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Dia Europeu das Fundações e Doadores – Café com FMG

Em 2024, ano da criação da Fundação Mendes Gonçalves [FMG], o tema foi “Construir confiança, conectar comunidades”. Em 2025, ano de início de atividade da FMG, “Rumo à equidade como uma realidade vivida”. Já em 2026, “Filantropia para as pessoas e para o planeta”.

 

A cada 1 de outubro comemoramos o Dia Europeu das Fundações e Doadores – promovido pela Philea – Philanthropy Europe Association – e, este ano, procuramos assinalá-lo junto da comunidade que procuramos servir – a Golegã e, a partir dela, a nossa região, país e Mundo.

 

Fizemo-lo participando no programa “Portas Abertas”, do Centro Português de Fundações, ao estar no Café Central da Golegã numa iniciativa simbólica: Um café com a Fundação Mendes Gonçalves onde, em equipa, conversamos com as pessoas que nos procuraram ou que simplesmente nos quiseram agradecer aquele café, naquele dia. Ali estivemos para as escutar, compreender e para respondermos a questões sobre a missão, objetivos e atividades da FMG.

 

Continuaremos a fazê-lo no “Sabores com Memória”. Nesta iniciativa, que conta com o apoio da Câmara Municipal da Golegã e de um conjunto de coletividades e IPSS do concelho, organizaremos, no próximo dia 16 de outubro (Dia Mundial da Alimentação), um jantar comunitário, retomando essa ideia e prática no Mercado Municipal, espaço central da comunidade. Nesta refeição e mesa partilhada procuraremos, além de construir comunidade, valorizar o património gastronómico, cultural e humano do território, pelo espaço de encontro entre gerações através das receitas, tradições e histórias, parte da nossa identidade coletiva (informações/inscrições no link nos comentários).

 

Estas duas iniciativas, com cerca de 15 dias de distância, procuram uma síntese destes 3 temas do Dia Europeu das Fundações e Doadores: “Construir confiança para conectar comunidades”; [contribuir para mais] “equidade como uma realidade vivida” e para uma “filantropia para as pessoas e para o planeta”. Procuram-no, conforme procuramos, de forma mais ampla na FMG, responder ao desígnio que a OECD – OCDE atribui à filantropia: “a capacidade de apoiar o que tem mais risco, de responder com flexibilidade e de testar soluções que outros possam depois levar mais longe”.

 

Fazê-lo depende certamente – em particular numa Fundação de base comunitária como a FMG – de estarmos próximo das pessoas que servimos e co-construirmos esse espaço de diferenciação. De adicionalidade.

 

A Philea, a partir do tema das comemorações deste ano, incentivava ao “despertar da imaginação coletiva” e ao mostrar “como pode ser um futuro melhor, um futuro ao serviço das pessoas e do planeta”. Mostrarmos como a “filantropia pode reforçar a capacidade de adaptação, a resiliência, a sustentabilidade e a prosperidade partilhada, mantendo a ousadia mesmo perante retrocessos recentes”.

 

Procuramo-lo e procuraremo-lo na Fundação Mendes Gonçalves. A cada ação, é certo. Mas, também, a cada conversa, café ou refeição partilhada, com cada pessoa, parte da nossa comunidade.

 

….

 

“European Day of Foundations and Donors” | @Philea | https://philea.eu/events/european-day-of-foundations-and-donors-2

“Sabores com Memória” | @Fundação Mendes Gonçalves | https://fundacaomendesgoncalves.org/sabores-com-memoria/

“Private philanthropy should scale its collaboration with governments to boost financing for sustainable development” | @OECD | https://www.oecd.org/en/about/news/announcements/2026/03/private-philanthropy-should-scale-its-collaboration-with-governments-to-boost-financing-for-sustainable-development.html

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Desafios da Psicologia Filantropia Fundação Mendes Gonçalves

Dois temas que parecem distantes. Nada mais falacioso.

A última semana culminou na sexta-feira, 25.09, Dia Nacional da Sustentabilidade. Como tantas/os de vocês – estou certo – tenho sentimentos ambivalentes sobre o real impacto destes dias na consciencialização e potencial de mudança que deles decorrem e face ao próprio conceito de sustentabilidade, à sua hoje menor densificação e num momento em que, em tantas áreas, “sustentar” é já insuficiente e importa, isso sim, regenerar.

