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Democracia Desafios da Psicologia Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Nós, verdadeiramente, não sabemos

Certamente já viveram acontecimentos de vida significativos que, mais ou menos positivos, foram para vós transformadores e tornaram claras questões que podiam não ser claras antes.

 

Assim aconteceu comigo. Amanhã, dia duplamente importante para a nossa família, é um daqueles dias em que ela poderia sorrir, orgulhosa. Não pode. Perdemo-la antes de ter oportunidade de conhecer quem amanhã cumpre mais uma bonita etapa profissional e quem amanhã cumpre mais um aninho. Perdemo-la e essa perda tornou claro, claríssimo, para mim algo que, sabendo, talvez não sentisse como passei a sentir: nós, verdadeiramente, não sabemos. Julgamos, pensamos, cremos que sim, mas, muitas vezes, não sabemos. E inscrevermos isso em nós é exigente, duro até, mas, simultaneamente, muito libertador.

 

Há semanas, aquando da missão Ártemis II em torno da Lua e do que invariavelmente sucede quando os seres humanos realizam feitos extraordinários (o consequente surgimento de narrativas de que tudo é falso, de que só alguns predestinados sabem a verdade), o jornal Público publicou um “Prova dos factos” que garante – sim é necessário hoje garanti-lo – que “fomos mesmo à Lua” mas que “narrativas que garantem que é encenado existem desde 1969”.

 

Este “Prova dos factos” cita um artigo que escrevi com um amigo e colega (Miguel Ricou), em 2021, quando coordenava o Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, num tempo em que a incerteza e o desconhecido eram parte permanente do dia-a-dia. Escrevemos então o agora citado: que quem acredita em teorias da conspiração procura, no fundo, uma sensação de segurança e controlo, “a segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais”. Uma ilusão entendível, humana se quisermos, mas tremendamente perigosa a meu ver.

 

Quem acredita que sabe tudo tende a fechar-se ao outro. Quem recusa a incerteza torna-se menos disponível para aprender, adaptar-se e de, genuinamente, relacionar-se. A humildade de aceitarmos que não sabemos (tudo), que podemos estar errados, que há mais do que o que vemos e que as outras pessoas são, também elas, capazes não é uma fraqueza. É uma força, felizmente também humana, que nos aproxima dos outros e de ser e estar mais, melhor.

 

O “Global Flourishing Study”, o maior estudo sobre florescimento, confirma-o: o que mais nos faz florescer não é a certeza (e controlo), nem a riqueza. São, antes, as relações que estabelecemos connosco, com os outros (com abertura à surpresa e diferença e sem julgamento) e com o que nos rodeia. É, antes, como nos integramos e contribuímos em comunidade e como criamos sentido e propósito.

 

Por isso na Fundação Mendes Gonçalves procuramos algo que vai além dos projetos e programas: novas formas de estar em e criar comunidade. Acreditando que o florescimento e um futuro de maior e mais equitativo bem-estar começa precisamente no reconhecimento de que não estamos sozinhos e que não sabemos e podemos tudo, sós.

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global

Ainda a propósito da minha última partilha que começava com 2 bebés que terão hoje 4 dias, volto com outro recurso que complementa – porque amplifica a outros desafios societais – o texto da passada 2ªF que se referia principalmente à desigualdade/iniquidade.

Falo de uma publicação que parte da colaboração entre a American Psychological Association e as United Nations, da responsabilidade de Odile Frank intitulada: “Psychological aspects of multilateral social development policy and the global development agenda” [Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global] | https://www.apa.org/international/united-nations/social-development-policy.pdf

Documento que parte da identificação de 3 dimensões psicológicas importante ao momento actual de progresso (ou da ausência de progresso ou mesmo do retrocesso) em vertentes da agenda global de desenvolvimento:

. O impacto da pobreza e exclusão no bem-estar e o que podemos fazer para o prevenir;

. A compartamentalização de disciplinas científicas (quando os desafios societais complexos carecem de abordagens interdisciplinares) e a centração em ideias (por vezes preconceitos) e modelos conceptuais de intervenção que nem sempre são os mais custo-eficazes, condicionando o progresso;

. A nível global as tensões mais hedoinistas de maximização e, consequente, concentração da riqueza e algum desequilibrar da balança para mais empatia que altruísmo – a empatia é importantíssima, não me entendam mal, mas, por si só, insuficiente à mudança.

