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Educação Filantropia Política Psicologia

Hoje, amanhã e depois…

9130. No passado Sábado reencontramo-nos na nossa Évora, cerca de 9130 dias depois. Passam, por estes dias, 25 anos do início do nosso curso e, por isso e “em turma”, juntamo-nos para almoçar. Se quiserem pensar esta quantidade de tempo em vós (e se tiverem “idade que o permita”), pensem no momento em que souberam dos atentados que a 11 de Setembro de 2001 aconteciam nos EUA e que, entre outros, conduziram à queda das Torres Gémeas e a um Mundo necessariamente diferente. Eu penso-o muito também para me “pensar” e perspetivar… Em como o que fazemos hoje impacta o futuro. Nosso e do e de quem nos rodeia. Penso-o, especialmente, hoje.

E, pensando-o hoje, 25 anos levar-nos-ão sensivelmente a 2050. A meio deste complexo, incerto e imprevisível (não terão sido todos?) mas “ultra-veloz” século que partilhamos e para o qual as nossas ações, hoje, contribuem para o presente e futuro. Também por isso, há dias, pensando em algo que teve, tem e (espero) continuará a ter um papel fundamental de agregador de pessoas e comunidades – alimentação/refeições – e que, simultaneamente, se cruza com importantes dimensões pessoais (económicas, saúde e bem-estar, auto-estima, pertença, etc.) e sociais (economia, clima e biodiversidade, serviços de saúde, etc.) escrevi um artigo que aqui convosco (ver comentário).

“Uma ideia para a sustentabilidade futura do SNS? Investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância”, chamei-lhe. Com ele procuro suscitar que se pense em como investir na alimentação e nos espaços de refeição da primeira infância é uma das formas mais eficazes — mas pouco intencionalizada — de cuidar do que aí vem. Da saúde, desenvolvimento e bem-estar das crianças. Da comunidade que, também, se constrói “à volta de uma mesa”. E para a própria sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

…“os espaços de refeição – na escola e em casa – podem ser um importante “educador silencioso” (…) porque uma criança não aprende a comer apenas e só porque lhe explicam o que é saudável. Antes, aprende porque observa, repete, associa e sente. Aprende com o espaço, com a rotina, com o tempo que lhe é dado e que é dado à refeição. Aprende com a calma ou com o stresse de quem a rodeia, com a possibilidade de escolher e de participar, com o prazer e o respeito com que vê os adultos comerem. A cada refeição, este educador silencioso está a contribuir para as memórias, a criar relação e a formar o comportamento (alimentar, e não só) das crianças, hoje, e dos adultos de amanhã.” Escrevo. Sinto.

“Porque investir nos ambientes de refeição da primeira infância é um dos exemplos mais claros daquilo que hoje rareia: um contributo que não polariza, não simplifica e não promete o impossível. Que não é particularmente caro, que é eficaz e que tende a, de forma evidente, contribuir para melhorar, hoje e amanhã.”

Como o que somos hoje foi, em boa parte, semeado no que se fez e aconteceu, o que seremos amanhã está a ser co-construido, hoje. Pelo futuro de todos.

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Comportamento Desafios da Psicologia Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política Psicologia

