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Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Política

Antecipar o futuro da alimentação e o seu papel na comunidade

Com a generalização de canais de notícias (24 horas), assistimos a um aumento exponencial dos tempos de diretos e de comentário político/social, duas “modalidades” óptimas para nos “vermos” enquanto seres humanos. Da capacidade de interpretar e “julgar” sem informação e contexto, dos diretos, à demonstração de uma curiosa característica humana: somos os únicos seres vivos que sabemos que morreremos (e nisso estamos certos) mas somos, simultaneamente, muito maus a prever o futuro (veja-se, a partir do artigo que partilho, como os estudos de P. Tetlock demonstram como grupos de especialistas acertam sobre o futuro menos do que o acaso – alguém que atirasse uma moeda ao ar e escolhesse com base nisso, acertaria mais que eles).

 

Assim sendo, num Mundo de instabilidade e incerteza, mais do que prever, deveríamos procurar antecipar o futuro e, consequentemente, participar na sua co-construção.

 

Como ? Vejamos um exemplo que me é significativo e que cruza comunidade e alimentação. Há já uns meses Pedro Adão e Silva refletiu sobre a “privatização das práticas sociais associada à alimentação”, encontrada, entre outros, num estudo de Vasco Ramos (“menos 28% de refeições partilhadas em casa de família e amigos, menos 27% de visitas para comer em casa de outros e menos 21% de celebrações fora de casa”). Dados que demonstram “o declínio das formas tradicionais de sociabilidade, muito alimentadas na mesa partilhada” e, certamente, associam-se à “erosão da esfera pública”, “intimização da sociedade” (expressão de R. Sennett) e, acrescento eu, um risco para o sentido de comunidade e para a coesão social.

 

Aqui reside o duplo valor de anteciparmos o futuro da alimentação. O próprio, do acesso e escolhas, pela importância e ligação a desafios pessoais e societais. O resultante da relação com o processo de construção de laços e de comunidade.

 

Podemos fazê-lo através do triângulo dos futuros (S. Inayatullah) e da tensão entre a pressão do presente (as tendências de hoje), o “push” do futuro (as suas imagens e promessas) e o peso da história (os hábitos, culturas e estruturas que “resistem” à mudança). Se o pensarmos assim, e se verificarmos que o peso da história, neste caso, não está a resistir à pressão do presente, creio que participarmos na co-construção deste futuro implica que criemos (e partilhemos) uma visão de futuro em que a alimentação é central no bem-estar individual e social, no desenvolvimento (particularmente na primeira infância) e equidade e está fortemente conectada e enraizada no território e comunidade e se assume pilar da coesão social.

 

Melina Shannon-DiPietro, com esperança, vê sinais de que é possível nas “novas colaborações entre agricultores, cozinheiros, cientistas e comunidades — da agricultura regenerativa à redução do desperdício, [da sazonalidade] até ao redescobrir do prazer de comer bem, em conjunto”.

 

Eu e nós (Fundação Mendes Gonçalves) para isso procura(re)mos contribuir. Eu, nos próximos dias, partilharei sempre a mesa.

 

……

. “Os comentadores famosos acertam menos do que um chimpanzé” | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2023/12/01/ciencia/noticia/comentadores-famosos-acertam-menos-chimpanze-2071688

. “Diz-me o que comes, dir-te-ei que sociedade és” | Pedro Adão e Silva | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2025/10/16/opiniao/opiniao/dizme-comes-dirteei-sociedade-es-2151079

. “Dario World”| Toke Hangøj | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/dario-world/

“Radical Hospitality” | Casper Skovgaard Petersen (entrevista a Melina Shannon-DiPietro) | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/radical-hospitality/

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FMG Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade

10 Km e a filantropia de proximidade

Quando, a viajar, estou num lugar que conheço menos bem, podendo, procuro correr nele, juntando gostos: esse, correr; esse, viajar, também correndo por ruas, dinâmicas e sensações diferentes, cruzando-me com outras pessoas nas suas atividades quotidianas.

Há alguns anos estive em Goldsmiths, uma Faculdade da University of London onde se lecciona/investiga psicologia. Fiquei lá próximo (New Cross) e numa manhã corri até ao Hyde Park. Corri de um lugar onde a esperança média de vida saudável para os homens é de 57,8 anos até outro onde é 67,7 anos (dados de 2025). Cerca de 10km, numa das principais capitais e cidades do Mundo, 10 anos de diferença.

