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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta? (Podcast; Ouvi Dizer; ANEP)

“(R)Estabelecer confiança”. R é o símbolo matemático relativo aos números reais. António Guterres sabe-o, conforme sabe quão real é a urgência da crise climática que vivemos e quão fulcral é o (r)estabelecimento da confiança a que apelou no G20 que antecedeu a COP26. Restabelecimento que assume depender “de enfrentarmos as principais causas da desconfiança – injustiças, iniquidades e divisão geopolítica”.

A COP é a Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática resultante da ECO-92. A COP1 aconteceu em Berlim (1995) e, depois do Protocolo de Quioto (COP3) e do Acordo de Paris (COP21), a 26ª, adiada de 2020 para 2021, decorre em Glasgow. É momento de discussão dos ténues sinais positivos pós-1992 mas, principalmente, de como poderemos globalmente caminhar o longo e difícil caminho de preservação do planeta, com mudanças que possam em simultâneo promover o bem-estar e o combate às injustiças, iniquidades e divisões geopolíticas, amplificadas com a crise climática. Momento de construir uma resposta enérgica, global, positiva e confiável que não deixe ninguém para trás.

Creio feliz o termo partes. Países parte de um todo, o Mundo. Contributos de cada área científica e sociedade civil parte de um todo, a necessidade de decisões informadas pela ciência e encorajadas por uma ideia comum de futuro do Mundo. Partes das quais faz parte a ciência e a prática psicológica. Ciência que estuda a tomada de decisão, o comportamento e as suas causas e consequências. Profissão que – ao longo de todo o ciclo de vida e nos diversos contextos de vida – procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e de coesão social. Ciência e profissão que deve assumir papel central de contributo nesta crise.

Sobre este (nosso) papel e sobre esta (nossa) responsabilidade, conversei com a Adriana Soeiro Rosa e a Beatriz Sanguedo para o Podcast da ANEP “Ouvi Dizer” partindo do mote “Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta?” Conversa que partilho e onde discuti a forma como a psicologia contribui para a explicação e compreensão do fenómeno, para a sua prevenção e mitigação e para o apoio à preparação e adaptação das pessoas. Discuti, ainda, a relação entre a crise climática e a saúde psicológica (das questões associadas à incerteza e à ansiedade a este propósito até à importância das intervenções pós-catástrofes) e o nosso funcionamento, nomeadamente o papel dos enviesamentos na tomada de decisão. Também, o papel da percepção de risco, da comunicação e dos contributos da ciência psicológica no desenho de políticas públicas e implementação de projectos neste âmbito.

Se os seres humanos podem ser o principal inimigo podem, também, ser os principais protectores do nosso planeta. Unindo-se e actuando em Glasgow, em Sharm El Sheikh em 2022, a cada dia e em cada lugar hoje e no futuro. Unindo-se e actuando, não deixando ninguém para trás e promovendo bem-estar de todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Menos

“Passei centenas de vezes naquele portão preto (…) que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua. Nele brinquei e brincámos em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite (…) até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.”

“Menos”, 14º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) começa com esta minha recordação de infância e procura abordar a necessidade de juntarmos um terceiro “R” ao “Reciclar” e “Reutilizar”, o “Reduzir”. Não apenas reforça a sua evidente necessidade para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – aliás sublinhada pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – como, a propósito de uma recente afirmação de David Adjaye (“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”), procura afirmar que “há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais; que menos, será mais”.

Pelo meio, o artigo também aborda a possibilidade de “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir” poder “não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador” e desse menos ser um contributo na promoção da partilha e da coesão social e na prevenção da desigualdade e iniquidade. Para tal, precisaremos de “enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo”, nomeadamente sublinhando a inércia e alguns viés que conduzem a um “certo egoísmo” do ser humano, muitas vezes não consciente, que nos leva a manter determinados comportamentos e a centrarmo-nos mais em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos decisões.