Ainda a confiança…

Uma equipa multidisciplinar é reunida para procurar soluções para as pragas constantes de percevejos nas habitações de um bairro em Lowell, Massachusetts (USA). Na equipa surge uma proposta: disponibilizar aos moradores capas de colchão seladas. Proposta sensata, pensamos… Porém, também na equipa, alguém sugere que se converse sobre este problema com os moradores. É dessas conversas (focus groups) que se conclui que na maioria das casas não existem (sequer) os colchões que seriam protegidos pelas capas seladas.
Um de inúmeros exemplos que poderia partilhar de como soluções incríveis, se não contextualizadas e personalizadas, são ineficazes ou, pelo menos, ineficientes e que trago a partir de um texto que abaixo partilho. Texto que reflete sobre como a ciência psicológica deve assumir outro envolvimento com o “público” (contextos e pessoas a que se destina) para obter confiança e legitimidade, bases fundamentais de uma ciência com um contributo determinante em períodos de desafio ou crise significativos (pessoais ou sociais), onde muitas vezes a confiança se encontra mais seriamente ameaçada.
E é exatamente sobre ela, neste momento em que movimentos sociais e políticos a procuram fragilizar, intuindo os “ganhos” que para si que daí resultam (fingindo ignorar o mal pessoal e social que resulta da quebra da confiança e da coesão social), que gostava de partilhar duas ideias que penso, paradoxalmente, simples e poderosas:
a) Tal como as soluções maravilhosas só funcionam (maravilhosamente) se adaptadas aos contextos e públicos, também só podem ser eficazes se os contextos e públicos confiarem nelas e nas pessoas/organizações/entidades que as implementam. Daqui sucessivamente resulta que construir confiança é fundamental para a intervenção social e para apoiar a mudança no sentido de mais oportunidades de bem-estar e autodeterminação para todos;
b) Que todos – todos – temos um papel pessoal (e profissional) neste processo. Todos inclui a própria economia social que, não raras vezes, também a partir dos incentivos do próprio sistema (incluindo do Estado) que a financia e dos apoios que recebe (incluindo das Fundações) é ela própria, também paradoxalmente, organizada em torno da desconfiança e pouco promotora de confiança. É certo que existem (talvez mais hoje que ontem) exemplos em que assim não é como os que o Ricardo Garcia aponta no excelente texto que também partilho, mas são ainda assim a excepção.
O André Barata – excelente, sempre – escrevia este fim de semana que “a vida não se faz escassa quando nos dispomos a vivê-la. Passamos tanto tempo a pensar que viver é conquistar e não deixar escapar. E depois basta um dia de praia para o corpo descobrir que viver não é ganhar a vida. Ela está aí”.
É, não é? E é assim com a desconfiança… Passamos tanto tempo dedicados a ela que nos esquecemos do bom que é confiar, não é?
Até porque, conforme a desconfiança gera desconfiança, a confiança gera confiança. Construamo-la. Pelo futuro de todos.
……..
. “Publicly Engaged Science” | @Zara Abrams | @AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION |  http://resources.magappzine.com/feeds/production/comboapp/2335/media/262502/17e216f4-47dc-4f27-97b1-246cf10be01a.html
. “Financiar a confiança: o que o caso de MacKenzie Scott nos deve fazer pensar” | @Ricardo Garcia | @SAPO | https://sapo.pt/artigo/financiar-a-confianca-o-que-o-caso-de-mackenzie-scott-nos-deve-fazer-pensar-6a677580fb226a497b8f6b9e
. “Sobrar” | André Barata | @PÚBLICO | https://www.publico.pt/2026/08/21/culturaipsilon/opiniao/sobrar-2185314
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Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Política

Antecipar o futuro da alimentação e o seu papel na comunidade

Com a generalização de canais de notícias (24 horas), assistimos a um aumento exponencial dos tempos de diretos e de comentário político/social, duas “modalidades” óptimas para nos “vermos” enquanto seres humanos. Da capacidade de interpretar e “julgar” sem informação e contexto, dos diretos, à demonstração de uma curiosa característica humana: somos os únicos seres vivos que sabemos que morreremos (e nisso estamos certos) mas somos, simultaneamente, muito maus a prever o futuro (veja-se, a partir do artigo que partilho, como os estudos de P. Tetlock demonstram como grupos de especialistas acertam sobre o futuro menos do que o acaso – alguém que atirasse uma moeda ao ar e escolhesse com base nisso, acertaria mais que eles).

 

Assim sendo, num Mundo de instabilidade e incerteza, mais do que prever, deveríamos procurar antecipar o futuro e, consequentemente, participar na sua co-construção.

 

Como ? Vejamos um exemplo que me é significativo e que cruza comunidade e alimentação. Há já uns meses Pedro Adão e Silva refletiu sobre a “privatização das práticas sociais associada à alimentação”, encontrada, entre outros, num estudo de Vasco Ramos (“menos 28% de refeições partilhadas em casa de família e amigos, menos 27% de visitas para comer em casa de outros e menos 21% de celebrações fora de casa”). Dados que demonstram “o declínio das formas tradicionais de sociabilidade, muito alimentadas na mesa partilhada” e, certamente, associam-se à “erosão da esfera pública”, “intimização da sociedade” (expressão de R. Sennett) e, acrescento eu, um risco para o sentido de comunidade e para a coesão social.

 

Aqui reside o duplo valor de anteciparmos o futuro da alimentação. O próprio, do acesso e escolhas, pela importância e ligação a desafios pessoais e societais. O resultante da relação com o processo de construção de laços e de comunidade.