“Envelhecer é uma experiência muito diferente para pessoas diferentes. Onde vivemos ou quanto dinheiro ganhamos são fatores importantes e moldam a nossa saúde quando somos mais velhos”. Di-lo Sarah Wilkinson, num relatório do Centre for Ageing Better, que afirma “que a esperança de vida saudável caiu para os níveis mais baixos no UK desde que os registos começaram há 15 anos, enquanto a diferença entre diferentes comunidades locais também atingiu os valores mais elevados de sempre nos homens.”

Outros ângulos haveria – a participação, resiliência, democracia, o bem-estar – mas trago este exemplo para que pensemos na relevância de trabalharmos com e a partir da comunidade, procurando respostas para os desafios (e oportunidades) específicos com que cada uma se confronta. Vem isto a propósito da oportunidade que tive de trazer esta dimensão de contributo para uma conversa sobre a importância dos dados no reimaginar da filantropia.

A convite da Rede Capital Social (obrigado!), com moderação da Inês Sequeira (muito obrigado!) comentei este tema com pessoas muito importantes para mim: o Ricardo Garcia, que tem sido um apoio e estímulo constante nestas minhas funções; o Pedro Calado, por quem nutro uma enorme admiração e que – como tive oportunidade de explicar – é responsável em grande medida pelo caminho profissional que percorri.

Comentei-o a partir da experiência da nossa Fundação Mendes Gonçalves e de como sentimos que o reimaginar da filantropia também pode decorrer de a aproximarmos (na participação, nas propostas/respostas e na relação) das pessoas, comunidades e de processos de co-construção e responsabilização. Como os dados ganham nome, história, experiências e como se pode construir em comunidade confiança para a entidade e para o sector.

Falei, também, de bem-estar e da população mais jovem e sua participação, mas a isso voltarei em breve. Hoje queria sublinhar a necessidade de colaborarmos para construir comunidade e para criar lugares mais resilientes e com mais oportunidades de bem-estar e futuro para todos. Queria sublinhar o papel que as Fundações Comunitárias e uma filantropia de proximidade podem nisso, e no aumento da confiança no sector, assumir e, simultaneamente, dizer que espero que quem me e nos ouviu possa tê-lo levado conseguido enquanto reimaginção possível da filantropia.

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Educação Filantropia Pobreza e Desigualdade

Ainda os 1000 dias e as oportunidades que se abrem…

Quem por aqui me vai lendo sabe a importância que atribuo aos primeiros 1000 dias e à relevância da estimulação/educação de qualidade no período dos 0 aos 3 anos. A par da possibilidade de relações e vinculações seguras com as figuras parentais e/ou cuidadoras/es e de uma nutrição de qualidade, será um dos investimentos mais efetivos que a sociedade pode fazer, considerando a sua custo-efetividade, o impacto positivo na vida de bebés/crianças e suas perspetivas futuras e como combate a desigualdade e injustiça social e promove a equidade.

Este investimento depende da maior consciência da sociedade da importância deste período, algo que beneficia de mais discussão pública, a par da cada vez mais clara e robusta evidência científica em torno do desenvolvimento do cérebro do bebé e das suas capacidades desde o período intrauterino (gravidez) até aos 2 anos (os tais 1000 dias).

Há portanto que criar oportunidades e aproveitar as que finalmente se abrem em Portugal em áreas para as quais a Fundação Mendes Gonçalves tem também procurado contribuir, a partir através dos programas Educar e Nutrir:

a) Utilizar, efetivamente, as “Orientações pedagógicas para creche” (publicadas há já 2 anos) para estimular junto das creches, um repensar de práticas e intencionalizar a promoção de uma estimulação e educação de qualidade, a partir de mais e mais efetiva formação das/os profissionais, da partilha de práticas e da criação de comunidades que aproximem diferentes instituições;

b) Advogar para que, conforme as orientações pedagógicas, as creches (como acontece noutros ciclos) possuam orientações claras sobre as refeições – e seus momentos e espaços – algo essencial à formação das primeiras relações com os alimentos e importante na promoção precoce de comportamentos alimentares saudáveis e sustentáveis;

c) Finalmente, e porque sabemos que por diversas razões (por indisponibilidade de vagas; viverem em pequenas freguesias/lugares ou apenas por preferência das/os cuidadores) muitos bebés/crianças não frequentam a creche, usarmos do recente debate de projetos de Lei, da aprovação de um projeto de resolução (n.º 673/XVII/1.ª) e da criação pelo Governo de um grupo de trabalho para “re-olharmos” a resposta das Amas e garantirmos mais qualificação e formação inicial e contínua e melhor enquadramento, acompanhamento e partilha de práticas, visando a promoção de práticas com mais efetividade e qualidade.

