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Ragusa. Urban Future, 2022.

Junho. Aproxima-se o Verão e, em conversas ou pesquisas, é possível que nos cruzemos com Dubrovnik. Esta cidade croata é hoje um dos principais destinos turísticos do Adriático, conhecida pela sua costa e pelo seu centro histórico, património mundial da UNESCO. É, hoje, menos conhecida por ter sido uma vibrante cidade, particularmente a partir do século XIV, quando se tornou cidade-Estado da República da Ragusa.

Com autogoverno, era uma cidade liberal e humanista à época, fazendo da ideia da liberdade das pessoas e na economia, princípio de organização incomum naquele tempo. Foi dos primeiros Estados a abolir a escravatura, a acolher pessoas refugiadas, a não encerrar o governo da cidade a um conjunto fechado de representantes e foi mesmo a primeira a criar uma estrutura de saúde pública, incluindo nas suas medidas períodos de quarentena, algo que salvou muitas vidas e foi fundamental para prosperar mesmo no período da peste negra.

Liberdade. Liderança. Abertura, acolhimento e inclusão. Ciência. Saúde e bem-estar. Inovação. Pessoas… Mudança. Alguns dos factores-chave para uma Ragusa vibrante, líder e exemplo para tantas cidades (por ex., no seu modelo de saúde pública) são, grosso modo, os mesmos factores-chave que cerca de 700 translações depois do Planeta Terra ainda determinam a mudança.

Adiadas que foram as edições de Lisboa (2020) e Roterdão (2021), estou em Helsingborg na conferência Urban Future. (https://urban-future.org), integrada na H22 City Expo (https://www.h22cityexpo.com). Exposição que nos apresenta uma Helsingborg que procura a cada dia aprofundar o seu caminho e investimento no sentido da sustentabilidade, inclusão e inovação, como sublinha o seu presidente de câmara, Peter Danielsson. O seu caminho para uma cidade mais inteligente e amiga das pessoas. Caminho que implica mudança. Que implica as pessoas, a sua mobilização e o seu envolvimento. Que implica “City Changers by Heart”, mote da conferência.

Uma oportunidade para (me) inspirar, primeiro, para “expirar” depois. Para sentir e partilhar. Para (me) impactar. Para (me) expandir. Para enfrentar a mudança e as barreiras e obstáculos que a ela se colocam. Para reforçar que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mudança é premiada pelos e pelas eleitoras, não penalizada, particularmente quando ligada à sustentabilidade ambiental e mobilidade. Para contactar e conectar-me com a inovação, as boas práticas e exemplos que, contagiosos que são, podem e devem ser transladados (por isso a expressão atrás), com as devidas adaptações, para Portugal e para todo o Mundo. Para acreditar (ainda mais) e advogar (ainda mais) por cidades com mais qualidade de vida e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Foi a cidade (também Ragusa), enquanto lugar das pessoas e das comunidades, que ajudou a criar e influenciar o Mundo moderno, com tudo quanto de menos bom, mas também de bom, tem.

Mobilizemo-nos e envolvamo-nos na mudança da (nossa) cidade para mudarmos o (nosso) Mundo.

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Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

“Tudo se resume a escolhas humanas…” / OPP e OCDE

A dias do início da invasão e da actual guerra na Ucrânia, Y.N.Harari escrevia na “The Economist” que a “mais óbvia consequência deste regresso à lei da selva seria um forte aumento das despesas militares à custa de tudo o resto”. Por “lei da selva” referia-se à “possibilidade de países poderosos conseguirem esmagar impunemente os seus vizinhos mais fracos”. Por “à custa de tudo o resto” referia-se a que “o dinheiro que deverá ir para professoras/es, enfermeiras/os e assistentes sociais será investido em tanques, mísseis e armas cibernéticas” bem como à “fragilização da cooperação mundial, especialmente na prevenção das alterações climáticas ou na regulação de tecnologias potencialmente perigosas como a inteligência artificial e a engenharia genética”, resultante da impossibilidade de se “trabalhar ao lado de países que se estão a preparar para nos apagar do mapa”. O texto (“A história da humanidade está em jogo”), embora não os mencionando, é um excelente ensaio para pensarmos como evoluiu a sociedade e o Mundo no sentido de se organizar em torno dos objectivos do desenvolvimento (hoje sustentável) (ODS) e de como os tratados de direito e cooperação internacional e a carta da ONU que os sustentam podem, rapidamente, ser questionados e desinvestidos.