 

Podemos fazê-lo através do triângulo dos futuros (S. Inayatullah) e da tensão entre a pressão do presente (as tendências de hoje), o “push” do futuro (as suas imagens e promessas) e o peso da história (os hábitos, culturas e estruturas que “resistem” à mudança). Se o pensarmos assim, e se verificarmos que o peso da história, neste caso, não está a resistir à pressão do presente, creio que participarmos na co-construção deste futuro implica que criemos (e partilhemos) uma visão de futuro em que a alimentação é central no bem-estar individual e social, no desenvolvimento (particularmente na primeira infância) e equidade e está fortemente conectada e enraizada no território e comunidade e se assume pilar da coesão social.

 

Melina Shannon-DiPietro, com esperança, vê sinais de que é possível nas “novas colaborações entre agricultores, cozinheiros, cientistas e comunidades — da agricultura regenerativa à redução do desperdício, [da sazonalidade] até ao redescobrir do prazer de comer bem, em conjunto”.

 

Eu e nós (Fundação Mendes Gonçalves) para isso procura(re)mos contribuir. Eu, nos próximos dias, partilharei sempre a mesa.

 

……

. “Os comentadores famosos acertam menos do que um chimpanzé” | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2023/12/01/ciencia/noticia/comentadores-famosos-acertam-menos-chimpanze-2071688

. “Diz-me o que comes, dir-te-ei que sociedade és” | Pedro Adão e Silva | PÚBLICO | https://www.publico.pt/2025/10/16/opiniao/opiniao/dizme-comes-dirteei-sociedade-es-2151079

. “Dario World”| Toke Hangøj | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/dario-world/

“Radical Hospitality” | Casper Skovgaard Petersen (entrevista a Melina Shannon-DiPietro) | FARSIGHT, CIFS | https://farsight.cifs.dk/radical-hospitality/

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Democracia Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política Psicologia

Comunidade, comunidade…

“Vivemos, dizem-nos, uma crise de saúde mental: milhões de pessoas em listas de espera, serviços incapazes de responder à procura, crianças a chegar às urgências em desespero”. Assim afirma, num artigo já de 2022 mas atual e que convoca à reflexão (até porque não concordaremos todos com todo o seu conteúdo), Sanah Ahsan, psicóloga com anos de experiência no SNS do UK, para logo nos interpelar com a seguinte questão: “Doesn’t it make sense that so many of us are suffering?” Fará – mesmo – sentido que tantos de nós estejamos a sofrer?

 

Também eu, tantas vezes, o penso e faço esta pergunta. Fará sentido, neste nosso tempo, que tantos de nós soframos? Que tantas crianças e jovens sofram?

 

É certo que vivemos um momento de instabilidade, incerteza e desconfiança. Mas é também certo que, além de mais recursos, temos hoje mais conhecimento que pode(ria) ajudar a contrabalançar estes movimentos. Um, fundamental, a importância das relações e da forma como participamos na construção de comunidade e nos sentimos parte dela, como fatores fundamentais de proteção face a este Mundo incerto e fontes de suporte, confiança e capacidade de adaptação. Como as relações e a comunidade nos aproximam de um propósito e da possibilidade de bem-estar.

 

É, também por isso, que tenho procurado refletir sobre qual pode ser o meu e nosso papel como cidadãos e profissionais, nas mais diversas áreas, na revitalização do que significa hoje construir comunidade e, simultaneamente, criar confiança e reforçar a coesão (social).

 

A este propósito sugiro, também, a leitura de uma interessante reflexão de David Sharpley sobre como a reconstrução da confiança (e coesão) social – muitas vezes “perdida” por via de sentimentos de injustiça e do ressentimento e dúvida que se instalam – começa, precisamente, pelo sentido de pertença.

 

Sentido de pertença base de um estudo recente – que também aconselho – publicado pela BIT e que analisou seis mil milhões de amizades (em redes sociais) no UK e que conclui que crianças de famílias com menos recursos que crescem em comunidades mais conectadas entre diferentes estratos sócio-económicos podem ter salários 28% superiores aos 28 anos face às que crescem em zonas mais isoladas… Isso e que a proximidade física, por si só, não é suficiente… São as atividades (e propósitos) partilhados que transformam vizinhança em vínculo. Conexão. Comunidade.

