Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Como escreve Gonçalo M. Tavares, tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.” Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”.
Adam Smith, não raras vezes apontado como “pai da economia moderna” e responsável pela célebre frase “mão invisível do mercado”, foi um dos primeiros autores a debruçar-se e a defender os benefícios da divisão do trabalho, nomeadamente da sua segmentação e da especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes. Adam Smith defendia que a divisão proporcionava o “aumento da capacidade produtiva” e o “maior progresso da ciência”, resultados do treino e especialização de trabalhadoras e trabalhadores, da poupança de tempo resultante da não necessidade de mudança de tarefas e da possibilidade de automação progressiva de partes do trabalho. Defendeu-o no livro “A riqueza das nações”, publicado há 245 anos numa Londres e num Mundo tão diferente do actual. Pergunto-me se e como o escreveria hoje? Pergunto-me, particularmente, como reflectiria hoje sobre os benefícios da especialização no contexto do trabalho e da ciência?
Nestes mais de dois séculos avançamos da especialização para algo muito próximo da hiperespecialização. E, se esta hiperespecialização pode ser importante e relevante em ambientes de aprendizagem ditos “acolhedores” – caracterizados por feedbacks próximos e imediatos e por uma estabilização das regras e do contexto, onde a prática e o treino intenso tendem a produzir melhores resultados – parece não produzir semelhantes resultados em ambientes de aprendizagem descritos como “inóspitos”. Nestes contextos, onde o feedback é mais irregular e os contextos e até as “regras” são mais voláteis e ambíguas, a hiperespecialização decorrente de um treino intenso e persistente tende a não produzir os mesmos resultados. Ou seja, a hiperespecialização parece resultar menos, por exemplo, em trabalhos mais individuais de criação na área da programação ou cultura ou na educação de crianças (ambientes mais inóspitos) face à prática de um desporto individual em que não existe interacção directa com as adversárias e/ou adversários como o golfe ou quando se é parte de uma linha de montagem numa indústria (ambientes mais acolhedores).
Se pensarmos em períodos férteis da inovação científica como o do final do século XIX e início do século XX e em seus expoentes como Marie Curie, Max Planck ou Albert Einstein encontraremos formações e interesses díspares e nada unidisciplinares. Aliás, a par com o próprio Adam Smith (que partiu da filosofia para a economia), esta e estes cientistas são exemplos da importância das humanidades, das ciências sociais e das artes ao enquadramento da ciência (especialidade) por si construída no Mundo (cultura). São exemplo de que a resposta para maior complexidade ou competição nem sempre é maior especialização, mas mais flexibilidade. São exemplo de que a diversidade e o contacto com diferentes contextos, estímulos, pessoas ou áreas comporta riqueza e versatilidade, essenciais à colocação de (novas) hipóteses e à construção de (novas) propostas para resolução de (novos) problemas.
A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem. Destaco três.
Desde logo a forma como o ensino superior está estruturado, parecendo responder ao aumento da volatilidade na sociedade com maior especialização (precoce), fazendo tábua rasa da ciência que demonstra que é o conhecimento conceptual e transferível que melhor se coaduna com estas circunstâncias e dinâmicas, que é essencial desenvolver capacidade de planeamento de curto prazo e não apenas de médio ou longo prazo (para rapidamente e com menos impacto nos adaptarmos a mudanças de direcção, se e quando necessárias) e que os resultados escolares sob a forma de classificações têm associação muito baixa com a capacidade crítica, também ela fulcral em ambientes inóspitos de aprendizagem, conforme os que os e as futuras profissionais tenderão a encontrar.
Ainda, e neste quadro, para continuarmos um caminho de progresso global na possibilidade de bem-estar e de coesão social, vencermos os desafios globais complexos que se nos afiguram e promovermos a paz, será essencial que organizações e entidades da sociedade invistam na compatibilização de processos de especialização e hiperespecialização com a experimentação e abertura à diversidade. Devemos ter presente que o grupo, quando com as condições certas, é mais capaz e mais racional que as mais capazes e racionais pessoas que o constituem. Acrescenta perspectivas face a lideranças individuais, previne enviesamentos e, mais importante, acrescenta a possibilidade de construção de caminhos alternativos, normalmente alheados da decisão quando individualizada pela dificuldade de desafio à autoridade (vejam-se, por exemplo, os estudos de Solomon Asch).
Finalmente, esta realidade ultrapassa o quadro das organizações, tocando também áreas científicas e profissões. Abel Salazar, num momento em que o atraso científico do país era gritante e o governo do Estado Novo promovia o obscurantismo, perseguindo cientistas e cerceando áreas científica (como a psicologia), ousou afirmar que uma médica ou um médico que “apenas sabe medicina, nem medicina sabe”. Aforismo iminentemente válido hoje e noutras áreas científicas, em particular na minha. Porque a psicologia, conforme outras áreas, necessita de ser praticada por psicólogos cidadãos e psicólogas cidadãs, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos e para mais equidade e coesão social. Porque a ciência psicológica, conforme outras áreas científicas, para apoiar a resposta aos desafios complexos da sociedade e anseios das pessoas, necessita de um grupo de psicólogas e psicólogos, com identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao talento de grupos. A hiperespecialização não pode, portanto, ser um fim em si, antes ponderada e utilizada com parcimónia. Sabemos, por vezes com perda e sofrimento associado, no que pode resultar economias excessivamente dependentes de uma área de actividade ou recurso, organizações de apenas um ou uma líder ou políticas de apenas um partido ou de uma personalidade. Poderá ser bom para algumas e alguns, poucos, mas raramente para todas e todos e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 04.10.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/hiperespecializacao-sim-ou-nao