre este 2026… Recusar cinismos paralisantes (quando não desculpabilizantes) na exacta medida da recusa de uma tendência para uma negação ingénua da realidade complexa e desafiante que viveremos e viveremos. Mais, usar dados, a experiência, as evidências… Usar da nuance, da relação e cooperação e da base da generosidade humana para pensar 2026 pessoal e profissionalmente com um optimismo realista.

Pelo meio, procurar dar um humilde contributo, também nos meus papéis mais pessoais e profissionais, para um Mundo um pouco melhor. No presente e para o futuro.

Categories
Democracia Política Psicologia

Sofia Corradi

Coincidentemente estava de regresso a Itália, pela primeira vez, aquando da sua morte, na “sua” Roma. Estávamos a 17.10 último e saber da morte de Sofia Corradi, “mãe do (programa) Erasmus”, fez-me reviver memórias muito concretas e importantes da minha vida.

Para mim, que cresci num contexto relativamente distante dos grandes centros (de Portugal e, mais ainda, da Europa), com limitado acesso a determinados estímulos e à possibilidade de viajar, o meu Erasmus foi uma fantástica e única oportunidade de experimentar algo que mudou a forma como via a Europa e, de certa forma, me passei a ver e os outros me passaram a ver, tal o que me transformou.​

O meu Erasmus, iniciado no Inverno de 2004 com base numa Turim onde nevou muito (sim, sou eu…) é a prova de que foi e é possível promover algo com que a Sofia Corradi sonhou: desenvolver pessoas pelo estimular de relações que atravessam países e culturas e do reforço da coesão a partir da diversidade. E isto não é de somenos, para mais num tempo onde viajar era ainda um privilégio e de ausência de redes sociais como hoje as conhecemos.

Estou bastante certo do impacto incrível que aquele tempo teve na expansão do meu horizonte de possibilidades, pessoais e profissionais. Talvez por isso não me surpreenda a cada vez mais robusta evidência científica que demonstra como a qualidade e diversidade das relações impactam positivamente as oportunidades que temos ao longo da vida, sobretudo para quem provém de contextos mais vulneráveis (veja-se o recente relatório da BI Team – https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf​ – que demonstra como o capital social decorrente de ligações e relações entre pessoas de contextos socioeconómicos diversos aumenta de forma substancial as oportunidades de quem cresce em meios mais desfavorecidos.

E, se isto foi importante há 20 anos, é-o hoje, também, ainda que eventualmente por diferentes motivos. Já não será, tanto, pela ausência de estímulos, possibilidade de viajar e de conhecer realidades diversas. Antes, talvez, como política pública de promoção da equidade e como forma de “combater” os aparentes níveis de bem-estar mais baixos, cada vez mais cedo e durante cada vez mais tempo (https://www.publico.pt/2025/09/08/p3/noticia/ficar-infelizes-cedo-lomba-infelicidade-desapareceu-mundo-2146170). Indicadores que parecem ser sinal de que algo de estrutural não está a funcionar bem na forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com o que nos rodeia e em como o decréscimo das relações significativas e de pertença e a ausência de diversidade nas mesmas parecem para isso concorrer.​

Manter o legado da Sofia Corradi é, por isso, contribuir para que ninguém fique confinado e condicionado ao seu ponto de partida e isso faz-se, também, estimulando mais relação e maior diversidade nas relações, com impacto na abertura de possibilidades e no bem-estar.

Aqui estou para o atestar. Obrigado Sofia.

Categories
Educação Política Psicologia

1 em cada 4

“1 em cada 4 – Falar sobre Saúde Mental” foi o título que o Município de Caldas da Rainha escolheu para uma iniciativa que, em outubro passado, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, visou a criação e divulgação de 4 episódios de um podcast com este nome.

Sim, “1 em cada 4” para nos recordar que, à elevada prevalência de problemas na área da saúde mental em Portugal e à forma como os dados portugueses comparam muito mal com os dados da grandíssima maioria dos países europeus, normalmente não corresponde um nível de comunicação e interesse público (e, já agora, dos decisores) em linha com estes indicadores, nem, infelizmente, níveis elevados (por vezes sequer razoáveis) de literacia da população nesta área.

Também por isso, creio ser muito relevante que as autarquias, em maior proximidade com as pessoas e comunidades impactadas significativamente por estes problemas, promovam iniciativas que permitam a discussão (informada) destes temas, com a participação das pessoas e que visem a melhoria da literacia da população na área da saúde mental.

Este podcast de que vos falo visou exatamente esse propósito e permitiu o debate sobre Saúde Mental vs. Doença Mental, Doença Mental Grave, Acesso aos cuidados de Saúde Mental e respostas locais, além do episódio para o qual fui convidado e dei um contributo – e que convosco aqui partilho: https://youtu.be/gl4Bvs3xlto?si=EAayJClYRJm79WyK – em torno da Comunicação sobre Saúde Mental: A importância e as boas práticas.

Fi-lo a convite e com a Adriana Oliveira Brites, a quem volto a agradecer a confiança, numa conversa que versou a importância de falar abertamente sobre saúde mental na sociedade atual, as barreiras que se colocam a que se fale mais sobre estes temas, o papel dos media e das redes sociais, bem como as boas (e menos boas) práticas de comunicação num momento de transformação da forma de acesso à informação e de maiores possibilidades de partilha de (des)informação.