Convido, pois, à sua leitura e a reflectirmos sobre:

. Como pode o desenho de políticas atender mais significativamente às questões sociais, valorizando o impacto nas pessoas e comunidades das necessárias decisões de base económica;

. Como podemos co-construir e desenvolver de forma eficaz e ampla a segurança económica de todos, a partir de redes de proteção mais inclusivas;

. Como podemos renovar e actualizar os princípios de solidariedade entre pessoas, comunidades e gerações, a partir do fortalecimento dos laços e da coesão social e intergeracional e da confiança nas instituições, visando sociedades e um Mundo mais resiliente e com futuro.

É difícil? Certamente.

Os temos ajudam? Nem por isso…

Mas ignorar que o necessitamos de fazer enfraquecerá, sempre e mais ainda, as instituições e a agenda de desenvolvimento global, com repercussões que imagino duras e que historicamente conhecemos com o sofrimento e sacrifício de muitas pessoas. Já fazer destes desafios desígnio, pode dar-nos um propósito, primeiro individual, depois de comunidade e, finalmente, global que estimule uma sociedade mais justa, equitativa e melhor equipada para o presente e futuro.

Farei por isso. Faremos por isso.

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Comportamento Educação Filantropia Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Política Psicologia

2 bebés. 2 Mundos.

Hoje nascerão certamente dois bebés, sem problemas de saúde, cuja família vive em Birmingham. Espera-se, no entanto, que daqui a 5 anos um deles possa ter mais de 4 meses de atraso em termos desenvolvimentais e 4 a 5 vezes mais probabilidade de desenvolver um problema de saúde mental que o outro. A diferença? Um destes bebés nascerá em contexto de pobreza e o outro não. Hoje (2025!), nada mudando, é o que os espera no Reino Unido (UK).

A desigualdade é, certamente, uma das causas maiores das camadas de ressentimento, desconfiança e desesperança que pairam sobre um UK que, pós-Brexit, parece caminhar para que Nigel Farage, um dos seus mais radicais e sinistros obreiros – porque optou por declaradamente ludibriar, se não mentir, aquando da campanha do referendo – possa vir a ser o seu primeiro-ministro.

Nessa Birmingham, na convenção do Reform UK (o seu partido de direita populista/radical, já líder na maioria das sondagens), Farage anunciou a adesão ao partido de Nadine Dorries, ex-ministra da cultura de Boris Johnson e outrora sua grande apoiante que defende hoje que Partido Conservador está “morto” e que só Farage pode “mudar o UK”.

Infelizmente conhecemos cada vez melhor esta proposta de mudança que “varre” a Europa e as Américas do Norte e do Sul e como se foca em políticas de curto prazo, de questionamento de direitos humanos que muitas/os consideramos universais e de fragilização das instituições democráticas e da política baseada em factos e evidência (científica).

Ora, as desigualdades que atrás menciono persistirão se nada de significativo for feito para prevenir a exposição de bebés e crianças a situações de pobreza e exclusão e, particularmente, para os que nascem em alguns contextos considerando que os valores e princípios destas políticas ao invés de os protegeram, tendem a vulnerabilizá-los mais, com graves consequências para o seu desenvolvimento e possibilidade de bem-estar futuros e para o contrato e coesão social.

O “Child Poverty Action Group” publicou este ano o relatório “Building Blocks – How to deliver a child poverty strategy” cuja leitura recomendo. Dele, com o meu viés, destaco:

. A importância de definir metas/objectivos e serem publicamente assumidos;

. Uma reforma dos diversos apoios sociais informada pela ciência;

. Expandir refeições escolares gratuitas, habitação social e creches (de qualidade);

. Garantir responsabilização através de uma monitorização independente dos resultados das políticas;

. E, finalmente, investir nos primeiros 1000 dias de vida, quando comprovadamente as políticas de equidade têm maior impacto e custo-efectividade, se perspectivadas a médio/longo prazo.

Vamos a isso?

Ps. O presente texto poderia ser totalmente sobre Portugal se alterando – apenas – a menção a uma cidade, o nome de um partido, do seu líder, de um/a sua/seu apoiante e de alguns (poucos) números.

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Democracia Emergência Climática Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Regenerar é possível…

Regenerar é possível.