A Fundação Mendes Gonçalves tem procurado dar contributos nestas áreas, participando e incentivando debates públicos, redes de colaboração e desenvolvendo ou prevendo projetos como a Escola Mendes Gonçalves e o seu Centro de Formação Profissional dedicado ao período 0-3 anos, o “Ambientes que Nutrem” ou o “Cuidar em Rede”, projeto em que apoiamos a formação, formalização e acompanhamento de um conjunto de Amas no concelho da Golegã e região ao redor.

Contem, portanto, connosco.

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Educação FMG Pobreza e Desigualdade Política

1000 dias, investigação e equidade

“[Um desafio] é o bebé precisar de estar confortavelmente deitado no aparelho de ressonância magnética funcional acordado e sem se mexer”, disse ao Público uma investigadora, a propósito de um novo estudo com imagens da atividade do cerébro de bebés. Estudo que permite compreender que bebés pequenos (2 a 4 meses) “vêem o Mundo de forma mais complexa do que se imaginava” tendo já “capacidade de agrupar categorias – distinguir entre imagens de seres vivos e objectos – aos 2 meses”. Um passo importante para “ligar este tipo de imagem cerebral aos resultados cognitivos mais tarde na vida”.
Para tal e para crescermos em evidência e, espero, em sobressalto público e responsividade das/os decisoras/es e das políticas públicas à importância de cuidarmos os primeiros 1000 dias de vida, enquanto período fundamental de desenvolvimento e de promoção da equidade pelo cuidado, conforto e segurança, física e emocional do bebé, mas também pela educação e nutrição de qualidade.
Temos (Fundação Mendes Gonçalves) insistido no tema e na necessidade (de certa forma urgência), não raras vezes desconsiderada em função da necessidade (premente é certo) do mero reforço da oferta e da ausência de uma visão para as instituições educativas dos 0-3 anos voltada para uma estimulação e educação de qualidade. E temo-lo feito com ações concretas que apresentamos num evento que denominamos “Cuidar da Primeira Infância” [Golegã; 11.02.26] onde lançamos o “Cuidar em Rede”, uma rede de insituições educativas que incluem respostas de berçário, creche e JI da Golegã e dos concelhos limítrofes com a qual procuraremos, juntos, contribuir para uma educação de qualidade dos 0-6 anos e para um olhar proactivo para a importância da alimentação e nutrição. Agredecemos aos 5 municípios e às 9 instituições iniciais e nos próximos meses alargaremos a rede e o seu potencial de contributo.
Sabemos bem porque é que esta é uma prioridade de Portugal, “2º país da OECD – OCDE com maior nível de desigualdade de oportunidades” e 1º na responsabilidade das “circunstâncias herdadas, como o contexto socioeconómico dos pais”, na desigualdade – 40% face a uma média de 25% para toda a OCDE.
Complementarmente, como a American Psychological Association sublinha, a saúde mental começa com o começo da vida pelo que “além de reduzirmos as experiência adversas” de bebés/crianças necessitamos potenciar e promover os “aspectos positivos da infância, fundamentais para ajudar a suportar os riscos da vivência de experiências adversas no futuro” e “priorizar a prevenção, ajudando crianças a florescer antes de esperar que os problemas se aprofundem” para depois intervir.
Um e outro procuramos, a partir dos nossos recursos e capacidades, suportados na crença e compromisso forte com este caminho. Para fazer e fazer bem, junto com outras entidades, a partir da Golegã e região ao redor, procurando inspirar o país e, quem sabe, outras partes do Mundo.
Ps. Em comentário partilho links para mais e mais aprofundada informação.
Links Publicação:
“Bebés de dois meses vêem mundo de forma mais complexa do que cientistas imaginavam | @PÚBLICO |
https://www.publico.pt/2026/02/03/ciencia/noticia/bebes-dois-meses-veem-mundo-forma-complexa-cientistas-imaginavam-2163498
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Evento “Cuidar em Rede” | @Fundação Mendes Gonaçlves | https://fundacaomendesgoncalves.org/2026/02/11/apresentacao-da-fundacao-mendes-goncalves-2/
….
Portugal é o 2.º país da OCDE com maior nível de desigualdade de oportunidades e grande parte da “culpa” é da profissão dos pais | @Expresso | https://amp-expresso-pt.cdn.ampproject.org/c/s/amp.expresso.pt/sociedade/2025-09-29-portugal-e-o-2.-pais-da-ocde-com-maior-nivel-de-desigualdade-de-oportunidades-e-grande-parte-da-culpa-e-da-profissao-dos-pais-7a3ac707?utm_term=Autofeed&utm_medium=Social&utm_source=LinkedIn
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Psychologists are reimagining how society supports children – New models of care, education, and prevention prioritize mental health across the life span | @American Psyhcological Association | https://www.apa.org/monitor/2026/01-02/trends-childhood-lifelong-mental-health?utm_source=linkedin&utm_medium=social&utm_campaign=apa-monitor&utm_content=childhood-lifelong-mental-health
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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global

