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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

“Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções.”

“Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar”, 83º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa o quão diferente é ser-se um/a adolescente de 14 anos hoje face a 1998 (ou há alguns, não tantos, anos) e o quanto, os hoje mais velhos, “sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades”.

“Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. (…) Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.”

“Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista”, refiro no artigo, dizendo que, “apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.”

Explico depois porquê e termino sublinhando que se “investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo.”

“No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.”

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Hawkins, IA e o que estamos a fazer e podemos fazer

Por estes dias, olhamos ao nosso redor e não é difícil que, face a certos acontecimentos e fenómenos sociais, sintamos uma certa “repetição da história” e um regresso a situações que, porventura, julgávamos “impossíveis de repetir”. Da Guerra na Europa, a um certo discurso de ódio, passando por um certo recrudescimento da violência e desigualdade de género, para dar apenas alguns exemplos. Tudo a lembrar-nos que não há futuro sem passado, passado este que importa ter sempre presente e “inscrito” para um melhor futuro.

Penso-o, hoje, a propósito do vertiginoso avanço da inteligência artificial e da recente disponibilização do ChatGPT 4o, face mais visível e reconhecida de uma série de ferramentas que, a cada dia, passamos a dispor e/ou impactam a nossa vida. Em rigor, que algumas pessoas, e apenas algumas pessoas – por razões diversas, desde o conhecimento e literacia, aos receios, medos e resistência e, naturalmente, às desigualdades sociais e económicas – têm ao seu dispor, mas que impactam, significativamente, a vida de todas as pessoas.

E penso-o evocando Stephen Hawkins a partir do artigo que partilho, que publicou no “The Independent” com colegas há 10 anos (4 anos antes do seu desaparecimento). Parte da pergunta base se “estamos mesmo a levar a sério as implicações da inteligência artificial?”, alertando que é um erro (talvez “o maior erro da história humana”) pensarmos que máquinas superinteligentes sejam “mera ficção científica” quando os avanços na inteligência artificial são (eram já) tão velozes.

Hawkins escrevia-o quando surgiam as primeiras experiências de condução autónoma ou de assistentes como a Siri, portanto distante ainda do potencial que hoje reconhecemos noutras ferramentas, mas suportado nos “investimentos sem precedentes nesse desenvolvimento” e nas fundações “conceptuais e teóricas sólidas” que o faziam crer (como hoje testemunhamos) que o desenvolvimento seria tremendamente impactante e rápido.

Hawkins afirma que a IA podia ser o mais transformador acontecimento na história humana e ter, porventura, “potencial de erradicar a guerra, a pobreza ou a(s) doença(s)” mas, ao mesmo tempo, dois enormes riscos: a) de atingirmos a superinteligência e tecnologias que possam “desconstuir mercados financeiros, manipular líderes humanos ou desenvolver armas que não podemos sequer compreender”; b) de fazermos pouco para, pela investigação, preparação e regulação, influenciar positivamente estas mudanças (sobre isto, partilho este meu pequeno contributo).

Estávamos a “levar a sério” há 10 anos? E estamos hoje? Penso que não totalmente e que podemos, pensando e inscrevendo o passado, fazer mais no presente (com o contributo e reivindicação de cada um/a de nós) para um futuro. Melhor.

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

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Isaac Asimov

Isaac Asimov é, para muitas pessoas, a figura mais importante da “ficção científica moderna”. Foi um cientista e um autor extraordinário, com uma obra vasta e um legado muito relevante no pensamento e comunicação da ciência, na literatura e, através deles, no desenvolvimento tecnológico, com particular incidência nas áreas da robótica, da inteligência artificial (IA) e da reflexão ética sobre os seus impactos nas pessoas e sociedade. Morreu em Abril de 1992, 15 anos antes do primeiro iPhone.

Mathias Théry, realizador francês, montou em documentário (“Isaac Asimov, Uma mensagem para o futuro”) um trabalho interessantíssimo que resulta da IA, hoje, tão proficuamente imaginada por Asimov há muitas décadas. Partindo de trabalhos escritos, participações na comunicação social, aulas e outras intervenções públicas, é construído um texto dito por um Asimov cujo rosto foi recriado e animado por IA.