Também a dias de uma iniciativa da Ordem dos Psicólogos Portugueses na OECD – OCDE foi, por esta organização para a cooperação e desenvolvimento económico, publicado um relatório sobre o (in)cumprimento actual dos 17 ODS e das suas metas para 2030. Na perspectiva do copo (meio cheio ou vazio) creio que a imagem permite que sintamos, provavelmente em simultâneo, que há caminho já (e a ser) percorrido (por ex. nas áreas da saúde e bem-estar ou da qualidade da água e saneamento) e que há (muito) caminho por percorrer (por ex. na fome ou na igualdade de género). Permite-nos, também, intuir que, após retrocessos resultantes da pandemia por COVID-19, a Guerra e a sucessiva instabilidade internacional ameaçam o comprometimento e empenhamento nos ODS e nas suas dimensões chave: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceiras, esta, talvez, a área menos desenvolvida face aos objectivos estabelecidos.

Junto com o Francisco Miranda Rodrigues, a Sofia Ramalho, a Alexandra Antunes e a Patrícia Batista foi exactamente a parceria com a OCDE que procuramos estimular neste dia de reuniões de trabalho, contactos e de colaboração com as suas áreas de “Desenvolvimento e Cooperação”, “Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais”, com o “Centro de bem-estar, inclusão, sustentabilidade e igualdade de oportunidade” e com a Associação de Trabalhadores da OCDE. Falamos de cooperação e de contributos da psicologia. Falamos de desafios societais complexos “sem fronteiras”, de ODS e do seu futuro e de como, já hoje, devemos preparar e contribuir para o pós-2030. Porque no presente preparamos o futuro. Porque, tal como Harari fecha o artigo, não podemos esquecer que “o que é velho já foi novo” e que “tudo se resume a escolhas humanas.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Política

Noves de Maio…

Eis-nos a 9 de Maio. Nas últimas semanas, comentadores e comentadoras, têm-se desdobrado em reflexões sobre o conteúdo do discurso de Putin neste dia de parada militar na Rússia, comemorativa da capitulação da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial. Sobre ganhos e perdas, narrativas e o “reescrever da história”, ódios e medos. Sobre volatilidade. Sobre relatividade. Sobre tudo isto com uma constante: independentemente de quem ou como se ganhe ou perca e do que isso signifique, nada, hoje e no futuro, Mundo fora, permanecerá como antes da absurda e ilegítima invasão da Ucrânia.

“Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder”, 32º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a relatividade do ganhar e do perder, discutindo ganhos associados a derrotas de partidos [particularmente de direita nacionalista, populista e antissistema] em diferentes países, mas com resultados crescentes e significativos. Toca a “generalização da política do ódio e do e pelo medo” que “se espalha e alimenta em grupos e redes sociais, cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras”. Toca a polarização extrema que se alimenta “do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigas e inimigos”, rompendo pontes e “ameaçando a harmonia necessária em política e a possibilidade e a crença de mudança”. E toca a crise de direitos, da democracia e de confiança, também resultante de uma “centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou privilegiados, para a colectivização da culpa e promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos”.

Em resumo, mesmo com derrotas assistimos à institucionalização progressiva e naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional; ao maior crédito e penetração, discussão e propagação de ideias e posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência; e à profissionalização das estruturas destes partidos, particularmente da sua comunicação.

Isto, lá (EUA ou França, em Itália ou Espanha), como cá, onde um candidato presidencial nacionalizou a expressão “portugueses de bem”, arrogando-se de decidir quem o é ou não é. Lá, como cá, onde “a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade” ou não fosse “o seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social – dependente não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo”.

Eis-nos a 9 de Maio, também Dia da Europa. Dia de celebrar a reflectir para preservar e promover os seus valores.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Psicologia

9 e a sociedade líquida…

“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.

“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.

O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.

Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.

Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.

