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Porque caem tantas árvores durante as tempestades?

“Porque caem tantas árvores durante as tempestades?”, interpela-nos Helena Freitas, num título de um texto que escreveu a propósito de “nos últimos anos Portugal [ter] assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas”, referindo-se – também – aos papel do solo. “Um dos fatores críticos [para tal] é o estado do solo [em Portugal]. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades”, escreve.

Este é momento para todos nos associamos à dor da perda e ao sofrimento do conjunto de pessoas impactadas pela forte tempestade da última semana e pelas condições meteorológicas dos últimos (e, eventualmente, próximos) dias e suas terríveis consequências.

Sendo-o, é fundamental, diria até por respeito a este sofrimento, que não saltemos deste fenómeno para um outro futuro sem espaço de reflexão na sociedade civil e decisoras/es sobre o que podemos fazer para prevenirmos, na medida do possível, e estarmos mais preparados e resilientes para enfrentarmos, enquanto comunidade e país, este tipo de fenómenos climatéricos, que infelizmente tudo indica tenderão a ser mais intensos e frequentes.

Também em texto de opinião, Pedro Adão e Silva refere que a Agência Europeia do Ambiente estima que, desde 2000, Portugal tenha perdas anuais de cerca de 630 milhões de euros (acima da média europeia) derivadas de fenómenos climáticos extremos (incêndios, inundações, tempestades). Podemos e devemos portanto perguntar-nos sobre o que podemos fazer e mobilizarmo-nos nesse sentido. Um caminho possível? Pensarmos o solo e internacionalizarmos os objetivos da nova directiva europeia que, desde Novembro, insta os países membros a monitorizarem os seus solos e promoverem um conjunto de ações no sentido de os tornar mais saudáveis e resilientes como factor-chave para a segurança alimentar, qualidade da água e ambiente. Acrescento, para a prevenção e resiliência face a fenómenos climatéricos extremos.

Este (novo) olhar para o solo, para a sua actual degradação e para a sua (potencial) regeneração, tem tanto de fundamental quanto de possível e desejável.

Como Thomas Oudman e Charles Mann referem, “pensando as práticas ancestrais” e, com ciência, trazendo-as para a contemporaneidade a partir de “culturas que previnam a desertificação e poluição e promovam a biodiversidade, trabalhando com a natureza e não contra a natureza.”

Como, na Fundação Mendes Gonçalves procuramos contribuir, a partir do programa Regenerar, para maior investigação e conhecimento, literacia, advocacia e para estimular mudanças de práticas para solos mais saudáveis e resilientes.

 

Para leituras aprofundadas e/ou complementares:

. Helena Freitas | Porque caem tantas árvores durante as tempestades? | https://www.linkedin.com/posts/hfreitas_porque-caem-tantas-árvores-durante-as-tempestades-activity-7422962653251371008-QX3A/?originalSubdomain=pt

. Pedro Adão e Silva | As tempestades, a Kristin e a aprendizagem coletiva | https://www.publico.pt/2026/02/01/opiniao/opiniao/tempestades-kristin-aprendizagem-coletiva-2163188

. Directive (EU) 2025/2360 of the European Parliament and of the Council of 12 November 2025 on soil monitoring and resilience (Soil Monitoring Law) | https://eur-lex.europa.eu/eli/dir/2025/2360/oj/eng

. Thomas Oudman e Charles Mann | The future of agriculture lies in the past | https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past

. Fundação Mendes Gonçalves | Nota Conceptual – Programa Regenerar | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/07/NC-003-FRE-Nota-Conceptual-Regenerar_Funda‡AEoMendesGon‡alves-0_VF_CAPA.pdf

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Democracia Emergência Climática Psicologia

2026

Nos últimos tempos, para parte significativa de pessoas (em que me incluo), não é fácil olhar para o Mundo com bastante optimismo. À desigualdade, juntam-se os frequentes fenómenos climatéricos extremos, a polarização e divisões crescentes, a desinformação, o autoritarismo, conflitos geopolíticos e a guerra que nos (me) inquietam.

Mas, como que paradoxalmente, 2025 foi um ano em que muitas coisas correram realmente bem. Uma pessoa, muito importante para mim e que desde há muito me “faz” mais optimista, partilhou um artigo comigo (ver comentário), mesmo no final do ano, com 1084 boas notícias de 2025 em áreas como o ambiente, os direitos humanos (sim, os direitos humanos), a economia ou a tecnologia. Dois exemplos: a primeira dessas notícias é sobre como a IA está a contribuir para se produzir melhor vinho; a última sobre como 2025 foi o ano desde 2006 com menor número de “assassinatos em massa” nos EUA.