Ainda a propósito da minha última partilha que começava com 2 bebés que terão hoje 4 dias, volto com outro recurso que complementa – porque amplifica a outros desafios societais – o texto da passada 2ªF que se referia principalmente à desigualdade/iniquidade.

Falo de uma publicação que parte da colaboração entre a American Psychological Association e as United Nations, da responsabilidade de Odile Frank intitulada: “Psychological aspects of multilateral social development policy and the global development agenda” [Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global] | https://www.apa.org/international/united-nations/social-development-policy.pdf

Documento que parte da identificação de 3 dimensões psicológicas importante ao momento actual de progresso (ou da ausência de progresso ou mesmo do retrocesso) em vertentes da agenda global de desenvolvimento:

. O impacto da pobreza e exclusão no bem-estar e o que podemos fazer para o prevenir;

. A compartamentalização de disciplinas científicas (quando os desafios societais complexos carecem de abordagens interdisciplinares) e a centração em ideias (por vezes preconceitos) e modelos conceptuais de intervenção que nem sempre são os mais custo-eficazes, condicionando o progresso;

. A nível global as tensões mais hedoinistas de maximização e, consequente, concentração da riqueza e algum desequilibrar da balança para mais empatia que altruísmo – a empatia é importantíssima, não me entendam mal, mas, por si só, insuficiente à mudança.

Convido, pois, à sua leitura e a reflectirmos sobre:

. Como pode o desenho de políticas atender mais significativamente às questões sociais, valorizando o impacto nas pessoas e comunidades das necessárias decisões de base económica;

. Como podemos co-construir e desenvolver de forma eficaz e ampla a segurança económica de todos, a partir de redes de proteção mais inclusivas;

. Como podemos renovar e actualizar os princípios de solidariedade entre pessoas, comunidades e gerações, a partir do fortalecimento dos laços e da coesão social e intergeracional e da confiança nas instituições, visando sociedades e um Mundo mais resiliente e com futuro.

É difícil? Certamente.

Os temos ajudam? Nem por isso…

Mas ignorar que o necessitamos de fazer enfraquecerá, sempre e mais ainda, as instituições e a agenda de desenvolvimento global, com repercussões que imagino duras e que historicamente conhecemos com o sofrimento e sacrifício de muitas pessoas. Já fazer destes desafios desígnio, pode dar-nos um propósito, primeiro individual, depois de comunidade e, finalmente, global que estimule uma sociedade mais justa, equitativa e melhor equipada para o presente e futuro.

Farei por isso. Faremos por isso.

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Democracia Emergência Climática Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Regenerar é possível…

Regenerar é possível.

Esta é uma mensagem-chave base do programa Regenerar – https://fundacaomendesgoncalves.org/como-atuamos/regenerar/ – da nossa Fundação Mendes Gonçalves. Algo em que acreditamos, com que estamos comprometidos e que mobiliza a nossa acção e participação no sentido da nossa missão e objectivos, a partir dos nossos valores e formas de fazer.

Pensamos, portanto, dia-a-dia, o que pode ser uma filantropia estratégica nesta área e como podemos potenciar o impacto da nossa acção, a partir dos recursos e possibilidades que temos.

