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Tempo da Psicologia

Estamos a minutos do início do 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. “Quatro anos após o 4º Congresso e com uma pandemia por COVID-19, uma Guerra no continente europeu e uma nova crise socioeconómica no horizonte.” Os mesmos quatro anos que passaram entre as eleições de 2018 e de Domingo em Itália e entre os 4% e os 26% do partido de direita nacionalista “Irmãos de Itália” (…) que confirmam o caminho de progressiva implementação e “normalização” de ideias e ideais anti-imigração, do questionamento de direitos humanos, da ciência e das instituições e do crescimento do autoritarismo, com consequente diminuição da liberdade e das garantias Mundo fora. Quatro anos que confirmam a velocidade e volatilidade deste tempo, a complexidade e globalidade dos desafios, a enorme incerteza que vive(re)mos.”

“Tempo da Psicologia”, 42º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata o mote do congresso, enquadrando-o no tempo que vivemos. “Mas porquê?”, pergunto no texto. “Porque, efectivamente, apesar das condições de vida em quase todo o Mundo terem melhorado substancialmente nas últimas décadas, os níveis de incerteza, precariedade, pressão e desigualdade constituem hoje factores de stress particularmente significativos. A eles, juntam-se, também em Portugal, níveis de literacia em saúde psicológica superiores (ainda que baixos), níveis de estigma inferiores (ainda que altos) e, particularmente, um capital social que faz com que as pessoas se mobilizem, bem, e pressionem por respostas para os seus problemas (e para os das pessoas ao seu redor), também de saúde mental, exigindo, bem também, mais possibilidade de autodeterminação, saúde e bem-estar, independentemente da sua condição. Acresce, depois, maior percepção e compreensão, de decisoras e decisores e das lideranças, do papel e contributo da psicologia no desenho de processos, de políticas e de interfaces, no desenvolvimento, consultoria e formação das pessoas e no apoio à mudança (social e individual) e promoção da inclusão, equidade e justiça social.”

“Mas há muito caminho por percorrer, muitas conversas para ter, muita interdisciplinariedade por co-construir.” No congresso procurá-lo-emos, discutindo temas desafiantes e inovando na sua sustenatabilidade e na relação com a comunidade local, incluindo visitas a projectos e actividades a si abertas, como o festival de cinema Mente.morfose.

É que, “na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor (…) a psicologia tem hoje um capital de conhecimento e uma força de trabalho capaz de oferecer garantias, às cidadãs e cidadãos e aos governos, de actuação nas consequências dos problemas e acontecimentos de vida significativos das pessoas, mas também, a montante, nas causas (muitas delas sociais) desses problemas. Com responsabilidade, procuraremos, hoje, amanhã e depois, discutir como o podemos fazer melhor, com todas e todos. Com empenho e foco nas pessoas, procuraremos mobilizar a profissão para um presente e futuro que se afigura desafiante, em Portugal e no Mundo.”

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Giorgia Meloni e o 5º Congresso da OPP

Portugal joga amanhã com Espanha a passagem à fase seguinte da Liga das Nações tal como jogou, em Junho de 2004, a passagem à fase seguinte do Euro 2004, que Portugal organizou. Muitas e muitos de nós recordam esse jogo que vi em Turim (Norte de Itália).

Ali vivi(a) enquanto estudante Erasmus e dali viajei, várias vezes, rumo a outras cidades italianas, muitas no Sul. Viagens num país lindíssimo e diverso. Num país com muitos países (e dialectos) dentro e de diferenças significativas entre Norte e Sul, diferenças que ajudam a compreender as eleições de ontem.

Meloni conduziu o Irmãos de Itália, partido de direita nacionalista, a força política mais votada. Independentemente do Governo que se constituir, da sua consistência (Itália teve 45 governos desde 1945) e do que será Meloni líder de Governo, é paradigmático que o partido cresça de 4 para 26% entre as eleições de 2018 e as de 2022. Há, como sempre existem, múltiplas razões que podem justificá-lo em Itália. Como existem para o comunicado do Chega que defende “que estes ventos de mudança [chegarão] a Portugal” e levarão “a uma reconfiguração política da Europa”.