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Ainda a Guerra…

“A incerteza cai com a tarde no limite da praia.” Começa assim o poema de Nuno Júdice (A incerteza) que termina como termina este texto: “cai-me da página(…)para dentro da própria alma”. A incerteza, que “cai com a tarde”, é hoje e para o futuro, tão presente na nossa vida como cada umas das tardes e inscrita “dentro” da na nossa “própria alma”. Basta pensarmos quando, ao incerto, acrescentamos espanto, olhando 3 acontecimentos de 3 dias 29 de Março de 3 dos últimos anos: 2004 – 7 países, incluindo 3 com fronteira com a Rússia (Estónia, Letónia e Lituânia) aderem à NATO; 2017 – Reino Unido invoca o artigo 50 do Tratado da União Europeia (UE) e inicia, formalmente, o processo de saída da UE; 2022 – 36ª dia de uma Guerra que resulta da ilegítima invasão da Ucrânia pela Rússia. 3 acontecimentos que, se recuássemos 3 anos a cada um deles, dificilmente poderíamos prever. Um pouco como hoje não podemos, com segurança, prever o que sucederá no Mundo nos próximos 3 anos ou não podemos, com segurança, prever o que sucederá na Guerra na Ucrânia nos próximos 3 meses ou, até, 3 dias.

Quando assim é, creio relevante reflectirmos sobre o presente, pensando e inscrevendo o passado, para nos projectarmos com a maior segurança e controlo possível no futuro. Também por isso, partilho, uma participação no programa Corpo Clínico (10.03.22) do Canal S+ conduzido pelo Vasco Domingos e que, tratando a Guerra, juntou-me a Anna Sukhoviy, Joao Antunes, ao Gustavo Tato Borges, ao Gonçalo Gonçalves Órfão, ao Hugo de Sousa e à Catarina Martins Bettencourt.

Nele reflitco sobre como a complexa crise que vivemos acrescenta imprevisibilidade e incerteza à imprevisibilidade e incerteza que já resultava de outras crises (não apenas da pandemia) e como a guerra nos afecta a todas e todos. Reflicto sobre o encorajamento e a esperança que decorre da mobilização das pessoas, incluindo as psicólogas e psicólogos, que continuam na Ucrânia a apoiar outras pessoas num momento particularmente exigente das suas vidas e que em tantos países procuraram organizar respostas de acolhimento, integração e recuperação de pessoas forçadas a emigrar. Procurei realçar a importância da comunicação com crianças e jovens. Também do propósito, do significado e do agenciamento no lidar com as emoções que naturalmente sentimos e da importância dos primeiros dias e dos primeiros momentos de acolhimento, incluindo os primeiros socorros psicológicos, para processos de integração bem-sucedidos, independentemente das pessoas virem a escolher (ou ter que) estar em Portugal poucos meses, poucos anos ou mais tempo. Falei de medo e da forma como o medo foi, é e será utilizado para explorar vulnerabilidades e construir narrativas que promovem e suportam tomadas de decisão e comportamentos. Falei, finalmente, de trauma, de trauma colectivo, da possibilidade de reparação e de construção de paz.

E…“Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.”

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A primavera há-de chegar…

“A primavera há-de chegar”, título de um “grande” livro de Fante. Evoco-o, sugerido por uma música de um filme que trata a complexidade da guerra: “E todos os anos; pássaros livres voam (…) a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta.” Ontem, a primavera chegou. Ontem, como há muitos anos não sucedia, chegou com a complexidade de uma (trágica e obscena) guerra na Europa. Um trabalho da Sílvia Maia (LUSA) para o qual contribui, resultou em três notícias que, creio, demonstram esta complexidade e os seus múltiplos impactos:

  1. “Escolas apoiam alunos afetados pelas imagens da guerra na Ucrânia”, tratando os impactos (naturais) da guerra no comportamento das crianças, “sensíveis à situação que estão a viver, dispostas a lutar por um mundo melhor e que estão disponíveis para os outros”. Na peça assinalo que “as escolas estão hoje muito mais bem preparadas do que estavam há 10 anos, mas tendo em conta estes dois acontecimentos – a pandemia e agora a guerra – todos os recursos são poucos”.
  2. “Psicólogos defendem urgência na integração de crianças refugiadas nas escolas”, onde sublinho a importância da rápida integração nas Escolas de crianças/jovens, potenciando a criação de rotinas (fundamentais à previsibilidade e controlo) e de suporte social (fundamental à resiliência e ao bem-estar). Reforço a importância de, numa primeira fase, se privilegiar as relações e os espaços de espontaneidade e de brincar face ao currículo, bem como da criação de espaços seguros, investindo-se numa rede de mediadoras/es ucranianas/os. Abordo, ainda, o papel reparador que a Escola pode assumir, bem como a universalidade das emoções, das referências (a Frozen, o Harry Potter ou o Tik Tok) e a capacidade de adaptação das crianças como “antídotos” à adversidade/dificuldades (ex. língua).
  3. “Psicólogos portugueses dão formação a colegas ucranianos”, onde abordo a resposta da OPP à solicitação da Associação Nacional de Psicólogos Ucraniana e apoio à formação de 32 psicólogas/os (que em cascata formarão outras/os) em intervenção psicológica em situações de crise e catástrofe, considerando que “a intervenção psicológica precoce (nomeadamente os Primeiros Socorros Psicológicos) é de extrema importância na estabilização inicial e na prevenção do desenvolvimento de psicopatologia”.