Muito recentemente li dois artigos que ajudam a esta reflexão:

a) “A filantropia estratégica está viva e recomenda-se” (tradução minha) que sublinha o valor da filantropia estratégica no escalar projectos e movimentos para níveis nacionais (e internacionais, acrescento) e, logo, na melhor de vida das populações e ecossistemas; no suporte a movimentos sociais no contributo para a mudança de normas sociais e de políticas; e, finalmente, no contributo para responder às desigualdades e permitir que os projectos essenciais cheguem a quem deles pode mais beneficiar, tudo essencial para promovermos as práticas de agricultura (e produção e consumo em geral) regenerativa e expandir o conceito da regeneração a populações e comunidades (https://ssir.org/articles/entry/strategic-philanthropy-in-defense-of#);

b) “O futuro da agricultura assenta no passado”, um ensaio já com quase 5 anos que oferece uma excelente oportunidade de reflexão a partir da ideia de que as “rápidas transformações no clima (a que acrescento a degradação dos solos e da biodiversidade) forçam a agricultura a reinventar-se (..) e à necessidade de atender a culturas que, Mundo fora, lida(ra)m com desafios significativos nas condições da agricultura, desde há milhares de anos” (https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past)

Artigos que à sua forma são inspiração no nosso trabalho e sonho, trabalho sonho que vos convido a conhecerem no próximo dia 11 de Junho (Quarta-Feira) na Feira Nacional da Agricultura de 2025, em Santarém. Lá estaremos, prontos e disponíveis para a/o receber, a convite da Câmara Municipal da Golegã, no stand do Município. Durante esse dia daremos a conhecer, em maior detalhe e à procura de co-criarmos e co-construirmos, a Fundação Mendes Gonçalves, primeiro, o seu programa Regenerar e o documentário “Common Ground” que passaremos nesse dia, pelas 11h no Auditório do CNEMA/Feira.

Feira que este ano se dedica às “Biosoluções” com ambição de “promover as tendências de sustentabilidade ambiental do setor e proporcionar aos empresários um ponto de encontro que potencia contactos e negócios.”

Oxalá o consigamos. Tal qual consigamos que esta nossa participação, e a actividade e relações ali geradas ou desenvolvidas, permitam caminhos “para modos de produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o Planeta”, conforme o que defendemos no programa Regenerar.

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FMG Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Política

Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos

Da crescente utilização de tecnologias no nosso dia-a-dia ao que vivemos aquando da pandemia por COVID-19. Do espectro da guerra na Europa a mudanças no quadro sociopolítico que nos pareciam impossíveis não há muitos anos. Enquanto seres humanos, tendemos a naturalizar quase tudo. Fizemo-lo, no país, com a ideia e, particularmente, com o que resulta da ideia, de interior.

Mas, se a tendência para a normalização decorre da condição humana, para a polarização é muito influenciada pelo contexto social. Das condições de vida à forma como as redes sociais determinam, hoje, o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e identidades, tendemos para a criação de um nós versus outros e a afastar-nos, a polarizar. Fizemo-lo, no país, com uma progressiva clivagem litoral-interior e, particularmente, com o que dela resulta.

Hoje basta sairmos dos grandes centros urbanos para que a ideia de interior se comece a impor, como se passássemos uma fronteira física a caminho de uma outra realidade. O discurso no espaço mediático, as diversas categorizações da ruralidade aos territórios de baixa densidade, muitas das quais “bem-intencionadas”, reforçam uma certa diferença, um “uns” e “outros”, de maiores ou menores possibilidades e oportunidades, que não deveria ter e ser sentido, mais num país relativamente pequeno do continente europeu, como é Portugal.

Mas, se a ideia de interior, verdadeiramente, começa na nossa cabeça, é inegável que temos um exigente caminho pela frente, sobretudo na construção de um futuro equitativo, sustentável e com mais possibilidade e oportunidade de bem-estar para todas as pessoas. Uma ação colaborativa, entre diferentes entidades e atores, de diversos setores, público, social e privado, é essencial para atingir este fim, comunidade a comunidade, território a território.

Queremos para isso contribuir na Golegã e, a partir da Golegã e da região ao seu redor, co-construir e inspirar outros a fazerem-no noutras cidades, vilas e lugares. Queremos fazê-lo aqui, numa Golegã a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa e duas do Porto, onde cresce o sonho e floresce a ideia de cuidar das pessoas e dos ecossistemas. Do que nasce, cresce e se regenera. Cuidar é cultivar o potencial das ideias, das pessoas, das famílias e da comunidade. Com “inquie-tudo”. Com ética, transparência e integridade, sabendo que há sempre mais para aprender, melhorar, contribuir e transformar.