Mas este dia em Portugal tem algo de simbólico. Assinala-se no dia (25.09) em que em 2015 a Assembleia Geral das United Nations aprovou a resolução com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e os seus objetivos e metas para 2030, referencial importantíssimo, mesmo que insuficientemente prosseguido, pela abrangência e consideração das diversas dimensões que contribuem para a possibilidade de bem-estar neste Mundo e para o equilíbrio do nosso Planeta, no presente e para o futuro.

Em linha com esta multidimensionalidade, durante essa semana várias pessoas da Equipa e dos Órgãos da Fundação Mendes Gonçalves (FMG) representaram-na em diferentes eventos de diferentes áreas.

Eu estive no domingo (20.09) na “Cidade do Zero” onde, a convite do João Barreiros (obrigado pela confiança!) e sob moderação do Rodrigo Castro, pude discutir com a Eunice Maia (e que bom foi!), com uma presença especial no público (😊), o tema “Educar é transformar: que escola queremos para o futuro?”. Pensar, portanto, como estamos no presente e procuraremos no futuro contribuir na FMG para a qualidade da educação, para a sua relação com um conjunto amplo de dimensões relevantes para a sustentabilidade/regeneração e para a necessidade de a pensarmos a partir logo dos primeiros anos, incluindo o período 0-3 anos.

Estive, depois, na 5ªF (24.09) no “Cascais International Health Forum” onde, a convite da Andrea Lima e da Alexandra Bento (obrigado pela confiança!) participei numa mesa sobre “Alimentação, longevidade e estilos de vida saudáveis” com um conjunto diverso de oradoras/es (Carlos Barranha, Helena Real, Joana Sousa, José Camolas, Paulo Carvalho, Ricardo Assunção e Sílvia Coutinho). Aí salientei o quão relevante pode ser uma mais assertiva presença do binómio alimentação/nutrição no ecossistema da filantropia e da economia social, considerando a sua preponderância em temas como a saúde, bem-estar, fatores de produção ou desenvolvimento económico e comunitário e o quão estratégico pode ser ter mais capital paciente e de risco numa área em que urge a experimentação e inovação e em que o sistema público tem menos incentivos a investir, considerando a demora do retorno expectável.

Dois temas que parecem distantes. Nada mais falacioso. Antes fundamentais à naturalização da importância da educação de qualidade e do binómio alimentação/nutrição saudável e sustentável desde a primeira infância.

Naturalizando-os e, assim, tendendo a torná-los estruturantes no presente e futuro. Temas base da regeneração. Temas base da possibilidade de futuro… De todos.

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SEKEM

Ontem soubemos que a “Alianza Ceibo” venceu a edição deste ano do Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Sucede ao “Andhra Pradesh Community Managed Natural Farming”, a “Rattan Lal” e a “SEKEM”, vencedores em conjunto da anterior edição de um dos mais prestigiados prémios atribuídos por uma Fundação sediada em Portugal e que reconhece “indivíduos e organizações que alcancem enormes progressos na luta contra as alterações climáticas”. Parabéns.

 

O Luis de Melo Jerónimo dizia ontem à comunicação social (ver comentários) – e muito bem, a meu ver – que um dos impactos positivos dos prémios é a possibilidade de “estimular parcerias” e que a Fundação Calouste Gulbenkian está a estudar “criar uma rede entre vencedores” com esse objetivo. Nada mais relevante. Como Karin Nosková dizia recentemente “systems change requires trust and long-term partnerships” (ver comentários).

 

Na miríade de curiosidades e coincidências que acompanham quem simplesmente vive, isto acontece poucos dias depois de regressar do Egipto e de um conjunto de ações, reuniões, visitas e participações exatamente em e com SEKEM e, também exatamente, para reforço dos laços e possibilidades de relação e cooperação entre SEKEM e a Fundação Mendes Gonçalves (FMG).

 

Foi para mim e para nós, sei-o, um momento extraordinário de reflexão e inspiração. No particular, reunião a reunião, projeto a projeto, visita a visita, contacto a contacto. Mas, essencialmente, na perceção e no sentir, pleno, de como aquele conjunto e aquele sistema funcionam. Das práticas da agricultura à educação, da saúde à intervenção social, da investigação aos postos de trabalho e marcas, da formação (incluindo vocacional e universitária) ao desenvolvimento de pessoas e comunidades, da associação de agricultores à liderança, visão e ambição, cuidada, centrada e respeitadora de cada pessoa. Perceber, afinal, que é possível e que SEKEM é exemplo vivo dessa bonita e esperançosa possibilidade.