 

Ahsan termina o seu artigo com a imagem de uma planta a murchar: “não lhe diagnosticaríamos uma “síndrome de murchidão”, procuraríamos alterar as suas condições”. Certo. E porque não nas comunidades, pergunto eu? Para “criarem raízes” e as pessoas que as constituem tenham espaço de crescimento e desenvolvimento. Porque não reforçar, hoje e no futuro, aquilo que mais protege(u) (sempre) o bem-estar e desenvolvimento? Uma comunidade, coesa e baseada na confiança.

Ps. A imagem que partilho é da Cueva de las Manos onde quem habitava a Patagonia, algures entre há 13000 e 9500 anos, pensava a comunidade, assim.

 

….

 

I’m a psychologist – and I believe we’ve been told devastating lies about mental health | Sanah Ahsan | @The Guardian | https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/sep/06/psychologist-devastating-lies-mental-health-problems-politics

Why social trust is failing – and how Psychology can restore it | The Psychologist @David Sharpley | https://www.bps.org.uk/psychologist/why-social-trust-failing-and-how-psychology-can-restore-it

Friends with benefits: How to connect communities to create opportunities | @The Behavioural Insights Team | https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf

Cova de las Manos | @UNESCO | https://whc.unesco.org/en/list/936/

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Debate à 5ª Filantropia Fundação Mendes Gonçalves Política

Native Scientists

“Um dos mistérios mais insondáveis da nossa profissão como filósofos (…) [é] as pessoas nos apreciarem mais quanto mais tristes estivermos. Porque é que parecemos mais profundos quando somos mais negativos? O que explica o prestígio do pessimismo?”

Di-lo, com conhecimento de causa (e experiência) Daniel Innerarity. Penso-o, eu. E sinto-o, quase como dever, da filantropia, e, logo, da oportunidade de contributo que hoje tenho e temos, em equipa. Combater a ideia de que o pessimismo e a desconfiança são as atitudes mais lúcidas e/ou sofisticadas, particularmente em contexto social, e co-construir um optimismo realista e informado, capaz de gerar confiança no presente e para o futuro.

Esta foi uma das ideias chave que procurei sublinhar – também a propósito da necessidade que temos de, enquanto país, valorizar e investir de forma mais significativa na qualidade, enquadramento e condições e empoderamento da economia social e da sua força de trabalho – na mesa-redonda em que participei a 18 de junho do evento “Ponto de Interrogação” da Native Scientists.

A mesa tratou “o papel das parcerias para uma educação mais justa e inclusiva” e junto com o Afonso Arnaldo, a Carla Sepúlveda e o Paulo Marques (a todos agradeço a interessante conversa), com a sempre brilhante moderação do José Maria Pimentel (desta vez num tema menos “inesperado” 😉, mas não menos relevante), discutimos o tema sob diversas lentes.

No meu caso, além do que atrás refiro, procurei discutir o papel que uma Fundação de proximidade ou comunitária, conforme a Fundação Mendes Gonçalves se tem afirmado, pode ter na mobilização e na participação na dinamização de parcerias, na resiliência da comunidade face a adversidades e desafios, na utilização paciente e estratégica dos seus recursos e do seu importante contributo – por via da inovação, da possibilidade de experimentação e investigação mas, também, pela advocacia e comunicação – para melhores políticas (públicas), que possam servir melhor mais pessoas.

Com um especial agradecimento pela confiança e convite ao Nuno Vieira de Almeida, à Joana Moscoso, PhD e à Joana Bordalo e, outro, mais importante, pelo trabalho notável que fazem, junto com toda a equipa da Native Scientists a aproximar a ciência das crianças; saio deste momento com a convicção reforçada de que não se constroem respostas para desafios complexos de forma isolada, antes em parceria, proximidade, com paciência e confiando que será possível.

É também esse o meu e nosso compromisso – fazermos, com um otimismo realista, a nossa parte, no nosso território e nas parcerias que construímos pela educação… Pelo futuro de todos.

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Democracia Desafios da Psicologia Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Nós, verdadeiramente, não sabemos

Certamente já viveram acontecimentos de vida significativos que, mais ou menos positivos, foram para vós transformadores e tornaram claras questões que podiam não ser claras antes.

