Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Política Psicologia

Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação (Ao redor…; Sábado)

Comecemos hoje com um pequeno quiz:

O que é que os seguintes nomes: António Brochado Correia, Bernardo Trindade, Carlos Abade, Carlos Moura, Fernando Nunes da Silva, Filipe Anacoreta Correia, Francisco Calheiros, Gonçalo Oliveira, Hugo Moreira Luís, José Luís Arnaut, Luís Amado, Luís Marques Mendes, Luís Montenegro, Luís Rodrigues, Mário Centeno, Miguel Maya, Paulo Portas, Pedro Machado, Pedro Reis, Roberto Antunes e Fernando Nunes da Silva…

Têm que ver com estes nomes: Alexandre Lote, André Pinotes Batista, Armando Mourisco, Benjamim Rodrigues, Brian Silva, Francisco César, Gonçalo Lopes, Hugo Costa, Hugo Oliveira, João Portugal, Luís Dias, Luís Graça, Luís Moreira Testa, Nelson Brito, Nuno Araújo, Paulo Cafôfo, Ricardo Leão, Rui Santos, Victor Hugo Salgado, Vítor Paulo Pereira e Vítor Pereira?

Ambos os grupos terem 21 nomes? Terem esses 21 nomes organizados por ordem alfabética? Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens.

São, também, e respectivamente, os nomes de todos os 21 oradores da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal e apresentada como “um evento que reúne importantes líderes e personalidades políticas e empresariais” que pretende “apelar à reflexão e ao debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal”. Um debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais.

Debate que, coincidentemente, aconteceu a 27 de Setembro, dia em que o Partido Socialista (PS) elegeu os novos 19 líderes das federações distritais que se juntam aos 2 líderes anteriormente eleitos das regiões autónomas, corporizando os seus agora 21 líderes federativos e regionais atrás listados. Todos homens. Um processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais.

Mas, se parece existir alguma coerência relativamente ao evento e ao facto de todo o Conselho Directivo da Confederação do Turismo de Portugal que o organiza ser, hoje, constituído por homens (10) que, por sua vez, lideram Associações ou Grupos Empresariais ligados ao Turismo, já parece mais incoerente que a liderança de todas as estruturas federativas e regionais, de um partido em que o seu Secretário-Geral foi eleito com uma moção apelidada de “Portugal Inteiro”, caiba apenas a homens. Moção essa que afirma como 1ª missão que o PS se deve assumir como “um partido reformista e progressista para uma social-democracia moderna”, detalhando dever ser “um partido transformador e progressista”, promover “reformas para melhorar a vida das pessoas” e ser “portador de sentido de justiça, esperança e de ambição para chegar mais longe”.

Talvez este sentido de justiça, esperança e de ambição obrigasse a uma reflexão profunda sobre como podem estar representadas as mulheres (segundo os últimos dados públicos, cerca de 37% do total de militantes do PS) nas lideranças locais e de proximidade e quais as razões que levam à absoluta desproporção nas candidaturas (nas 19 eleições houve apenas duas candidatas, ambas derrotadas, face a 21 candidatos Homens) e como pode essa desproporção, a bem de todas e todos, ser mitigada. Talvez esta reflexão trouxesse uma outra coerência. Talvez pudesse pensar-se que, tal qual um conselho diretivo só de homens mais facilmente organiza um evento em que só homens são oradores, em eleições internas dos partidos políticos, onde as estruturas são maioritariamente lideradas por homens, estes tendem a mobilizar-se e movimentar-se mais, perpetuando-se e determinando, ou pelo menos influenciando com o mesmo viés, as escolhas futuras.

É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.

Isto, naturalmente, se não quisermos que o “debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal” e as bases do partido português que se assume progressista, reformista e “portador de sentido de justiça, de esperança e de ambição para chegar mais longe” sejam consequentes com a reflexão do Ministério Público para o seu relatório de actividades de 2023, partilhada pela Sr.ª Procuradora Geral da República, referindo que uma proporção significativa de mulheres jovens (“especialmente abaixo dos 30 anos”) na instituição resulta num “agravamento de constrangimentos” nos seus trabalhos em virtude de “situações de gravidez, de gravidez de risco, de baixa para assistência a filhos menores, gozo de licença parental e ausência para efeitos de amamentação”. Um péssimo contributo para a informação e debate público proveniente de uma instituição com especiais responsabilidades com a agravante das mulheres com menos de 30 anos representarem apenas 1,6% do seu universo de trabalhadores.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências. Penso-o relativamente a partidos, eventos, estruturas e organizações da administração pública, privada ou do sector social. Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. Certamente se o fizermos caminharemos no sentido da promoção de maior segurança psicológica, de maior coesão social e da prevenção de retrocessos que hoje nos parecem tão absurdos quanto pensávamos absurdo, há anos, que um ex-presidente e novamente candidato a presidente dos EUA afirme que se ganhar a eleição poderá ser a última vez que as/os eleitoras/es votam. Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.

 

Tiago Pereira

Um tema em que as bases do Partido Socialista e o Turismo de Portugal parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

in Sábado (Ao redor…); 09.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-mulheres-e-a-sua-participacao

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Política Psicologia

Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

“Comecemos hoje com um pequeno quiz”. Assim começa o artigo perguntando o que um conjunto de 21 nomes tem que ver com um outro conjunto de 21 nomes. “…Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens”, escrevo.

“Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação”, 92º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da coincidência temporal entre a realização da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela CTP e que teve 21 oradores (todos homens) e as 19 eleições federativas do PS cujos eleitos se juntam aos 2 regionais perfazendo 21 líderes (todos homens). Esse dia 27.09.24 foi dia de um “debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais”, conforme foi apresentado o evento da CTP. Foi dia de um “processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais” do PS.

“É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.”

“…necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências (…) Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. (…) Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.”

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Política Psicologia

Maria Lamas

Muitas e muitos de nós andamos em Escolas com nomes de personalidades que admiramos. Assim foi comigo. Estudei no meu terceiro ciclo e secundário numa Escola com o nome de uma Mulher, minha conterrânea, essencial na história e compreensão do feminismo e do desenvolvimento e progresso social em Portugal – Maria Lamas.

Foi jornalista, escritora, investigadora, tradutora, fotógrafa e, fundamentalmente, uma activista, lutadora pelos direitos cívicos e humanos, quando sê-lo se “pagava” com a liberdade (foi presa pelo Estado Novo três vezes), com o exílio (como tantas e tantos, viveu exilada em França) e, por vezes, com a vida.

Apesar deste importantíssimo contributo, o seu trabalho não é amplamente conhecido e acessível. Felizmente o @PUBLICO recentemente disponibilizou uma edição da sua obra principal – “As Mulheres do Meu País”, um livro que publicou entre 1948 e 1950 em 15 fascículos para “fugir” dessa forma à censura. Livro que resulta do seu trabalho, de base etnográfica, de documentação da vida de Mulheres portuguesas, procurando expor, por um lado, as desigualdades sociais e económicas daquele Portugal e, por outro, as fortíssimas disparidades de género e o quanto isso implicava na possibilidade de liberdade, saúde e bem-estar das Mulheres. Livro “marco” na luta pela igualdade de género e pela justiça social naquele e nos períodos que se lhe seguiram.

Partilho estas palavras convosco, hoje, com duas propostas:

  1. Que, sendo-vos possível, visitem a exposição “As Mulheres do Meu País” que desde sexta-feira está na @Fundação Calouste Gulbenkian e que, apresentando a Maria Lamas, mostra o trabalho fotográfico que acompanhou estas suas viagens por todo o país, recolhendo as imagens e as histórias das Mulheres do seu país. Um retrato incrível do caminho que percorremos e do quanto o temos, apesar de tudo, que louvar e preservar. Mas, um retrato também do caminho ainda por percorrer para cumprirmos a igualdade de género e a equidade social, valores aos quais Maria Lamas dedicou (e pelos quais “arriscou”) a sua Vida;
  2. Que, sendo-vos possível, o façam, como eu tenho a sorte de poder ter feito, com uma das Mulheres fantásticas que o nosso país tem.

Façam-no para continuarmos, todas e todos, o legado das muitas Maria Lamas que tanto deram para que possamos, hoje, ter mais possibilidade de ter “uma vida melhor”.

Ps. A imagem que acompanha esta mensagem é uma fantástica pintura de Maria Lamas feita por Júlio Pomar em 1953 e que pode ser vista na exposição.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Política Psicologia

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica (Ao redor…; 02.01.2024)

 Creio não errar muito ao assumir que, para quem habitualmente cumpre esta tradição, este não terá sido um ano especialmente complexo para se pensar em 12 desejos, tais os desafios pessoais, profissionais e societais com que estamos, no geral, confrontados. Também não o é para cumprir esta minha pequena tradição de partilhar convosco um desejo para o novo ano que agora começa.

Poderiam, naturalmente, ser vários, incluindo o que partilhei para 2022 (“Construirmos mais Paz”[i]), poucas semanas antes do início da actual fase da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, Guerra que persiste até hoje, a par de outras, incluindo civis, e, agora, da trágica situação no Médio Oriente. Ou o que partilhei para 2023 (“Promovermos mais bem-estar para todas e todos”[ii]), de actualidade premente, quando assistimos a movimentos sociais/políticos em ascensão que questionam o caminho de progressão das últimas décadas no sentido de maior equidade e do cumprimento dos direitos das crianças e humanos. Poderia desejar em torno da pobreza, da desigualdade, da crise climática ou das migrações. Tudo questões fundamentais, mas, o meu desejo para 2024 é caminharmos no sentido de termos um país mobilizado contra a violência doméstica.

Em 2023, no dia do meu aniversário, assisti a um concerto com os meus dois filhos, onde a cantora mostrou e leu um conjunto de nomes. Letras escuras em folhas brancas, um após o outro. Nomes de mulheres assassinadas em 2022, em Portugal. 28 Mulheres no total, 22 cujas vidas foram violentamente terminadas no contexto de relações de intimidade. 28 que somam a milhares de vidas, primeiro condicionadas, depois interrompidas, e a que se juntaram, até 15 de Novembro deste ano, 25 outras Mulheres.

Por cada morte, dezenas de episódios de violência são comunicados às autoridades (8443 apenas no terceiro trimestre de 2023) onde, muito maioritariamente, as Mulheres são vítimas. Mas, todas e todos sabemos, por cada ocorrência comunicada muitas outras passam por algo “não violento”, são “desculpadas” ou, muitas vezes, simplesmente escondidas, durante um tempo que invariavelmente conduz à vez sucessiva, à repetição, à cristalização. A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos a ser complacentes com este problema, enquadrando-o como de “duas pessoas” e não da sociedade. Partindo de um suposto equilíbrio, quase sempre inexistente, que pressupõe que cada decisão tomada no âmbito dessa relação seria totalmente livre, negligenciando perigos e potenciais intervenções sobre os mesmos, também de mitigação de riscos, e culpabilizando muitas vezes a pessoa mais vulnerável por “não resolver a situação”, quando carece de recursos internos e externos que lhe permitissem fazê-lo.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos para algum cinismo, não o discutindo publicamente e não lhe dando a visibilidade que merece e que permitiria, verdadeiramente, uma discussão e acção com potencial de alteração colectiva de comportamentos e atitudes sobre o mesmo. Em Espanha, por exemplo, é hoje assunto permanente na sociedade, não deixando ninguém indiferente, presente em debates políticos e envolvendo diversas entidades da sociedade civil mesmo quando os números são mais baixos se considerados proporcionalmente face a Portugal.

Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para a minimização, para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género, também nas matérias que envolvem a violência, em todas as suas formas. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos, da violência nas relações de namoro às relações na idade adulta, sejam de intimidade ou profissionais.

Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação (a violência doméstica é crime público já desde 2000), quer via mecanismos de apoio social e casas de abrigo para vítimas ou mesmo das importantíssimas respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica, operacionalizadas durante a pandemia, período particularmente sensível para as vítimas. Onde, também localmente, as Autarquias têm investido recursos e dado saliência ao fenómeno (veja-se o memorial construído pelo Município de Cascais) e onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa – Lembrar as Vítimas do Homicídio em Violência Doméstica”, criado pelo psicólogo António Castanho).

Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em algumas das conquistas e progressos nesta área. Tal implica mais e melhor educação e consciencialização. Mais e melhor sociedade civil, actuante e não complacente com esta matéria. Tal implica o combate a ideias e forças políticas que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Forças políticas como o “Partido Chega” que, além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (veja-se a proposta de atribuição de subsidio de desemprego a pessoas vítimas de violência doméstica e a justificação “moralista” e duplamente estigmatizante do voto contra – se “não se tiver cuidado poderá levar a que tudo seja vítima de violência doméstica” pelo que as pessoas têm que justificar “como são vítimas”, diria depois o seu líder parlamentar), procuram usar de transformações no sentido da maior equidade para, “utilizando” a percepção de perda de poder e controlo de determinados grupos na sociedade, o “acicatarem” com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas no presente e futuro do uso do medo, do ódio e do nós vs. outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano, mas muito particularmente as Mulheres que mais sofrem, se procurar cumprir, também nas suas relações. “Metermos a colher”, sim, também porque muito do sofrimento que resulta de um país com indicadores sociais e económicos e de problemas de saúde mental muito preocupantes, decorre de anos e anos de violências várias e cíclicas e do sofrimento que delas resulta, sofrimento que uma acção concertada e mobilizada do país pode, verdadeiramente, mitigar, melhorando vidas de pessoas e criando outros futuros. Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.

 

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

[ii] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

in Sábado (Ao redor…); 02.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2024-um-pais-mobilizado-contra-a-violencia-domestica

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

Depois de aqui ter desejado “Construirmos mais Paz” em 2022 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz) e “Promovermos mais bem-estar para todas e todos” em 2023 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos)…

“Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica”, 73º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da memória de um concerto que assisti no dia do meu aniversário de 2023 onde a cantora leu cada nome de cada Mulher assassinada em Portugal em 2022. Por cada nome, centenas de outras ocorrências comunicadas e outras tantas não comunicadas. “A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.”

“Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos.”

“Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação, quer via mecanismos de apoio social, casas de abrigo ou de respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica (…) Onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa” do António Castanho).”

“Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em progressos nesta área (…) Tal implica o combate a ideias e forças políticas (como o “Partido Chega”) que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (…) “utilizam” a percepção de perda de poder de determinados grupos na sociedade com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas do uso do medo, ódio e do nós vs. outras/os.”

“Mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano se procurar cumprir, também nas suas relações (…) Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.”

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Tecnologia

A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições”.

 

Escrevi-o há 11 meses. Parte de um artigo intitulado “Menina-Rapariga-Mulher” que partilho, naturalmente, mas infelizmente, actual ontem, hoje e, certamente, num futuro próximo mas espero não, num futuro necessariamente menos próximo.

 

Para tal, e para que tal aconteça rapidamente, iniciativas como as promovidas pelo cluster “Igualdade de Género” da @Grace – Empresas Responsáveis, liderado pela @Margarida Couto e pela @Susana Almeida Lopes, são fundamentais. Agradeço-lhes, juntamente com a @Mariana Silva, o convite, o cuidado e o facto de me confiarem espaço de contributo neste assunto tão fundamental, desta vez no evento do passado dia 28 de Setembro, organizado pelo cluster com o título “A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?”.

Conforme me foi solicitado, reflecti a partir do tema (“Os enviesamentos inconscientes, dados atuais e tendências”), discutindo contributos da ciência e da prática psicológica para, nesta matéria, melhor se compreender o impacto de heurísticas e vieses e as condições de mudança individual, organizacional e societal, nomeadamente os obstáculos e estímulos que se lhes colocam. Mais, discuti a importância de introduzir mais ciência nas práticas, prevenindo os efeitos do placebo e nocebo nesta área, e o papel da comunicação efectiva, da eficiência de processos, da co-construção da decisão e avaliação e no papel das tecnologias e ferramentas de apoio na promoção da igualdade de género nas organizações. Terminei sublinhando o papel fundamental da promoção do bem-estar e da segurança psicológica de todas e todos neste caminho.

Um contributo que se seguiu a um outro, exactamente focado no bem-estar. Falo do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado pela Margarida Couto e Susana Almeida Lopes, e cuja leitura recomendo, também pelas práticas que reúne e que podem estimular e inspirar pessoas e organizações face a este desígnio e justa (legitima e possível) aspiração.

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Política

3 Tina(s)

Três Tina(s). Base do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal” e base da minha intervenção na sua apresentação, na passada semana.

Tina 1: Tina Fey. Actriz vencedora de um Emmy. Fez a sua formação na “The Second City”, escola onde se procura, activamente, o desconforto, enquanto elemento essencial à improvisação, mudança e desenvolvimento pessoal. No fundo, como acontece com a igualdade de género, que, em contextos de segurança (psicológica), de confiança interpessoal e de transparência, quando intencionalizada, activamente promovida e legal e socialmente estimulada, é essencial, mesmo quando provoca potenciais desconfortos, à improvisação e capacidade de resolução de problemas, à adaptação e mudança e ao desenvolvimento e florescimento das pessoas, das organizações e da sociedade.

Tina 2: Tina Turner. “Eu não existia. Mas sobrevivi.” Relato da violência prolongada que sofreu na sua relação conjugal (e profissional) até à sua separação que resultou numa tremenda insegurança financeira, antes de superar estas condições, com os resultados que (re)conhecemos. A não exposição a situações de violência (explícita, mas também implícita) e a liberdade económica são, além de direitos, necessidades fundamentais ao bem-estar e factores fundamentais à equidade social e de poder de pessoas e grupos na sociedade. Para tal é essencial promover apoio psicológico e social, protecção social, regulamentação na área do trabalho, educação psicológica deliberada e literacia na área da igualdade de género e do bem-estar nas organizações, algo fulcral, também, na mudança de crenças erróneas que condicionam meninas, raparigas e Mulheres, particularmente as relativas à “genialidade de género” (percepção do maior talento de Homens face a Mulheres, mesmo perante actividades onde existe melhor desempenho de Mulheres).

Tina 3: There is no alternative. Expressão recentemente recuperada para o dicionário político e social. Não há alternativa a um caminho de maior equidade na sociedade e igualdade de género nas organizações. Não apenas porque de um Direito Humano se trata e porque é um dos ODS (5), impactando muitos outros. Também porque, essencial, à produtividade e sustentabilidade das organizações, mas não sem riscos que decorrem, por exemplo, da integração da Inteligência Artificial e dos seus vieses próprios, das crises que nos esperam num Mundo complexo e volátil e que impactam mais significativamente as meninas, raparigas e Mulheres ou dos 10 últimos anos de crescimento de governos autoritários no Mundo com consequente perda de Direitos.

Por tudo isto creio essencial que inscrevamos (conforme José Gil define) este tema na sociedade. O livro para isso contribui. Volto a agradecer às coordenadoras (Susana Almeida Lopes e Margarida Couto) o convite e a confiança, à Helena Pita Soares o acolhimento e à Paula Valente (Editora d’Ideias) a sua edição.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Política Psicologia

Menina – Rapariga – Mulher (Sábado; Ao redor…; 23.11.2022)

“Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas”. Penso em nomes, em todos os nomes. Penso na minha família, nas meninas, depois raparigas, hoje Mulheres. A promoção da igualdade de género é o objectivo 5 dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) mas… “o que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova. Na resposta, que no fundo é também o próprio documentário, agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.

Por exemplo, no Afeganistão onde as Mulheres deixaram de poder entrar em parques ou feiras populares, frequentar todo o sistema educativo ou ter determinadas profissões. No Irão, onde raparigas e Mulheres são detidas e enviadas para supostos “centros de reeducação” pela não utilização ou “utilização incorrecta” do hijab. Nos Estados Unidos da América, onde uma sociedade profundamente polarizada faz da discussão sobre a (i)legalidade da interrupção voluntária da gravidez, incluindo em situações de especial complexidade (más formações do feto, perigo para a Mulher ou gravidez resultante de abuso sexual), tema, não de saúde pública, mas de política e de afirmação ideológica, quando não de tribalismo. Também na Polónia, onde a interrupção voluntária da gravidez não é hoje permitida, mesmo em situações de malformações ou de doenças incuráveis, ou na Hungria, onde um decreto governamental procura “obrigar” as Mulheres a ouvirem o batimento cardíaco do feto antes de interromperem voluntariamente uma gravidez. Ainda no Reino Unido onde Liz Truss, na sua curta passagem pelo Governo, propôs a dispensa das organizações com menos de 500 trabalhadoras/es de publicarem o seu relatório sobre o “gender pay” (disparidade salarial por género), justificando-o com a necessidade de diminuição de burocracia. Ou, finalmente, em Portugal, onde apesar das Mulheres serem ainda mais expostas a situações de precariedade e pobreza e existir uma enorme desigualdade salarial, o Acordo de Médio Prazo de Melhoria de Rendimentos, recentemente assinado pelo Governo e um conjunto significativo de parceiros sociais, estranhamente exclui a igualdade salarial do seu objecto e das suas metas.

Nesta rápida viagem pelo Mundo creio ficar claro que a desigualdade de género, além do objectivo 5 dos ODS, impacta outros. Da erradicação da pobreza às cidades e comunidades sustentáveis, passando pela redução das desigualdades. Do trabalho digno e crescimento económico à saúde de qualidade. Da paz, justiça e instituições eficazes à educação de qualidade. Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por exemplo), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (conforme aconteceu com a pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência, conforme se assinalará no próximo dia 25 de Novembro, quando se comemorar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres. Uma sociedade em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições. Uma sociedade que necessita reconhecer o trabalho invisível não remunerado, quer seja doméstico ou de cuidado informal, maioritariamente exercido por Mulheres. Trabalho que, além dos condicionalismos e desafios que comporta para a conciliação de papéis das Mulheres, se considerado, poderia significar um aumento de cerca de 36% no PIB de Portugal, aumento próximo do que tivemos nos últimos 30 anos. Uma sociedade que deve estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade que deve permitir que mais Mulheres participem em processos de decisão, melhorando a inclusão, diversidade e representatividade das instituições e a sua qualidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “acabar com todas as formas de discriminação contra todas as Mulheres e meninas em todos os lugares; eliminar todas as formas de violência contra todas as Mulheres e meninas nas esferas pública e privada, incluindo tráfico, exploração sexual e outros tipos; reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade partilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais; e garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança” são a explanação e operacionalização da igualdade de género enquanto meta dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. São-no, mas são também garantes do cumprimento da dignidade e dos Direitos Humanos de todas as pessoas, particularmente as meninas, raparigas e Mulheres, conheçamos ou não os seus nomes e história, enquanto algo essencial ao bem-estar de cada um e uma de nós e a uma sociedade mais justa e coesa. Interpelemo-nos, envolvamo-nos e enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género e a não-discriminação pois, como Baldwin afirmou, “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

 

Tiago Pereira

Menina – Rapariga – Mulher

in Sábado (Ao redor…); 23.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menina—rapariga—mulher

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Educação Política Psicologia

Menina – Rapariga – Mulher

“O que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Y. Arthus-Bertrand e A. Mikova. Nele agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. “Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.”

“Menina – Rapariga – Mulher”, 46º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) “viaja” a várias latitudes do Mundo para assinalar exemplos de retrocessos na igualdade de direitos que justificam a afirmação/inquietação anterior, sublinhando quanto a desigualdade de género impacta diversos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, além ODS5 (Igualdade de Género). “Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por ex.), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (por ex. na pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência.”

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades (…) Também estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor representatividade e qualidade das suas instituições.”

Termino o texto sugerindo que nos interpelemos, envolvamos e que “enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género”. Procurei fazê-lo, também, num artigo que escrevi (“O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações”) no livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado por @Susana Almeida Lopes e @Margarida Couto e, cuja apresentação amanhã (29.11) partilharei com a @Helena Pita Soares, @José Sintra e @Paulo Simões (informações/inscrições aqui).

Pois como Baldwin afirmou: “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

Categories
Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher

Porque só a ela o perguntam? (Ao redor; Sábado; 09.03.2021)

No início de Março de 2020 caminhávamos para o primeiro dever de recolhimento obrigatório devido à pandemia COVID-19. Eram, na Ordem dos Psicólogos Portugueses, como em tantas outras organizações, os últimos dias até hoje em que todas/os trabalhávamos presencialmente em simultâneo. Aproximávamo-nos do Dia Internacional da Mulher e preparávamos uma iniciativa para o assinalar da qual resultaram fotografias das mulheres e homens da equipa, feitas por uma colega (obrigado!), sendo uma delas a que hoje “me mostra” nesta rúbrica. Esses dias, simbolicamente, marcaram o início da inversão de um processo global que, ainda que (muito) lento e díspar, tinha já largos anos e era relevante por significativo em Portugal – o progresso no sentido da igualdade de género.

A (des)igualdade de género é, desde há muitas décadas, um importante desafio societal global com fortes implicações na possibilidade de bem-estar das mulheres (mas também dos homens e de toda a comunidade) e na coesão social das sociedades. Tema com forte componente emocional, não raras vezes polarizado(r) e exposto a atalhos ou enviesamentos, parte deles particularmente injustos e pouco compatíveis com a evidência científica, como é exemplo a generalização. Sobre ela disse Alexandre Dumas: “toda a generalização é perigosa, incluindo esta.” Frase que ao expor a generalização não fundamentada e, simultaneamente, validar a fundada, toca duas recentes generalizações de homens mediáticos, desiguais nos dados que as suportam: a de Yoshiro Mori, ex-presidente do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio, ao dizer (e por isso se demitir) que as reuniões com mulheres “levam muito tempo” porque “falam demasiado”; a de António Guterres, Secretário-Geral da ONU, ao escrever que a pandemia COVID-19 tem o “rosto de uma mulher”.

Se não são amplamente referidos e discutidos estudos sobre o quão mais “palavrosas” são as mulheres face aos homens em reuniões, são-no os que apresentam e discutem dados sobre a desigualdade de género e os impactos desiguais da pandemia. Os que por cá demonstram que as mulheres são particularmente impactadas pela crise COVID-19 e pelas questões socioeconómicas a ela associadas, nomeadamente quando: as mulheres representam 82% das pessoas que requerem o apoio excepcional resultante do encerramento dos estabelecimentos educativos; existe maior precariedade e sobrerepresentação das mulheres em sectores mais atingidos pela crise, gerando maior perda de rendimento e de emprego; por estarem mais expostas a períodos de desemprego prolongado e ao desencorajamento associado, as mulheres “caem” mais em situações de inactividade, saindo do “radar” dos apoios. Mas também os que demonstram, Mundo fora, o impacto desigual da pandemia na produção científica; que apenas 1 em cada 15 pessoas têm uma mulher como líder política; ou que a prestação de cuidados não remunerados e as situações de violência, tráfico e exploração das mulheres aumentaram significativamente como aumentou o abandono escolar precoce feminino como consequência da pandemia. Finalmente outros revelam que, aqui e pelo Mundo, a força de trabalho na saúde, mas também na educação e na área social/comunitária, fortemente expostas e impactadas pela pandemia, é maioritariamente feminina e que, nesta crise que vivemos, as mulheres (face aos homens), apresentam maior sofrimento psicológico, ansiedade, stress e depressão. Crise que, não se limitou a impactar mais as mulheres, inverteu a recuperação a que se assistia, acrescentando mais desigualdade à desigualdade que existia, e mais anos ou décadas às décadas que ainda dista(va)m de caminho pela igualdade.

Nesta, como noutras crises, a recuperação do país e do Mundo implica recuperarmos as pessoas e recuperar as pessoas implica garantirmos-lhes mais condições e recursos (internos e externos) para lidar e enfrentar novos desafios e crises. Implica pessoas, mas também comunidades, países e um Mundo mais resiliente. Isto torna essencial que no esforço de recuperação se atente a vulnerabilidades específicas de grupos populacionais e se adopte uma atitude empenhada no sentido da diminuição das desigualdades, de género mas não apenas. Ao retrocesso com a pandemia deve corresponder um convicto investimento em 4 áreas essenciais à mitigação desta desigualdade: o investimento na educação, literacia e na saúde psicológica da população, garantindo o desenvolvimento de competências sócio-emocionais e maior abertura à/ao outra/o como princípio para uma sociedade mais equitativa, coesa e resiliente; legislação, que estimule a promoção da igualdade, mais suportada em ciência (e nas ciências comportamentais) e mais responsiva às múltiplas dimensões envolvidas na tomada de decisão (incluindo os enviesamentos cognitivos); maior reconhecimento da necessidade de compensação adequada do trabalho socialmente útil; e uma representação política e social igualitária.

Serei e seremos, em breve e pela segunda vez, mãe e pai. À constante pergunta que lhe é feita (“Como conseguirás conciliar tudo?”) corresponde a constante ausência dessa mesma pergunta a mim. Reflicto, reflictamos, (n)o que isso impacta… (N)o que isso significa… Aqui e ali, no Mundo ao redor, há pessoas que, como eu, cresceram, desenvolveram-se e partilham a vida com mulheres (para si) muito importantes e relevantes (obrigado!). No meu caso, via acasos e escolhas, saí de uma Escola Secundária de nome Maria Lamas rumo a uma profissão (psicóloga/o) feita principalmente por e de mulheres, celebrando cada 8 de Março como uma oportunidade de dar a conhecer o que já se conquistou na igualdade de género, inspirando e motivando mais pessoas para este desafio e através dele para outros onde a desigualdade ainda vence. Mas… Porque só a ela o perguntam? Que a celebração deste dia sublinhe o caminho que ainda há por percorrer e incentive a que o percorramos, juntas/os.

Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 09.03.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/porque-so-a-ela-o-perguntam