Discute ainda a importância da mudança ser feita a partir de objectivos com significado e propósito individual e social e com as pessoas e não contra as pessoas, pelo que não apoiada apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior informação e literacia (consciencialização), que estimule um consumo mais consciente e a possibilidade da mudança incremental e sua avaliação progressiva. Finalmente, reflecte sobre a necessidade do envolvimento de todas e todos, do cidadão comum à decisora, do adulto mais velho às crianças nesta mudança, permitindo um olhar mais amplo sobre as possibilidade de criação de valor e de utilização sustentável dos recursos e sobre o presente, informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

 

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Dia da sobrecarga – 2021

A semana termina com a humanidade a já ter consumido a totalidade de recursos disponíveis no planeta para todo o ano. “Se tivéssemos necessidade de ser alertados da emergência climática e ecológica com que estamos confrontados, o dia da sobrecarga da terra encarrega-se disso” disse Susan Aitken, presidente da Câmara Municipal de Glasgow que regerá a COP26. Dia que, após chegar 3 semanas mais tarde em 2020, volta à sua preocupante e perigosa trajectória (29.12 1970; 04.11 1980; 11.10 1990; 23.9 2000; 7.8 2010; 29.07 2021). Em 2021 precisávamos de 1,7 planetas Terra para satisfazer as necessidades da população mundial, afirmou a ONG responsável pelo indicador que resulta do (des)equilíbrio entre a pegada ecológica da actividade humana e a “biocapacidade” do planeta.

Uma semana antes a TSF promoveu um Fórum (“O que devemos fazer perante as alteações climáticas? Agir é preciso.”) que, sucedâneo às graves inundações no Centro da Europa, nos confronta com o nosso papel na emergência climática. Já por aqui escrevi sobre isso no momento da organização com a APA de uma Summit que, sobre este tema, reuniu em Portugal organizações representativas de mais de 1 milhão de psicólogas e psicólogos de todo o Mundo.

Na minha participação no Fórum sublinhei a importância da literacia e saliência deste tema e da reflexão sobre os “incentivos” e “obstáculos” que se colocam à mudança, para que sobre uns e outros possamos agir, reduzindo os atritos para promover e facilitar as difíceis e exigentes mudanças – “tem que ser fácil reciclar, comprar produtos locais, movimentarmo-nos de bicicleta, utilizar menos plástico” e para isso devemos utilizar “incentivos, mobilizadores e normas sociais e até o papel que as crianças e jovens podem ter na mudança de comportamentos”.

Abordei também a forma como a saúde psicológica e identidade (social) condicionam a mudança e o impacto da crise climática na própria saúde psicológica, quer no que se refere às pessoas e comunidades que se confrontam com perdas, lutos e trauma resultantes de situações de catástrofe, quer da própria “eco-ansiedade”. Refiro, ainda, a necessidade e urgência de se trabalhar com as comunidades mais expostas a estes fenómenos, formas de organização e resposta a situações de crise e catástrofe, promovendo a resiliência individual e social.

Sabendo-se que “a informação pessoal, mais imediata, concreta e local é mais eficaz que as estatísticas globais (as cheias da Alemanha também são as do nosso Tejo; os incêndios dos EUA os nossos incêndios rurais)” devemos utilizá-la, promovendo um consumo mais consciente de recursos e o reforço da empatia com as comunidades que mais sofrem com esta grave crise, sempre tendo presente que devemos procurar mudanças com as pessoas e não contra as pessoas, pelo bem-estar e não contra o bem-estar. Mudanças para que precisemos apenas de 1 planeta, de 1 planeta com futuro.

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Emergência Climática Psicologia Tomada de Decisão

Evitar.

Evitar.

Harari defende que devemos conhecer a história não para prever o futuro mas para, com “a libertação do passado”, sermos mais capazes de “imaginar destinos alternativos”. Assume que isso, não significando “liberdade total” (por não podermos evitar a influência do passado) é, ainda assim, muito importante.

Evitar (ou não) o que existiu, existe e existirá ocupa-nos enquanto pessoas e sociedade bastando pensar hoje em Portugal a discussão do passado colonial, a COVID-19 ou a crise climática.

Sustein no seu último livro (Averting Catastrophe) debate uma potencial teoria da decisão para catástrofes a partir de contributos da ciência psicológica e dos conhecidos desconhecimentos e dos ainda desconhecidos desconhecimentos. Reflecte sobre o maximin e em que circunstâncias devemos procurar eliminar o pior dos piores cenários, o seu custo e como enviesamentos (ex optimismo) e heurísticas (disponibilidade) influenciam decisões, sempre partindo de que potencialmente não viveríamos (pessoas) ou decidiríamos (sociedade) se procurássemos, sempre, eliminar o pior dos piores cenários.