Da inspiração de quem, mesmo em condições extremas, procura apoiar outras/os ao apoio à minimização dos impactos da guerra e recuperação de quem escolhe ou chega a Portugal proveniente dela… Contributos das/os psicólogas/os que se complementam com o seu apoio à construção e manutenção da Paz.

Porque, “a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta”.

Porque, a “primavera há-de chegar”.

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Resoluções…

Fascina-me pensar o comportamento humano, a sua diversidade (mas também as suas tendências) e os factores que o determinam. Ainda que com reflexão crítica, interessa-me o estudo de (grandes) dados que o permitem e que permitem formular pistas para a sua compreensão, particularmente numa base temporal ou pré/pós-acontecimentos. Uma ferramenta que o possibilita, não sem limitações, é o “Google Trends” utilizado nos estudos de Seth Stephens-Davidowitz (que já aqui abordei) ou do “Behavior Change for Good Initiative”. Três das suas investigadoras, partiram de pesquisas dos termos “dieta”, “visitas ao ginásio” ou “como cumprir objectivos”, observando-os como mais frequentes no início da semana/mês, depois de férias/aniversários e, principalmente, no início de um novo ano, descrevendo o “fresh start effect” e como marcos temporais podem motivar mudanças de comportamento. Sendo assim (assim sentimos), sabemos que parte destas mudanças se perdem (umas nunca concretizadas; outras que, concretizando-se, não conseguimos manter). Ora, de várias estratégias que podemos mobilizar para melhor concretizarmos as mudanças a que aspiramos destaco 2: sermos realistas e “mudarmos” com outras pessoas e não “sós”.

Conforme a psicologia contribui com este conhecimento, é importante que o utilizemos na própria psicologia. Assim, e porque creio realista mas só possível se numa mudança “não só”, aqui partilho a base da minha intervenção na abertura da Psicarreiras On.Summit (OPP; 02.12.2022) focada em como o presente desafia “passados” da psicologia (a dúvida na escolha das áreas das e dos psicólogos na Academia; os limites da intervenção à distância; o foco na intervenção mais micro, individualizada e remediativa face a intervenções mais macro, comunitárias e promotoras/preventivas; o fechamento face à interdisciplinaridade) e numa proposta de mudança de paradigma. Uma mudança de uma psicologia que, enquanto ciência e prática, se afirma numa determinada área para uma psicologia que, como ciência e prática, se concretiza, no contributo das suas áreas e em relação com outras disciplinas, numa dificuldade/problema de uma pessoa ou num desafio societal. Da psicologia clínica à crise associada aos níveis de depressão da população mundial. Da psicologia da educação à necessidade de promoção do bem-estar de estudantes. Da psicologia comunitária aos complexos desafios da erradicação da pobreza ou da inclusão. Da psicologia do trabalho e das organizações ao desafio da conciliação da vida pessoal -profissional. Uma psicologia sempre próxima das pessoas. Uma psicologia proactiva e interventiva, contribuidora para os complexos desafios societais.

Mudança realista mas, só possível, se conjunta. Mudança que beneficia de outra estratégia de promoção da efectividade das resoluções: a partilha das mesmas, algo que aqui faço convosco que, muitas vezes sem o sentirem, tanto me ajudam a reflectir e a procurar, com humildade, contribuir para pequenas mudanças que julgo socialmente relevantes.

