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The Global Community Foundation Leaders Summit

Há uma semana viajava de autocarro entre capitais europeias numa mesma ilha, mudando de país (sem fronteira física) e saindo da UE. Pouco depois perguntava (quando visitávamos os Muros da Paz): “estes portões ainda se fecham?” – “Sim, fecham à noite”, responderam-me.

Em Belfast pude testemunhar como uma Fundação Comunitária (Community Foundation Northern Ireland) teve e tem um papel determinante no que de mais importante existe: a paz e o caminho de construção de diálogo e coesão social nas comunidades, mesmo numa sociedade (ainda) com fortes tensões políticas/religiosas.

Lá estava, integrado num grupo de 32 líderes de Fundações Comunitárias de todo o Mundo (EUA, UK, Irlanda, Canadá, Alemanha, Itália, Palestina, Espanha, Hungria, Roménia, …), umas mais recentes (a nossa Fundação Mendes Gonçalves), outras não tanto (incluindo a primeira de todas – Cleveland Foundation | 1914), reunidas pela Community Foundation Ireland para 4 dias de intenso trabalho e uma honesta e segura discussão sobre temas/desafios partilhados globalmente.

“Communities everywhere are facing complexities and challenges”, disse Denise Charlton a abrir (aproveito para agradecer o convite e a oportunidade de me e nos integrar em tão importante momento, grupo de líderes e organização – Jerry O’Connor e Isabel Pergande), tal qual diria mais tarde Kathrin Dombrowski (a quem também agradeço).

É assim, como sabemos e concretamente testemunhamos, entre sessões de trabalho e visitas a organizações em Dublin e Belfast e em temas como a paz e a coesão social; as comunidades e lideranças; o clima, a natureza e a resiliência; a democracia e o desenvolvimento; ou a inteligência artificial, a tecnologia e a (des)informação. Da Golegã a Toronto, de Messina a Bucareste, de Dublin a Pecs, de Nova Iorque à Palestina, de uma pequena ilha Canadiana a Essex.

Ainda que com impactos e em fases diferentes em cada contexto, vivemos tempos desafiantes, incertos e de desconfiança, onde a filantropia comunitária (de proximidade), a coragem e o dever da esperança que ali partilhamos são fatores protetores e base do que as comunidades (e a confiança e coesão que nelas podem ser desenvolvidas) de melhor têm para florescerem nestes tempos e garantirem possibilidades de bem-estar (e futuro) para todos.

Venho do “The Global Community Foundation Leaders Summit” com a ideia reforçada do quão privilegiado sou e somos mas, também, comprometido com o fazer bem com a nossa equipa e órgãos e, humildemente, contribuir(mos) para o ecossistema das Fundações Comunitárias em Portugal e no Mundo.

Caroline Taylor Rob Williamson OBE DL Tonia Wellons Kyra van Hoof Nour NusseibehRichard Williams Justin Sargent OBE Giacomo Pinaffo Rüdiger Ratsch-Heitmann Susanne Hauswaldt Sharon Avery Andrea Dicks, ICD.D Roisin Wood Alina Kasprovschi Paul Buchanan MBE Ulrike Reichart Emma de Closset Steph Taylor Danielle Gibbie Michelle Prater Cristina González Alcalá, PhD Helen Wray Martin O’Brien Aleix Pujol Puigmal Jan Despiegelaere

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Pensa que ser adolescente hoje é mais, menos ou igualmente difícil quando comparado com ser adolescente há 20 anos?

Pensa que ser adolescente hoje é mais, menos ou igualmente difícil quando comparado com ser adolescente há 20 anos? Foi esta a pergunta-base do estudo publicado no Verão passado do @Pew Research Center que partilho e cuja consulta e reflexão recomendo.

Além do grafismo particularmente interessante e do universo de 1453 mães, pais e adolescentes dos EUA ter referido que é hoje mais difícil (69% das mães/pais e 44% das/os adolescentes, face a 15% das mães e pais e 12% das/os adolescentes que consideram ser hoje mais simples), importa, creio, que paremos um pouco para reflectir sobre os principais motivos pelos quais as mães e pais suportam a sua percepção: a tecnologia, internet e, em particular as redes sociais, além da grande pressão para corresponderem às expectativas.

Curiosamente, apesar da percentagem ser significativamente mais baixa, as mães e os pais que consideram que é mais simples ser-se hoje adolescente face há 20 anos suportam essa percepção exactamente no acesso à tecnologia, em especial à internet, embora a percentagem que refere as redes sociais como fundamento para essa maior facilidade seja muito baixa (3% face a 47% que refere a tecnologia de forma geral).