Meloni faz da defesa da meritocracia, escola. Diz que o “mérito é o carburante do Mundo”, que tudo “reside na vontade, sacrifício e paixão” e que “não se devem aceitar limites impostos pelos outros”. Discurso motivacional, com ressonância, mas que choca com o discurso anti-imigração e o seu apego à “teoria” da “grande substituição” que torna seu objectivo evitar a “extinção dos Italianos”. O contrassenso continua quando afirma que a “segurança das cidades italianas está fora de controlo” pelas “políticas migratórias dos últimos anos”, apesar da taxa de criminalidade ter caído significativamente de 1990 a 2019 (a de homicídios 72%). Contrassenso aqui, coerência no desconsiderar dos factos, da ciência, dos valores democráticos e direitos humanos (veja-se a posição sobre pessoas LGBTI+) ou da preservação do Planeta (e sobre crise climática).

18 anos (desde 2004) ou 4 anos (desde 2018) que nos trouxeram a uma Meloni previsível chefe de governo, demonstração da aceleração e volatilidade do tempo que vivemos e de como, respeitando resultados eleitorais e as/os votantes, devemos mobilizar-nos contra a utilização do ressentimento e ódio como programa político. Um Mundo complexo precisa de respostas sustentadas que tragam esperança às pessoas e “vençam” as soluções simplistas resultantes deste tipo de partidos/coligações, Mundo fora.

Disponibilizar estas soluções exige diálogo e co-construção. Implica conversas interdisciplinares em temas desafiantes. Fá-lo-ei (em torno da pobreza, da COVID-19 e da saúde mental no Ensino Superior) e fá-lo-emos no 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, sob o mote “Tempo da Psicologia”. Com determinação, empenho e consciência dos riscos que enfrentamos, mas com a certeza de que passo-a-passo, com todas e todos e com a ciência (incluindo a psicológica) é possível caminhar no sentido de um Mundo… melhor.

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Estado da União 2022 – Saúde mental; pobreza e exclusão

“[O painel de cidadãos] incluiu uma nova iniciativa na saúde mental. Devemos cuidar melhor uns dos outros. E, para muitos que se sentem ansiosos e perdidos, um suporte adequado, acessível e “pagável” pode fazer toda a diferença.”

A passada semana trouxe-nos das instituições europeias duas notícias fundamentais a pensarmos o presente e futuro:

a) O discurso do Estado da União onde Ursula von der Leyen, a propósito da “resposta unida” da União a um conjunto de crises, fez esta declaração sobre uma nova iniciativa na saúde mental que discuti na minha intervenção no Fórum da TSF – Rádio Notícias (que partilho) no dia do discurso. Proposta que parte do painel de cidadãos da Conferência do Futuro da Europa (conclusões aqui) que, como assinalo, procura responder às crises sucessivas que vimos enfrentando (COVID-19, climática; sócio-económicas; …) que impactam as pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, ao condicionarem a previsibilidade, a sua percepção (e possibilidade) de controlo e as exporem a mais situações de precariedade, desemprego e exclusão associadas ao stresse, ansiedade e depressão. Iniciativa que resultando da pressão de cidadãs e cidadãos, assenta em três dimensões essenciais – melhor evidência científica disponível (adequada); ser contingente, rápida e acessível (acessível); ser equitativa e não deixar ninguém para trás (“pagável”) – mas que, por si só e mesmo minimizando-os, não resolve uma parte dos determinantes que concorrem para parte destes problemas;

b) Os dados do Eurostat sobre o risco de pobreza ou exclusão social que assinalam o agravamento da situação em Portugal que, de 2020 para 2021, passa do 13º para o 8º país da UE com maior percentagem de população (22,4%) nesta situação. Complementarmente à actuação “nas consequências”, é fundamental uma estratégia concertada nacional e internacionalmente que possa actuar sobre esta terrível realidade, com enormes consequências na saúde, bem-estar e na possibilidade de futuro e autodeterminação de pessoas e comunidades.

Numa e noutra situação, também como discuti no Fórum da TSF, é possível mudar. Pela pressão das pessoas, com novas iniciativas e atitudes em torno da saúde mental. Olhando para os 12 países da UE que, mesmo com a pandemia, progrediram na redução do risco de pobreza e exclusão social.

Finalmente, e também sobre isso reflicto na intervenção, fazê-lo é lutar contra o encerramento, a polarização e radicalização. É prevenir a irracionalidade, o ódio às outras e outros e a procura de soluções simplistas. É responder às necessidades e às legitimas expecativas das pessoas. Se o formos capazes de fazer, juntas e juntos, defenderemos as instituições e os valores democráticos, outra das importantes preocupações do discurso do Estado da União e outra das crises que vivemos, decisiva para no presente e para o futuro.

Fórum TSF – 14.09.2022 / https://www.youtube.com/watch?v=_MHNI2o6s4U

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem (Ao redor…; Sábado; 02.09.2022)

Se hoje temos mais informação, mais literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas? Conversava sobre saúde mental com um conjunto de estudantes de medicina e, já perto do final da sessão, isto mesmo me perguntaram, a propósito da saúde mental da população jovem, particularmente das e dos estudantes de ensino superior. Questão que julgo merecedora de especial atenção e cuja reflexão procuro estimular a partir dos quatro pontos cardeais.

N(otas). Uma das mais importantes e significativas transformações de Portugal nas últimas décadas prende-se com o aumento da escolaridade da população, especialmente da população mais jovem. De 1981 a 2021, e apesar da diminuição considerável do número de jovens em Portugal, as e os estudantes a frequentarem o ensino superior aumentaram quase 5 vezes de 84 para 412 mil. Hoje, Portugal tem 44% da população entre os 30 e 34 anos com o ensino superior completo, percentagem já superior à média da União Europeia (42%). Este ano, apenas na primeira fase, candidataram-se mais de 61 mil pessoas (para pouco mais de 55 mil vagas), números que reforçam a competição para a entrada, que acresce à competição, “à décima”, para determinados cursos de determinadas instituições.

A centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas no ensino secundário e pelas provas de ingresso (exames nacionais), impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita. O excessivo foco nos exames e nos resultados, com prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócio-emocionais, bem como uma lógica que procura premiar o mérito mas que, não raras vezes, desconsidera a falta de oportunidades e as situações de vulnerabilidade prévias de estudantes, acaba por resultar na promoção da competição e competitividade ao invés da colaboração e coesão, importantíssimas à percepção de suporte social enquanto factor protector da saúde mental fundamental nestas idades.

O programa do actual governo prevê “avaliar a melhoria a introduzir no acesso ao ensino superior, com vista à separação entre a certificação do ensino secundário e o acesso ao ensino superior”. Algo essencial, ainda pouco discutido em Portugal, apesar da recente aprovação de uma reforma em Espanha que, progressivamente, concretizará a mudança de sistema, com redução das tradicionais provas de acesso (exames) pela introdução de uma prova centrada na “maturidade académica”, nas competências e na interrelação de conteúdos, inspirada no modelo PISA da OCDE. Importa acompanhar esta experiência porquanto é fundamental que Portugal possa vir a ter um sistema mais responsivo ao conhecimento hoje existente (na avaliação, mas também nos processos de ensino-aprendizagem e estudo), melhor prevenindo problemas de saúde mental (nomeadamente stress, ansiedade ou depressão) também resultantes do actual sistema e da pressão associada à (imposta) necessidade de determinado tipo de resultados.

(O)utras e Outros. Um inquérito recente demonstra que 73% de estudantes respondem “sim” quando questionadas/os se procuram “sempre parecer positivas/os e felizes com tudo o que se associe ao seu nome verdadeiro”. Esta constante exigência, especialmente quando as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são tão importantes, acrescentam uma pressão significativa às e aos jovens, potencialmente estigmatizante, penalizadora e até violenta para as e os que estão em situação de maior vulnerabilidade, que estão mais tristes, mais tímidas/os, questionadora da sua autoestima e da integração social.

Mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais, a sua organização e as suas consequências. Mais e melhor literacia para as crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental. Uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito. Todos elementos essenciais a uma sociedade mais inclusiva, respeitadora da diversidade e de suporte à vulnerabilidade. De uma sociedade mais capaz de apoiar aquando da adversidade, de crises individuais e colectivas e de promover a saúde mental, o bem-estar e a possibilidade de futuro das e dos jovens.

S(uporte). Recentemente um outro estudo apontou a saúde mental como terceira maior preocupação da população jovem, depois do custo de vida e da crise climática. Também a Agenda da Juventude para a Saúde 2030 lhe confere especial enfâse, destacando que “não devem existir barreiras à (…) saúde mental”, que “a promoção do bem-estar psicológico deve ser especialmente considerada em todos os momentos de contacto com os serviços de saúde e deve articular-se agilmente com o meio escolar” e que a “capacitação de jovens em meio escolar para a promoção do bem-estar físico e psicológico deve recorrer a estratégias aliadas à aprendizagem social e emocional”.

É importantíssimo o capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta, mais contingente e com mais recursos, aos desafios que a sociedade contemporânea coloca à saúde e à saúde mental. Desde logo para concluir o caminho de diminuição do estigma, visível no facto das respostas que, passo a passo, têm vindo a ser criadas e/ou reforçadas terem elevada procura – veja-se nas Escolas, o sucesso do programa Cuida-te+ ou o facto do Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 ser maioritariamente utilizado por população jovem e/ou em situação de desemprego. Mas, também, para um verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS e nos seus cuidados de saúde primários, o reforço dos recursos nas Escolas, nas Comunidades e no Ensino Superior, neste contexto particularmente dirigidos à prevenção e promoção, conforme o recente programa da FLAD (Saúde Mental no Ensino Superior), que conta com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, procura estimular e apoiar.

E(stabilidade). Numa fase de constante necessidade de adaptação à transformação e de resposta a desafios e crises sucessivas, de procura e construção de autonomia, de saída de casa e transição, é fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem. Tal investimento é essencial ao futuro do país e implica pensar a habitação, a remuneração e reconhecimento no trabalho, os vínculos e o combate à precariedade e a promoção da saúde, saúde mental e do bem-estar. É essencial, porque condiciona significativamente o futuro da população jovem, incluindo a tomada de decisão de manutenção ou não no país, de ter ou não filhas/os e as oportunidades e capacidades de desenvolvimento, florescimento, empreendedorismo e produtividade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os pontos cardeais são pontos de referência que se associam e complementam. Assim é também com as notas, as outras e outros, o suporte e a estabilidade (ou as suas ausências), elementos essenciais a pensarmos a rosa dos ventos da saúde mental da população jovem e à resposta aos seus problemas e aos seus desafios. Assim é, pois, conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”, desvio com forte impacto na saúde e bem-estar da população mas também em alguns dos principais desafios do país, nomeadamente o envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.

 

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

in Sábado (Ao redor…); 02.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/rosa-dos-ventos-da-saude-mental-da-populacao-jovem

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A chuva voltou e o que aí vem…

A chuva voltou. Como que a relembrar o fim de mais um Agosto que desafia o conceito “silly season” (política). Se em 2020 estávamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” pandemia, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas; em 2022 estamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” Guerra, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas. Uma crise de saúde pública que acelerou transformações; uma crise humanitária, alimentar e energética, que se somam à crise climática e que aceleram transformações.

“O momento em que vivemos parece estar estruturado por uma série de crises graves (…) Acredito que aquilo que estamos a passar trata-se de uma grande mudança (…) o fim da abundância”. Excertos de um marcante discurso de E. Macron, em conselho de ministros, neste Agosto de 2022. Discurso em que apelou à “sobriedade voluntária” das pessoas face às limitações nas matérias-primas, energia e água.

Os próximos meses trarão uma realidade (de crise(s), de escassez de matérias-primas, de questionamento) que até há bem pouco tempo na Europa parecia temporalmente distante – do passado e de um futuro distante. Mas aqui estamos. Ouvimos Duarte Cordeiro anunciar medidas de racionamento para Portugal. Ouvimo-las em França ou na Alemanha.

Acontece, porém, que o “fim da abundância” só é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que vive(ra)m a “abundância”. Tal qual a “sobriedade voluntária” apenas é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que podem não ser “sóbrias”. “Abundância” que, também nestes países, não foi suficiente (mesmo que com melhorias) para erradicar a pobreza e, ainda menos, diminuir as fortes desigualdades (ver imagem).

Se a abundância não o permitiu, desafiante mas possível é, o seu fim, corresponder, como defendi em Agosto de 2021, a um “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.” (“Menos”)

Macron também disse que “a nossa liberdade, o regime de liberdade no qual nos habituámos a viver, tem um custo”, sendo essencial que as políticas e as e os políticos respondam às pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades.

Isso e que nunca esqueçamos que os melhores garantes de desenvolvimento sustentável e da possibilidade de bem-estar para todas e todos são um planeta viável, de paz e direitos humanos e sociedades democráticas, inclusivas e de equidade.

A mudança, por mais exigente que venha a ser, pode contribuir neste sentido. Assim nos unamos, queiramos e nos mobilizemos.

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A psicologia e a crise climática…

Jacob Rees-Mogg foi indigitado Ministro da Economia, com a área da Energia, do novo governo do Reino Unido. Como sabem, confio muito na possibilidade de mudança e de reparação (mal seria). Em todo o caso, não deixa de ser inquietante que, alguém que há pouco atribuia ao “alarmismo climático” os “preços elevados da energia” e considerava “irrealistas as projecções científicas das mudanças futuras relativas ao clima” porque as/os “meteorologistas têm dificuldade em prever correctamente o tempo”, assumir esta responsabilidade no UK. A isto acresce, ainda, considerar uma “oportunidade interessante” a possibilidade de se voltar a usar o “fracking” para exploração de gás, com todas as suas consequências factuais – na saúde e ambiente – e potenciais.

Além de inquietante tem duas consequências possíveis que devemos ter presentes e procurar mitigar: a) Sabemos hoje, também pela ciência, que a informação e a comunicação sobre as causas humanas do aquecimento global aumentam o envolvimento das pessoas com as questões associadas à crise climática e que este envolvimento, sendo fundamental à mudança necessária (de atitudes, comportamentos e políticas) é, naturalmente, condicionado por lideranças que questionam e procuram fragilizar, explicita ou implicitamente e com motivações distintas, o amplo consenso científico hoje existente e a confiança na ciência produzida nesta área; b) Facilmente constatamos que estes efeitos não se restringem a um país, impactando outros, bem como quão fundamental é uma resposta concertada a nível global para enfrentar desafios societais complexos, como a crise climática.

Em a) e b) temos (Ordem dos Psicólogos Portugueses) e tenho investido, procurando espaço e oportunidade para o meu, naturalmente singelo, contributo. Fi-lo, recentemente, associando-me à II Semana de Psicologia, conjunto de iniciativas promovido pela Associação de Psicólogos Brasileiros em Portugal (que saúdo), exactamente numa conversa com a Patrícia Egerland (sua Vice-Presidente) que partilho. Conversa que focou contributos da psicologia na crise climática que vivemos, com impactos significativos no Brasil e em Portugal. Conversa que abordou, também, a dignidade e direitos humanos, a colaboração nesta área ou a necessidade de cooperarmos e de fortalecermos e agilizarmos a resposta da nossa ciência e das psicólogas e psicólogos aos desafios das pessoas, comunidades e sociedade.

Ao contrário do que o “honorável cavalheiro do século XVIII” (como Rees-Mogg por vezes é apresentado) também disse – que enquanto humanidade “não deveríamos lutar pela mitigação das alterações climáticas, antes adaptarmo-nos a elas” – creio existir caminho a percorrer na prevenção e mitigação de desafios societais complexos (também, mas não apenas, na crise climática) e que existem contributos fundamentais da psicologia enquanto ciência e prática para tal, além dos para a necessária adaptação e reparação relativa às suas múltiplas consequências na saúde e bem-estar das pessoas.

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Re…cooperar

“Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho (…) Os desafios societais globais não se limitam a ou com fronteiras e não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.”
“Re…cooperar”, 39º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) pensa como a cooperação “foi (é ainda) o que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global” e possibilitar “que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.”

“Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou o 1º Dia Internacional das Cooperativas (…) e nasceu, a poucos km de onde cresci, José Saramago.”

“À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, da língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo mas viveu 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, pelo “enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades”.

“Esta situação (e retrocesso) é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globalizam velozmente movimentos, ideais e ideias (….) Justifica-se, assim, que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja centrado nas parcerias para a implementação dos ODS (…), que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção da cooperação, como a relação, orientação para os valores sociais, empatia e altruísmo, comunicação, compromisso, confiança, identificação e a cultura.”

“É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos.”

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The future is…

“O que as/os psicólogas/os desejam que as/os jovens adultas/os de hoje saibam?”. Com este chamativo título, Dani Blum escreveu um estimulante artigo no The New York Times sobre uma potencial crise de “quarto de vida” e como a “geração que hoje chega à idade adulta se confronta com novos [muito complexos, acrescento], por vezes debilitantes, desafios”. Olhando o Mundo e usando da racionalidade, creio possível vermos hoje dos melhores indicadores de educação, saúde e bem-estar globais e, simultaneamente, desigualdades gritantes e desafios societais de complexidade significativa, apenas endereçáveis com mobilização global, concertação de esforços e, sobretudo, cooperação.

Como sabe, quem me lê, um dos que muito me (pre)ocupa é a crise climática (e suas consequências). Nele há trabalho desenvolvido (e em desenvolvimento) globalmente pela psicologia, a partir dos seus contributos enquanto ciência e profissão, que permitiu a participação na COP26 e outros contributos junto da United Nations (https://www.apaservices.org/advocacy/news/global-climate-policy). Não é este, todavia, o único dos desafios e este não se pode desligar de outros.

Um outro, particularmente relevante, relaciona-se com os fenómenos de ódio, racismo e xenofobia que muito condicionam a sociedade, a democracia, a coesão social e as possibilidades de saúde (incluindo psicológica) e bem-estar das pessoas e comunidades. Aqui, creio, há caminho a percorrer, particularmente num contributo mais global da psicologia.

Desde logo, conforme a American Psychological Association está a fazer, olhando, de forma crítica, o passado dos contributos e reflectindo sobre os seus impactos, alguns muito negativos. A reportagem que partilho (abaixo) relata este “confrontar sos erros para construir um futuro de equidade”, a partir de um devido pedido de desculpas e de acções de reparação do racismo histórico -convido também à reflexão sobre esta cronologia (https://www.apa.org/about/apa/addressing-racism/historical-chronology) de 1869 (com Galton, com os primeiros estudos das diferenças individuais em psicometria e emergência do conceito de “eugenia”) até 2021 (aprovação pela APA da resolução que suporta este trabalho).

Este é tema central da #APAconvention 2022. Tema central num momento do Mundo (mas também pelo que se vive em Portugal) onde é premente unirmos esforços nesta temática. A convenção será nos próximos dias na cidade onde G. Floyd foi brutalmente assassinado em 2020. Minneapolis, cidade que viu Prince nascer e “partir” para nos dar, entre outras, a música “The future” (lembram-se do Joker J. Nicholson dizer “Hey Eckhardt, think about the future!”) que Prince termina a repetir 6 vezes “Eu vi o futuro e ele será…”, acrescentando um “all right” apenas na primeira.

6 possibilidades de inovação, novas narrativas e futuros alternativos. Futuros que, com cooperação e com uma psicologia a reflectir o seu passado para projectar o futuro, existam. Sejam “all right”… para todas e todos.

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European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.

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Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.