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Eagle, Cuida-te +

Eagle. Recentemente a IBM apresentou um novo processador que supera largamente a capacidade dos hoje utilizados por revolucionar o actual sistema binário (0 ou 1) ao acrescentar a possibilidade de sobreposição de estados (0 e 1). Um artigo da revista Science afirma que um problema hoje complexíssimo de criação de números aleatórios cujo melhor computador hoje disponível demoraria cerca de 600 milhões de anos a resolver, poderá sê-lo, com este processador, em 3 minutos. Se a IBM conseguir adaptá-lo a computadores (e dispositivos) como hoje os conhecemos, entraremos na era da computação quântica e abrir-se-á espaço para “desenvolvimentos quânticos” em materiais de construção, tratamento de dados, medicação e outras terapêuticas, transportes, ensino ou inteligência artificial. Um “salto quântico” em potência, apelidado de Eagle (Águia) pela IBM.

Pensei em revoluções, grandes e não tão grandes, e em saltos (quânticos), quando reflectia nas palavras que diria no Kick Off das/os 19 Psicólogas/os Júnior agora afectas/os ao Cuida-te + do IPDJ, resultado de duas parcerias deste instituto público uma com a Ordem dos Psicólogos Portugueses e com a Aventura Social – Associação. Na sessão de ontem – onde estivem a Natacha Torres da Silva, pessoa (e colega) que muito se dedicou a tornar possível este projecto, a Margarida Gaspar de Matos e Tania Gaspar, pessoas (e colegas) que muito estão empenhadas em criar condições para que o projecto possa ser bem sucedido (e avaliados os impactos), além das/os 19 psicólogas/os júnior e orientadoras/es e responsáveis do IPDJ/Aventura Social – procurei discutir sobre porque este projecto e a forma como será concretizado representa esse salto:

1) Pelo significado do IPDJ, no quadro da administração pública (sendo exemplo), investir em anos profissionais júnior permitindo que o primeiro emprego em psicologia destas/es 19 psicólogas/os no quadro do Cuida-te+;

2) Pela abordagem compreensiva, não exclusivamente reactiva e remediativa, antes apostando na prevenção e promoção e centradaa no desenvolvimento das/os jovens e comunidades;

3) pela contingência ao momento que vivemos e aos fortes e amplos impactos (directos e indirectos) da COVID-19 no passado próximo, presente e futuro das/os jovens;

4) pela preparação do que viveremos, tempos em que a incerteza será mais constante e que a complexidade requererá competências sócio-emocionais e resiliência, empatia e compaixão, criatividade, confiança e coesão social em muito dependentes da saúde psicológica e bem-estar individual e societal.

“Não me preocupa que a inteligência artificial permita que os computadores pensem como os humanos. Preocupa-me que as pessoas pensem como os computadores, sem valores ou compaixão, sem se preocuparem com as consequências”, disse Tim Cook, CEO da Apple, num célebre discurso em 2017.

Eu, optimista que julgo ser, penso que assim não será. Eu, realista que também julgo ser, penso que com projectos como este estaremos mais perto que assim não seja.

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Cidades Verdes…

A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.

Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.

No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.

Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.

Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.

Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não? (Ao redor…; Sábado; 04.10.2021)

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Como escreve Gonçalo M. Tavares, tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.” Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”.

Adam Smith, não raras vezes apontado como “pai da economia moderna” e responsável pela célebre frase “mão invisível do mercado”, foi um dos primeiros autores a debruçar-se e a defender os benefícios da divisão do trabalho, nomeadamente da sua segmentação e da especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes. Adam Smith defendia que a divisão proporcionava o “aumento da capacidade produtiva” e o “maior progresso da ciência”, resultados do treino e especialização de trabalhadoras e trabalhadores, da poupança de tempo resultante da não necessidade de mudança de tarefas e da possibilidade de automação progressiva de partes do trabalho. Defendeu-o no livro “A riqueza das nações”, publicado há 245 anos numa Londres e num Mundo tão diferente do actual. Pergunto-me se e como o escreveria hoje? Pergunto-me, particularmente, como reflectiria hoje sobre os benefícios da especialização no contexto do trabalho e da ciência?

