Há dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação do ano lectivo do meu filho mais velho. Socorro-me do mote da Bienal de Arquitectura de Veneza de 2021 (“Como viveremos juntos?”) e da frase do seu curador Hashim Sarkis (“um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”) para significar o que senti – como as regras dos e nos espaços podem condicionar o contrato social existente. Como me socorro do belíssimo livro “pê de pai” para, acrescentando o pê de pai motorista, aos pê de “pai avião, pai travão, pai sofá, pai boia, pai carrossel e pai túnel” do livro, nomear o que senti. O “confronto” com a arte, em duas formas distintas mas simbólicas, a permitir-me nomear e (re)significar o que senti.
“Pai motorista”, 16º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) procura reflectir sobre o nosso dever de, enquanto sociedade, “garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”)”. Procura fazê-lo, não esquecendo o momento ainda muito desafiante que vivemos e que, pese embora todos os avanços, “ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção”, ressalvando, todavia, que esta questão se coloca para períodos pós e de pandemia, conforme já se colocava pré-pandemia – não esqueço, nem esquecerei, não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.
Sinto, portanto, e isso procuro discutir, que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras, sendo especialmente necessário hoje um “empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro, nas Escolas, Unidades de Saúde, Casas de Acolhimento de crianças e jovens, Centros de Dia ou nas ERPI. “Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado.”
“E se for mais difícil? E se falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.”
Recordo-o depois de, junto de colegas e a propósito da construção participada do programa da Lista B (Mobilizar os Psicólogos), reflectir sobre os contributos da ciência psicológica e das/os psicólogas/os no combate à pobreza e exclusão e na promoção do bem-estar e da coesão social.

