Quem, com mais alguns anos que eu ou mais ou menos da minha idade, assistiu à emergência do fenómeno das televendas, não esquece os inúmeros e pomposos anúncios a produtos que prometiam mudanças profundas da nossa vida. Não sabendo porquê, recordo especialmente os extraordinários sprays que se propunham compensar a calvície. Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar.
Hoje, outro passo tem sido dado. A reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, estamos hoje perante um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento, com dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos Estados Unidos, principal mercado na criação (e de clientes) do Mundo (o segundo, a oncologia representava em 2022 cerca de 40% menos investimento face à saúde mental). Esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono das aplicações muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm quaisquer estudos sobre os seus reais impactos), tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter em dimensões de promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e da equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.
Mas, mais, esta forte expansão, quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados, determina que milhões de pessoas, algumas delas em situações especialmente vulneráveis (por exemplo com problemas diversos de saúde mental), com maior ou menor consciência, partilhem pensamentos, emoções e dados biométricos com aplicações, muitas vezes sem a devida salvaguarda de segurança e confidencialidade. Há diversos exemplos destas práticas, um deles particularmente mediatizado. Trata-se da BetterHelp’s, uma plataforma que “liga” clientes a prestadores de serviços na área da saúde mental e que recentemente acordou um pagamento de 7,8 milhões de dólares a 800.000 clientes por ter reconhecido que, sem autorização expressa, cedeu a plataformas como o Facebook ou Pinterest os seus dados de informação, de rotinas, de questionários e de contacto, permitindo que estas plataformas identificassem “potenciais clientes” por similitudes de práticas e comportamentos nestas redes, podendo dessa forma criar, dirigir e personalizar os anúncios e rentabilizando / monetizando significativamente essas informações .
Ainda, esta expansão, a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups que desenvolvem tendem a dois tipos de movimentos: a) de simplificação (pela criação de algoritmos que, muitas vezes de forma abusiva e descontextualizada, transformam fenómenos muito complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) de generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, algo que resulta, muitas vezes, numa menor identificação, utilização e eficácia em comunidades de pessoas com menor educação e/ou literacia ou mesmo em países com organizações sociais e práticas sociais e culturais distintas das dos países onde são desenvolvidas ou das pessoas que as desenvolvem, sendo importante que recordemos que, apesar da investigação e criação de resposta em saúde mental estar maioritariamente cingido aos países tradicionalmente apelidados de “ocidentais”, 80% da população global habita em países “não ricos”, estimando-se que nesses países esteja também 80% da população do Mundo que vive com doença mental, países onde habitualmente até 3 em cada 4 pessoas não têm acesso a qualquer tipo de serviço/tratamento nesta área.
A carência de mais e melhor ciência no desenho das aplicações e na avaliação do seu impacto; a forma como, infelizmente, se tende para universalização ao invés da personalização das e dos seus utilizadores; e o não respeito e priorização das questões associadas aos direitos, segurança e privacidade de quem utiliza estão a contribuir decisivamente para que os elementos centrais na maior saliência das questões da saúde mental hoje – o direito de acesso a serviços nesta área e a necessidade de caminharmos para uma verdadeira equidade nesse acesso – não estejam a ser respeitados e promovidos e a tecnologia e o seu potencial mobilizado para apoiarem mais significativamente na resposta a este desafio.
Neste sentido, e para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações digitais podem ter além das sessões e consultas online, práticas, apesar de tudo, mais utilizadas, desenvolvidas e estudadas nos últimos anos. Importa que, enquanto cidadãos utilizadores, profissionais, investigadoras/es ou decisoras/es participemos no debate sobre as aplicações digitais e o seu enquadramento, nomeadamente em como será fundamental, a partir da tecnologia, potenciar a saúde e as suas intervenções, a recolha de dados fundamentais e a disponibilidade contínua e mais próxima. Nisto e, também, na importância do desenvolvimento de alguma regulamentação que permita e estimule a continua inovação, mas, em simultâneo, contribua segurança, privacidade e saúde pública.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde e saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e da melhoria da eficácia das suas intervenções. Tal não é apenas possível, pode, verdadeiramente, mudar para melhor a vida de muitas pessoas. Contribuir para mudar para melhor o Mundo.
Tiago Pereira
Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar
in Sábado (Ao redor…); 22.10.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/das-televendas-as-aplicacoes-digitais-o-negocio-a-volta-da-vulnerabilidade-e-do-bem-estar