 

Assim aconteceu comigo. Amanhã, dia duplamente importante para a nossa família, é um daqueles dias em que ela poderia sorrir, orgulhosa. Não pode. Perdemo-la antes de ter oportunidade de conhecer quem amanhã cumpre mais uma bonita etapa profissional e quem amanhã cumpre mais um aninho. Perdemo-la e essa perda tornou claro, claríssimo, para mim algo que, sabendo, talvez não sentisse como passei a sentir: nós, verdadeiramente, não sabemos. Julgamos, pensamos, cremos que sim, mas, muitas vezes, não sabemos. E inscrevermos isso em nós é exigente, duro até, mas, simultaneamente, muito libertador.

 

Há semanas, aquando da missão Ártemis II em torno da Lua e do que invariavelmente sucede quando os seres humanos realizam feitos extraordinários (o consequente surgimento de narrativas de que tudo é falso, de que só alguns predestinados sabem a verdade), o jornal Público publicou um “Prova dos factos” que garante – sim é necessário hoje garanti-lo – que “fomos mesmo à Lua” mas que “narrativas que garantem que é encenado existem desde 1969”.

 

Este “Prova dos factos” cita um artigo que escrevi com um amigo e colega (Miguel Ricou), em 2021, quando coordenava o Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, num tempo em que a incerteza e o desconhecido eram parte permanente do dia-a-dia. Escrevemos então o agora citado: que quem acredita em teorias da conspiração procura, no fundo, uma sensação de segurança e controlo, “a segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais”. Uma ilusão entendível, humana se quisermos, mas tremendamente perigosa a meu ver.

 

Quem acredita que sabe tudo tende a fechar-se ao outro. Quem recusa a incerteza torna-se menos disponível para aprender, adaptar-se e de, genuinamente, relacionar-se. A humildade de aceitarmos que não sabemos (tudo), que podemos estar errados, que há mais do que o que vemos e que as outras pessoas são, também elas, capazes não é uma fraqueza. É uma força, felizmente também humana, que nos aproxima dos outros e de ser e estar mais, melhor.

 

O “Global Flourishing Study”, o maior estudo sobre florescimento, confirma-o: o que mais nos faz florescer não é a certeza (e controlo), nem a riqueza. São, antes, as relações que estabelecemos connosco, com os outros (com abertura à surpresa e diferença e sem julgamento) e com o que nos rodeia. É, antes, como nos integramos e contribuímos em comunidade e como criamos sentido e propósito.

 

Por isso na Fundação Mendes Gonçalves procuramos algo que vai além dos projetos e programas: novas formas de estar em e criar comunidade. Acreditando que o florescimento e um futuro de maior e mais equitativo bem-estar começa precisamente no reconhecimento de que não estamos sozinhos e que não sabemos e podemos tudo, sós.

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Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política

“Qual o lugar – atual e potencial – da nutrição no quadro da economia social e da filantropia em Portugal e no Mundo?”

“Qual o lugar – atual e potencial – da nutrição no quadro da economia social e da filantropia em Portugal e no Mundo?”, perguntei a abrir…

A nutrição está no centro de alguns dos maiores desafios societais do nosso tempo. Da promoção da saúde ao bem-estar, da coesão territorial e social à sustentabilidade. No entanto, e paradoxalmente, está ainda relativamente ausente das agendas estratégicas da economia social e da filantropia em Portugal. Com exceções importantes, que reconhecemos e valorizamos. Mas com um espaço enorme por ocupar.

Também por isso recebemos com ainda maior gratidão o voto de confiança da Associação Portuguesa de Nutrição (uma das exceções relevantes) para que, neste nosso início de atividade, a Fundação Mendes Gonçalves estivesse presente no mais importante congresso que anualmente debate a alimentação e a nutrição em Portugal. Um convite que agradecemos na pessoa da Helena Real, que muito nos honrou e que permitiu que, àquele contexto, levássemos esta questão e reflexão.

Mas, mais, permitiu também que levássemos informação sobre o que enquanto Fundação, com um pilar e programa estrutural que cruza nutrição, estilos de vida e bem-estar (o programa Nutrir), estamos a construir e desenvolver nestas áreas, com exemplos concretos como são o projeto “Ambientes que Nutrem”. Bem como permitiu a sinalização da nossa vontade de contribuir para este ecossistema, a partir da convicção de como uma Fundação de proximidade com uma comunidade, com a nossa missão, pode e deve ter a nutrição no centro da atuação.

