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Ainda o ECP2022

Stephen Reicher. Conheci-o a propósito do estudo das massas (dos grupos). Ouvi-o, por estes dias, pensar a liderança e o comportamento. Como influenciam organizações e governos, a gestão de crises (COVID-19 ou a climática). De como são fundamentais ao contínuo paz-guerra. Recentemente participou num trabalho que resultou num artigo que apresenta em cinco “R”, cinco prioridades das políticas relacionadas com a liderança identitária”: Readying [preparação]; Reflecting [reflexão]; Representanting [representação]; Realizing [realização]; e Reinforcing [reforço]. Além de neles me rever, no dever e na responsabilidade que assumi enquanto coordenador do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), creio 5 “R” farol para o trabalho de contributo de uma associação profissional para os desafios societais que enfrentamos.

Isso discutimos no simpósio que coordenei no European Congress of Psychology 2023 (Human Behavior and Decision Making – Psychology’s Role in Adressing Climate Crisis | Comportamento Humano e Tomada de Decisão – O papel da Psicologia na Crise Climática), onde, também, partindo da defesa da necessidade de caminharmos da pergunta “O que pode a Psicologia contribuir?” para “Como poderíamos enfrentar a crise climática sem o contributo da Psicologia enquanto ciência e profissão?”, apresentei o percurso da OPP nesta área, junto da profissão, da sociedade civil e das decisoras e decisores.

Reforcei também o nosso comprometimento com a Global Psychology Alliance, resultante da Summit que co-organizamos com a American Psychological Association em 2019, e com a EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), onde integro um Grupo de Trabalho. No simpósio, a Amanda Clinton, Ph.D. e a Nicola Gale, respetivamente, apresentaram o trabalho da APA e da EFPA e a Valeriia Palii (Ucrânia) e a Moanna Waitoki (Nova Zelândia), presidentes das respectivas associações nacionais, o trabalho desenvolvido nestes países.

Mas discuti-o também na comunicação (Dealing With a Pandemic in XXI Century – OPP Role and Contributions in COVID-19 Crisis | Lidar com uma pandemia no século XXI – O papel e os contributos da OPP na crise COVID-19]), reflexão da acção da OPP em 2 anos de pandemia. Entre outros, destaquei os contributos na formação e nos documentos orientadores da prática, na literacia, no apoio à criação do serviço de aconselhamento psicológico e da advocacia para a criação e apoio à Task Force das Ciências Comportamentais, coordenada pela Margarida Gaspar de Matos (ali representada pelo Osvaldo Santos), bem como o contributo para a rede de microinfluenciadores da Direção-Geral da Saúde (ali representada pelo Miguel Arriaga).

Momentos que nos recordam que os complexos desafios societais não têm fronteiras, que necessitamos de uma Psicologia com identidade, elevados padrões éticos, globalmente forte e que os psicólogos e psicólogas portuguesas têm tido (e devem continuar a ter) um relevante e reconhecido contributo para tal.

 

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European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo (Ao redor…; Sábado; 21.06.2022)

“Um muro de Berlim no centro de Oslo”. Foi esta a forte metáfora que uma Associação de Comerciantes de Oslo usou para descrever um conjunto de pilaretes utilizados num projecto piloto que experimentou – com o sucesso que hoje todas e todos reconhecem – limitar as deslocações automóveis no centro da cidade, tornando maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. Não há muitos anos, a economicamente vibrante cidade de Oslo, frequentemente considerada uma das melhores cidades do Mundo para viver, visitar ou trabalhar, com uma rede de transportes integrada modelo para diversas cidades no Mundo, discutia, nestes termos, mudanças associadas à organização do seu espaço público.

Talvez este debate, relativo a Oslo, surpreenda algumas pessoas. Surpreenda na exacta medida em que não surpreende que cá, relativamente às cidades portuguesas, discutamos nestes termos. Isto porque, racionalmente, associamos os diferentes níveis de surpresa à distinção que estabelecemos entre as condições de Oslo e as das cidades portuguesas para esta transição. Racionalmente, assim é. Mas, creio relevante, particularmente para decisoras e decisores, que se tenha sempre presente que mudar é difícil. Muito difícil. Que vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.

