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Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

Lembram-se dos sprays extraordinários que prometiam resolver a calvície com a produção de “cabelo instantâneo” das televendas?

“Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar (…) Hoje, a reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, há um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento: as dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos EUA.”

“Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar”, 93º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência, quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm estudos de impacto).”

Esta realidade “tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter na promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.” Mas, mais, “quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados e confidencialidade” pode determinar a utilização abusiva de pensamentos, emoções e dados biométricos de pessoas, algumas em situação especialmente vulnerável (no texto descrevo o caso da BetterHelp’s).

Ainda, esta expansão, “a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups potencia: a) a simplificação, pela criação de algoritmos que tendem a transformar fenómenos complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) a generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, gerando menor identificação, utilização e eficácia em pessoas com menor educação, práticas culturais diversas, etc.

Neste sentido, “para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações podem ter, além da utilização do online para sessões/consultas (…) Podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e melhoria da eficácia das intervenções.

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