Dizia eu no início do artigo que, quando o escrevia, não conhecia “os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos EUA.” De umas eleições que, dizia também, são “porventura das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas.”
Agora já sei. Já sabemos. E os resultados, particularmente no contexto do qual decorrem, exigem uma profunda reflexão de quem, como eu, defende vigorosamente os valores dos direitos humanos universais, da justiça intergeracional e da procura de uma sociedade justa, equitativa e tendente à possibilidade de auto-determinação de todas as pessoas.
Uma reflexão e a mobilização de quem partilha estes valores, independentemente das potenciais discordâncias, implicando isso que pensemos como nos posicionamos em sociedade… Como contribuímos (ou não) para debates construtivos, como somos capazes de nos descentrarmos de nós e das/os nossas/os quando isso importa para a preservação da confiança nas instituições e nas/os outras/os e/ou construção de soluções… Como somos capazes de abdicar em prol do bem-comum e maior… De pensar em quem nos rodeia e se nos seguirá. Como retomarmos um caminho de maior empatia e de como a empatia rima como democracia.
“Empatia rima com Democracia”, 94º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) pensa a empatia, a sua definição e papel e como é “profundamente influenciada por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, redes sociais e da IA. Da politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento; à utilização com fins políticos dos vieses que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos, hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico, por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas.
Estes mecanismos, a par dos desafios sociais globais de enorme complexidade “criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos e ao aumento do autoritarismo. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.”
“Importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros (…) Que pensemos que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez”, ausência de reciprocidade e com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora, tendo-se pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e outros, hoje e para o futuro.