Algumas e alguns de nós recordamos ou já vimos imagens da Avenida dos Aliados no Porto, do Terreiro do Paço em Lisboa ou da Praça do Giraldo em Évora quando ainda eram essencialmente ou, pelo menos, também utilizadas como parque de estacionamento / praças de táxis. Qualquer um dos três espaços mudou, significativamente, mas não sem resistência, não sem metáforas ou premonições sobre a perda de dinamismo e de pessoas que implicaria. Premonições, grosso modo, não cumpridas. Ao contrário, cumpriu-se o habitual hindsight bias (viés da retrospectiva), ou seja, depois da mudança ter acontecido, foi sentida como mais provável e possível face às questões que levantou antes de experimentada ou concretizada, parecendo-nos hoje absolutamente natural que a mudança tenha acontecido e o que estranhamos é como foi possível ter sido de outra forma no passado. Isto aplica-se à utilização de emblemáticas praças portuguesas como parques de estacionamento ou ao facto de ter sido, e hoje não ser possível, fumar num autocarro, num avião ou num restaurante.

Aplica-se, portanto, à mudança. Mesmo quando a mudança, críticas e receios à parte, se insere na necessidade de respondermos a desafios societais complexos (como a crise climática ou crises de saúde pública), nos aporta bem-estar e não confirma premonições de perdas económicas ou outras invariavelmente evocadas. Aplica-se, por exemplo, a como desenhamos as cidades, como respondemos às necessidades e expectativas das pessoas e como aproveitamos oportunidades que existem para melhorarmos a qualidade de vida com intervenções que estimulem, incentivem e mitiguem obstáculos a mudanças comportamentais e à adopção de comportamentos e estilos de vida mais saudáveis e mais conectados com os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Se hoje, múltiplas cidades portuguesas têm as suas Rua do Alecrim como Lisboa – ruas centrais onde, apesar de uma pequena minoria de pessoas se deslocar em viatura própria, cerca de dois terços do seu espaço público é dedicado a veículos automóveis (neste caso, duas faixas mais uma terceira para estacionamento) e onde intervenções urbanísticas poderiam com sucesso promover mudanças comportamentais no sentido do atrás referido – amanhã mais e mais oportunidades existirão. As Nações Unidas estimam que em 2050 68% da população mundial habitará em zonas urbanas (50% mais face a 2016), apesar destas corresponderem a apenas 3% do espaço do planeta. Também por isso, as cidades serão cada vez mais a expressão micro (contextualizada, territorializada, personificada) dos problemas macro (globais e complexos), sendo, portanto, contextos privilegiados para as intervenções e para que soluções globais sejam aplicadas e adaptadas localmente. As cidades serão espaço de experimentação, de inovação, de transição e estímulo à mudança no Mundo.

Precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor. Olhando o exemplo da mobilidade – particularmente quando na Europa e nos Estados Unidos da América cerca de 50% das viagens motorizadas distam menos de 4km e em Portugal temos o clima que conhecemos – precisamos de cidades que permitam mais escolhas equilibradas de transporte, que privilegiem, na medida do possível, a mobilidade ligeira, segurança para se caminhar a cidade, para se circular em bicicleta e para se viver o espaço público. Precisamos e podemos ter cidades em que, ao contrário de nos fazerem adoecer e morrer precocemente pela sua poluição (segundo a Agência Europeia do Ambiente, ainda que tenhamos melhorado nos últimos anos, em 2019 foram mais de 300.000 as mortes prematuras na Europa atribuíveis à poluição atmosférica), incentivem e promovam o bem-estar, a relação com o que nos rodeia (pessoas e meio ambiente) e a nossa pertença. Cidades que respondam, pelo seu desenho, à necessidade de se assumirem como restaurativas, promovendo a conexão das pessoas com a natureza e com os seus espaços verdes/azuis enquanto factor protector e mitigando a discrepância de problemas de saúde mental hoje existente em espaços urbanos face a espaços rurais. Cidades, portanto, que, pelo seu exemplo, mostrem possível, desejável e liderem a mudança no Mundo.