Já as e os adolescentes consideram que o factor preponderante para a sua percepção de que é hoje mais difícil é a maior pressão e a dificuldade em cumprir expectativas, não deixando de salientar as redes sociais e as mudanças percepcionadas como negativas na sociedade e no Mundo. Noutro prisma, as e os adolescentes que dizem ser hoje mais simples que há 20 anos mencionam, também, a tecnologia e a internet como os maiores contribuidores par esta mudança positiva.

Em síntese, e numa síntese que sugiro que nos mobilize enquanto sociedade, temos as exigências, as expectativas e os recursos (ou ausência deles) para se atingirem e cumprirem as expectativas, por vezes “colocadas” ou parte da vida com cada vez mais intensidade e cada vez mais cedo – pensemos na quantidade de crianças e adolescentes que têm hoje explicações no 2º ou 3º ciclos, quando não no 1º ciclo e da procura/escolha de Escolas que atribuem melhores notas. E temos a tecnologia e a internet, incluindo as redes sociais, que sendo maioritariamente atribuídas à dificuldade podem ser, também, motor de maior facilidade.

Coragem e determinação a lidar e orientar/regular a utilização da tecnologia e das redes sociais e foco no bem-estar será determinante para não permanecermos indiferentes a esta percepção e, eventual, nova realidade. Se nada fizermos estaremos a falhar às e aos mais jovens e tudo o que se possa fazer mais tarde será sempre mais difícil e com mais custo do que o que podemos fazer já, hoje.

Pelo futuro de todos.

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tecnologia

Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia Tecnologia

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar (Ao redor…; Sábado)

Quem, com mais alguns anos que eu ou mais ou menos da minha idade, assistiu à emergência do fenómeno das televendas, não esquece os inúmeros e pomposos anúncios a produtos que prometiam mudanças profundas da nossa vida. Não sabendo porquê, recordo especialmente os extraordinários sprays que se propunham compensar a calvície. Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar.

Hoje, outro passo tem sido dado. A reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, estamos hoje perante um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento, com dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos Estados Unidos, principal mercado na criação (e de clientes) do Mundo (o segundo, a oncologia representava em 2022 cerca de 40% menos investimento face à saúde mental). Esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono das aplicações muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm quaisquer estudos sobre os seus reais impactos), tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter em dimensões de promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e da equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.

Mas, mais, esta forte expansão, quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados, determina que milhões de pessoas, algumas delas em situações especialmente vulneráveis (por exemplo com problemas diversos de saúde mental), com maior ou menor consciência, partilhem pensamentos, emoções e dados biométricos com aplicações, muitas vezes sem a devida salvaguarda de segurança e confidencialidade. Há diversos exemplos destas práticas, um deles particularmente mediatizado. Trata-se da BetterHelp’s, uma plataforma que “liga” clientes a prestadores de serviços na área da saúde mental e que recentemente acordou um pagamento de 7,8 milhões de dólares a 800.000 clientes por ter reconhecido que, sem autorização expressa, cedeu a plataformas como o Facebook ou Pinterest os seus dados de informação, de rotinas, de questionários e de contacto, permitindo que estas plataformas identificassem “potenciais clientes” por similitudes de práticas e comportamentos nestas redes, podendo dessa forma criar, dirigir e personalizar os anúncios e rentabilizando / monetizando significativamente essas informações .

Ainda, esta expansão, a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups que desenvolvem tendem a dois tipos de movimentos: a) de simplificação (pela criação de algoritmos que, muitas vezes de forma abusiva e descontextualizada, transformam fenómenos muito complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) de generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, algo que resulta, muitas vezes, numa menor identificação, utilização e eficácia em comunidades de pessoas com menor educação e/ou literacia ou mesmo em países com organizações sociais e práticas sociais e culturais distintas das dos países onde são desenvolvidas ou das pessoas que as desenvolvem, sendo importante que recordemos que, apesar da investigação e criação de resposta em saúde mental estar maioritariamente cingido aos países tradicionalmente apelidados de “ocidentais”, 80% da população global habita em países “não ricos”, estimando-se que nesses países esteja também 80% da população do Mundo que vive com doença mental, países onde habitualmente até 3 em cada 4 pessoas não têm acesso a qualquer tipo de serviço/tratamento nesta área.