Um texto que começa sublinhando que a “ficção científica, para a maioria dos não familiarizados com o tema, significa livros de comics e filmes de terror”. Diz, Asimov que, é muito mais que isso e que sendo um “ramo recente da literatura, uma criação com dois séculos, preenche as mesmas necessidades que durante milhares de anos tinham pertencido aos antigos mitos e lendas… A necessidade de histórias colectivas, o anseio pelo espantoso e o desejo de decifrar os mistérios do Mundo.” Diz, Asimov, “todos os dias escrevi de modo a imaginar o que vos [a nós, seres humanos no século XXI] poderia acontecer porque estava convencido que a ficção científica pode ajudar a humanidade por conter poderes que são mais do que nunca necessários à sobrevivência da espécie”.

Ao longo do documentário procura-se explorar esta questão, particularmente a partir da assunção de Asimov que é o facto da ficção científica aceitar e propor pensar as histórias numa sociedade diferente – futura e com mudanças – que nos ajuda a preparar e a participar, intervir e condicionar essa mudança. “Ilumina a condição humana”, diz.

O documentário termina com Asimov a referir que não tem pena de não ver nenhum dos “futuros possíveis”, porque estudou, imaginou e escreveu sobre muitos futuros deles como se tivesse lá estado. “A minha mensagem é que a ciência e as novas tecnologias, se bem direccionadas, conseguem resolver os sérios problemas que enfrentamos hoje. E que também conseguem aniquilar a sociedade. É por isto que penso que as gerações jovens têm uma missão, de adquirir o conhecimento que lhes permita influenciar o uso que será dado a estas tecnologias.”

É por isso que acrescento que todos, mas em particular as gerações jovens, têm a missão de contribuir para uma sociedade melhor para todas as pessoas, conhecendo-a, participando e influenciando-a, também politicamente. Para imaginarmos futuros, melhores.

Para não apenas respondermos à pergunta que abundantemente Asimov fazia – “Para onde vamos? Para onde vamos?” – mas influenciarmos decisivamente a sua resposta.

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

“Que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (SU) dos Hospitais do SNS”, passagem que, baseada na epígrafe do livro que me encontro a ler, escolhi para epígrafe do…

“Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência”, 75º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) que reflecte como “as sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus SU, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada, com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes.”

Explicando porque entendo que esquecimentos e conclusões “lotófagas”, “quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência e sempre influenciadas por casos específicos” não o permitem. Mas na “ilha dos lotófagos” de Homero, além da amnésia auto-induzida, existia esperança, “sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.”

“O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, onde qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos” (…), beneficia (entre outros, detalhados no artigo) da observação e reflexão de diferentes experiências e das transformações em curso na área da saúde, nomeadamente da digitalização e de outros avanços tecnológicos.

Beneficia, ainda, do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos:

  1. Para melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza;
  2. No reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis;
  3. na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no SU, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo;
  4. no apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais;
  5. no contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas.

“Parte destes (importantes) contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do SU, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.”

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Trends

Ontem voltei a Évora para reflectir com cerca de 200 jovens o conceito de trabalho e o que ele significa hoje e poderá significar no futuro. Manhã cedo, na viagem, pensei sobre a “falácia do trabalho árduo” e a ideia que permanece, culturalmente intrincada, que se nos esforçarmos e dedicarmos mais seremos capazes. Não me entendam mal, o compromisso, a dedicação e o empenho são muito importantes e, quem me conhece reconhecerá que são elementos fundamentais no que sou enquanto pessoa e profissional. Mas, o “trabalho árduo” não permite tudo, não resolve tudo e, fundamentalmente, não torna abordagens/práticas inadequadas correctas. A ideia do “trabalho árduo” pode ser uma enorme falácia.

Sermos com isto consequentes, creio, implica termos capacidade de nos questionar, de olhar ao redor e, essencialmente, de estarmos abertos a mudar. Sermos com isto consequentes, creio, implica também percebermos tendências e compararmos como se alteram de contexto para contexto e tempo para tempo. Por estes dias fiz este exercício com as “Top Psychology Trends” da American Psychological Association, anualmente publicadas desde de 2018, comparando as desse ano com as de 2024 (que aqui partilho) e como se relacionam com os desafios/características da psicologia em Portugal.