Neste Mundo desafiante, complexo, polarizado, assumir estes paradoxos, como assumir as nuances conforme Anne-Laure Fayard pensa (ver comentário) é, por si, um acto de coragem. Reconhecer a complexidade, resistindo à tensão simplista e aos binários tipo “tudo certo” Vs. “tudo errado”. Abraçar a incerteza, a diversidade e reforçar o diálogo abrindo espaço a soluções criativas e coletivas é fundamental para navegar o dia-a-dia e o Mundo actual.

Isso e, nesse movimento, exercitarmos (sim, exercitarmos) a esperança e o optimismo. Identificar riscos e perigos, procurar a agência possível sobre os mesmos e desenvolver e treinar as nossas capacidades de propor alternativas e procurar novas possibilidades. Tudo isto em cima do conhecimento que temos de que os seres humanos são, no geral, mais “bons de coração” do que por vezes consideramos… Veja-se o artigo que, também abaixo, partilho em torno de 10 evidências científicas que vão desde a capacidade de partilhar das crianças muito pequenas (1ª) à forma como têm sido questionados nos métodos e resultados um considerável número de estudos/experimentos muito mediáticos em torno do “pior” dos seres humanos (10º).

Por aqui anda a minha reflexão sobre este 2026… Recusar cinismos paralisantes (quando não desculpabilizantes) na exacta medida da recusa de uma tendência para uma negação ingénua da realidade complexa e desafiante que viveremos e viveremos. Mais, usar dados, a experiência, as evidências… Usar da nuance, da relação e cooperação e da base da generosidade humana para pensar 2026 pessoal e profissionalmente com um optimismo realista.

Pelo meio, procurar dar um humilde contributo, também nos meus papéis mais pessoais e profissionais, para um Mundo um pouco melhor. No presente e para o futuro.

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Regenerar é possível…

Regenerar é possível.

Esta é uma mensagem-chave base do programa Regenerar – https://fundacaomendesgoncalves.org/como-atuamos/regenerar/ – da nossa Fundação Mendes Gonçalves. Algo em que acreditamos, com que estamos comprometidos e que mobiliza a nossa acção e participação no sentido da nossa missão e objectivos, a partir dos nossos valores e formas de fazer.

Pensamos, portanto, dia-a-dia, o que pode ser uma filantropia estratégica nesta área e como podemos potenciar o impacto da nossa acção, a partir dos recursos e possibilidades que temos.

Muito recentemente li dois artigos que ajudam a esta reflexão:

a) “A filantropia estratégica está viva e recomenda-se” (tradução minha) que sublinha o valor da filantropia estratégica no escalar projectos e movimentos para níveis nacionais (e internacionais, acrescento) e, logo, na melhor de vida das populações e ecossistemas; no suporte a movimentos sociais no contributo para a mudança de normas sociais e de políticas; e, finalmente, no contributo para responder às desigualdades e permitir que os projectos essenciais cheguem a quem deles pode mais beneficiar, tudo essencial para promovermos as práticas de agricultura (e produção e consumo em geral) regenerativa e expandir o conceito da regeneração a populações e comunidades (https://ssir.org/articles/entry/strategic-philanthropy-in-defense-of#);

b) “O futuro da agricultura assenta no passado”, um ensaio já com quase 5 anos que oferece uma excelente oportunidade de reflexão a partir da ideia de que as “rápidas transformações no clima (a que acrescento a degradação dos solos e da biodiversidade) forçam a agricultura a reinventar-se (..) e à necessidade de atender a culturas que, Mundo fora, lida(ra)m com desafios significativos nas condições da agricultura, desde há milhares de anos” (https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past)

Artigos que à sua forma são inspiração no nosso trabalho e sonho, trabalho sonho que vos convido a conhecerem no próximo dia 11 de Junho (Quarta-Feira) na Feira Nacional da Agricultura de 2025, em Santarém. Lá estaremos, prontos e disponíveis para a/o receber, a convite da Câmara Municipal da Golegã, no stand do Município. Durante esse dia daremos a conhecer, em maior detalhe e à procura de co-criarmos e co-construirmos, a Fundação Mendes Gonçalves, primeiro, o seu programa Regenerar e o documentário “Common Ground” que passaremos nesse dia, pelas 11h no Auditório do CNEMA/Feira.