Saímos orgulhosos. De ter estado. De ter partilhado. De ter contribuído. E, sobretudo, de nos termos relacionado e comprometido, também, a procurar colaborar para que no futuro possa existir mais “nutrir” na economia social e na filantropia.

Por isso a fechar a intervenção disse: “Certamente outro. Maior, mais estratégico e com mais impacto. Outro, pelo futuro de todos”. Respondi assim à pergunta inicial que havia colocado, comprometendo-nos com este caminho.

Ps1. Digo saímos porque, ali estive, em representação de toda a nossa equipa – a quem agradeço – e junto com a Vanessa Esteves, colega com maior responsabilidade nos trabalhos que a Fundação Mendes Gonçalves tem desenvolvido no seu programa “Nutrir” e que, numa próxima oportunidade, trocará de lugar comigo numa apresentação desta natureza;

Ps2. Este apenas para quem lá esteve… Foram bastante mais de 50 (mais de 100, até) as pessoas que fizeram o que pedi… Obrigado. Estou, portanto, a aguardar as alvíssaras da minha equipa. Com enorme expectativa… 😊

Ps3. Não hoje. Hoje são para uma outra pessoa da nossa equipa, que cumpre um dia especial e que todos os dias nos torna melhores.

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Educação FMG Pobreza e Desigualdade Política

1000 dias, investigação e equidade

“[Um desafio] é o bebé precisar de estar confortavelmente deitado no aparelho de ressonância magnética funcional acordado e sem se mexer”, disse ao Público uma investigadora, a propósito de um novo estudo com imagens da atividade do cerébro de bebés. Estudo que permite compreender que bebés pequenos (2 a 4 meses) “vêem o Mundo de forma mais complexa do que se imaginava” tendo já “capacidade de agrupar categorias – distinguir entre imagens de seres vivos e objectos – aos 2 meses”. Um passo importante para “ligar este tipo de imagem cerebral aos resultados cognitivos mais tarde na vida”.
Para tal e para crescermos em evidência e, espero, em sobressalto público e responsividade das/os decisoras/es e das políticas públicas à importância de cuidarmos os primeiros 1000 dias de vida, enquanto período fundamental de desenvolvimento e de promoção da equidade pelo cuidado, conforto e segurança, física e emocional do bebé, mas também pela educação e nutrição de qualidade.
Temos (Fundação Mendes Gonçalves) insistido no tema e na necessidade (de certa forma urgência), não raras vezes desconsiderada em função da necessidade (premente é certo) do mero reforço da oferta e da ausência de uma visão para as instituições educativas dos 0-3 anos voltada para uma estimulação e educação de qualidade. E temo-lo feito com ações concretas que apresentamos num evento que denominamos “Cuidar da Primeira Infância” [Golegã; 11.02.26] onde lançamos o “Cuidar em Rede”, uma rede de insituições educativas que incluem respostas de berçário, creche e JI da Golegã e dos concelhos limítrofes com a qual procuraremos, juntos, contribuir para uma educação de qualidade dos 0-6 anos e para um olhar proactivo para a importância da alimentação e nutrição. Agredecemos aos 5 municípios e às 9 instituições iniciais e nos próximos meses alargaremos a rede e o seu potencial de contributo.
Sabemos bem porque é que esta é uma prioridade de Portugal, “2º país da OECD – OCDE com maior nível de desigualdade de oportunidades” e 1º na responsabilidade das “circunstâncias herdadas, como o contexto socioeconómico dos pais”, na desigualdade – 40% face a uma média de 25% para toda a OCDE.
Complementarmente, como a American Psychological Association sublinha, a saúde mental começa com o começo da vida pelo que “além de reduzirmos as experiência adversas” de bebés/crianças necessitamos potenciar e promover os “aspectos positivos da infância, fundamentais para ajudar a suportar os riscos da vivência de experiências adversas no futuro” e “priorizar a prevenção, ajudando crianças a florescer antes de esperar que os problemas se aprofundem” para depois intervir.
Um e outro procuramos, a partir dos nossos recursos e capacidades, suportados na crença e compromisso forte com este caminho. Para fazer e fazer bem, junto com outras entidades, a partir da Golegã e região ao redor, procurando inspirar o país e, quem sabe, outras partes do Mundo.
Ps. Em comentário partilho links para mais e mais aprofundada informação.
Links Publicação:
“Bebés de dois meses vêem mundo de forma mais complexa do que cientistas imaginavam | @PÚBLICO |
https://www.publico.pt/2026/02/03/ciencia/noticia/bebes-dois-meses-veem-mundo-forma-complexa-cientistas-imaginavam-2163498
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Evento “Cuidar em Rede” | @Fundação Mendes Gonaçlves | https://fundacaomendesgoncalves.org/2026/02/11/apresentacao-da-fundacao-mendes-goncalves-2/
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Portugal é o 2.º país da OCDE com maior nível de desigualdade de oportunidades e grande parte da “culpa” é da profissão dos pais | @Expresso | https://amp-expresso-pt.cdn.ampproject.org/c/s/amp.expresso.pt/sociedade/2025-09-29-portugal-e-o-2.-pais-da-ocde-com-maior-nivel-de-desigualdade-de-oportunidades-e-grande-parte-da-culpa-e-da-profissao-dos-pais-7a3ac707?utm_term=Autofeed&utm_medium=Social&utm_source=LinkedIn
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Psychologists are reimagining how society supports children – New models of care, education, and prevention prioritize mental health across the life span | @American Psyhcological Association | https://www.apa.org/monitor/2026/01-02/trends-childhood-lifelong-mental-health?utm_source=linkedin&utm_medium=social&utm_campaign=apa-monitor&utm_content=childhood-lifelong-mental-health
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Filantropia Política