A carência de mais e melhor ciência no desenho das aplicações e na avaliação do seu impacto; a forma como, infelizmente, se tende para universalização ao invés da personalização das e dos seus utilizadores; e o não respeito e priorização das questões associadas aos direitos, segurança e privacidade de quem utiliza estão a contribuir decisivamente para que os elementos centrais na maior saliência das questões da saúde mental hoje – o direito de acesso a serviços nesta área e a necessidade de caminharmos para uma verdadeira equidade nesse acesso – não estejam a ser respeitados e promovidos e a tecnologia e o seu potencial mobilizado para apoiarem mais significativamente na resposta a este desafio.

Neste sentido, e para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações digitais podem ter além das sessões e consultas online, práticas, apesar de tudo, mais utilizadas, desenvolvidas e estudadas nos últimos anos. Importa que, enquanto cidadãos utilizadores, profissionais, investigadoras/es ou decisoras/es participemos no debate sobre as aplicações digitais e o seu enquadramento, nomeadamente em como será fundamental, a partir da tecnologia, potenciar a saúde e as suas intervenções, a recolha de dados fundamentais e a disponibilidade contínua e mais próxima. Nisto e, também, na importância do desenvolvimento de alguma regulamentação que permita e estimule a continua inovação, mas, em simultâneo, contribua segurança, privacidade e saúde pública.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde e saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e da melhoria da eficácia das suas intervenções. Tal não é apenas possível, pode, verdadeiramente, mudar para melhor a vida de muitas pessoas. Contribuir para mudar para melhor o Mundo.

 

 

Tiago Pereira

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

in Sábado (Ao redor…); 22.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/das-televendas-as-aplicacoes-digitais-o-negocio-a-volta-da-vulnerabilidade-e-do-bem-estar

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Futuro da Psicologia Psicologia Tecnologia

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

Lembram-se dos sprays extraordinários que prometiam resolver a calvície com a produção de “cabelo instantâneo” das televendas?

“Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar (…) Hoje, a reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, há um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento: as dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos EUA.”

“Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar”, 93º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência, quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm estudos de impacto).”

Esta realidade “tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter na promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.” Mas, mais, “quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados e confidencialidade” pode determinar a utilização abusiva de pensamentos, emoções e dados biométricos de pessoas, algumas em situação especialmente vulnerável (no texto descrevo o caso da BetterHelp’s).

Ainda, esta expansão, “a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups potencia: a) a simplificação, pela criação de algoritmos que tendem a transformar fenómenos complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) a generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, gerando menor identificação, utilização e eficácia em pessoas com menor educação, práticas culturais diversas, etc.

Neste sentido, “para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações podem ter, além da utilização do online para sessões/consultas (…) Podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e melhoria da eficácia das intervenções.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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Tecnologias e Pessoas mais Velhas

No Domingo, noite dentro, pude e pudemos fazer algo que muito gostamos, mas que, nesta fase, só em situações mais excepcionais podemos fazer: ir ao cinema. Fomos. Vimos, ouvimos e, sobretudo, sentimos o “Elis & Tom, Só tinha de ser com Você”.

Filme, documentário, em torno da gravação do mítico “Elis & Tom”, álbum que resulta do encontro entre duas pessoas incrivelmente talentosas, Elis Regina e António Carlos Jobim. Lançado em Agosto de 1974, comemora por estes dias o seu 50º aniversário e merece ser ouvido. Como o filme merece ser visto, o álbum merece ser ouvido e ouvido e ouvido. Um álbum com 50 anos.

No filme uma das pessoas que acompanhou a produção do trabalho aborda os impactos da tecnologia, hoje, e como, a seu ver, “torna tudo presente, não dando espaço ao pensamento e à criação de algo intemporal” capaz de passar e permanecer por “gerações e gerações”, como aconteceu com aquele disco. Diz, por outras palavras, que aquele trabalho não seria o mesmo num eventual 1974 numa Los Angeles feita, também, de pessoas com as suas tecnologias, como hoje existem. Di-lo mesmo considerando tratar-se de um álbum de duas pessoas adultas aquando da gravação.

Efectivamente os impactos – quer se trate dos potenciais benefícios, quer dos potenciais riscos – da utilização da tecnologia não se restringem aos bebés, crianças e jovens, momentos do desenvolvimento em que automaticamente pensamos quando reflectimos sobre os impactos das tecnologias.

A este propósito tive uma conversa que partilho com a Carla Rocha para o programa da Radio Renascenca “Quarto do Fundo”. Versando sobre “como as tecnologias podem afectar as pessoas mais velhas”, procurei nela reforçar a ideia anterior. Também sublinhar que os “ecrãs” e a “tecnologia” vai muito além das redes sociais e do telemóvel.

