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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

A crise das democracias e como podemos vir a ser confrontados com uma realidade política que não consideraríamos imaginável no nosso tempo de vida. Ontem, no Fórum da DRCentro da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (obrigado @Paulo Cunha e equipa), depois da recolha de contributos que dinamizei para https://finalapobreza.pt, a @Sofia Ramalho questionou-nos, a propósito do “Futuro da Profissão”, sobre crises que imaginamos no futuro. Falou-se de saúde mental, de ecrãs, de natalidade e longevidade, da crise climática e de coesão. Eu falei de ameaças à democracia, sistema que, com as suas limitações, mais protege a possibilidade de autodeterminação de todas e todos.

“A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres”, 47º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte esta potencial crise a partir da dúvida. Dúvida que “embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso é explorada, da indústria à política. Da “dúvida é o nosso produto”, com que as tabaqueiras procuravam acrescentar dúvida à cada vez mais significativa evidência das consequências nocivas do tabaco, à forma como políticas/os (veja-se Donald Trump) a usam. “Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna”.

“Este movimento, com exemplos históricos e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito e convivência e para a acção conjunta dos povos face a desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando possibilidades de actuação sobre a mesma de instituições e autoridades do Estado. Mina “a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.”

O reconhecimento deste fenómeno deve motivar-nos a atitudes proactivas para a sua prevenção e mitigação, considerando os impactos nas sociedades democráticas, de Direitos e livres.” Deve impelir-nos a reflectir e considerar acções, como são exemplo (aprofundados no texto), a introdução na Finlândia da literacia mediática no currículo das Escolas e a criação na Suécia da Agência de Defesa Psicológica, iniciativas de combate à desinformação e protecção da sociedade democrática e livre.

Áreas para as quais “também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, podemos e devemos, a par com outras ciências e profissionais, contribuir”. Áreas “que devemos valorizar e investir considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.”

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Placebo.

“Dava-lhe um litro de gasolina com açúcar.” Ontem, no seu programa e comentando a notícia de um acidente causado por um “camião que perdeu os sentidos”, Ricardo Araújo Pereira brincava assim com o lapso na notícia. Brincava com o “copo de água com açúcar”, muito presente no meu (nosso, imagino) passado. Muito presente, ainda, como conversava com amigas/os há dias, nas Escolas, onde serve o propósito de cuidar de uma dor nas costas ou braço, de uma má notícia ou angústia.

Vem isto a propósito da reflexão que me acompanha sobre o “efeito placebo”. Esse curioso e estimulante (de reflexão) “efeito psicológico” que pode ter um “comprimido que não é comprimido” ou uma “intervenção inexistente” sobre problemas e sobre a qualidade de vida da pessoa, a partir da convicção ou no acreditar pela pessoa nos seus efeitos. Como a expectativa de um resultado pode induzir/activar mecanismos cerebrais que resultam mesmo, por exemplo, na diminuição da dor.

Este efeito, cuja investigação recente parece suportar que é hoje mais forte que há 20 anos, pode explicar em parte como podem intervenções sem evidência científica apresentar resultados positivos para algumas pessoas. Como pode o copo de água com açúcar persistir como resposta, mas, também, como pode este efeito psicológico ter resultados impactantes na redução de sintomas (em alguns casos quase semelhantes) quando comparado com a utilização de alguns medicamentos, por exemplo, junto de algumas pessoas com doença de Parkinson ou Depressão.

O conhecimento desta realidade deve, a meu ver e particularmente quando se consideram pessoas em situação de maior vulnerabilidade, motivar:

a) Cuidarmos este aspecto em intervenções experimentais e inovadoras, reforçando a nossa exigência na discussão de protocolos e resultados – neste sentido saúdo o trabalho e, particularmente, as cautelas e o cuidado expresso por Albino Oliveira-Maia à Inês Chaiça (PUBLICO) relativamente aos resultados promissores (“interessante[s], mas não extraordinariamente entusiasmante[s]”) de estudos sobre a utilização de psilocibina em pessoas com depressão, sublinhando a necessidade de continuarmos a investir nos estudos, melhorar protocolos e investigar formas de mitigação de efeitos secundários;

b) Recordarmos que o efeito placebo se resume a sintomas e é, crescentemente, utilizado como suporte da pseudociência – neste sentido importa prevenir a substituição de acções/terapêuticas que incidem sobre o problema base por outras, sem evidência, focadas nos sintomas e como devemos ser em simultâneo exigentes, mas sabedores das nossas características… Da nossa não permanente racionalidade e da natural (mas não inconsequente) procura de soluções simples e rápidas para problemas complexos.

Na saúde, onde o efeito placebo é hoje muito estudado e (por vezes mal) utilizado… Na sociedade ou política.

Um bom dia internacional da Cobertura Universal de Saúde… Que contribuamos para um “futuro saudável para todas e todos”, conforme seu mote.

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Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Política

3 Tina(s)

Três Tina(s). Base do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal” e base da minha intervenção na sua apresentação, na passada semana.

Tina 1: Tina Fey. Actriz vencedora de um Emmy. Fez a sua formação na “The Second City”, escola onde se procura, activamente, o desconforto, enquanto elemento essencial à improvisação, mudança e desenvolvimento pessoal. No fundo, como acontece com a igualdade de género, que, em contextos de segurança (psicológica), de confiança interpessoal e de transparência, quando intencionalizada, activamente promovida e legal e socialmente estimulada, é essencial, mesmo quando provoca potenciais desconfortos, à improvisação e capacidade de resolução de problemas, à adaptação e mudança e ao desenvolvimento e florescimento das pessoas, das organizações e da sociedade.

Tina 2: Tina Turner. “Eu não existia. Mas sobrevivi.” Relato da violência prolongada que sofreu na sua relação conjugal (e profissional) até à sua separação que resultou numa tremenda insegurança financeira, antes de superar estas condições, com os resultados que (re)conhecemos. A não exposição a situações de violência (explícita, mas também implícita) e a liberdade económica são, além de direitos, necessidades fundamentais ao bem-estar e factores fundamentais à equidade social e de poder de pessoas e grupos na sociedade. Para tal é essencial promover apoio psicológico e social, protecção social, regulamentação na área do trabalho, educação psicológica deliberada e literacia na área da igualdade de género e do bem-estar nas organizações, algo fulcral, também, na mudança de crenças erróneas que condicionam meninas, raparigas e Mulheres, particularmente as relativas à “genialidade de género” (percepção do maior talento de Homens face a Mulheres, mesmo perante actividades onde existe melhor desempenho de Mulheres).

Tina 3: There is no alternative. Expressão recentemente recuperada para o dicionário político e social. Não há alternativa a um caminho de maior equidade na sociedade e igualdade de género nas organizações. Não apenas porque de um Direito Humano se trata e porque é um dos ODS (5), impactando muitos outros. Também porque, essencial, à produtividade e sustentabilidade das organizações, mas não sem riscos que decorrem, por exemplo, da integração da Inteligência Artificial e dos seus vieses próprios, das crises que nos esperam num Mundo complexo e volátil e que impactam mais significativamente as meninas, raparigas e Mulheres ou dos 10 últimos anos de crescimento de governos autoritários no Mundo com consequente perda de Direitos.

Por tudo isto creio essencial que inscrevamos (conforme José Gil define) este tema na sociedade. O livro para isso contribui. Volto a agradecer às coordenadoras (Susana Almeida Lopes e Margarida Couto) o convite e a confiança, à Helena Pita Soares o acolhimento e à Paula Valente (Editora d’Ideias) a sua edição.

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Agnotologia

Agnotologia: um termo desaparecido para descrever a produção cultural da ignorância (e o seu estudo). Este é o título do 1º capítulo do livro “Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância”, escrito por R. Proctor e L. Schienbinger a partir, também, da reflexão sobre o potencial impacto na saúde pública das práticas da indústria do tabaco. Discute-se um memorando de 1979, primeiro secreto, hoje público, que reúne um conjunto de iniciativas de empresas – “O tabagismo e a proposta de saúde”. Nele assumia-se que “a dúvida é a melhor maneira de competir com o volume de informação que existe na mente do público em geral” e ser fundamental promover e financiar (também usando a ciência) a dúvida e intencionalizar a “criação de controvérsia” sobre os “impactos nocivos do consumo de tabaco”. Sendo este um caso “extremo” creio que temos presente que, também em 2022, talvez nunca com tantos recursos e de forma tão estrutural e complexa, a agnotologia é estimulada e alimentada, com profundas consequências na sociedade, nas relações entre pessoas e comunidades, na resposta aos principais desafios societais e na saúde (pública) e bem-estar.

E, se este movimento ocorre em muito patrocinado por organizações, empresas e até países que pretendem que os seus produtos / matérias-primas continuem a ser vendidos/utilizados, também decorre no seio político, na procura de agregação de pessoas a grupos/ideais políticos, não raras vezes usando a dúvida e as dimensões emocionais (como a raiva ou o ódio a outras/os) como força de mobilização. Num Mundo com complexidade e incerteza crescente e com redes sociais que permitem (e estimulam) a propagação “supersónica” da informação (particularmente a movida a emoções, dúvidas e “polarizadora”), creio fundamental o termos presente e, individual e colectivamente, contribuirmos para mitigação da agnotologia, algo só possível com mais e melhor ciência (inclusive nas políticas públicas), mais e melhor transferibilidade da ciência (inclusive junto das políticas públicas), mais e melhor comunicação da ciência (inclusive junto de decisoras/es) e mais e melhor informação e literacia científica da sociedade, possibilitando a reflexão consciente e a prevenção dos efeitos de grupo e massas, pela mudança de atitudes e comportamentos através da informação.

Por isso quem, por exemplo aqui, me lê/ouve sabe que, na medida das minhas possibilidades, o procuro fazer. Sabe, também, que estimulo, particularmente, psicólogas e psicólogos a fazerem-no mais, a partir da nossa ciência e prática. Sabe, ainda, que o procuro fazer junto de problemas societais complexos que muito influenciam a sociedade e a possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas. Partilho um exemplo, uma entrevista à Revista Visão (13.11) que toca estes pontos – um singelo contributo meu, focando a pobreza e a saúde mental; um estímulo a outras e outros para o fazerem/fazermos mais).

Mais e mais, individual e colectivamente. Por todas e por todos. Sim?

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Um estado completo?

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Esta definição de saúde, amplamente disseminada e reconhecida, é anterior à publicação por Watson e Crick do artigo onde é descrita uma (nova) “estrutura de espiral dupla”, por eles apelidada de “chave da vida”. A definição data da constituição da @World Health Organization em 1946 (75 anos) sendo, portanto, anterior a 1953, ano em que essa descoberta do DNA revolucionou a saúde (e a nossa vida), considerando a sequenciação do genoma humano que se seguiu e a nova medicação e vacinas que possibilitou, por exemplo na pandemia por COVID-19.

Apesar de datada, a definição frisa um “não apenas a ausência” fundamental a compreendermos a saúde em toda a sua amplitude e a saúde mental, particularmente na sua relação com o bem-estar. No entanto, o “estado de completo” parece não-conforme o que sentimos dia-a-dia, as naturais oscilações no nosso bem-estar “físico, mental e social” pelo que, recentemente, Bircher apresentou uma proposta de reformulação mais ajustada ao que hoje sabemos (e vivemos): “um estado dinâmico de bem-estar, caracterizado por um potencial físico e mental que satisfaz as necessidades vitais de acordo com a idade, cultura e responsabilidade pessoal”.

A ideia de dinamismo (e, logo, a possibilidade da sua promoção), de potencial (mobilizado ou não a cada momento), a ponderação da idade e das necessidades a ela ajustadas, além das questões culturais (também da comunidade) e da responsabilidade pessoal (envolvendo a literacia) são elementos fulcrais a pensarmos a saúde e a saúde mental.

Elementos reflecitdos, de forma simples (espero e creio, não simplista) e descontraída (por vezes até divertida), numa conversa que partilho e sobre a qual amanhã passa um mês. Conversei com o António Raminhos, com moderação da @Isabel Silva, na iniciativa de apresentação pública da colaboração entre a @Multicare (@Fidelidade) e a @Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da promoção da saúde e da saúde mental, também pela nova abordagem compreensiva aos temas, com inclusão significativa da psicologia (todas as suas áreas de actividade), enquanto oferta dos seguros de saúde e com foco na prevenção e promoção da literacia (mais informações aqui).

Uma conversa e, essencialmente, um trabalho conjunto que, “qual estrutura de espiral dupla”, afirma a pessoa na relação com o contexto, as dimensões físicas na relação com as dimensões psicológicas e momentos em que a espiral se move em sentido positivo e outros em sentido negativo.

Porque não, nem sempre estamos bem, nem sempre podemos estar (e temos) que estar bem. Porque sim, por vezes necessitamos de ajuda. De nos ajudarmos, cuidando-nos mais. Que nos ajudem, pessoas próximas ou, também por vezes, profissionais capacitadas/os e motivadas/os para tal.

 

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Comportamento Desafios da Psicologia Educação Emergência Climática Futuro da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Psicologia, porto de abrigo.

Ferry, briefing ou start-up. ”Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado.” Hub.

 

Venho defendendo que, além “de um dos sete hubs de ciência”, a psicologia “se deve assumir um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral.”

 

“Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país”, 45º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) sublinha-o, reforçando que tal depende “da disseminação e utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais”, nas equipas multidisciplinares (…) na consultoria e apoio às lideranças (…) e junto das decisoras/es políticos.” Também “na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida (…), nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais (…) e quando também lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades”.

 

Venho defendendo que, “quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo.”

 

Venho defendendo que “a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando a mudança societal necessária a maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, novos desafios ou a novas realidades. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.”

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Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política

1000 dias (Sábado; Ao redor…; 26.10.2022)

“Há mais 256 mil pessoas em Portugal a viver em risco de pobreza e exclusão” em 2021, face a 2020, de acordo com os dados do inquérito às condições de vida e rendimento do Eurostat. Mais 256.000 pessoas, em grande parte, resultado da pandemia por COVID-19, que contribuiu decisivamente para a interrupção de um período de decréscimo entre 2014 e 12019 deste e de outros indicadores relacionados com a pobreza, risco de pobreza e exclusão. Ouvimos e revimo-nos neste aumento do número de pessoas e famílias expostas a situações de escassez e pobreza. Também a exclusão e privação material e social, que também aumentou, tal como a desigualdade. Revimo-nos, porque o sentimos, grande parte de nós nas nossas famílias, todos na sociedade. Revimo-nos porque muitas vezes lhes acrescentamos nomes e situações concretas. Isto, pese embora, como o economista Carlos Farinha Rodrigues bem disse num debate em que participei a propósito do tema da pobreza, quando olhamos estes dados, “olhamos sempre pelo espelho retrovisor”.

Há? Havia, porque, em Outubro de 2022, quando conhecemos estes dados relativos a 2021, considerando agora os efeitos da crise socioeconómica resultante da maior inflação das últimas três décadas, podemos intuir que o número de pessoas nestas situações será, certamente, bem diferente dos números que discutimos e resulta num aumento de situações de privação, muitas vezes de desespero, em muitas famílias. E, importando olhar os dados, ainda que retrospectivamente, pensar a actual situação implica olhar prospectivamente o que poderemos esperar de consequências deste exigente momento. Destaco, além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social, duas que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais de situações de pobreza nos mesmos agregados familiares.

A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos. Assim, é possível prever que, caso suceda o que sucedeu na crise socioeconómica do início da anterior década, quando não houve reforço do apoio na área da saúde mental às pessoas em maior vulnerabilidade, esta situação resulte num aumento e agravamento dos problemas de saúde mental. E, consequentemente, numa maior probabilidade de manutenção ou queda destas pessoas em situação de precariedade, exclusão ou pobreza. Este ciclo resultará em níveis superiores de sofrimento, conduzirá a uma menor disponibilidade emocional das pessoas para o processo de recuperação (económica) que se sucederá à crise e a custos superiores no potencial apoio à saúde mental destas pessoas mais tarde, pela maior complexidade da intervenção se o problema se instalar e cristalizar. Neste sentido, importa, no presente, além de priorizar o apoio económico às pessoas com maior vulnerabilidade, priorizar também a disponibilização de apoio em proximidade e contingência na área da saúde mental, preferencialmente reforçando com urgência o número de profissionais da área da saúde mental associados aos centros de saúde e restantes unidades de cuidados de saúde primários e investindo no desenvolvimento de competências sócioemocionais, particularmente, mas não apenas, junto de crianças e jovens.

A segunda toca um conceito que tem ganho maior densidade, a partir de um conjunto cada vez mais significativo de investigação: os 1000 dias. Por 1000 dias entende-se o período dos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade com impacto ao longo de toda a vida, porquanto impacta o desenvolvimento neurológico (cerebral) e biológico. Ora, a investigação tem demonstrado com acutilância a forma como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão e/ou pobreza, tem um impacto significativo no desenvolvimento do bebé. Estes bebés, no seu dia 0 de vida, têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse dela resultante. Este processo é, muita vezes, continuado e aprofundado nos primeiros dois anos de vida quando se mantém este stresse e, a ele, não raras vezes, se associam dificuldades de alimentação e má nutrição, falta ou uma menor estimulação e a ausência de capacidade ou oportunidade de mobilização de competências parentais por parte das cuidadores e dos cuidadores, resultando numa desvantagem no final dos 1000 dias já particularmente significativa entre crianças expostas a contextos com níveis de adversidade distintos. Esta desvantagem impacta todo o processo de desenvolvimento, a educação e a saúde ao longo de todo o ciclo de vida, conforme estudos longitudinais têm demonstrado.

A ideia de um bebé nascer já com uma desvantagem, expressa no desenvolvimento (menor) das suas estruturas biológicas e neurológicas, corresponde a uma gravíssima injustiça social que nos deveria mobilizar. Particularmente num país de baixa natalidade e com desafios exigentes na sua demografia, deveríamos procurar, no presente para não condicionar o futuro de novos cidadãos, respostas assertivas que pudessem proteger e apoiar com maior intensidade os “agregados familiares dos 1000 dias”, reduzindo a sua exposição a situações de escassez, potenciando as licenças de maternidade e paternidade e melhorando o acesso e a qualidade das creches.

Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro e maior possibilidade de mobilidade social de pessoas e famílias da actual geração e das gerações seguintes. Duas áreas de actuação que apontariam a dois problemas estruturais do país (a elevada prevalência de problemas de saúde mental; a elevada pobreza e a sua reprodução geracional), que condicionam o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, a equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental, conforme objectivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 21-30, fazermos da erradicação da pobreza desígnio. Um objectivo exigente, mas possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas. Um desígnio que exige a participação de todos e que se inicia com as conversas que podemos ter e que devemos promover em diversos contextos. Que se inicia tornando este assunto saliente e presente no espaço público, na acção de diversos grupos profissionais, na investigação de diversas equipas de investigação e no dia-a-dia de lideranças e de decisoras e decisores. Que se concretiza com a mobilização da sociedade civil e com políticas públicas mais informadas pela ciência e, por isso, mais eficazes e eficientes no presente, que contribuam para um futuro melhor para todos.

 

1000 dias

in Sábado (Ao redor…); 26.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias

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Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza? (CNN Portugal; 17.10.2022)

Ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem. As pessoas que a vivem e que são privadas da sua dignidade, da sua possibilidade de saúde e bem-estar, de desenvolvimento e autodeterminação. As pessoas que, neste momento, não a vivendo, são parte da sociedade que a gera, reproduz e, por vezes, a esconde, tornando-se mais desigual, menos justa e coesa e logo menos promotora de equidade e de possibilidades para todas as pessoas. As instituições, particularmente os governos democráticos, que, não a erradicando, se desacreditam e fragilizam, geram desconfiança e menor participação e distanciam-se das necessidades e expectativas das pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, alimentando a polarização e o ódio às outras e aos outros. A pobreza, conforme alguns partidos procuram ser, é um fenómeno catch all, “apanha” todas e todos.

Os “7-0”, ironia de António Costa a propósito da maior aproximação das previsões económicas do Governo face às do FMI, não tem paralelo com as previsões do Governo face às de outros organismos a propósito da evolução anual do risco de pobreza e exclusão. A razão? O governo não prevê. Estabelece um objectivo para 2030 (“redução para 10% da população”), expresso no Programa de Governo com remissão para a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 mas, apesar de estimar no quadro macroeconómico e no Orçamento do Estado o PIB, a inflação, a evolução da taxa de desemprego, remunerações médias e até o preço do petróleo não prevê o impacto das medidas a que se propõe e da evolução dos indicadores socioeconómicos na percentagem de pessoas que em Portugal viverão em situação de pobreza (ou risco de pobreza) e exclusão em 2023.

Não o faz. Como, e apesar de ter já implementado um conjunto de importantes medidas que nela constam, não teve ainda oportunidade de nomear a coordenação e a comissão de acompanhamento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, estratégia aprovada e publicada ainda em 2021 e que prevê, no seu articulado, que até Junho de 2022 essa comissão (ainda inexistente) apresentaria o Plano de Acção 2022-2025. Nem coordenação, nem comissão, nem plano, duas propostas de Orçamento do Estado (2022 e 2023) depois para anos com a maior taxa de inflação das últimas três décadas (2022) e, em previsão, uma das maiores deste período (2023) e quando sabemos que a “inflação real” que incide sobre a população com maior escassez económica é significativamente superior à taxa de inflação (média). Nem coordenação, nem comissão, nem plano, num período em que a trajectória descendente dos indicadores de pobreza, consistente de 2014 a 2019, se inverteu, tendo a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) medida pelo INE aumentado de 16.2% em 2019 para 18,4% em 2020 e a de risco de pobreza ou exclusão social medida pelo Eurostat aumentado de 20% em 2020 para 22,4% em 2021, passando Portugal do 13º para o 8º país da União Europeia com maior percentagem de população nesta situação.

Previmos, mas podemos prever muito mais. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.

Assim pode ser amanhã. Dia que se segue ao dia em que celebramos globalmente o objectivo da erradicação da pobreza e em que, um pouco por todo o Mundo e em Portugal existirão manifestações de intenções, apresentação de propostas e debate público neste domínio. Amanhã e depois podemos concretizar as intenções, implementar as propostas e, particularmente, continuar e aprofundar este debate, tornando-o persistente e saliente, onde hoje é estranhamente ausente, considerando que a pobreza e a pobreza multidimensional (a que não se refere apenas à dimensão económica e que remete para a escassez de acesso à educação, saúde e condições de vida consideradas mínimas necessárias) é um dos principais determinantes da saúde (e da saúde mental), da educação ou da justiça. Amanhã comecemos por mobilizar a sociedade civil e considerar os diversos contributos, porque apenas com todas e todos podemos tornar o combate à pobreza desígnio nacional (conforme a Estratégia bem prevê) e vencer este complexo desafio. Complexo, mas possível, assim o queiramos e assim, com determinação, estimulemos, permitamos e utilizemos o contributo de pessoas e organizações investidas neste objectivo.

Um exemplo, as psicólogas e psicólogos em Portugal e a Ordem dos Psicólogos Portugueses. Considerando os contributos da ciência psicológica nesta área (nomeadamente os impactos da escassez no desenvolvimento, capacidade cognitiva e de planeamento e tomada de decisão) e a associação cíclica e forte entre situações de pobreza e exclusão e problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão), a Ordem dos Psicólogos Portugueses encontra-se a promover o projecto .Final à Pobreza, visando um mais intencional e informado contributo da ciência e da profissão para um ponto final à pobreza. Projecto que resultará numa estratégia que visará mais e melhor formação e recursos para a prática de psicólogas e psicólogos nesta área e contributos para a promoção de literacia na sociedade civil sobre este fenómeno, as suas causas, consequências e formas de o mitigar. Projecto que contribuirá para melhor informação para o desenho de políticas públicas nesta área e para promover redes de cooperação nacional e internacional junto do que é, não por acaso, o primeiro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Tudo porque o dia que hoje se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.

Continuamos amanhã?

Tiago Pereira

 

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?

in CNN Portugal; 17.10.2022

https://cnnportugal.iol.pt/tiago-pereira/pobreza/tiago-pereira-7-0-ao-fmi-mas-que-resultado-no-combate-a-pobreza/20221017/634d2ca80cf2f9a86ebafb96

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

1000 dias….

1000 dias… Os primeiros 1000 dias. Um conceito com cada vez maior relevância, que parte de um quadro significativo de investigação e trata o período fundamental de desenvolvimento das estruturas neurológicas (cerebrais) e biológicas dos bebés. 1000 dias, tempo que dista de hoje a 06.02.2020, dia em que o Públicofez um trabalho sobre um artigo escrito por profissionais de saúde pública que, partindo da forma errática como foi gerido um 1º caso suspeito e não confirmado de COVID-19 em Portugal (1º caso confirmado surgiria apenas quase um mês depois), procurava promover uma melhor preparação dos cuidados de saúde, visando o que aí viria e de acordo com o que sabíamos pós-emergências H5N1, SARS e da pandemia H1N1.

“1000 dias”, 44º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destas premissas (tomar decisões informadas pela ciência e pela melhor evidência disponível; aprender com erros e construir sobre a experiência passada) para pensar o aumento das pessoas a viver em risco de pobreza e exclusão. Pensar, “além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social”, duas questões que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais.

“A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos.”

A segunda, o conceito dos 1000 dias, “período que corresponde aos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade (…) A investigação demonstra como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão ou pobreza, tem um impacto significativo no seu desenvolvimento. Estes bebés no seu dia 0 de vida têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse resultante (…) Desvantagem que se acentua ao longo da vida.”

“Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro, maior possibilidade de mobilidade social e que apontariam a dois problemas estruturais do país (elevada prevalência de problemas de saúde mental; elevada pobreza e a sua reprodução geracional) que condicionam o seu crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.”