 

Mas conheçam e descubram por vós, valerá a pena. Quanto a nós, na FMG, comprometemo-nos a fazer algo com este sentir, a partir da nossa agência, tentando com SEKEM, e com quem faz SEKEM, colaborar no que de alinhamento há na nossa visão e projeto e fazendo daquela demonstração de possibilidade – em muito resultante das relações, partilha e construção de (verdadeira) comunidade – inspiração para o que dia-a-dia estamos a procurar construir e contribuir na Golegã, na região ao redor, em Portugal e no Mundo.

 

Obrigado Katrien Buys, por o teres proporcionado e pela atenção, cuidado e palavras. Serás certamente e na maneira em que possas e desejes, parte deste nosso caminho. Obrigado Helmy Abouleish por, com toda a equipa, nos receber e mostrar… Por nos querer compreender e ainda me convidar a participar no debate “Rethinking leadership in times of uncertainty”, inserido na conferência “Sustainable Development for Global Impact” promovida pela Heliopolis University, parte do SEKEM Group.

 

Obrigado. Por o fazerem. Por o mostrarem possível.

 

……

 

Ps. E… @Ines Queiroz, já disseste como foi à @Francisca Canais? E… @francisca, não custa sonhar porque “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

Ps2. O (incrível) Palma, se não conheceu, haveria de ter gostado de conhecer aquela comunidade, visão e ideia de presente e futuro… E SEKEM de o conhecer e acolher.

……

https://gulbenkian.pt/read-watch-listen/sekem/

https://observador.pt/2026/09/21/projetos-distinguidos-pelo-premio-gulbenkian-para-a-humanidade-replicados-em-varios-paises/

Philanthropy is not defined only by resources but by relationships

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Hoje, amanhã e depois…

9130. No passado Sábado reencontramo-nos na nossa Évora, cerca de 9130 dias depois. Passam, por estes dias, 25 anos do início do nosso curso e, por isso e “em turma”, juntamo-nos para almoçar. Se quiserem pensar esta quantidade de tempo em vós (e se tiverem “idade que o permita”), pensem no momento em que souberam dos atentados que a 11 de Setembro de 2001 aconteciam nos EUA e que, entre outros, conduziram à queda das Torres Gémeas e a um Mundo necessariamente diferente. Eu penso-o muito também para me “pensar” e perspetivar… Em como o que fazemos hoje impacta o futuro. Nosso e do e de quem nos rodeia. Penso-o, especialmente, hoje.

E, pensando-o hoje, 25 anos levar-nos-ão sensivelmente a 2050. A meio deste complexo, incerto e imprevisível (não terão sido todos?) mas “ultra-veloz” século que partilhamos e para o qual as nossas ações, hoje, contribuem para o presente e futuro. Também por isso, há dias, pensando em algo que teve, tem e (espero) continuará a ter um papel fundamental de agregador de pessoas e comunidades – alimentação/refeições – e que, simultaneamente, se cruza com importantes dimensões pessoais (económicas, saúde e bem-estar, auto-estima, pertença, etc.) e sociais (economia, clima e biodiversidade, serviços de saúde, etc.) escrevi um artigo que aqui convosco (ver comentário).

“Uma ideia para a sustentabilidade futura do SNS? Investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância”, chamei-lhe. Com ele procuro suscitar que se pense em como investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância é uma das formas mais eficazes — mas pouco intencionalizada — de cuidar do que aí vem. Da saúde, desenvolvimento e bem-estar das crianças. Da comunidade que, também, se constrói “à volta de uma mesa”. E para a própria sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

…“os espaços de refeição – na escola e em casa – podem ser um importante “educador silencioso” (…) porque uma criança não aprende a comer apenas e só porque lhe explicam o que é saudável. Antes, aprende porque observa, repete, associa e sente. Aprende com o espaço, com a rotina, com o tempo que lhe é dado e que é dado à refeição. Aprende com a calma ou com o stresse de quem a rodeia, com a possibilidade de escolher e de participar, com o prazer e o respeito com que vê os adultos comerem. A cada refeição, este educador silencioso está a contribuir para as memórias, a criar relação e a formar o comportamento (alimentar, e não só) das crianças, hoje, e dos adultos de amanhã.” Escrevo. Sinto.