Como não podemos evitar a influência do passado, não podemos evitar a influência de como tomamos decisões no presente/futuro. Num e noutro caso reconheçamo-lo para imaginar e construir destinos alternativos.

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Behavioural Insights Comportamento Emergência Climática Psicologia

Dia L / Para uma Escola + sustentável – Contributos da Psicologia para a acção climática

Dezembro, 2012. A.Lanza, 20 anos, dispara vários tiros de várias armas entre a sua casa e a Escola primária de Sandy Hook matando 28 pessoas onde se incluem a sua mãe, alunos, a minha colega psicóloga da Escola (M. Sherlach) e ele próprio.

“Temos de nos coordenar e tomar medidas significativas para prevenir mais tragédias como esta, independentemente das questões políticas” diz Obama, num emocionado discurso, suscitando um debate profundo na sociedade Americana. Tocava-se no fundo. Nada podia ficar igual, a começar na legislação de uso e porte de arma, mas…

Dezembro,2019. Austrália ardia, tocava-se no fundo. Nada podia ficar igual, a começar nos combustíveis fósseis, mas…

Foi assim que na 5ªF – nas conferências do “Dia L/Para uma Escola + sustentável” da ES António Arroio e a convite da Luisa Mota – comecei uma conversa com alunos sobre contributos da Psicologia para a acção climática.

Sobre o porquê deste (poderoso) mas. Sobre contributos específicos na prevenção, mitigação, resposta aos problemas, crises e catástrofes, desenho de políticas e na promoção da mudança comportamental.

Deste dia, crê-se, surgirão projectos para acções concretas dos alunos no seio da comunidade escolar.

Deste dia trago um enorme encorajamento face ao futuro a partir da reflexão e visão destes jovens.

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Comportamento Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Speaking of Psychology; Episódio International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action


“Marcelo Rebelo de Sousa address the summit telling attendees they chosen the right subject to tackle first because of the global nature of climate change…”

Assim é introduzida – no último episódio do podcast Speaking of Psychology – parte do discurso do Presidente da República na International Summit on Psychology and Global Health. Episódio que recorda este significativo evento, organizado pela American Psychological Association e pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e que trouxe a Lisboa mais de 43 associações internacionais de Psicologia, representantes de mais de 1 milhão de psicólogas/os dos 5 continentes.

Nesta Summit,um pouco como aqui procurei demonstrar https://lnkd.in/gpSWkmw , discutiram-se formas de colaboração internacional, procurando-se,através de compromissos conjuntos e de cada associação,mobilizar a Psicologia e as/os psicólogas/os de todo o Mundo para o enormíssimo desafio societal e geracional que é a emergência climática. …

“Temos que ter uma resposta global. Nenhum país por si,nem mesmo uma superpotência,pode responder a este desafio”.

Ouve-se do Presidente da República. Para os países. Para as Associações de Psicologia.

Aqui: https://lnkd.in/gyM5vXS

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Behavioural Insights Comportamento Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Climate change and Psychology: Past, present and a better future (Moderação International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action)

Há uma semana começava em Lisboa a International Summit on Psychology and Global Health – A Leader in Climate Action, momento histórico para a Psicologia a nível mundial.

Da Summit, organizada pela APA e pela OPP resultaram uma proclamação e uma resolução conjunta (https://lnkd.in/g8xZNab), além de compromissos de cada uma das 42 Associações nacionais e internacionais de Psicologia, dos 5 continentes,para promover os contributos da Psicologia e das/os psicólogas/os na crise climática.

Além de ter tido a oportunidade de trabalhar na sua organização, moderei na sessão aberta a mesa “Climate change and Psychology: Past, present and a better future” onde intervieram os tão inspiradores quanto conhecedores Janet Swin e José Palma-Oliveira.

Como aí referi, se a Psicologia estuda há décadas o comportamento, as suas motivações e a tomada de decisão,é urgente (re)posicioná-la como ciência que informa e que é decisiva na decisão política e no desenho das políticas.

“Encorajados pela recente onda de preocupação” mas também por uma de optimismo, assumamos, psicólogas/os, a nossa responsabilidade, multipliquemos e apliquemos o nosso contributo neste enorme desafio societal.

Pelas pessoas. Por um mundo com futuro. Por um futuro com mais bem-estar e equidade para todas/os.

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Behavioural Insights Comportamento Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Emergência climática: O meu papel. O nosso papel.

“A vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.”