Revitalizar a filantropia de proximidade: Contribuir lado a lado para o futuro de todos

A filantropia, tantas vezes vista como gesto distante, nasce da presença, da relação e da ligação aos territórios e às suas pessoas. Aproximar quem generosamente doa de quem dessa doação mais pode beneficiar é, verdadeiramente, construir comunidade.

Chamamos-lhe filantropia de proximidade, e queremos afirmá-la como resposta relevante para desafios sociais complexos com aplicação local e de pertinência global. Afirmar uma forma de agir que transcende o “quê” ou o “quanto”, intencionalizando, também, o “como” e o “porquê”. Uma forma de filantropia onde os impactos positivos da doação vão suplantar os importantes resultados dos projetos. Em que não se trata apenas de atingir objetivos, mas sim de, no processo, estabelecer relações e criar confiança junto das pessoas, incrementando regularidade e contributos adicionais para esse círculo virtuoso.

Na promoção e efetividade do conceito de filantropia de proximidade, as fundações comunitárias, baseadas e fortemente relacionadas e enraizadas numa comunidade, podem e devem assumir um papel relevante. Devem, para isso, ser capazes de incorporar e comprometer-se com as pessoas e, com elas, aprender e dialogar. Devem valorizar a diversidade de perspetivas e focar-se nas suas carências, desafios e expetativas, procurando, em conjunto, co-construir as melhores soluções. Devem existir e cumprir a sua missão, enquanto parte da comunidade que cuidam.

Recentemente, num encontro promovido pela ECFI (Iniciativa Europeia de Fundações Comunitárias), pude discutir e trabalhar com líderes de fundações de tipologias muito diversas: com décadas de existência e recém-criadas; baseadas em comunidades de países com severos constrangimentos democráticos ou onde estão há décadas fortemente implementadas e onde são muito reconhecidas; com recursos relativamente limitados e com estruturas de grande dimensão. Pude testemunhar o incrível trabalho que fazem e o quanto se assumem parte das comunidades que protegem e cuidam. Pude igualmente comprovar o quão complexo é trabalhar com comunidades expostas a situações de maior vulnerabilidade, mas como, com persistência e empenho, é possível ultrapassar dificuldades. O quanto, também, contribuem para que estas pessoas (ou grupos) deixem um lugar de meras recetoras de apoios e/ou intervenções para serem parceiras e promotoras de mudança. São histórias de vidas que mudam para melhor. De comunidades que se fortalecem e se tornam mais resilientes.

Vivemos um tempo particularmente exigente, de grandes ameaças, de transformações constantes, de aprofundamento da insatisfação e do ressentimento, de agravamento das desigualdades. Um tempo em que urge retomar o envolvimento e a conexão e que, nesse sentido, beneficia do balanço de ações de filantropia de escala global com ações de proximidade e base comunitária. Co-construir soluções colaborativas, no nosso caso a partir do coração do Ribatejo, que, quem sabe, influenciem políticas públicas e que inspirem outros territórios, da Golegã para o Mundo.