Esta é uma mensagem-chave base do programa Regenerar – https://fundacaomendesgoncalves.org/como-atuamos/regenerar/ – da nossa Fundação Mendes Gonçalves. Algo em que acreditamos, com que estamos comprometidos e que mobiliza a nossa acção e participação no sentido da nossa missão e objectivos, a partir dos nossos valores e formas de fazer.

Pensamos, portanto, dia-a-dia, o que pode ser uma filantropia estratégica nesta área e como podemos potenciar o impacto da nossa acção, a partir dos recursos e possibilidades que temos.

Muito recentemente li dois artigos que ajudam a esta reflexão:

a) “A filantropia estratégica está viva e recomenda-se” (tradução minha) que sublinha o valor da filantropia estratégica no escalar projectos e movimentos para níveis nacionais (e internacionais, acrescento) e, logo, na melhor de vida das populações e ecossistemas; no suporte a movimentos sociais no contributo para a mudança de normas sociais e de políticas; e, finalmente, no contributo para responder às desigualdades e permitir que os projectos essenciais cheguem a quem deles pode mais beneficiar, tudo essencial para promovermos as práticas de agricultura (e produção e consumo em geral) regenerativa e expandir o conceito da regeneração a populações e comunidades (https://ssir.org/articles/entry/strategic-philanthropy-in-defense-of#);

b) “O futuro da agricultura assenta no passado”, um ensaio já com quase 5 anos que oferece uma excelente oportunidade de reflexão a partir da ideia de que as “rápidas transformações no clima (a que acrescento a degradação dos solos e da biodiversidade) forçam a agricultura a reinventar-se (..) e à necessidade de atender a culturas que, Mundo fora, lida(ra)m com desafios significativos nas condições da agricultura, desde há milhares de anos” (https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past)

Artigos que à sua forma são inspiração no nosso trabalho e sonho, trabalho sonho que vos convido a conhecerem no próximo dia 11 de Junho (Quarta-Feira) na Feira Nacional da Agricultura de 2025, em Santarém. Lá estaremos, prontos e disponíveis para a/o receber, a convite da Câmara Municipal da Golegã, no stand do Município. Durante esse dia daremos a conhecer, em maior detalhe e à procura de co-criarmos e co-construirmos, a Fundação Mendes Gonçalves, primeiro, o seu programa Regenerar e o documentário “Common Ground” que passaremos nesse dia, pelas 11h no Auditório do CNEMA/Feira.

Feira que este ano se dedica às “Biosoluções” com ambição de “promover as tendências de sustentabilidade ambiental do setor e proporcionar aos empresários um ponto de encontro que potencia contactos e negócios.”

Oxalá o consigamos. Tal qual consigamos que esta nossa participação, e a actividade e relações ali geradas ou desenvolvidas, permitam caminhos “para modos de produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o Planeta”, conforme o que defendemos no programa Regenerar.

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Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia

O melhor jardim-de-infância que já viu

Ontem comemorou-se em Portugal o Dia da Criança. Uma celebração, simbólica, que resulta da necessidade de uma justa e relevante homenagem às crianças que nos recorde os seus direitos, desde logo, mas particularmente o quão são o presente, o futuro e a base do legado que enquanto pessoas e sociedade pretendemos construir.

Presente, futuro e legado que, necessariamente, dependem do que fazemos hoje em períodos-chave do desenvolvimento das crianças, desde a gravidez à infância, com foco relevante no que conceptualmente hoje consideramos os primeiros 1000 dias. Que dependem, também, e numa perspectiva de promoção do desenvolvimento, florescimento e da promoção da equidade de acrescentarmos à narrativa e às políticas em torno do reforço da possibilidade de acesso à educação, a qualidade das práticas educativas no período dos 0-3 anos e da primeira infância de forma mais ampla, enquanto desígnio fundamental de cumprimento dos direitos de todas as crianças e de uma sociedade mais inclusiva e coesa.

Sabe, quem por aqui me acompanha, que estes aspectos são chave da missão e propósito da Fundação Mendes Gonçalves e, particularmente, do seu programa Educar. Saibam, também, que além da procura de uma filantropia de proximidade e do sustentar das nossas práticas numa cultura de evidência e estudo de impacto, queremos realizar a nossa acção em co-criação, promover e disseminar literacia e conhecimento e, pela advocacia e comunicação, influenciar políticas e práticas.