A Fundação Mendes Gonçalves nasce do compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do seu fundador, Carlos Mendes Gonçalves, com o cumprir deste objetivo, agindo localmente, mas colaborando e inspirando globalmente. A partir verbos “educar”, “regenerar” e “nutrir” definiremos e concretizaremos a nossa ação, procurando revitalizar uma filantropia comunitária ou de proximidade, pelo futuro de todos.

A ciência demonstra que investir nos primeiros anos de vida tem um impacto duradouro na saúde, aprendizagem e bem-estar individual, bem como na produtividade, equidade e coesão social. Heckman, prémio Nobel de Economia, define numa célebre equação que o melhor “retorno em desenvolvimento na primeira infância ocorre quando se investe o mais cedo possível”, principalmente “desde o nascimento e até os cinco anos de idade e em famílias com maiores vulnerabilidades”. Devemos, assim, concentrar-nos nos primeiros anos para uma maior eficiência e eficácia do investimento, reforçando, desde logo, a qualidade em educação que depende de relações seguras, práticas pedagógicas baseadas em evidência científica sólida, do envolvimento das famílias e da comunidade, bem como do contacto com a natureza. Queremos fazê-lo a partir do Centro Educativo (Berçário, Creche, Jardim-de-infância e EB 1º ciclo) que construiremos, que ambicionamos que integre a rede pública na Golegã e das colaborações que dele resultarão na criação e transferência de conhecimento.

Os princípios da produção e da agricultura regenerativa propõem uma mudança de paradigma fulcral: não apenas proteger, mas, antes, regenerar. Regenerar o solo, aumentar biodiversidade e os sistemas vivos. Isto minimizando a perturbação do solo, mantendo a cobertura vegetal, valorizando a biodiversidade, integrando, intencionalmente, animais e, principalmente, compreendendo e respeitando o contexto local. É uma visão que será por nós advogada, de cooperação com a natureza, de cuidado coletivo e de construção de resiliência e de futuro para as gerações que se nos seguem.

Hábitos de nutrição saudável e segurança alimentar contribuem para prevenir ou adiar o surgimento de doenças não transmissíveis, algumas crónicas e hoje responsáveis maiores pela perda de anos de vida com qualidade no nosso país, como são exemplo as doenças cardiovasculares, a diabetes ou a obesidade. Paralelamente, e porque relacionada com o bem-estar, uma nutrição saudável surge associada a menores níveis de ansiedade, depressão e declínio cognitivo, diminui gastos em saúde, aumenta a produtividade, melhora o comportamento e desempenho escolar das crianças, bem como o seu desenvolvimento cerebral e imunitário. Mais, facilita a adoção de outros comportamentos parte de um estilo de vida saudável, nomeadamente a cessação ou menor consumo de tabaco e álcool e a prática de atividade física, mitigando desigualdades sociais e de saúde. É, portanto, fulcral a um pensamento e investimento de futuro, equidade e desenvolvimento.

O desafio que abraçamos é grande, ainda que o ponto de partida seja um território com apenas um pouco mais de 80km2 e 5000 habitantes. Mas contribuiremos mesmo para uma educação de qualidade, capaz de gerar mudança. Contribuiremos mesmo para a regeneração dos solos e para modos produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o planeta. Contribuiremos mesmo para uma nutrição e estilos de vida saudáveis como fontes de bem-estar e florescimento.

Contribuiremos. No plural. Com todas e todos e para todas e todos. Pela cocriação, através de alianças estratégicas que empoderem comunidades. Pela promoção da literacia e transferência de conhecimento. Advogando e comunicando, para influenciar políticas públicas, inspirar e disseminar boas práticas. Validando cientificamente e monitorizando o impacto.

Juntos, concretizaremos a nossa missão: Nutrir Futuros, Regenerar Legados. Da Golegã para o Mundo.

 

Tiago Pereira

Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos.

in Eco; 06.05.2025

https://eco.sapo.pt/opiniao/pela-nao-normalizacao-da-ideia-de-interior-pelo-futuro-de-todos/

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia FMG Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Psicologia

0-3, regeneração

Um conjunto de regiões do país estão a ser sofrer/sofreram com o impacto da depressão Martinho que, desde ontem e até aos próximos dias, junta chuva e ventos impressionantes. Condições adversas que desafiam pessoas e (infra)estruturas. Condições adversas que (creio que para todos será perceptível), a serem quotidianas / permanentes, alterariam/transformariam a nossa forma de viver e os nossos próprios processos de interacção, aprendizagem e desenvolvimento.