“Porque investir nos ambientes de refeição da primeira infância é um dos exemplos mais claros daquilo que hoje rareia: um contributo que não polariza, não simplifica e não promete o impossível. Que não é particularmente caro, que é eficaz e que tende a, de forma evidente, contribuir para melhorar, hoje e amanhã.”

Como o que somos hoje foi, em boa parte, semeado no que se fez e aconteceu, o que seremos amanhã está a ser co-construido, hoje. Pelo futuro de todos.

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The Global Community Foundation Leaders Summit

Há uma semana viajava de autocarro entre capitais europeias numa mesma ilha, mudando de país (sem fronteira física) e saindo da UE. Pouco depois perguntava (quando visitávamos os Muros da Paz): “estes portões ainda se fecham?” – “Sim, fecham à noite”, responderam-me.

Em Belfast pude testemunhar como uma Fundação Comunitária (Community Foundation Northern Ireland) teve e tem um papel determinante no que de mais importante existe: a paz e o caminho de construção de diálogo e coesão social nas comunidades, mesmo numa sociedade (ainda) com fortes tensões políticas/religiosas.

Lá estava, integrado num grupo de 32 líderes de Fundações Comunitárias de todo o Mundo (EUA, UK, Irlanda, Canadá, Alemanha, Itália, Palestina, Espanha, Hungria, Roménia, …), umas mais recentes (a nossa Fundação Mendes Gonçalves), outras não tanto (incluindo a primeira de todas – Cleveland Foundation | 1914), reunidas pela Community Foundation Ireland para 4 dias de intenso trabalho e uma honesta e segura discussão sobre temas/desafios partilhados globalmente.

“Communities everywhere are facing complexities and challenges”, disse Denise Charlton a abrir (aproveito para agradecer o convite e a oportunidade de me e nos integrar em tão importante momento, grupo de líderes e organização – Jerry O’Connor e Isabel Pergande), tal qual diria mais tarde Kathrin Dombrowski (a quem também agradeço).

É assim, como sabemos e concretamente testemunhamos, entre sessões de trabalho e visitas a organizações em Dublin e Belfast e em temas como a paz e a coesão social; as comunidades e lideranças; o clima, a natureza e a resiliência; a democracia e o desenvolvimento; ou a inteligência artificial, a tecnologia e a (des)informação. Da Golegã a Toronto, de Messina a Bucareste, de Dublin a Pecs, de Nova Iorque à Palestina, de uma pequena ilha Canadiana a Essex.

Ainda que com impactos e em fases diferentes em cada contexto, vivemos tempos desafiantes, incertos e de desconfiança, onde a filantropia comunitária (de proximidade), a coragem e o dever da esperança que ali partilhamos são fatores protetores e base do que as comunidades (e a confiança e coesão que nelas podem ser desenvolvidas) de melhor têm para florescerem nestes tempos e garantirem possibilidades de bem-estar (e futuro) para todos.

Venho do “The Global Community Foundation Leaders Summit” com a ideia reforçada do quão privilegiado sou e somos mas, também, comprometido com o fazer bem com a nossa equipa e órgãos e, humildemente, contribuir(mos) para o ecossistema das Fundações Comunitárias em Portugal e no Mundo.

Caroline Taylor Rob Williamson OBE DL Tonia Wellons Kyra van Hoof Nour NusseibehRichard Williams Justin Sargent OBE Giacomo Pinaffo Rüdiger Ratsch-Heitmann Susanne Hauswaldt Sharon Avery Andrea Dicks, ICD.D Roisin Wood Alina Kasprovschi Paul Buchanan MBE Ulrike Reichart Emma de Closset Steph Taylor Danielle Gibbie Michelle Prater Cristina González Alcalá, PhD Helen Wray Martin O’Brien Aleix Pujol Puigmal Jan Despiegelaere