Feira que este ano se dedica às “Biosoluções” com ambição de “promover as tendências de sustentabilidade ambiental do setor e proporcionar aos empresários um ponto de encontro que potencia contactos e negócios.”

Oxalá o consigamos. Tal qual consigamos que esta nossa participação, e a actividade e relações ali geradas ou desenvolvidas, permitam caminhos “para modos de produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o Planeta”, conforme o que defendemos no programa Regenerar.

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Democracia Desafios da Psicologia Emergência Climática Fundação Mendes Gonçalves

Revista Associação Portuguesa de Horticultura

“Mudar da “sustentabilidade” para a regeneração”. Estávamos em 2007 quando Bill Reed publicou um artigo com este título, com a palavra sustentabilidade entre as aspas que aqui mantenho e com um gráfico que enquadra, na sua visão, uma “trajectória do desenho de respostas ambientalmente responsáveis”. No fundo, como caminharmos das, como nomeia, práticas convencionais, verdes e depois sustentáveis (neutras), para práticas restaurativas, reconciliatórias e, finalmente, regenerativas (positivas)… Porque sermos neutros, em diferentes áreas, é hoje insuficiente.

No desenho dos programas estruturais da Fundação Mendes Gonçalves procuramos ser consequentes com esta necessidade, hoje ainda mais premente, e com a importância que este caminho que pode desempenhar já no presente, para o futuro e numa perspectiva intergeracional. Pretenderemos, com o programa, “cuidar, através da regeneração dos solos e da biodiversidade, para que o planeta e as comunidades tenham um futuro melhor” e, a partir deste intuito e enquadrado na missão, valores e “forma de fazer” da Fundação, desenhamos as bases do programa cuja informação e nota conceptual podem ser aqui consultadas – https://lnkd.in/dbVwf-DU.

Parte importante deste nosso trabalho assenta, não apenas na produção de conhecimento, mas na sua transferência, quer para a informação a processos de formação, de práticas ou desenho de políticas, quer para mais sensibilidade e literacia da sociedade relativa a práticas neste âmbito e aos seus potenciais impactos.

Nesse sentido, foi com enorme satisfação que vimos a Associação Portuguesa Horticultura dedicar a sua revista (n.º 156; Abril de 2025) à “Saúde do Solo” e participamos numa peça da responsabilidade da Nélia Silva (obrigado!) com título: Fundação Mendes Gonçalves – Nutrir o futuro através da regeneração dos solos (https://lnkd.in/dTtHwYNe).

Na peça, além da experiência de práticas regenerativas de produção realizadas e promovidas pela Casa Mendes Gonçalves, com participações do João Ferreira e do Carlos Goncalves, procuro enquadrar o modelo da Fundação Mendes Gonçalves, reforçando os seus princípios relativos à procura da revitalização da filantropia de proximidade e o compromisso com a co-criação e envolvimento de diferentes parceiros, bem como a forma como o programa Regenerar se liga com os programas Educar e Nutrir na missão maior da Fundação.

Futuro este que, como o Carlos Goncalves sempre refere e a peça expressa, dependendo de mudanças no Mundo, só se concretizará verdadeiramente se “primeiro mudarmos o que está à nossa volta”. Tudo faremos para contribuir para tal. Oxalá o consigamos, juntos, pelo futuro de todos.

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Três Pontos” | Catástrofes ambientais e saúde mental

Podemos, ao menos algumas e alguns, procurar desconsiderá-lo… Podemos, mas todos sabemos e sentimos a crescente frequência e intensidade dos fenómenos climatéricos extremos. Em Portugal e no Mundo, temperaturas mais elevadas e extremadas, seca, incêndios, mas também inundações ou furacões, para dar apenas alguns exemplos, impactam, significativamente, a vida, a saúde, incluindo a saúde pública e mental, e o bem-estar de pessoas e comunidades, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Isto além do quanto desafiam economias, sociedades, sistemas políticos e ecossistemas, forçando a necessidade do rápido desenvolvimento de estratégias de adaptação para serem mitigados estes efeitos adversos. ​

Conforme aqui escrevi – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_creio-prov%C3%A1vel-que-n%C3%A3o-tenham-existido-muitos-activity-7297174202934005761-c8xd?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAABUdsUoBSQRUD9nKHxubGYmf2eFYmTQWxqU – segundo o Global Risks Report 2025 do World Economic Forum, os eventos climatéricos extremos são mesmo considerados, hoje, um dos principais riscos globais (2º mais identificado) e o principal dos riscos ambientais.