Vem isto a propósito de nem sempre esta simples reflexão ser feita (ou pelo menos sermos consequentes com ela) relativamente a bebés e crianças que vivem, permanentemente, em situação de adversidade… De tempestade. E a propósito de, não raras vezes, não re reconhecer o impactos dessas situações e, ainda que existam, se “culpar” excessivamente a/o aluna/o por não atingir determinados resultados (desde logo de desempenho escolar) ou mesmo, em sentido mais amplo, tendermos maioritariamente a culpabilizar pessoas que vivem em situação de pobreza por viverem em situação de pobreza.

Ora, a este propósito, duas notas (também em jeito de convite) a partir de contributos que procurarei dar amanhã:

a) É crucial que, enquanto país e rapidamente, passemos a complementar o debate público sobre o acesso à educação (em particular nos 0-3 anos) com a qualidade que resulta desse acesso e internacionalizar-se, na sociedade civil e nos meandros da decisão (política), a importância de uma educação de qualidade no período 0-3 enquanto garante fundamental de uma base minimamente equitativa de oportunidades de desenvolvimento entre bebés e crianças em Portugal. No fundo, um contributo para mitigar (ou pelo menos prevenir que se aprofundem) desvantagens que, por vezes, existem desde literalmente o dia 0 de vida e cujo impacto de uma educação de qualidade pode ser decisivo. Sobre isso conversarei, na próxima 6ªF, a convite da Câmara Municipal de Mafra (que agradeço, informações abaixo) na sessão “A importância dos primeiros mil dias e a injustiça das injustiças” (e sabem qual é a injustiça das injustiças?);

b) É crucial tornar o verbo regenerar e os seus múltiplos significados mais saliente… Também amanhã, numa colaboração da Nova School of Business and Economics (Centro de Conhecimento “Leadership for Impact”) e a Casa Mendes Gonçalves, participarei na 1ª fase de uma iniciativa que convido a conhecerem e que pretende contribuir para a “aceleração” e desenvolvimento de projectos de impacto na área ambiental e, mais particularmente, da regeneração (https://lnkd.in/diyYnqCF), tema para uma conversa que terei com o Carlos Goncalves, também a propósito deste conceito no quadro dos programas, actividades e da visão e missão da Fundação Mendes Gonçalves.

Temas relevantes também ao momento que vivemos. Temas que não tocam apenas algumas e alguns, antes todos, hoje e para o futuro. Temas que devemos discutir, discutir e discutir, tornando-os salientes e quotidianos na agenda das/os decisoras/es.

Lá vos espero…

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Comportamento Educação Filantropia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

Heckman

Este é apenas um exemplo… Alicia, filha de Alfredo Quintana, guarda-redes de Andebol do FCPorto e da selecção nacional falecido há 4 anos, brinca com Gustavo Capdeville, guarda-redes do SLBenfica e da selecção nacional depois de um FCP-SLB. Vem ela propósito de ontem ter visto uma imagem de um jogador da selecção de rugby do País de Gales com um/a bebé ao colo, logo após um jogo intenso, e dois jogadores adversários de Inglaterra a brincar/interagir com a/o bebé. Mas podia vir a propósito, também e num sentido menos positivo, de Alan Kurdi, o menino sírio da camisola vermelha que morreu há quase 13 anos e cuja imagem, caído numa praia da Turquia, quem viu não mais esquecerá.

Nem rivalidades desportivas, nem frases/pensamentos tipo “vai para a tua terra” sobrevivem, geralmente (sublinho, geralmente), a bebés/crianças, tal é o nosso instinto protector e de carinho e cuidado. Do mais bonito que o Mundo nos dá.

Mas, se assim é face a situações particulares, temo que um conjunto de forças e dinâmicas actuais (políticas e sociais) possam obstaculizar a uma visão da importância de investirmos, hoje, nos bebés/crianças para, hoje e amanhã, todos beneficiarmos enquanto comunidade e sociedade desse investimento.