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Ainda a confiança…

Uma equipa multidisciplinar é reunida para procurar soluções para as pragas constantes de percevejos nas habitações de um bairro em Lowell, Massachusetts (USA). Na equipa surge uma proposta: disponibilizar aos moradores capas de colchão seladas. Proposta sensata, pensamos… Porém, também na equipa, alguém sugere que se converse sobre este problema com os moradores. É dessas conversas (focus groups) que se conclui que na maioria das casas não existem (sequer) os colchões que seriam protegidos pelas capas seladas.
Um de inúmeros exemplos que poderia partilhar de como soluções incríveis, se não contextualizadas e personalizadas, são ineficazes ou, pelo menos, ineficientes e que trago a partir de um texto que abaixo partilho. Texto que reflete sobre como a ciência psicológica deve assumir outro envolvimento com o “público” (contextos e pessoas a que se destina) para obter confiança e legitimidade, bases fundamentais de uma ciência com um contributo determinante em períodos de desafio ou crise significativos (pessoais ou sociais), onde muitas vezes a confiança se encontra mais seriamente ameaçada.
E é exatamente sobre ela, neste momento em que movimentos sociais e políticos a procuram fragilizar, intuindo os “ganhos” que para si que daí resultam (fingindo ignorar o mal pessoal e social que resulta da quebra da confiança e da coesão social), que gostava de partilhar duas ideias que penso, paradoxalmente, simples e poderosas:
a) Tal como as soluções maravilhosas só funcionam (maravilhosamente) se adaptadas aos contextos e públicos, também só podem ser eficazes se os contextos e públicos confiarem nelas e nas pessoas/organizações/entidades que as implementam. Daqui sucessivamente resulta que construir confiança é fundamental para a intervenção social e para apoiar a mudança no sentido de mais oportunidades de bem-estar e autodeterminação para todos;
b) Que todos – todos – temos um papel pessoal (e profissional) neste processo. Todos inclui a própria economia social que, não raras vezes, também a partir dos incentivos do próprio sistema (incluindo do Estado) que a financia e dos apoios que recebe (incluindo das Fundações) é ela própria, também paradoxalmente, organizada em torno da desconfiança e pouco promotora de confiança. É certo que existem (talvez mais hoje que ontem) exemplos em que assim não é como os que o Ricardo Garcia aponta no excelente texto que também partilho, mas são ainda assim a excepção.
O André Barata – excelente, sempre – escrevia este fim de semana que “a vida não se faz escassa quando nos dispomos a vivê-la. Passamos tanto tempo a pensar que viver é conquistar e não deixar escapar. E depois basta um dia de praia para o corpo descobrir que viver não é ganhar a vida. Ela está aí”.
É, não é? E é assim com a desconfiança… Passamos tanto tempo dedicados a ela que nos esquecemos do bom que é confiar, não é?
Até porque, conforme a desconfiança gera desconfiança, a confiança gera confiança. Construamo-la. Pelo futuro de todos.
……..
. “Publicly Engaged Science” | @Zara Abrams | @AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION |  http://resources.magappzine.com/feeds/production/comboapp/2335/media/262502/17e216f4-47dc-4f27-97b1-246cf10be01a.html
. “Financiar a confiança: o que o caso de MacKenzie Scott nos deve fazer pensar” | @Ricardo Garcia | @SAPO | https://sapo.pt/artigo/financiar-a-confianca-o-que-o-caso-de-mackenzie-scott-nos-deve-fazer-pensar-6a677580fb226a497b8f6b9e
. “Sobrar” | André Barata | @PÚBLICO | https://www.publico.pt/2026/08/21/culturaipsilon/opiniao/sobrar-2185314
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Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Política

Antecipar o futuro da alimentação e o seu papel na comunidade

Com a generalização de canais de notícias (24 horas), assistimos a um aumento exponencial dos tempos de diretos e de comentário político/social, duas “modalidades” óptimas para nos “vermos” enquanto seres humanos. Da capacidade de interpretar e “julgar” sem informação e contexto, dos diretos, à demonstração de uma curiosa característica humana: somos os únicos seres vivos que sabemos que morreremos (e nisso estamos certos) mas somos, simultaneamente, muito maus a prever o futuro (veja-se, a partir do artigo que partilho, como os estudos de P. Tetlock demonstram como grupos de especialistas acertam sobre o futuro menos do que o acaso – alguém que atirasse uma moeda ao ar e escolhesse com base nisso, acertaria mais que eles).

 

Assim sendo, num Mundo de instabilidade e incerteza, mais do que prever, deveríamos procurar antecipar o futuro e, consequentemente, participar na sua co-construção.