É tempo de, em Portugal, revitalizarmos a filantropia de proximidade, trabalhando lado a lado para o futuro de todos. Este não é um caminho que percorremos sozinhos.  Contamos com o Centro Português das Fundações que valoriza e promove o papel das fundações comunitárias, incentivando uma abordagem colaborativa e territorial que procura aproximar a filantropia do quotidiano das comunidades, contribuindo para um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo. Algo que discutimos, também recentemente, num debate sobre o futuro das Fundações Comunitárias em Portugal, a propósito da comemoração do 57.º aniversário da CEBI (30º enquanto Fundação Comunitária), um exemplo para tantas outras que com ela se relacionam e nela se inspiram.

Que saibam que também na Fundação Mendes Gonçalves estamos comprometidos com este o desenvolvimento e robustez das Fundações Comunitárias em Portugal e com o seu papel na promoção de territórios mais justos, resilientes e prósperos, com responsabilidade, coragem e convicção. Para um país e um Mundo melhores.

 

Tiago Pereira

Revitalizar a filantropia de proximidade: Contribuir lado a lado para o futuro de todos

in Líder, 10.12.2025

Revitalizar a filantropia de proximidade: Contribuir lado a lado para o futuro de todos

 

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Democracia Política Psicologia

Sofia Corradi

Coincidentemente estava de regresso a Itália, pela primeira vez, aquando da sua morte, na “sua” Roma. Estávamos a 17.10 último e saber da morte de Sofia Corradi, “mãe do (programa) Erasmus”, fez-me reviver memórias muito concretas e importantes da minha vida.

Para mim, que cresci num contexto relativamente distante dos grandes centros (de Portugal e, mais ainda, da Europa), com limitado acesso a determinados estímulos e à possibilidade de viajar, o meu Erasmus foi uma fantástica e única oportunidade de experimentar algo que mudou a forma como via a Europa e, de certa forma, me passei a ver e os outros me passaram a ver, tal o que me transformou.​

O meu Erasmus, iniciado no Inverno de 2004 com base numa Turim onde nevou muito (sim, sou eu…) é a prova de que foi e é possível promover algo com que a Sofia Corradi sonhou: desenvolver pessoas pelo estimular de relações que atravessam países e culturas e do reforço da coesão a partir da diversidade. E isto não é de somenos, para mais num tempo onde viajar era ainda um privilégio e de ausência de redes sociais como hoje as conhecemos.

Estou bastante certo do impacto incrível que aquele tempo teve na expansão do meu horizonte de possibilidades, pessoais e profissionais. Talvez por isso não me surpreenda a cada vez mais robusta evidência científica que demonstra como a qualidade e diversidade das relações impactam positivamente as oportunidades que temos ao longo da vida, sobretudo para quem provém de contextos mais vulneráveis (veja-se o recente relatório da BI Team – https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf​ – que demonstra como o capital social decorrente de ligações e relações entre pessoas de contextos socioeconómicos diversos aumenta de forma substancial as oportunidades de quem cresce em meios mais desfavorecidos.

E, se isto foi importante há 20 anos, é-o hoje, também, ainda que eventualmente por diferentes motivos. Já não será, tanto, pela ausência de estímulos, possibilidade de viajar e de conhecer realidades diversas. Antes, talvez, como política pública de promoção da equidade e como forma de “combater” os aparentes níveis de bem-estar mais baixos, cada vez mais cedo e durante cada vez mais tempo (https://www.publico.pt/2025/09/08/p3/noticia/ficar-infelizes-cedo-lomba-infelicidade-desapareceu-mundo-2146170). Indicadores que parecem ser sinal de que algo de estrutural não está a funcionar bem na forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com o que nos rodeia e em como o decréscimo das relações significativas e de pertença e a ausência de diversidade nas mesmas parecem para isso concorrer.​

Manter o legado da Sofia Corradi é, por isso, contribuir para que ninguém fique confinado e condicionado ao seu ponto de partida e isso faz-se, também, estimulando mais relação e maior diversidade nas relações, com impacto na abertura de possibilidades e no bem-estar.

Aqui estou para o atestar. Obrigado Sofia.