Recentemente li num artigo esta impactante frase de Gonçalo M. Tavares. Pensei, porque pensava vagamente nas questões associadas à emergência climática: A vida, exigente, implica uma resposta (certa, convicta) para a pergunta difícil (que temos de formular) – O que fazer face à emergência climática? O que fazer?

“Somos encorajados por uma recente onda de preocupação…”

Esta frase surge na conclusão uma recente publicação (BioScience Journal) assinada por uma aliança de mais de 11.000 cientistas de 153 países a propósito da comemoração dos 40 anos da primeira Conferência Mundial do Clima (Geneve, 1979). Este documento, além de expor dados concretos (muito além do inquietante facto dos últimos 5 anos terem sido os anos mais quentes de sempre no planeta desde que existem estas medições) que complementam os do IPCC (https://www.ipcc.ch), foca as declarações de emergência climática por todo o Mundo (o parlamento Português aprovou por unanimidade uma declaração nesse sentido em Julho) e um compromisso de apoio aos decisores para uma transição justa para um futuro mais sustentável e equitativo a partir de seis passos para travar a emergência climática que vivemos (aqui nas palavras de Thomas Newsome, um dos promotores: https://www.youtube.com/watch?v=ikmI4wx9MRE&feature=emb_logo).

Creio como decisivo este compromisso de apoio aos decisores. A crise climática é hoje uma preocupação central no Mundo. Segundo o Eurobarómetro de Setembro, 23% dos Europeus consideram-na como o problema “mais sério que o mundo vive” e 9 em cada 10 Portuguesas/es considera-o como um problema muito sério (8 em 10 na Europa) e apenas 1 em cada 100 diz não considerar que seja um problema (6 em cada 100 na Europa).

Eu sou um daqueles 9 Portugueses. E um Português, psicólogo.

Não raras vezes quando falo dos contributos da Psicologia nesta matéria, algumas pessoas reagem com alguma perplexidade e dúvida. É compreensível, pela dificuldade de percepcionar como ´tangíveis´ esses contributos. Tal já não sucede quando acrescento que se a Psicologia estuda o comportamento e as razões (causas, factores) que levam as pessoas a comportarem-se como se comportam (e a decidirem como decidem), então a Psicologia e as/os psicólogas/os são um recurso importante na promoção de mudanças comportamentais (e na tomada de decisão), fundamentais na mitigação deste problema. E julgo possível conceptualizar o seu papel a quatro níveis:

Na mitigação da emergência climática: Por exemplo, através de contributos para a promoção de mensagens e comportamentos pró-ambientais, visando alterações no comportamento dos indivíduos, grupos e comunidades, através da utilização do conhecimento relativo à identidade de espaço, coesão social ou normas sociais / “green nudges” (um exemplo concreto: a maioria das famílias diminui o consumo de água de uma factura para a factura seguinte apenas por lhe ser dado conhecimento na factura de que consomem mais X% de água face a uma família semelhante no seu bairro ou freguesia). Ou, demonstrando como a ciência psicológica tem feito e o psicólogo David Uzzell tem advogado, que a informação mais “pessoal, imediata, concreta e local” é mais eficaz do que factos e estatísticas mais globais. Ou ainda, procurando envolver os cidadãos numa dimensão de justiça para com as comunidades mais sensíveis, vulneráveis e muitas vezes minoritárias (nos seus países, mas também em todo o mundo) algo que a psicóloga Janet Swim muito tem defendido pelo impacto que produz nas alterações comportamentais (a maioria das pessoas é sensível a estas questões e o sentimento de (in)justiça conduz a processos de engagement para a mudança).

Na prevenção dos problemas associados à emergência climática: Além da má nutrição, doenças infecciosas e poluição, fenómenos climatéricos extremos, como fogos rurais, cheias, furacões ou secas prolongadas serão mais frequentes e impactarão no  bem-estar e na saúde psicológica dos cidadãos. A Psicologia e as/os psicólogas/os devem, portanto, envolver-se no planeamento e na concretização de acções preventivas neste âmbito, desenvolvendo iniciativas em comunidades de maior risco a partir da evidência científica existente que, entre outras, podem passar por programas de promoção do coping e da resiliência das populações, pela participação na preparação das comunidades para a resposta e adaptação a estes fenómenos ou pela participação na definição de planos de intervenção ou de gestão e redução do stress.

Na resposta aos problemas associados à emergência climática: Nomeadamente, com intervenção psicológica baseada na vasta evidência científica, em situações como as migrações, os problemas de saúde mental associados a este tipo de fenómenos, desde os mais comuns – stress, a ansiedade e depressão – aos mais complexos – por exemplo, a perturbação de stress pós-traumático. Em todos eles um denominador comum, intervenções mais próximas e imediatas ao problema (por exemplo os primeiros socorros psicológicos), também por mais curtas mas eficazes, demonstram-se claramente custo-efectivas, poupando recursos e sofrimento, pois previnem o desenvolvimento de perturbações nos meses e anos subsequentes aos acontecimentos.

Na participação e no contributo para o desenho de políticas: Quer elas sejas centradas nas alterações comportamentais ou nas recompensas (ou penalizações) a atribuir aos cidadãos e organizações face a alguns comportamentos (por exemplo, produção de resíduos comuns Vs recicláveis), utilizando os inputs do conhecimento e da ciência psicológica sobre o comportamento, pensamento (e consequentes enviesamentos) e sentimentos associados a este tema dos cidadãos, dos cidadãos líderes de organizações e dos cidadãos decisores.

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É, no entanto, ainda comum as campanhas que vemos a este respeito parecerem privilegiar o ambiente face às pessoas, que parecem surgir em segundo lugar e o seu bem-estar e felicidade ter necessariamente de ser sacrificado em prol do ambiente. Ora, é hoje claro que as narrativas mais eficazes são em torno dos ganhos e não das perdas, pelo que são tão relevantes projectos como o da Ayr, uma ferramenta de mobilidade sustentável desenvolvida por uma empresa Portuguesa sedeada em Matosinhos (CEiiA)  e agora disponibilizada na cidade de Nova Iorque. Esta tecnologia permite, com facilidade para a/o utilizador/a, “medir” (a não produção / emissão de CO2) e “recompensar” (atribuir um valor, por exemplo para utilizar noutras viagens ou serviços) a opção por deslocações “menos poluentes” na cidade, salientando os aspectos positivos desta opção e incentivando-a. Reforçando-a.

“The global is also local, the global is here.”

Afirmou David Uzzell no Dia da Psicologia nas Instituições Europeias, uma iniciativa realizada em Janeiro de 2019 e promovida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) com o apoio da ex-Eurodeputada Sofia Ribeiro, para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os face aos grandes desafios societais – migrações, crise climática, emprego e bem-estar e saúde mental.

“O global é também local”. Porque as cheias de Veneza, são e serão também as cheias do Rio Tejo. Porque os incêndios da Austrália, são e serão também, os nossos incêndios rurais. Porque um furação como o Dorian, poderá passar no futuro em Portugal, conforme o Lorenzo passou recentemente na região autónoma dos Açores. Por isto e porque…

“O global é aqui”. Em Lisboa, a partir de hoje e até Sábado, na International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action. Esta cimeira resulta – literalmente – de anos de maturação de uma ideia conjunta da OPP com a American Psychological Association (em particular nas pessoas da Amanda Clinton e Arthur Evans) em torno de ´como criar condições para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os nos principais desafios societais num contexto transnacional (para problemas complexos e globais, uma visão global da Psicologia)´, tendo resultado nesta organização conjunta da OPP com a APA que permite a reunião de representantes de 43 associações nacionais, transnacionais e federações que representam – literalmente – milhões de psicólogas/os dos cinco continentes para discutir contributos globais da Psicologia e das/os psicólogas/os para esta área.

Porque consideramos essencial um (re)posicionar à escola global da Psicologia enquanto ciência que informa e é determinante na decisão política e no desenho de políticas que localmente tenham em consideração as pessoas, grupos e comunidades e as envolvam, trabalhar-se-á num modelo para a integração dos contributos de todas as entidades presentes, em forma de três produtos: uma proclamação (já fechada); uma resolução final (já em draft) e um white paper final que reunirá os contributos de todas as organizações a entregar às Nações Unidas. Nesta edição em torno da crise climática. Noutras, se existirem outras, relativamente a “outras crises”, que aí estão e, certamente, aí virão.

São pequenos estes meus e nossos passos, é certo. Mas são passos. E contributos. Juntemo-los aos demais.

Sejamos “encorajados” por uma “onda de preocupação”. 

Sejamos “encorajados” por uma outra “onda” mas de optimismo.

Meu. Nosso.