Este caminho será tão mais possível e tão mais bem-sucedido quanto mais pessoas e entidades da cidade se fizerem ouvir, se envolvam e se mobilizem na discussão e construção da mudança. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais for pilotado, testado, ajustado quando necessário, e abandonadas as más soluções e escaladas as boas soluções. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais o planeamento e a decisão política integrem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais consigamos estimular e facilitar as mudanças necessárias e não as obstaculizar. Quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, exemplos como o da cidade de Oslo permitem-nos aspirar a cidades e a um Mundo melhor. Oslo, além de soluções mais integradas de mobilidade, tem hoje um orçamento associado ao consumo de dióxido de carbono, gerido nos exactos termos do orçamento monetário anual da cidade. E, quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá, como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-nas-cidades-para-mudar-no-mundo

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Tomada de Decisão

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.

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10.03.2020… 10.03.2022

10.3.2020. Há 2 anos, António Costa admitia a possibilidade do encerramento das Escolas. Tínhamos (apenas) 41 casos confirmados no país de infecção por COVID-19 mas preparávamos o que inevitavelmente viria. Neste dia foi, também, anunciada a suspensão de todos os voos de e para Itália.

Nestes 2 anos muitas e muitos de nós certamente reconsideraram, alteraram, cancelaram viagens dentro e fora do país, fossem de lazer, convívio com familiares/amigos ou de trabalho. Muitas e muitos trabalharam dias, semanas, meses a partir das suas casas. A pandemia COVID-19 foi altamente disruptiva de um certo funcionamento social de sociedades por todo o Mundo e numa Europa muito conectada. Se assim foi com uma pandemia, imaginemos, por um momento, a disrupção provocada por uma invasão ilegítima de um país. A disrupção provocada por uma guerra.

Estaria (estarei?) em Julho com uma colega psicóloga num congresso e simpósio onde discutiríamos contributos da psicologia para a crise climática. Hoje ela está numa Kyiv naturalmente interrompida, corajosa e inspiradoramente procurando, em condições inimagináveis, disponibilizar o apoio psicológico possível a uma população que desesperadamente necessita, não apenas dele, mas de Paz, de autodeterminação e de ver os seus Direitos Humanos cumpridos. A guerra tudo interrompe, sabemos e sentimos a partir do que vemos, ouvimos e conhecemos. Mais, a guerra e os seus efeitos não terminam no dia em que termina a guerra. A ausência de guerra está, não raras vezes, muito distante da Paz e esta guerra é um incidente brutal com “ondas de choque” que durarão anos e atingirão todas as pessoas, de forma diferente é certo, mas todas as pessoas. Mas…

Desengane-se quem acha que sozinho não vai a lado nenhum…”, diz-nos a Catarina Mota, activista portuguesa que com outras/os 5 jovens entregou uma acção no TEDH contra um conjunto de governos a propósito da sua “inacção nas questões referentes à crise climática”. Foi directora do PÚBLICO no seu 32º aniversário numa edição dedicada à crise climática na qual participei num trabalho da Mariana Durães (que partilho) acerca da inquietação/ansiedade face à crise climática, particularmente em crianças e jovens e dos contributos da psicologia (dias antes havia gravado o podcast Compromisso Verde com a Cristina Nascimento da Radio Renascenca sobre este tema que também partilho).

“…Porque é com pequenos passos que se começa. Com pequenos passos, quem sabe, influenciamos a nossa família, os nossos vizinhos, os nossos colegas, e juntamo-los, eles e muitos mais, a esta luta contra as alterações climáticas, para que o mundo continue a ser uma casa habitável.” Desenganemo-nos, também, na construção da Paz. Porque é com pequenos passos que se começa e é responsabilidade de todas e todos, em qualquer momento e lugar do Mundo, a co-construir. Sempre.

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Ao redor... (Revista Sábado) Emergência Climática Psicologia

COP365 (Ao redor…; Sábado; 17.11.2021)

Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional.

Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído.

Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da “International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action” (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana – cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos “combater as alterações climáticas”, não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow.

A crise climática, além de interrelacionada, teve, tem e terá um papel cada vez mais central noutras crises como a pobreza e exclusão, a desigualdade, a demografia e as migrações, ou o trabalho e bem-estar, algo que acrescenta complexidade a um problema já muito complexo e risco para a coesão social, para a confiança nas pessoas e instituições, para a democracia conforme a conhecemos, e para a paz. É que, como tão bem reflecte Daniel Innerarity, a não resposta aos problemas complexos é uma oportunidade para o crescimento dos populismos, não porque respondam aos problemas, antes porque se substituem à necessidade de resposta, instigando ódios, dúvidas e crescendo na e com a insegurança e a incerteza através de propostas simplistas, salvíficas e não raras vezes pseudocientíficas. Um caminho que já vimos percorrido no passado e do qual temos sinais recentes que nos devem mobilizar para fazermos deste momento ponto de inflexão em favor das pessoas e do planeta.

Há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática e, pelo efeito atrás descrito, noutras crises e desafios societais complexos. Tal depende de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão. Depende, também, de melhorarmos os processos negociais, abandonando proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam (imaginemo-nos em 1971 a traçar metas sobre a implementação da rede 5G no Mundo ou de redução de emissões para 2021), concentrando-nos, antes, em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis e procurando aprofundar os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Depende, portanto, de lideranças globais, inspiradoras e com visão. Do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais. Do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum. Depende, finalmente, de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana.

Bem sei e sabemos que Glasgow, nos últimos dias, está longe de representar a totalidade da população. Ali se concentraram activistas, membros de organizações não governamentais, cientistas e investigadoras/es, jornalistas e decisoras/es com trabalho, interesse ou responsabilidade nesta área. Era, nesse sentido, uma Glasgow com viés, mas por todas e todos sentida como uma Glasgow diferente de uma Madrid em 2019 (COP25) também com viés, ou de Katowice (COP24), Bonn (COP23), Marraquexe (COP22) ou mesmo Paris (21) onde se conseguiu um acordo importantíssimo. Como, apesar de tudo, creio que sentiremos diferentes as próximas COP, já a do próximo ano em Sharm el-Sheikh, apesar da polémica envolta na escolha do Egipto para a sua organização, e depois na previsivelmente não menos polémica COP28 nos Emiratos Árabes Unidos. Viés à parte, assiste-se a uma onda de mudança que tende a envolver mais e mais pessoas, não apenas porque já fortemente impactadas (cada vez mais) pela crise climática, mas porque cada vez mais despertas e cada vez mais envolvidas num processo e estímulo à mudança, com a energia de novas e zangadas (como Obama definiu), mas principalmente mobilizadas, gerações a pressionar decisoras/es e empresas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não contra, mas com as pessoas, envolvidas em acções com propósito e significado para as suas realidades e necessidades, aproveitemos esta onda de mobilização para fazer a COP e a mudança 365 dias por ano, na nossa rua, no nosso país, no nosso Mundo. Aproveitemos esta onda de mobilização para a mudança e seremos recompensadas e recompensados com inovação, com novas formas de vivência, relacionamento e trabalho, com novas formas de interacção com os lugares e territórios, com novas oportunidades de emprego, de bem-estar e de equidade. Com o reforço da confiança nas pessoas e nas instituições, protegendo a paz e a democracia e globalizando o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 17.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cop365

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Cidades Verdes…

A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.

Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.

No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.

Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.

Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.

Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.

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COP365

Nos últimos dias notícias abordaram a possibilidade de um “confinamento total” da cidade de Deli e um número de mortes em 2019 de cerca de 6mil em Portugal e 307mil na UE. Motivo? O mesmo e – por estes dias, por associar “mortes” e “confinamentos” – contraintuitivo: poluição atmosférica.

