Com a generalização de canais de notícias (24 horas), assistimos a um aumento exponencial dos tempos de diretos e de comentário político/social, duas “modalidades” óptimas para nos “vermos” enquanto seres humanos. Da capacidade de interpretar e “julgar” sem informação e contexto, dos diretos, à demonstração de uma curiosa característica humana: somos os únicos seres vivos que sabemos que morreremos (e nisso estamos certos) mas somos, simultaneamente, muito maus a prever o futuro (veja-se, a partir do artigo que partilho, como os estudos de P. Tetlock demonstram como grupos de especialistas acertam sobre o futuro menos do que o acaso – alguém que atirasse uma moeda ao ar e escolhesse com base nisso, acertaria mais que eles).
Assim sendo, num Mundo de instabilidade e incerteza, mais do que prever, deveríamos procurar antecipar o futuro e, consequentemente, participar na sua co-construção.
Como ? Vejamos um exemplo que me é significativo e que cruza comunidade e alimentação. Há já uns meses Pedro Adão e Silva refletiu sobre a “privatização das práticas sociais associada à alimentação”, encontrada, entre outros, num estudo de Vasco Ramos (“menos 28% de refeições partilhadas em casa de família e amigos, menos 27% de visitas para comer em casa de outros e menos 21% de celebrações fora de casa”). Dados que demonstram “o declínio das formas tradicionais de sociabilidade, muito alimentadas na mesa partilhada” e, certamente, associam-se à “erosão da esfera pública”, “intimização da sociedade” (expressão de R. Sennett) e, acrescento eu, um risco para o sentido de comunidade e para a coesão social.
Aqui reside o duplo valor de anteciparmos o futuro da alimentação. O próprio, do acesso e escolhas, pela importância e ligação a desafios pessoais e societais. O resultante da relação com o processo de construção de laços e de comunidade.
Podemos fazê-lo através do triângulo dos futuros (S. Inayatullah) e da tensão entre a pressão do presente (as tendências de hoje), o “push” do futuro (as suas imagens e promessas) e o peso da história (os hábitos, culturas e estruturas que “resistem” à mudança). Se o pensarmos assim, e se verificarmos que o peso da história, neste caso, não está a resistir à pressão do presente, creio que participarmos na co-construção deste futuro implica que criemos (e partilhemos) uma visão de futuro em que a alimentação é central no bem-estar individual e social, no desenvolvimento (particularmente na primeira infância) e equidade e está fortemente conectada e enraizada no território e comunidade e se assume pilar da coesão social.
Melina Shannon-DiPietro, com esperança, vê sinais de que é possível nas “novas colaborações entre agricultores, cozinheiros, cientistas e comunidades — da agricultura regenerativa à redução do desperdício, [da sazonalidade] até ao redescobrir do prazer de comer bem, em conjunto”.
Eu e nós (Fundação Mendes Gonçalves) para isso procura(re)mos contribuir. Eu, nos próximos dias, partilharei sempre a mesa.
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. “Os comentadores famosos acertam menos do que um chimpanzé” | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2023/12/01/ciencia/noticia/comentadores-famosos-acertam-menos-chimpanze-2071688
. “Diz-me o que comes, dir-te-ei que sociedade és” | Pedro Adão e Silva | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2025/10/16/opiniao/opiniao/dizme-comes-dirteei-sociedade-es-2151079
. “Dario World”| Toke Hangøj | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/dario-world/
“Radical Hospitality” | Casper Skovgaard Petersen (entrevista a Melina Shannon-DiPietro) | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/radical-hospitality/



Um conjunto de regiões do país estão a ser sofrer/sofreram com o impacto da depressão Martinho que, desde ontem e até aos próximos dias, junta chuva e ventos impressionantes. Condições adversas que desafiam pessoas e (infra)estruturas. Condições adversas que (creio que para todos será perceptível), a serem quotidianas / permanentes, alterariam/transformariam a nossa forma de viver e os nossos próprios processos de interacção, aprendizagem e desenvolvimento.