Discutimos benefícios para a saúde e bem-estar das pessoas mais velhas, para a relação, para a conexão, para maior informação sobre saúde e autocuidado e até para a prevenção das demências, através do seu uso adequado e moderado. Tal qual discutimos que usos inadequados e excessivos potenciam os riscos, nomeadamente ao nível de perdas cognitivas, do excesso de preocupação e ansiedade face, por exemplo, a fenómenos sociais decorrentes da visualização sucessiva de notícias, bem como de inactividade, perda de autonomia, dificuldades no sono, maior isolamento e até ao cibercrime.

Terminamos a discutir como podemos equilibrar a utilização dos ecrãs com a presença física junto de pessoas e em actividades, o papel das cuidadoras e cuidadores, formais e informais, neste processo e como todas e todos podemos contribuir para uma melhor sociedade com maior possibilidade de saúde e bem-estar, também através da tecnologia.

Muito obrigado, Carla Rocha.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Decidir hoje, decidir amanhã

“Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Decisões que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida (…) A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

“Decidir hoje, decidir amanhã”, 88º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a investigação e caminho percorrido relativamente ao processo cognitivo de tomada de decisão, processo que inclui não apenas “dimensões racionais e observáveis, mas também emocionais e intuitivas.”

Pensa como “as significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão”. Como os “processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades.”

Partindo do exemplo do que hoje delegamos e do que poderemos ou não vir a delegar das nossas decisões à inteligência artificial, procura sublinhar que “se estas alterações podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes” será essencial “um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.”

Termina afirmando que sendo o processo de tomada de decisão “complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos”, se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também os desenvolvimentos em curso, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.”

Ps. Este texto é adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (2024; Edições 70), coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou.

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Dia Mundial das Redes Sociais

“Um em cada quatro jovens em Portugal utiliza as redes sociais mais de 6 horas por dia. É evidente que este é um comportamento inapropriado, desde logo porque essas 6 horas não podem ser utilizadas noutro tipo de actividades que poderiam ser importantes para o seu desenvolvimento e participação social.”

Parte da conversa que tive com a Cristina Freitas, na SIC Notícias, na manhã de Domingo, Dia Mundial das Redes Sociais que partilho. Conversa sobre a utilização das redes sociais e os seus impactos, sobretudo na população mais jovem. Sobre um tema tão importante e, creio, tão urgente.

Porque certamente todos sentimos os seus impactos. Os menos positivos, conforme os referidos no enquadramento da peça, a partir de declarações da minha colega Sofia Ramalho, nomeadamente na diminuição do diálogo entre gerações, na dependência e na saúde mental. A estes, na peça, acrescento que quando o uso é desadequado (referindo que isso depende dos tempos, momentos e objectivos de utilização e de características individuais de quem utiliza), podem existir outras consequências negativas na saúde e bem-estar, como a diminuição da prática de actividade física, participação social, alterações no sono, no comportamento alimentar ou um maior isolamento. Assinalo, ainda, impactos negativos em dimensões emocionais e na auto-estima quando a utilização visa o contacto e partilha com conteúdos violentos ou tendentes à comparação social.

Mas, na conversa, procuro sublinhar existirem também um conjunto de impactos positivos da utilização, quando adequada, das redes sociais. Entre outros que poderia ter focado, refiro a relação e conexão com pares, o maior suporte social e a partilha, participação e envolvimento em grupos, iniciativas e organizações.

Abordo, ainda, a importância da supervisão dos adultos de referência desta utilização por parte da população mais jovem, seja a partir da família ou dos contextos de educação formal e não formal, advogando pelo estabelecimento de canais de comunicação que permitam conhecermos e apoiarmos a sua participação, protecção e segurança em ambiente digital.

Termino procurando assinalar um conjunto de contributos que a psicologia pode aportar a esta conversa. Desde logo na literacia e apoio às tomadas de decisão, mais individuais (pessoas e famílias) e de desenho de políticas, a partir da informação e conhecimento da ciência psicológica – a esse propósito a Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibilizará em breve um conjunto de documentos/contributos e este será um tema central do seu próximo congresso. Ainda, e finalmente, na intervenção e apoio que psicólogas e psicólogos podem disponibilizar junto de pessoas com usos mais problemáticos das redes sociais ou com problemas que desse uso decorram.

Uma conversa que devemos continuar… Uma conversa que necessita da participação de todos.