É por via desta relevância (social) que saúdo a iniciativa da @Universidade Aberta de realizar um episódio do seu pod e videocast “Três Pontos” sobre a temática das catástrofes ambientais e saúde mental, agradecendo terem-me confiado esse contributo que aqui partilho convosco (em vídeo no link abaixo, em podcast aqui: https://open.spotify.com/episode/30RVfMUFqrpzOXWvVofpuc). Na entrevista, que permite este trabalho, respondo a 3 questões em concreto:

a) Como é que as catástrofes ambientes afectam a saúde mental?

b) Que estratégias comunitárias podem ser implementadas?

c) O que podemos fazer para evitar a exaustão emocional e a consequente apatia climática?

Convido-vos a ouvir, reflectir, eventualmente comentar. E convido-vos a terem sempre presente que há cada vez mais evidência científica que demonstra a forma como tendemos a subestimar o apoio colectivo às acções e transição climática. Dito de outra forma, tendemos a pensar que estamos mais isolados nesta defesa e na defesa de ações, medidas e políticas que apoiem a transição do que realmente estamos, tendo isso forte impacto nas nossas práticas e, inclusivamente, no grau de definição das próprias políticas (públicas) muito dependentes da percepção da sua aceitação/defesa por parte das populações.

 

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Pobreza Energética

Hoje, como ontem, diversas regiões de Portugal enfrentam um conjunto de fenómenos meteorológicos que trazem riscos à população. Resultam da depressão Hermínia (nome significativo para mim) que, conforme outros fenómenos climatéricos, atinge de forma desproporcional pessoas e famílias com habitações mais vulneráveis, parte significativa vivendo em situação de “pobreza energética”.

Este conceito corresponde à falta de acesso a serviços energéticos essenciais a níveis básicos de qualidade de vida e saúde (dito de outro modo, a (in)capacidade de manter imune a humidades significativas, aquecida durante o inverno e/ou arrefecida durante o verão) e, em Portugal, segundo um relatório recente da Comissão Europeia, são 20,8% os agregados a viver em pobreza energética e somos, com Espanha, os países pior cotados numa UÉ onde, em 2020, existiam 50 milhões de pessoas com esta condição.

Foi sobre a pobreza energética o 2º episódio da nova temporada do podcast “Toda a Energia” da ADENE – Agência para a Energia, produzido e divulgado pela Antena 1. Uma interessante conversa em que participei, com o Rui Alves de Sousa e a Susana Peralta que aqui partilho: https://www.rtp.pt/play/p14446/e822414/toda-a-energia

Saudando a escolha do tema abordamos na conversa temas como a relação da pobreza económica/monetária com a pobreza energética/privação, as suas causas e consequências, a literacia da população ou as políticas públicas e a sua eficácia neste âmbito.

Entre outros, a Susana Peralta, sublinhou que o tema não trata, apenas, a manutenção da casa adequadamente aquecida, mas toca importantes dimensões da intimidade das pessoas como a capacidade das pessoas/famílias terem as suas refeições quentes ou cuidarem da sua higiene, com os profundos e devidos impactos nas suas relações laborais e/ou sociais.

Eu destaco os anos de vida com qualidade perdidos por via da pobreza energética e, como sermos um dos piores países da UE nesta matéria, é um exemplo concreto de como as políticas públicas (e até a filantropia, com honrosas excepções) ainda não são responsivas à evidência científica que demonstra o seu forte impacto na saúde, incluindo na saúde mental, no bem-estar e nos ciclos de pobreza e exclusão.

Como digo, é um debate importante (…) para que se desfaça a ideia de que a pobreza energética impacta apenas a doença física, por via das doenças respiratórias por exemplo, mas se pense a sua associação com questões como a ansiedade, depressão, stresse ou problemas com o sono e de como, desproporcionadamente, afecta as pessoas que paradoxalmente mais precisariam de encontrar nas suas habitações espaço de conforto, segurança e previsibilidade.

Falemos mais sobre pobreza energética. Façamos mais. E melhoremos mais – mais rápido – promovendo a qualidade de vida das pessoas, prevenindo consumos energéticos desnecessários e prevenindo gastos em saúde pública e sociais.

