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Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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