 

Como ? Vejamos um exemplo que me é significativo e que cruza comunidade e alimentação. Há já uns meses Pedro Adão e Silva refletiu sobre a “privatização das práticas sociais associada à alimentação”, encontrada, entre outros, num estudo de Vasco Ramos (“menos 28% de refeições partilhadas em casa de família e amigos, menos 27% de visitas para comer em casa de outros e menos 21% de celebrações fora de casa”). Dados que demonstram “o declínio das formas tradicionais de sociabilidade, muito alimentadas na mesa partilhada” e, certamente, associam-se à “erosão da esfera pública”, “intimização da sociedade” (expressão de R. Sennett) e, acrescento eu, um risco para o sentido de comunidade e para a coesão social.

 

Aqui reside o duplo valor de anteciparmos o futuro da alimentação. O próprio, do acesso e escolhas, pela importância e ligação a desafios pessoais e societais. O resultante da relação com o processo de construção de laços e de comunidade.

 

Podemos fazê-lo através do triângulo dos futuros (S. Inayatullah) e da tensão entre a pressão do presente (as tendências de hoje), o “push” do futuro (as suas imagens e promessas) e o peso da história (os hábitos, culturas e estruturas que “resistem” à mudança). Se o pensarmos assim, e se verificarmos que o peso da história, neste caso, não está a resistir à pressão do presente, creio que participarmos na co-construção deste futuro implica que criemos (e partilhemos) uma visão de futuro em que a alimentação é central no bem-estar individual e social, no desenvolvimento (particularmente na primeira infância) e equidade e está fortemente conectada e enraizada no território e comunidade e se assume pilar da coesão social.

 

Melina Shannon-DiPietro, com esperança, vê sinais de que é possível nas “novas colaborações entre agricultores, cozinheiros, cientistas e comunidades — da agricultura regenerativa à redução do desperdício, [da sazonalidade] até ao redescobrir do prazer de comer bem, em conjunto”.

 

Eu e nós (Fundação Mendes Gonçalves) para isso procura(re)mos contribuir. Eu, nos próximos dias, partilharei sempre a mesa.

 

……

. “Os comentadores famosos acertam menos do que um chimpanzé” | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2023/12/01/ciencia/noticia/comentadores-famosos-acertam-menos-chimpanze-2071688

. “Diz-me o que comes, dir-te-ei que sociedade és” | Pedro Adão e Silva | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2025/10/16/opiniao/opiniao/dizme-comes-dirteei-sociedade-es-2151079

. “Dario World”| Toke Hangøj | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/dario-world/

“Radical Hospitality” | Casper Skovgaard Petersen (entrevista a Melina Shannon-DiPietro) | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/radical-hospitality/

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Comunidade, comunidade…

“Vivemos, dizem-nos, uma crise de saúde mental: milhões de pessoas em listas de espera, serviços incapazes de responder à procura, crianças a chegar às urgências em desespero”. Assim afirma, num artigo já de 2022 mas atual e que convoca à reflexão (até porque não concordaremos todos com todo o seu conteúdo), Sanah Ahsan, psicóloga com anos de experiência no SNS do UK, para logo nos interpelar com a seguinte questão: “Doesn’t it make sense that so many of us are suffering?” Fará – mesmo – sentido que tantos de nós estejamos a sofrer?

 

Também eu, tantas vezes, o penso e faço esta pergunta. Fará sentido, neste nosso tempo, que tantos de nós soframos? Que tantas crianças e jovens sofram?

 

É certo que vivemos um momento de instabilidade, incerteza e desconfiança. Mas é também certo que, além de mais recursos, temos hoje mais conhecimento que pode(ria) ajudar a contrabalançar estes movimentos. Um, fundamental, a importância das relações e da forma como participamos na construção de comunidade e nos sentimos parte dela, como fatores fundamentais de proteção face a este Mundo incerto e fontes de suporte, confiança e capacidade de adaptação. Como as relações e a comunidade nos aproximam de um propósito e da possibilidade de bem-estar.

 

É, também por isso, que tenho procurado refletir sobre qual pode ser o meu e nosso papel como cidadãos e profissionais, nas mais diversas áreas, na revitalização do que significa hoje construir comunidade e, simultaneamente, criar confiança e reforçar a coesão (social).

 

A este propósito sugiro, também, a leitura de uma interessante reflexão de David Sharpley sobre como a reconstrução da confiança (e coesão) social – muitas vezes “perdida” por via de sentimentos de injustiça e do ressentimento e dúvida que se instalam – começa, precisamente, pelo sentido de pertença.