Ps. Passam hoje 80 anos do dia de libertação de Auschwitz. Nunca o esqueçamos… Nunca o esqueçamos.

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Agência.

Lembram-se da “TINA”, o acrónimo em inglês para o “NHA” português [There Is No Alternative | Não Há Alternativa]?

Estamos num desses momentos. Confrontados com incêndios que nos fazem sentir impotentes e descrentes em que possamos fazer algo para prevenir, no futuro, estas situações e os seus impactos. Confrontados com fenómenos sociais que, conjugados no tempo, nos fazem desafiar a percepção de segurança que o nosso país continua a oferecer, por comparação à grande maioria (quase totalidade) de países, Mundo fora.

Estamos num desses momentos porque, sozinhos, sentimo-nos distantes, desempoderados e descrentes de poder fazer algo que, significativamente, contribua para minimizar estas situações e mitigar os seus efeitos.

Mas… Assim não é. Pensemos nas pessoas, hoje e nos últimos dias, envolvidas no combate aos incêndios e apoio às populações. Em como as comunidades se unem para, juntas, resistirem. Em como profissionais e voluntárias/os dão o que têm e o que não têm pelas outras pessoas e pelos lugares.

Neles inspirado, pensemos em como, mesmo à distância, podemos contribuir e advogar para uma mobilização social que reconheça local e globalmente a crise climática e como podemos contribuir, individual, colectiva e globalmente para a sua mitigação. Como podemos advogar por alterações no ordenamento do território e na organização da sociedade, para maior prevenção destas situações. Também para uma preparação das comunidades para protocolos de actuação em situações como os desastres naturais ou acontecimentos inesperados, aumentando a sua percepção de controlo, a resiliência individual e colectiva e a sua segurança e previsibilidade. Como podemos, mesmo à distância, dar pequenos grande contributos como são exemplo dar sangue, conversar e ligarmo-nos a pessoas próximas, comunicar estes fenómenos com as crianças e jovens diminuindo o seu impacto. Como nos podemos aproximar e suportar as pessoas que mais sofrem com estes fenómenos e construirmos comunidades. Como podemos contribuir para fazer cair o “N” da TINA e do NHA e promover agência nas pessoas e comunidades.

Eu, singelamente, procuro fazê-lo. Junto das pessoas mais próximas. Também em pequenos contributos como os que partilho, sobre a importância de comunicarmos fenómenos como o da EB da Azambuja com crianças e jovens (obrigado Nuno Vinha) ou sobre a hiper-exposição e o papel da comunicação e do suporte da comunidade (obrigado, Carla Jorge de Carvalho). Acredito na possibilidade de mudança e isso é, para mim, um factor protector.

A mudança é possível. De outra forma, aquando destas situações, não falaríamos ainda do impacto na saúde mental e bem-estar. A mudança é possível. Podemos empoderar pessoas e comunidades para lidar com estes fenómenos. Podemos promover recursos individuais e comunitários, mesmo tudo fazendo para que estes fenómenos não se repitam.

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2100

Mais de 75 anos ou de 27.500 dias afastam este início de semana do dia em que chegaremos ao ano 2100. Será certamente um marco e foi o utilizado por António Guterres, secretário-geral das United Nations, para redigir uma carta pública destinada aos que se nos seguem, neste caso às e aos seus descentes.

Carta que partilho, neste início da última semana de Julho de 2024, trazendo e destacando o seu fim:

“O que fizeste para salvar o nosso planeta e o nosso futuro quando tiveste essa oportunidade?

Eu não desistirei de garantir que a minha geração responda a este apelo essencial.

Mobilizar-me-ei pela açção climática, pela justiça climática e por um Mundo melhor, mais pacífico e sustentável que tu e todas as gerações merecem.”

Mobilizemo-nos pelo que merecemos e pelo que quem se nos segue merece: um Mundo melhor.

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Planeta em mudança

A Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou uma extraordinária conversa entre Pedro Pinto e um inspirador historiador Peter Frankopan, gravada à dias em Lisboa para um episódio do podcast “Não é assim tão simples”.

Aconselho-a. Muito. É sobre um “planeta em mudança” e, como não podia deixar de ser, a conversa “dança” permanentemente com a crise climática que vivemos, mas, também, com a crise de confiança, os seus fundamentos e a forma como, globalmente, nos relacionamos, colaboramos e adaptamos. Como no fundo, como diz Frankopan, “recuando no tempo profundo, uma das razões para o sucesso foi sempre a resiliência” e como “continua a ser uma arma poderosa para combater os desafios actuais”.