Nestes mais de dois séculos avançamos da especialização para algo muito próximo da hiperespecialização. E, se esta hiperespecialização pode ser importante e relevante em ambientes de aprendizagem ditos “acolhedores” – caracterizados por feedbacks próximos e imediatos e por uma estabilização das regras e do contexto, onde a prática e o treino intenso tendem a produzir melhores resultados – parece não produzir semelhantes resultados em ambientes de aprendizagem descritos como “inóspitos”. Nestes contextos, onde o feedback é mais irregular e os contextos e até as “regras” são mais voláteis e ambíguas, a hiperespecialização decorrente de um treino intenso e persistente tende a não produzir os mesmos resultados. Ou seja, a hiperespecialização parece resultar menos, por exemplo, em trabalhos mais individuais de criação na área da programação ou cultura ou na educação de crianças (ambientes mais inóspitos) face à prática de um desporto individual em que não existe interacção directa com as adversárias e/ou adversários como o golfe ou quando se é parte de uma linha de montagem numa indústria (ambientes mais acolhedores).

Se pensarmos em períodos férteis da inovação científica como o do final do século XIX e início do século XX e em seus expoentes como Marie Curie, Max Planck ou Albert Einstein encontraremos formações e interesses díspares e nada unidisciplinares. Aliás, a par com o próprio Adam Smith (que partiu da filosofia para a economia), esta e estes cientistas são exemplos da importância das humanidades, das ciências sociais e das artes ao enquadramento da ciência (especialidade) por si construída no Mundo (cultura). São exemplo de que a resposta para maior complexidade ou competição nem sempre é maior especialização, mas mais flexibilidade. São exemplo de que a diversidade e o contacto com diferentes contextos, estímulos, pessoas ou áreas comporta riqueza e versatilidade, essenciais à colocação de (novas) hipóteses e à construção de (novas) propostas para resolução de (novos) problemas.

A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem. Destaco três.

Desde logo a forma como o ensino superior está estruturado, parecendo responder ao aumento da volatilidade na sociedade com maior especialização (precoce), fazendo tábua rasa da ciência que demonstra que é o conhecimento conceptual e transferível que melhor se coaduna com estas circunstâncias e dinâmicas, que é essencial desenvolver capacidade de planeamento de curto prazo e não apenas de médio ou longo prazo (para rapidamente e com menos impacto nos adaptarmos a mudanças de direcção, se e quando necessárias) e que os resultados escolares sob a forma de classificações têm associação muito baixa com a capacidade crítica, também ela fulcral em ambientes inóspitos de aprendizagem, conforme os que os e as futuras profissionais tenderão a encontrar.

Ainda, e neste quadro, para continuarmos um caminho de progresso global na possibilidade de bem-estar e de coesão social, vencermos os desafios globais complexos que se nos afiguram e promovermos a paz, será essencial que organizações e entidades da sociedade invistam na compatibilização de processos de especialização e hiperespecialização com a experimentação e abertura à diversidade. Devemos ter presente que o grupo, quando com as condições certas, é mais capaz e mais racional que as mais capazes e racionais pessoas que o constituem. Acrescenta perspectivas face a lideranças individuais, previne enviesamentos e, mais importante, acrescenta a possibilidade de construção de caminhos alternativos, normalmente alheados da decisão quando individualizada pela dificuldade de desafio à autoridade (vejam-se, por exemplo, os estudos de Solomon Asch).

Finalmente, esta realidade ultrapassa o quadro das organizações, tocando também áreas científicas e profissões. Abel Salazar, num momento em que o atraso científico do país era gritante e o governo do Estado Novo promovia o obscurantismo, perseguindo cientistas e cerceando áreas científica (como a psicologia), ousou afirmar que uma médica ou um médico que “apenas sabe medicina, nem medicina sabe”. Aforismo iminentemente válido hoje e noutras áreas científicas, em particular na minha. Porque a psicologia, conforme outras áreas, necessita de ser praticada por psicólogos cidadãos e psicólogas cidadãs, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos e para mais equidade e coesão social. Porque a ciência psicológica, conforme outras áreas científicas, para apoiar a resposta aos desafios complexos da sociedade e anseios das pessoas, necessita de um grupo de psicólogas e psicólogos, com identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao talento de grupos. A hiperespecialização não pode, portanto, ser um fim em si, antes ponderada e utilizada com parcimónia. Sabemos, por vezes com perda e sofrimento associado, no que pode resultar economias excessivamente dependentes de uma área de actividade ou recurso, organizações de apenas um ou uma líder ou políticas de apenas um partido ou de uma personalidade. Poderá ser bom para algumas e alguns, poucos, mas raramente para todas e todos e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/hiperespecializacao-sim-ou-nao