 

Sentido de pertença base de um estudo recente – que também aconselho – publicado pela BIT e que analisou seis mil milhões de amizades (em redes sociais) no UK e que conclui que crianças de famílias com menos recursos que crescem em comunidades mais conectadas entre diferentes estratos sócio-económicos podem ter salários 28% superiores aos 28 anos face às que crescem em zonas mais isoladas… Isso e que a proximidade física, por si só, não é suficiente… São as atividades (e propósitos) partilhados que transformam vizinhança em vínculo. Conexão. Comunidade.

 

Ahsan termina o seu artigo com a imagem de uma planta a murchar: “não lhe diagnosticaríamos uma “síndrome de murchidão”, procuraríamos alterar as suas condições”. Certo. E porque não nas comunidades, pergunto eu? Para “criarem raízes” e as pessoas que as constituem tenham espaço de crescimento e desenvolvimento. Porque não reforçar, hoje e no futuro, aquilo que mais protege(u) (sempre) o bem-estar e desenvolvimento? Uma comunidade, coesa e baseada na confiança.

Ps. A imagem que partilho é da Cueva de las Manos onde quem habitava a Patagonia, algures entre há 13000 e 9500 anos, pensava a comunidade, assim.

 

….

 

I’m a psychologist – and I believe we’ve been told devastating lies about mental health | Sanah Ahsan | @The Guardian | https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/sep/06/psychologist-devastating-lies-mental-health-problems-politics

Why social trust is failing – and how Psychology can restore it | The Psychologist @David Sharpley | https://www.bps.org.uk/psychologist/why-social-trust-failing-and-how-psychology-can-restore-it

Friends with benefits: How to connect communities to create opportunities | @The Behavioural Insights Team | https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf

Cova de las Manos | @UNESCO | https://whc.unesco.org/en/list/936/

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A IA: uma certeza, uma inquietação

Tenho para mim que não devemos ignorar a complexidade. Antes a devemos assumir, pensar, talvez “navegar”. Penso-o a propósito de um contributo enquanto “júri” do Big Impact 26, organizado pela imatch • amplifying innovation e de desse dia ter trazido uma certeza e uma inquietação.

Primeiro a certeza. Que há uma geração de empreendedoras/es com ambição, rigor e vontade genuína de contribuir para desafios societais e para a resolução de problemas que impactam a possibilidade de bem-estar. Assisti à apresentação de 11 ideias e projetos sólidos (listagem em comentário), bem pensados, com potencial de impacto concreto e, onde, a ancoragem à tecnologia e, especialmente, à inteligência artificial (IA) e ao que hoje (e amanhã) permite (e permitirá) foi evidente.

Depois a inquietação. A IA está, portanto, a abrir possibilidades com potencial incrível, mas… E o mas vem, mesmo e também, dessa sua omnipresença nos projetos: O que nos cabe e caberá a nós?

Diria, o fundamental. As competências base. A leitura, a escrita, o raciocínio, a atenção e concentração, o pensamento crítico. A capacidade de avaliar, duvidar, de decidir. E os valores… E a criação de comunidade e, com ela, de suporte social. Porque o Mundo será certamente muito diferente se usarmos a IA a partir de uma base sólida de conhecimento, valores e de capacidade de juízo, decisão e crítica face a, no limite, dependermos dela exatamente por não termos essas bases.

E aqui há sinais que nos devem (pre)ocupar. Um extraordinário recente texto do The Economist (ver nos comentários) reflete sobre como estão hoje as/os alunas/os dos “países ricos” a chegar ao ensino superior sem mínimas competências básicas de numeracia e literacia. Em média, 8% das/os estudantes de ensino superior dos países da OECD – OCDE não chegam hoje a valores esperados nestas áreas em crianças de 10 anos (em alguns países são 10, 15, 20% das/os alunas/os – ver gráficos abaixo). Isto enquanto a IA “generativa” é quase plenamente utilizada mas tende a agravar o problema quando substitui o compromisso, em vez de o potenciar. Diz mesmo o artigo que a IA “induz resignação” e isso (…) já “não é pragmatismo; é rendição”.

É aqui que se cruzam, para mim, as duas realidades. Quanto mais poderosa e de maior potencial for a IA, mais decisivo se torna investir no que nos torna capazes de a utilizar, com racionalidade, discernimento e a partir de uma ideia de bem, de bem-comum. E isso deve começar muito cedo.