Ouvi-los fez-me e faz-me:

a) Regressar a 2019 quando estive com o Peter Frankopan, em Oxford, na “Challenges of Government”, conferência à qual aportou uma reflexão impactante sobre o papel da população mais jovem, dos riscos que corre e da disrupção que historicamente trouxe. De Júlio César aos participantes nos Congressos Bolchevique de 1917 ou no que criou o Partido Nazi, terminando na contemporaneidade e nos impactos na sociedade de pessoas muito jovens a partir de Silicon Valley. Num pequeno texto que então escrevi refiro-me à forma como me fez reflectir sobre como “a norma social de comportamento das/os mais jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos” ou, acrescento, em torno da necessária (priorização da) transição climática;

b) Partilhar, convosco, o projecto “Battered Waters” da Anush Babajanyan, vencedora do prémio “Long-Term Project” do World Press Photo de 2023. A imagem que partilho é apenas uma de um trabalho amplo, diverso e profundo em torno da dificuldade de acesso a água na Ásia Central e da adaptação das populações e impacto nelas desta realidade.

c) E, finalmente, partilhar também um contributo científico onde colaborei enquanto representante da Ordem dos Psicólogos Portugueses no “Expert Reference Group for Psychology and Climate Change” da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), intitulado “Climate Crisis and the Human Factor: 10 Psychological Keys to Unlocking Climate Action”. Relatório onde encontram um conjunto específico de contribuições da psicologia, enquanto ciência e prática, para a tão desafiante e hercúlea, quanto relevante e urgente, transição climática.

Uma transição que implica resiliência, é certo, mas, também, capacidade de adaptação, de colaboração e relação. Que implica ciência e uma sociedade comprometida.

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Dia Mundial do Ambiente

9 em cada 10 Portuguesas/es entende a crise climática que vivemos como um problema muito sério para o Mundo. Foi este o enquadramento da produção do “Bom dia Portugal” (RTP) para a conversa que partilho, no Dia Mundial do Ambiente (5.6).

Mais, 1 em cada 5 entende mesmo que as alterações climáticas são o mais grave problema societal que enfrentamos, dados de um trabalho da Comissão Europeia que posicionam Portugal como um dos países da UE onde a preocupação é mais significativa.

Na entrevista começo por referir que os dados não serão alheios ao facto de uma grande percentagem de população viver na faixa litoral e ao impacto das alterações climáticas (aumento da temperatura, seca, etc.) têm em actividades económicas importantes para o país como a agricultura, as pescas ou o turismo. Não são também alheios às situações de catástrofe como inundações e, particularmente, aos incêndios rurais que, em conjunto, são factores de preocupação das pessoas com impacto na sua saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Continuo referindo que, além das perdas e da necessidade de adaptação, há também sentimentos de desesperança relativamente ao futuro – estamos a ficar sem algo e sentimo-nos impotentes para travar essa perda – que, por vezes, se manifestam em problemas comportamentais e de saúde mental, nomeadamente ansiedade (especialmente na população mais jovem), depressão e stresse, incluindo pós-traumático.

Procuro, também e sugerindo a leitura do documento “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (link abaixo), reforçar que a psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos de tomada de decisão, pode assumir um importante contributo:

  1. a) na compreensão do comportamento humano e no desenho de intervenções comportamentais e políticas públicas eficazes na mudança de comportamento e combate às alterações climáticas;
  2. b) na adaptação da população, nomeadamente na forma como se pode capacitar e promover competências e resiliência individual e comunitária face às alterações climáticas;
  3. c) na mitigação dos problemas com intervenção psicológica junto da população com problemas de saúde mental.

Termino reforçando o papel da agência nos desafios que atrás refiro. Sentirmos que estamos a fazer algo, a dar o nosso contributo, é, além de promotor da mudança individual e colectiva, um elemento protector da nossa saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Juntas e juntos, enquanto seres humanos e na relação com o ecossistema, enfrentamos já desafios muito significativos. Não deixemos de falar sobre a crise climática, no Dia Mundial do Ambiente e em todos os restantes dias do ano. Em casa. Na nossa comunidade. Façamos algo, por nós, pelas e pelos nossos, por quem se nos seguirá. Para que ultrapassemos mais este desafio.

Documento OPP – “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos”