Tenho para mim que não devemos ignorar a complexidade. Antes a devemos assumir, pensar, talvez “navegar”. Penso-o a propósito de um contributo enquanto “júri” do Big Impact 26, organizado pela imatch • amplifying innovation e de desse dia ter trazido uma certeza e uma inquietação.
Primeiro a certeza. Que há uma geração de empreendedoras/es com ambição, rigor e vontade genuína de contribuir para desafios societais e para a resolução de problemas que impactam a possibilidade de bem-estar. Assisti à apresentação de 11 ideias e projetos sólidos (listagem em comentário), bem pensados, com potencial de impacto concreto e, onde, a ancoragem à tecnologia e, especialmente, à inteligência artificial (IA) e ao que hoje (e amanhã) permite (e permitirá) foi evidente.
Depois a inquietação. A IA está, portanto, a abrir possibilidades com potencial incrível, mas… E o mas vem, mesmo e também, dessa sua omnipresença nos projetos: O que nos cabe e caberá a nós?
Diria, o fundamental. As competências base. A leitura, a escrita, o raciocínio, a atenção e concentração, o pensamento crítico. A capacidade de avaliar, duvidar, de decidir. E os valores… E a criação de comunidade e, com ela, de suporte social. Porque o Mundo será certamente muito diferente se usarmos a IA a partir de uma base sólida de conhecimento, valores e de capacidade de juízo, decisão e crítica face a, no limite, dependermos dela exatamente por não termos essas bases.
E aqui há sinais que nos devem (pre)ocupar. Um extraordinário recente texto do The Economist (ver nos comentários) reflete sobre como estão hoje as/os alunas/os dos “países ricos” a chegar ao ensino superior sem mínimas competências básicas de numeracia e literacia. Em média, 8% das/os estudantes de ensino superior dos países da OECD – OCDE não chegam hoje a valores esperados nestas áreas em crianças de 10 anos (em alguns países são 10, 15, 20% das/os alunas/os – ver gráficos abaixo). Isto enquanto a IA “generativa” é quase plenamente utilizada mas tende a agravar o problema quando substitui o compromisso, em vez de o potenciar. Diz mesmo o artigo que a IA “induz resignação” e isso (…) já “não é pragmatismo; é rendição”.
É aqui que se cruzam, para mim, as duas realidades. Quanto mais poderosa e de maior potencial for a IA, mais decisivo se torna investir no que nos torna capazes de a utilizar, com racionalidade, discernimento e a partir de uma ideia de bem, de bem-comum. E isso deve começar muito cedo.
Também por isso, na Fundação Mendes Gonçalves temos insistido na necessidade de trazer mais investimento e mais acesso e qualidade para a educação no período 0-10 anos. É aqui a base. É aqui que podemos desenvolver “as bases”. É aqui que, com maior eficácia, podemos promover equidade e o desenvolvimento de todos.
O futuro construir-se-á certamente com IA. Mas construir-se-á, antes de tudo, com pessoas capazes de o imaginar. E isso — esse tal fundamental — não é delegável e nele devemos investir. Verdadeiramente desde o início.
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