Esta “nossa forma de fazer” e a abertura e confiança da Fundação Santander Portugal (obrigado Inês Oom de Sousa e equipa) resultaram na organização conjunta de um evento dedicado à reflexão sobre o desenho de espaços educativos e o seu impacto nos processos de ensino-aprendizagem e bem-estar, dinamizado pelos arquitetos Takaharu e Yui Tezuka e Luis Oliveira (Tezuka Architects), aproveitando estarem em Portugal a propósito do lançamento da Fundação Mendes Gonçalves.

O evento, dedicado à disseminação de conhecimento (obrigado Pedro Cunha pela brilhante intervenção) e à advocacia junto de um conjunto de pessoas com capacidade de influência e decisão, partiu da apresentação do futuro Centro Educativo (0-10 anos) da Fundação Mendes Gonçalves, de que são responsáveis, mas, particularmente, do projecto do “Fuji Kindergarten”, “uma escola em Tóquio, [onde] crianças de 5 anos causam engarrafamentos e as janelas servem para o Pai Natal entrar (…) o JI mais adorável do mundo”.

A citação é a descrição da Ted Talk de T. Tezuka sobre “o processo de design [do Fuji] que permite às crianças serem realmente crianças”. Chama-se “O melhor jardim-de-infância que já viu” – https://www.ted.com/talks/takaharu_tezuka_the_best_kindergarten_you_ve_ever_seen?subtitle=en – e data de Setembro de 2014.

Num Setembro próximo teremos, finalmente, um Centro Educativo por si desenhado na Europa, em Portugal, na Golegã.

Em rede, pretendemos. A inspirar, aspiramos. Da Golegã para o Mundo.

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Fundação Mendes Gonçalves Futuro da Psicologia Política Psicologia

23.04.2025 | Fundação Mendes Gonçalves

23 de Abril. Dia Mundial do Livro, Dia de São Jorge (nome do meu querido Pai) e, agora, da Fundação Mendes Gonçalves.

Na quarta-feira, 23 de Abril de 2025, exactamente um ano após a publicação do seu reconhecimento em Diário da República (Despacho n.º 4386/2024), lançamos e apresentamos publicamente a Fundação Mendes Gonçalves (FMG).

Um dia bonito. Um lugar especial. Um conjunto de pessoas incríveis. Um momento a apontar à eternidade, da Golegã para o Mundo.

E, um livro, uma rosa e uma Fundação…

Como estou grato. E como estou comprometido e empenhado nesta missão de Nutrir Futuros para Renegerar Legados e de Regenerar Legados para Nutrir Futuros.

Obrigado Carlos Goncalves, pela bondade de teres sonhado a Fundação, pela generosidade de a teres tornado possível e por todos (tantos) os contributos.

Obrigado a todas as pessoas que nos últimos meses, comigo, se envolveram na sua instalação, particularmente à Conceição Zagalo, presidente da Comissão Executiva da FMG e à Liliana Valpaços, Maria Beatriz Filipe, Quaiela Costa, Teresa Raquel Pereira e Andresa Oliveira.

Obrigado a todos os membros do Conselho de Administração e do Conselho de Curadores da Fundação Mendes Gonçalves (https://fundacaomendesgoncalves.org/orgaos-sociais/).

Obrigado a todo o Board, equipas e colegas da Casa Mendes Gonçalves e obrigado por tantas e tantos terem estado num primeiro momento de apresentação da Fundação, dois dias antes (21.4.2025), para a equipa da Casa.

Obrigado pela exemplar apresentação e gestão do evento Fernanda Freitas e obrigado a todas as pessoas que, comigo, no evento intervieram: Carlos Goncalves, Conceição Zagalo, Pedro Abrunhosa (que bonitas palavras, melodias e o “fazer o que ainda não foi feito”), Conceição Calhau, João Ferreira, Liliana Valpaços, Pedro Cunha, Karim Merali, Ana Avillez, Eduardo Marçal Grilo, presidente do Conselho de Curadores da FMG, e Fernando Alexandre, Ministro da Educação, Ciência e Inovação. Além, claro está, da bela e “responsabilizante” mensagem do Sr. Presidente da República ali partilhada e lida.

Obrigado a todas as pessoas que deram cor e calor aquele dia e aquele momento, com a sua presença e carinho. Obrigado Rute Dinis de Sousa.

