A filantropia, tantas vezes vista como gesto distante, nasce da presença, da relação e da ligação aos territórios e às suas pessoas. Aproximar quem generosamente doa de quem dessa doação mais pode beneficiar é, verdadeiramente, construir comunidade.
Chamamos-lhe filantropia de proximidade, e queremos afirmá-la como resposta relevante para desafios sociais complexos com aplicação local e de pertinência global. Afirmar uma forma de agir que transcende o “quê” ou o “quanto”, intencionalizando, também, o “como” e o “porquê”. Uma forma de filantropia onde os impactos positivos da doação vão suplantar os importantes resultados dos projetos. Em que não se trata apenas de atingir objetivos, mas sim de, no processo, estabelecer relações e criar confiança junto das pessoas, incrementando regularidade e contributos adicionais para esse círculo virtuoso.
Na promoção e efetividade do conceito de filantropia de proximidade, as fundações comunitárias, baseadas e fortemente relacionadas e enraizadas numa comunidade, podem e devem assumir um papel relevante. Devem, para isso, ser capazes de incorporar e comprometer-se com as pessoas e, com elas, aprender e dialogar. Devem valorizar a diversidade de perspetivas e focar-se nas suas carências, desafios e expetativas, procurando, em conjunto, co-construir as melhores soluções. Devem existir e cumprir a sua missão, enquanto parte da comunidade que cuidam.
Recentemente, num encontro promovido pela ECFI (Iniciativa Europeia de Fundações Comunitárias), pude discutir e trabalhar com líderes de fundações de tipologias muito diversas: com décadas de existência e recém-criadas; baseadas em comunidades de países com severos constrangimentos democráticos ou onde estão há décadas fortemente implementadas e onde são muito reconhecidas; com recursos relativamente limitados e com estruturas de grande dimensão. Pude testemunhar o incrível trabalho que fazem e o quanto se assumem parte das comunidades que protegem e cuidam. Pude igualmente comprovar o quão complexo é trabalhar com comunidades expostas a situações de maior vulnerabilidade, mas como, com persistência e empenho, é possível ultrapassar dificuldades. O quanto, também, contribuem para que estas pessoas (ou grupos) deixem um lugar de meras recetoras de apoios e/ou intervenções para serem parceiras e promotoras de mudança. São histórias de vidas que mudam para melhor. De comunidades que se fortalecem e se tornam mais resilientes.
Vivemos um tempo particularmente exigente, de grandes ameaças, de transformações constantes, de aprofundamento da insatisfação e do ressentimento, de agravamento das desigualdades. Um tempo em que urge retomar o envolvimento e a conexão e que, nesse sentido, beneficia do balanço de ações de filantropia de escala global com ações de proximidade e base comunitária. Co-construir soluções colaborativas, no nosso caso a partir do coração do Ribatejo, que, quem sabe, influenciem políticas públicas e que inspirem outros territórios, da Golegã para o Mundo.
É tempo de, em Portugal, revitalizarmos a filantropia de proximidade, trabalhando lado a lado para o futuro de todos. Este não é um caminho que percorremos sozinhos. Contamos com o Centro Português das Fundações que valoriza e promove o papel das fundações comunitárias, incentivando uma abordagem colaborativa e territorial que procura aproximar a filantropia do quotidiano das comunidades, contribuindo para um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo. Algo que discutimos, também recentemente, num debate sobre o futuro das Fundações Comunitárias em Portugal, a propósito da comemoração do 57.º aniversário da CEBI (30º enquanto Fundação Comunitária), um exemplo para tantas outras que com ela se relacionam e nela se inspiram.
Que saibam que também na Fundação Mendes Gonçalves estamos comprometidos com este o desenvolvimento e robustez das Fundações Comunitárias em Portugal e com o seu papel na promoção de territórios mais justos, resilientes e prósperos, com responsabilidade, coragem e convicção. Para um país e um Mundo melhores.
Tiago Pereira
Revitalizar a filantropia de proximidade: Contribuir lado a lado para o futuro de todos
in Líder, 10.12.2025
Revitalizar a filantropia de proximidade: Contribuir lado a lado para o futuro de todos