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Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar (Ao redor…; 22.05.2024)

Lembro-me muito bem da primeira vez que saí de comboio na impressionante Estação do Oriente para, depois de uma caminhada, entrar nesse outro Mundo que foi a “Expo 98” para um rapaz de 14 anos que crescia fora de um grande centro urbano. Se pensar um pouco, a Estação, embora hoje mais envelhecida, não mudou muito. Como não mudou a linha do Norte e o comboio regional que me levou do Entroncamento ao Oriente. Já ser um/a adolescente de 14 anos em Portugal mudou significativamente.

Como todas as pessoas adultas, mais ou menos jovens, já tiveram 14 anos esta afirmação será das poucas que hoje não gera na sociedade um debate polarizado. Todas e todos os que temos bastante mais do que 14 anos sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades. Também entenderíamos, talvez de forma mais sentida, o enorme paradoxo desta ser a época de maior abundância em termos de recursos, acesso, literacia, possibilidades de diversão e entretenimento e, simultaneamente, uma das épocas onde, pelo menos desde que existem registos e indicadores robustos, diferentes condições e problemas de saúde mental são mais e mais cedo prevalentes e desafiam e impactam o quotidiano e o bem-estar nestas idades.

Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. Como, tais direitos, dependem, tanto do dever das organizações, líderes e da sociedade de legitimarem, respeitarem e promoverem este direito junto de cada trabalhador/a, como do dever de cada organização, pessoa adulta e da sociedade perceberem a importância, promoverem e estimularem esse direito junto dos e das adolescentes.

A este propósito penso muitas vezes no quão seria diferente para mim (talvez mesmo decisivo) a possibilidade, hoje existente, de 24 sob 24 horas, via internet rápida e redes sociais, estar conectado a amigas, amigos, a pessoas conhecidas próximas e não tão próximas. No quão importante foi – perdendo naturalmente outras possibilidades de relação e mecanismos de conexão fundamentais em determinadas situações (pensemos na pandemia por COVID-19 – ter oportunidade para me aborrecer, para, à noite, no meu quarto, casa ou rua, poder estar só, a pensar no que aconteceu naquele dia, a elaborar o que fiz, aprendi ou senti. No quão importante foi não estar sempre em “directo”, numa linguagem jornalística, e no quanto isso me foi permitindo sentir, também, mais previsibilidade, estabilidade e segurança, factores fundamentais ao bem-estar.

Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, viver numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.

Mais, hoje, somos desafiados por novas adições (jogo online), dependências (smartphone) e problemas (cyberbullying) que nesse 1998 não facilmente imaginaria (embora existissem e permaneçam outras adições, dependências e problemas), conforme hoje não imaginamos novas adições, dependências e problemas com os quais, possivelmente, nos confrontaremos nos próximos anos. Não pensava, também pela perspectiva de cada vez maior participação e empoderamento das meninas, raparigas e mulheres que hoje assistiríamos a um recrudescimento da violência no namoro e doméstica, da desigualdade de género nestas e noutras idades e de um discurso público que, não raras vezes, a legitima ou, no mínimo, não condena veementemente.

Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista. Apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.

Porquê? Porque as mesmas tecnologias que são base de alguns dos desafios e dos problemas hoje mais significativos são, também e quando ou se usadas com cuidado e com essa intencionalidade, potenciais ferramentas para outros resultados e para a promoção da equidade e do bem-estar hoje e no futuro.

Porquê? Porque há hoje, apesar de nem sempre ser de qualidade, muito mais compreensão pública do que significa ser adolescente e este período de desenvolvimento. Tal como mais informação, literacia e uma centração da população mais jovem nas questões da saúde, incluindo a saúde mental, e bem-estar que pressionam no sentido de mais respostas nesta área, mais contingentes aos problemas, mais qualificadas, de qualidade e eficientes.

Porquê? Porque, finalmente, os desafios e problemas são cada vez menos individuais mas mais geracionais, algo que sensibiliza a sociedade e impele a uma acção preventiva de procura de transformar e mudar o que na sociedade possa estar a concorrer para esta situação, aumentando o debate, entre outros, sobre os impactos e formas de utilização da tecnologia ou a necessidade de se repensar e promover a prática da actividade física, a alimentação saudável, hábitos de sono, competências sócioafectivas e emocionais ou o contacto com as outras e outros e com o meio ambiente, tudo elementos fundamentais à saúde e bem-estar das populações mais jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos observar extraordinários exemplos de envolvimento e participação cívica da população mais jovem que, desejo, serem primeiros passos para o reforço da perspectiva de comunidade e para a construção de propósito. Se assim for, e se investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo. No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.

 

Tiago Pereira

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

in Sábado (Ao redor…); 22.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ser-adolescente-hoje-e-o-dever-de-ajudar-a-desligar