Sem pretensão de pensar o Mundo, a sociedade e os seus desafios daqui a 339 anos (numa potencial COP365), o que hoje sabemos, sentimos e o que nos rodeia deve impelir-nos a transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano.

“COP365”, 20º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a necessidade de abandonarmos “proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam” e de nos concentrarmos “em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis”, aprofundando os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Também sobre como “há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática” (e noutras crises/desafios societais) e de como isso depende “de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão”.

Como depende “do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais”. Ou “do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum e de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana”.

Em Glasgow “senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas – cresce uma onda de reconhecimento do problema, suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança” e que aproveitar esta onda resultará numa recompensa em inovação, novas formas de vivência, relacionamento, trabalho e interacção com os territórios, novas oportunidades de emprego, bem-estar e de equidade”. Garantiremos (mais) confiança, coesão e paz. Protegeremos a democracia e contribuiremos para globalizar o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

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Desafios da Psicologia Emergência Climática

COP26

 

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

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Reversibilidade – Psicologia e Crise Climática

“Aquela música faz-me sentir…”

Estou certo que por vezes associa uma música (banda; tipo de música) a um estado emocional. Ouvimo-la e… Ou sentimos e ouvimo-la? Com alguma simplicidade, podemos enquadrar nesta questão a reversibilidade enquanto possibilidade de olhar dois polos opostos: ouvimos aquela música e ela faz-nos sentir tranquilas e tranquilos ou estamos tranquilas e tranquilos e procuramos aquela música? A reversibilidade, num Mundo de questões complexas, é, enquanto competência e no seu simbólico, algo fundamental que deve ser preservado e estimulado numa perspectiva de procura de (mais) caminhos, contributos e soluções ao invés de afunilarmos em visões únicas e sem alternativa.

Por estes dias, e pelo que tem também sido a minha reflexão sobre a questão da crise climática, tenho pensado bastante na reversibilidade. E, de certa forma, por ela comecei (e continuei) uma participação que partilho no programa Esta Manhã da TVI onde conversei com Iva Domingues sobre psicologia e crise climática. 

É que – sendo a psicologia a ciência que estuda o comportamento (causas,  consequências, mudança) e tomada de decisão e a profissão que, ao longo de todo o ciclo e nos diversos contextos de vida, procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e coesão social – quando me perguntam como está ligada à crise climática o meu pensamento vai no sentido de responder como poderia a psicologia não estar ligada a uma crise como a climática se: 1) para a compreendermos e explicarmos precisamos de compreender como as pessoas se comportam e tomam decisões? 2) para a prevenirmos e mitigarmos te(re)mos que mudar a forma como viajamos, comemos, produzimos, consumimos, partilhamos, trabalhamos ou utilizamos os recursos à nossa volta? 3) para nos adaptarmos ao futuro e às mudanças precisa(re)mos de desenvolver resiliência nas pessoas e comunidades, responder à incerteza, à ansiedade, às iniquidades e outros desafios (como as migrações) que trará? 4) precisa(re)mos da intervenção das psicólogas e dos psicólogos no apoio psicológico e suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes mais frequentes e intensas nas próximas décadas? 5) o seu conhecimento é fundamental ao desenho de políticas públicas neste âmbito, à acção na percepção de risco e à comunicação com pessoas e comunidades?

Mais, reversibilidade para não cairmos em inevitabilidades que redundam em inacção e para, apelando à urgência da mudança, não esquecermos os (ainda que ténues) sinais positivos à nossa volta (como dela se falar às 07.50h na TVI). Para não fazer a mudança contra as pessoas, mas com as pessoas. Para lembrarmos que na mudança não há apenas perda de qualidade de vida e que ela pode (co)existir com bem-estar.

A crise climática é um problema social complexo que precisa de uma resposta social, motivada pelas pessoas e comunidades. Uma resposta que não pode deixar ninguém para trás para ser bem-sucedida. Que só pode ser bem-sucedida.