Um pequeno contributo que partilho para um importante tema que diz respeito a todos. Falar sobre saúde mental, com informação séria e com cuidado, é uma das melhores formas de reduzir o estigma, aumentar a compreensão e literacia nesta área e de suscitar, junto da sociedade civil e decisores políticos, a urgência que o tema merece, porquanto condiciona e impede o pleno florescimento e o bem-estar, no presente e para o futuro, de um número muito significativo de pessoas, famílias e comunidades.

Categories
Fundação Mendes Gonçalves Psicologia

Embaixadores Regenerativos

“A degradação do solo ameaça a biodiversidade e a segurança alimentar, colocando em risco a estabilidade dos ecossistemas”. Recentemente o “Agroportal” publicou uma notícia que assim começava para logo referir que “o nosso ambiente é crescentemente afetado pela perda de biodiversidade, a extinção de espécies e a degradação do solo, que avançam a um ritmo alarmante (…) de acordo com a FAO mais de 33% dos solos do planeta estão deteriorados, um número que compromete a estabilidade dos ecossistemas e a produção de alimentos”.

A degradação dos solos, sendo um desafio global, é já hoje um tremendo desafio em Portugal. Como referimos na nota conceptual do programa Regenerar da Fundação Mendes Gonçalves (https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/07/NC-003-FRE-Nota-Conceptual-Regenerar_Funda‡AEoMendesGon‡alves-0_VF_CAPA.pdf) “vivemos uma crise ambiental que ameaça a saúde dos ecossistemas, a segurança alimentar e a estabilidade económica”.

Dizemo-lo e assumimos que “perante a insuficiência dos modelos convencionais, é urgente transitar para práticas regenerativas que restaurem o solo, exponenciem os recursos naturais e revitalizem as comunidades (…) A agricultura regenerativa propõe uma mudança de paradigma: não apenas proteger, mas regenerar o solo, a biodiversidade e os sistemas vivos. Baseia-se em princípios como minimizar a perturbação do solo, manter a cobertura vegetal, promover a biodiversidade, integrar animais e compreender o contexto local. Mais do que um conjunto de técnicas, é uma visão de cooperação com a natureza, de cuidado coletivo e de construção de resiliência para as gerações futuras.” Dizemo-lo e propomo-nos actuar no sentido da criação de possibilidades de “regeneração do solo, dos ecossistemas naturais e das comunidades, promovendo a resiliência e o bem-estar, com base na criação e partilha de conhecimento”.

É com este intuito que lançamos uma call para estudantes do ensino superior que se pretendam mobilizar enquanto embaixadores regenerativos, de acordo com estes princípios, valores e objectivos. A iniciativa é enquadrada num Living Lab da rede europeia de Living Labs e os participantes terão acesso, gratuito, a ser parte de um grupo (comunidade) com acesso a experiências práticas, ações de formação e eventos colaborativos com profissionais do setor, aproximando a teoria, o saber fazer e a aplicação no terreno. Serão desafiados a divulgar práticas regenerativas junto das suas instituições de ensino, comunidades e explorações agrícolas da sua região; sensibilizar colegas e agricultores para a importância da regeneração do solo e da biodiversidade; aplicar conhecimentos adquiridos em projetos e experiências práticas; a ser um agente de mudança, promovendo impactos positivos sociais, ambientais e económicos.

Se te identificas, não deixes de te candidatar. Mais informações/inscrições: https://fundacaomendesgoncalves.org/2025/11/19/fundacao-mendes-goncalves-abre-inscricoes-para-embaixadores-regenerativos/

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Dia Mundial da Saúde Mental e dia da atribuição do Prémio Nobel da Paz

Hoje é Dia Mundial da Saúde Mental. Dia que sublinha a importância da saúde mental na possibilidade autodeterminação, de bem-estar individual e colectivo e de desenvolvimento e coesão social. Dia, também, de lembrarmos que “há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário” e que “assim é com a saúde mental”.
“Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental (…) [porém] a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global.”
Este ano a data coincide com a atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2025 pelo que recupero um texto que escrevi e publiquei na Revista SÁBADO a 30.12.21 intitulado: “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”.
Faço-o porque – tendo nas últimas horas surgido notícias promissoras face à terrível situação de Gaza e à libertação dos reféns que persistem dos horríveis atentados do 07.10.23 – não me recordo de outro ano onde tanto se falou sobre quem poderia receber o Prémio Nobel da Paz nos dias anteriores à atribuição.
Faço-o, também e como para a saúde mental, para sublinhar, ainda antes de conhecermos a/o ou as/os vencedoras/es, que a Paz é mais do que a ausência de guerra. Que o “próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente um conjunto de países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “Paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) (…) e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a Paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros).”
Apesar de escrito no final de 2021 e do Mundo ter mudado incrivelmente, convido à sua leitura e convido, neste dia, a que reflictamos sobre o conceito de saúde mental, enquanto mais que a ausência de doença mental, e sobre o conceito de Paz, enquanto mais que a ausência de guerra. Que reflictamos neles, na relação entre eles e no que podemos para eles contribuir… Individual e colectivamente.
É que “na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 [e 2025] é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.”