Também por isso, na Fundação Mendes Gonçalves temos insistido na necessidade de trazer mais investimento e mais acesso e qualidade para a educação no período 0-10 anos. É aqui a base. É aqui que podemos desenvolver “as bases”. É aqui que, com maior eficácia, podemos promover equidade e o desenvolvimento de todos.

O futuro construir-se-á certamente com IA. Mas construir-se-á, antes de tudo, com pessoas capazes de o imaginar. E isso — esse tal fundamental — não é delegável e nele devemos investir. Verdadeiramente desde o início.

 

Comentários:

Aqui partilho link para artigo mencionado no texto: “Students are doing worse than you think  Some at college or university are testing no better than ten-year-olds“| https://www.economist.com/international/2026/06/25/students-are-doing-worse-than-you-think
E, aqui, a listagem das 11 startups e projetos finalistas: @Mena.ai, @ConnecTee – Education, @Gripwise, @Trash4Goods, @Simpl.care, @Curya, @Parlensky by McMinsky, @Telos Care, @Equivalence, @Tacitum e @GreenDash. Uma palavra especial de encorajamento à @Telos Care, vencedora do pilot grant atribuído.
E, finalmente, um especial agradecimento à @imatch, e em particular ao @André Costa, pela organização e pela confiança no convite. À @Siemens Portugal e à @Sofia Tenreiro, pela forma como nos receberam. Aos colegas de júri, parceiros e investidores com quem, também, foi um gosto partilhar a tarde e os debates e comentários: @Helio Jonathan Jesus, @Alisson Avila, @Casa do Impacto, @Gaspar João, @Pedro Cortez, @Carlos Alves, @Paulo Dias. E ao @Tomás Archer de Carvalho, que tão bem dinamizou e geriu a sessão.
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Debate à 5ª Filantropia Fundação Mendes Gonçalves Política

Native Scientists

“Um dos mistérios mais insondáveis da nossa profissão como filósofos (…) [é] as pessoas nos apreciarem mais quanto mais tristes estivermos. Porque é que parecemos mais profundos quando somos mais negativos? O que explica o prestígio do pessimismo?”

Di-lo, com conhecimento de causa (e experiência) Daniel Innerarity. Penso-o, eu. E sinto-o, quase como dever, da filantropia, e, logo, da oportunidade de contributo que hoje tenho e temos, em equipa. Combater a ideia de que o pessimismo e a desconfiança são as atitudes mais lúcidas e/ou sofisticadas, particularmente em contexto social, e co-construir um optimismo realista e informado, capaz de gerar confiança no presente e para o futuro.

Esta foi uma das ideias chave que procurei sublinhar – também a propósito da necessidade que temos de, enquanto país, valorizar e investir de forma mais significativa na qualidade, enquadramento e condições e empoderamento da economia social e da sua força de trabalho – na mesa-redonda em que participei a 18 de junho do evento “Ponto de Interrogação” da Native Scientists.

A mesa tratou “o papel das parcerias para uma educação mais justa e inclusiva” e junto com o Afonso Arnaldo, a Carla Sepúlveda e o Paulo Marques (a todos agradeço a interessante conversa), com a sempre brilhante moderação do José Maria Pimentel (desta vez num tema menos “inesperado” 😉, mas não menos relevante), discutimos o tema sob diversas lentes.

No meu caso, além do que atrás refiro, procurei discutir o papel que uma Fundação de proximidade ou comunitária, conforme a Fundação Mendes Gonçalves se tem afirmado, pode ter na mobilização e na participação na dinamização de parcerias, na resiliência da comunidade face a adversidades e desafios, na utilização paciente e estratégica dos seus recursos e do seu importante contributo – por via da inovação, da possibilidade de experimentação e investigação mas, também, pela advocacia e comunicação – para melhores políticas (públicas), que possam servir melhor mais pessoas.

Com um especial agradecimento pela confiança e convite ao Nuno Vieira de Almeida, à Joana Moscoso, PhD e à Joana Bordalo e, outro, mais importante, pelo trabalho notável que fazem, junto com toda a equipa da Native Scientists a aproximar a ciência das crianças; saio deste momento com a convicção reforçada de que não se constroem respostas para desafios complexos de forma isolada, antes em parceria, proximidade, com paciência e confiando que será possível.

É também esse o meu e nosso compromisso – fazermos, com um otimismo realista, a nossa parte, no nosso território e nas parcerias que construímos pela educação… Pelo futuro de todos.