Obrigado, ainda, a muitas e muitos que não tendo podido estar connosco naquele dia, não deixaram, à sua forma, de estar e de me e nos acompanhar e apoiar.

Obrigado.

Juntos. Pelo futuro de todos.

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Comportamento Futuro da Psicologia Política Psicologia

Dois e quinhentos…

Lembram-se da moeda de dois e quinhentos? Pela dimensão e pelo valor (baixo) era a que mais usávamos para fazer os fios que trazíamos ao pescoço. Íamos, normalmente de bicicleta, até às proximidades das estações dos Riachos ou Entroncamento (preferencialmente) e avaliávamos pela localização (antes ou depois da paragem) o melhor local para as colocar na linha para que, depois, o comboio passasse sobre elas, não as projetando para onde não as encontrássemos. Desse encontro (moeda na linha-comboio) resultava a moeda espalmada que, um furinho depois, virava esse fio com história própria, pelo tipo de comboio, velocidade, lugar. Não havia duas moedas espalmadas iguais. Dois fios iguais.

Tínhamos uma relação especial com o comboio. Levava-nos a Lisboa. A Coimbra. Ao Porto. Não mais saiu do meu imaginário. Em Portugal. Fora de Portugal. Também por isso, quando penso numa associação entre transportes e Casa Branca, penso na estação-interface que conecta as linhas ferroviárias de Évora e Beja. Nos últimos dias, porém, vi Casa Branca associada ao transporte rodoviário e enquanto stand de veículos de uma marca específica e um Presidente da República dos EUA vendedor (e comprador) de carros.

Não vivi – aqui em Portugal, no meu tempo de vida – um processo de passagem de uma democracia (mesmo com desafios) a uma autocracia, como outras pessoas com outra idade viram em Portugal e outras pessoas da minha idade vive(ra)m noutros países. Sei, porém, e pelo que hoje vamos vendo e sabendo deste Mundo, que neste processo tendemos, enquanto seres humanos, a colocar sucessivos limites, dizendo para nós próprios que dali não passam, que aquilo é o limite inultrapassável. Parte disto é explicado por um viés cognitivo, o viés da normalidade que, grosso modo, determina que tendamos a normalizar situações, mesmo quando mais extremas. Viés que resulta da dificuldade do nosso cérebro em processar mudanças abruptas e imprevisíveis, o que conduz à sua negação e/ou desconsideração de riscos/sinais.

Muitas e muitos pensam-no hoje sobre Trump ou os avanços de algumas forças políticas na Europa que, dizendo-se salvíficas, não mais pretendem que alterar os pressupostos da sociedade para que possam beneficiar do caos e prosperar no imediato, mesmo que isso signifique destruir um caminho de procura de maior equidade e dignidade de todas as pessoas e a coesão social a médio/longo prazo.

A este viés associa-se muitas vezes o do optimismo… A crença, não raras vezes irracional, de que o de menos bom é mais provável noutras pessoas/contextos do que connosco/no nosso país.

Estamos num tempo em que inacreditáveis acontecem todos os dias. Ontem, hoje, amanhã, certamente. Reconheçamos os nossos vieses e não naturalizemos os inacreditáveis. Reconheçamos os nossos vieses e não consideramos que a nós/cá não chegará. Reconheçamos os nossos vieses e mobilizemo-nos para, juntos, resistirmos e defendermos a democracia e uma sociedade coesa e de direitos. Hoje, amanhã, pelo futuro de todos.

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Indiferença-Empatia

Voltei recentemente ao canal Canal S+ para, com a Irina Gomes, gravar um novo episódio do “Descubra as Diferenças”, agora para a sua 2ª temporada.

Há alguns meses havia gravado um outro, relativo ao binómio “revolta-apaziguamento”, que por aqui partilhei numa publicação que assim terminava: “Finalmente, um conselho para quando nos sentirmos revoltados? [havia-me sido pedido] Tentarmos definir exactamente o que nos está a fazer sentir o que estamos a sentir (não deixar que fique difuso) e perceber o que podemos fazer para o alterar, mesmo que decidamos nada fazer. Se assim fizermos, estaremos a garantir agência e controlo sobre a situação. Estaremos a criar perspectivas e diversificar o que pode ser a nossa actuação e como podemos lidar com a situação, ajudando-nos isso a lidar melhor com ela, a sentirmo-nos mais equilibradas/os e, potencialmente, melhor. Mais em paz.”

