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Sofia Corradi

Coincidentemente estava de regresso a Itália, pela primeira vez, aquando da sua morte, na “sua” Roma. Estávamos a 17.10 último e saber da morte de Sofia Corradi, “mãe do (programa) Erasmus”, fez-me reviver memórias muito concretas e importantes da minha vida.

Para mim, que cresci num contexto relativamente distante dos grandes centros (de Portugal e, mais ainda, da Europa), com limitado acesso a determinados estímulos e à possibilidade de viajar, o meu Erasmus foi uma fantástica e única oportunidade de experimentar algo que mudou a forma como via a Europa e, de certa forma, me passei a ver e os outros me passaram a ver, tal o que me transformou.​

O meu Erasmus, iniciado no Inverno de 2004 com base numa Turim onde nevou muito (sim, sou eu…) é a prova de que foi e é possível promover algo com que a Sofia Corradi sonhou: desenvolver pessoas pelo estimular de relações que atravessam países e culturas e do reforço da coesão a partir da diversidade. E isto não é de somenos, para mais num tempo onde viajar era ainda um privilégio e de ausência de redes sociais como hoje as conhecemos.

Estou bastante certo do impacto incrível que aquele tempo teve na expansão do meu horizonte de possibilidades, pessoais e profissionais. Talvez por isso não me surpreenda a cada vez mais robusta evidência científica que demonstra como a qualidade e diversidade das relações impactam positivamente as oportunidades que temos ao longo da vida, sobretudo para quem provém de contextos mais vulneráveis (veja-se o recente relatório da BI Team – https://www.bi.team/wp-content/uploads/2025/12/Friends-with-benefits-How-to-connect-communities-to-create-opportunities.pdf​ – que demonstra como o capital social decorrente de ligações e relações entre pessoas de contextos socioeconómicos diversos aumenta de forma substancial as oportunidades de quem cresce em meios mais desfavorecidos.

E, se isto foi importante há 20 anos, é-o hoje, também, ainda que eventualmente por diferentes motivos. Já não será, tanto, pela ausência de estímulos, possibilidade de viajar e de conhecer realidades diversas. Antes, talvez, como política pública de promoção da equidade e como forma de “combater” os aparentes níveis de bem-estar mais baixos, cada vez mais cedo e durante cada vez mais tempo (https://www.publico.pt/2025/09/08/p3/noticia/ficar-infelizes-cedo-lomba-infelicidade-desapareceu-mundo-2146170). Indicadores que parecem ser sinal de que algo de estrutural não está a funcionar bem na forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com o que nos rodeia e em como o decréscimo das relações significativas e de pertença e a ausência de diversidade nas mesmas parecem para isso concorrer.​

Manter o legado da Sofia Corradi é, por isso, contribuir para que ninguém fique confinado e condicionado ao seu ponto de partida e isso faz-se, também, estimulando mais relação e maior diversidade nas relações, com impacto na abertura de possibilidades e no bem-estar.

Aqui estou para o atestar. Obrigado Sofia.

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