Podia enumerar diversas e variadas forças/dinâmicas. Destaco quatro:

a) O crescimento do populismo e, com ele, de um estímulo a políticas tendentes a ganhos mais imediatos e tangíveis, retirando foco/prioridade ao investimento significativo nos primeiros anos de vida, com resultados a médio/longo prazo;

b) A crescente desconsideração da ciência face a percepções e visões mais “puramente” ideológicas e/ou assentes numa suposta meritocracia, algo que periga a utilização dos recursos onde e quando se mostram mais eficientes e eficazes;

c) O enfraquecimento do conceito de direitos humanos universais e uma menor atenção à procura da promoção da equidade e da possibilidade de autodeterminação, com intervenções robustas junto das/os bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade;

d) A quebra da confiança, a maior dificuldade de diálogo e colaboração entre decisoras/es políticos e de continuidade de políticas fragilizam investimentos a médio/longo prazo;

Razões que, creio, nos devem preocupar e fazer regressar a Heckman, prémio Nobel de Economia e que na sua célebre equação refere: “A maior taxa de retorno do desenvolvimento na primeira infância ocorre quando se investe o mais cedo possível, desde o nascimento até os cinco anos de idade, em famílias vulneráveis. Começar na idade de três ou quatro anos é um pouco tarde demais, pois significa não reconhecer que habilidades geram habilidades de uma forma complementar e dinâmica. Os esforços devem concentrar-se nos primeiros anos em busca de maior eficiência e eficácia.”

Regressemos a Heckman e – apesar do tempo, do dia-a-dia muito complexo e das forças que nos arrastam para o que de mais imediato existe – não esqueçamos de a cada dia prepararmos, enquanto comunidade e sociedade, o futuro.

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Emergência Climática Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Pobreza Energética

Hoje, como ontem, diversas regiões de Portugal enfrentam um conjunto de fenómenos meteorológicos que trazem riscos à população. Resultam da depressão Hermínia (nome significativo para mim) que, conforme outros fenómenos climatéricos, atinge de forma desproporcional pessoas e famílias com habitações mais vulneráveis, parte significativa vivendo em situação de “pobreza energética”.

Este conceito corresponde à falta de acesso a serviços energéticos essenciais a níveis básicos de qualidade de vida e saúde (dito de outro modo, a (in)capacidade de manter imune a humidades significativas, aquecida durante o inverno e/ou arrefecida durante o verão) e, em Portugal, segundo um relatório recente da Comissão Europeia, são 20,8% os agregados a viver em pobreza energética e somos, com Espanha, os países pior cotados numa UÉ onde, em 2020, existiam 50 milhões de pessoas com esta condição.

Foi sobre a pobreza energética o 2º episódio da nova temporada do podcast “Toda a Energia” da ADENE – Agência para a Energia, produzido e divulgado pela Antena 1. Uma interessante conversa em que participei, com o Rui Alves de Sousa e a Susana Peralta que aqui partilho: https://www.rtp.pt/play/p14446/e822414/toda-a-energia

Saudando a escolha do tema abordamos na conversa temas como a relação da pobreza económica/monetária com a pobreza energética/privação, as suas causas e consequências, a literacia da população ou as políticas públicas e a sua eficácia neste âmbito.

Entre outros, a Susana Peralta, sublinhou que o tema não trata, apenas, a manutenção da casa adequadamente aquecida, mas toca importantes dimensões da intimidade das pessoas como a capacidade das pessoas/famílias terem as suas refeições quentes ou cuidarem da sua higiene, com os profundos e devidos impactos nas suas relações laborais e/ou sociais.

Eu destaco os anos de vida com qualidade perdidos por via da pobreza energética e, como sermos um dos piores países da UE nesta matéria, é um exemplo concreto de como as políticas públicas (e até a filantropia, com honrosas excepções) ainda não são responsivas à evidência científica que demonstra o seu forte impacto na saúde, incluindo na saúde mental, no bem-estar e nos ciclos de pobreza e exclusão.

Como digo, é um debate importante (…) para que se desfaça a ideia de que a pobreza energética impacta apenas a doença física, por via das doenças respiratórias por exemplo, mas se pense a sua associação com questões como a ansiedade, depressão, stresse ou problemas com o sono e de como, desproporcionadamente, afecta as pessoas que paradoxalmente mais precisariam de encontrar nas suas habitações espaço de conforto, segurança e previsibilidade.

Falemos mais sobre pobreza energética. Façamos mais. E melhoremos mais – mais rápido – promovendo a qualidade de vida das pessoas, prevenindo consumos energéticos desnecessários e prevenindo gastos em saúde pública e sociais.

Ps. Passam hoje 80 anos do dia de libertação de Auschwitz. Nunca o esqueçamos… Nunca o esqueçamos.