Hoje volto para partilhar este novo episódio em torno do binómio “indiferença-empatia” onde começo por desafiar a ideia de que é “mais fácil a indiferença”, sublinhando que o bem-estar individual depende do bem-estar colectivo e logo da possibilidade de bem-estar das/os outras/os, mesmo quando um conjunto de alterações na sociedade, na forma como gerimos e vivemos o nosso (acelerado) tempo e as nossas interações e comunicações (em bolhas, junto de pessoas que pensam como nós e mais individualizados), possam “empurrar” nesse sentido.

Falamos depois de empatia e de como desenvolvê-la. Do seu poder, relevância, da forma como nos prepara para lidarmos com o dia-a-dia e com novas situações e influencia a nossa abertura ao que nos rodeia e às outras e outros. Mas também de alguns dos seus limites, com exemplos concretos, e de como pode estar também ligada a dificuldades de alteração de comportamentos/rotinas, a excessivo envolvimento emocional ou mesmo a situações de (justificação de) abusos, condicionando-nos o bem-estar.

Falamos, depois, de compaixão e desse “passo em frente” face à empatia, porque envolve a agência sucessiva perante a situação, para não nos limitarmos à compreensão (empatia) e fazermos algo a partir dessa compreensão, seja face a nós, seja face a outras e outros.

Falamos de reconhecimento e validação de emoções e de como isso é fundamental nas relações e na criação de canais de comunicação (seguros), por exemplo com crianças/adolescentes. De como pararmos e guardarmos espaço para conversas importantes pode ser relevante na conexão emocional.

E finalmente de como podemo-nos aproximar, passo a passo, experiência a experiência, do que nos é mais diverso, mais afastado. Expandirmo-nos. Algo fundamental, não apenas para a nossa capacidade empática, mas que nos prepara melhor para o Mundo interconectado em que vivemos e para criarmos comunidade.

E como é importante hoje criarmos comunidade.

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Tertúlias de Psicologia

Hoje é dia 24 de Fevereiro de 2025. Proponho que recuemos 18 anos, uma “maioridade”. Se a 24 de Fevereiro de 2007, quando faltavam 4 meses para a apresentação do primeiro Iphone, por aí escrevesse que 18 anos depois assinalaríamos o 3º aniversário da invasão em grande escala da Federação Russa aos territórios da Ucrânia, com um Trump num segundo mandato presidencial nos EUA, e que, no dia anterior, tinham acontecido eleições legislativas na Alemanha e que um partido de extrema direita com um discurso sinistro e assustador tinha duplicado votos, atingindo mais de 20%, sendo a segunda força política e tendo dividido o mapa da Alemanha (vejam a imagem e toda a “ressonância” e simbolismo que comporta), talvez não fosse levado muito a sério. Mas, mais importante, se o fizesse há 8 anos também não. Ou, talvez, há cinco, quatro, …

 

Daqui resultam duas reflexões. Uma, que cada vez menos temos (teremos?) possibilidade de prever com segurança o futuro a médio e longo prazo e que, talvez, também por isso e pelos exemplos recentes, valha a pena não desconsiderar (como tanto fazemos) cenários e possibilidades que nos inquietam relativas a regimes políticos, conflitos armados e retrocessos nos direitos civis e humanos, também na Europa. Outra, que é tempo de tornar prioridade a definição do que enquanto cidadãos e comunidade podemos contribuir para que tal não aconteça (e o compromisso com isso), com a certeza de que o momento que vivemos não permite limbos, porque a cada validação de um determinado discurso (uns “vez…”, “mas…”, “são todos iguais”) e/ou de uma determinada política, caminharemos um caminho de possibilidades inquietantes.

 

Trago-vos isto, também, no dia em que passam 4 anos de ter escrito o 1º de 98 artigos de uma rúbrica que chamei “Ao redor” (Revista SÁBADO). No último escrevi:

 

“

Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

”

 

É também por isto, por tudo isto, que Sábado me junto a uma pessoa que muito admiro e de quem tenho a sorte e o enorme privilégio de ser grande amigo (o Miguel Ricou) e a quem a nós se queira juntar para, como ele diz “conversarmos sobre algo que nos preocupa, de alguma forma, a todos: a desinformação, a polarização, a confiança e a democracia!”

 

Juntam-se a nós? Na conversa e no compromisso? Se não na conversa, no compromisso?

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Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)