Ora, se para 2018 se considerava a psicologia como “mais popular que nunca”, em 2024 assume-se “a elevada procura de cuidados em saúde mental e como podem novas práticas clínicas e a tecnologia apoiar na resposta a esta maior procura”, bem como o “crescimento das psicólogas e psicólogos em contexto escolar” e no “ensino superior”. Se em 2018 se salientava “o custo e impacto de locais de trabalho não saudáveis”, em 2024 sublinha-se o papel da psicologia na promoção de locais de trabalho garantes de “propósito, significado e estabilidade”. Se em 2018 se referia o crescimento do impacto da “psicologia aplicada” e o foco na “defesa, desenvolvimento e abertura da ciência”, em 2024 destaca-se o papel da psicologia “no combate à desinformação em ano eleitoral”, na intervenção junto do “uso de substâncias” e no “desenvolvimento cerebral e promoção do envelhecimento saudável”.

Mas mais, se em 2018 se destacava a urgência que a “igualdade de género” representava para a psicologia, em 2024 sublinha-se como a psicologia pode apoiar a promoção da “inclusão e equidade” nos contextos de trabalho ou nas políticas públicas. Ou, se em 2018 se destacavam “os determinantes (sociais) da saúde e bem-estar”, o papel da psicologia numa ideia de “saúde mais global” e se pensava a “personalização de intervenções” e como a “tecnologia revolucionaria as práticas”, em 2024 aborda-se o impacto e papel da psicologia na “Inteligência Artificial generativa” e como “serão valorizadas, também monetariamente, as tecnologias e aplicações em saúde mental”.

Questionarmo-nos, olharmos ao redor e mudar, quando mudarmos nos aproxima de um melhor contributo.

Venha daí 2024 e obrigado por nos irmos encontrando, aqui e/ou noutro lugar.

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A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições”.

 

Escrevi-o há 11 meses. Parte de um artigo intitulado “Menina-Rapariga-Mulher” que partilho, naturalmente, mas infelizmente, actual ontem, hoje e, certamente, num futuro próximo mas espero não, num futuro necessariamente menos próximo.

 

Para tal, e para que tal aconteça rapidamente, iniciativas como as promovidas pelo cluster “Igualdade de Género” da @Grace – Empresas Responsáveis, liderado pela @Margarida Couto e pela @Susana Almeida Lopes, são fundamentais. Agradeço-lhes, juntamente com a @Mariana Silva, o convite, o cuidado e o facto de me confiarem espaço de contributo neste assunto tão fundamental, desta vez no evento do passado dia 28 de Setembro, organizado pelo cluster com o título “A Igualdade de Género nas Organizações: Onde Estamos? Para Onde Vamos?”.

Conforme me foi solicitado, reflecti a partir do tema (“Os enviesamentos inconscientes, dados atuais e tendências”), discutindo contributos da ciência e da prática psicológica para, nesta matéria, melhor se compreender o impacto de heurísticas e vieses e as condições de mudança individual, organizacional e societal, nomeadamente os obstáculos e estímulos que se lhes colocam. Mais, discuti a importância de introduzir mais ciência nas práticas, prevenindo os efeitos do placebo e nocebo nesta área, e o papel da comunicação efectiva, da eficiência de processos, da co-construção da decisão e avaliação e no papel das tecnologias e ferramentas de apoio na promoção da igualdade de género nas organizações. Terminei sublinhando o papel fundamental da promoção do bem-estar e da segurança psicológica de todas e todos neste caminho.

Um contributo que se seguiu a um outro, exactamente focado no bem-estar. Falo do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado pela Margarida Couto e Susana Almeida Lopes, e cuja leitura recomendo, também pelas práticas que reúne e que podem estimular e inspirar pessoas e organizações face a este desígnio e justa (legitima e possível) aspiração.

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Onde estavas na transição digital? (Ao redor…; 06.09.2023)

Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…

Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.

Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.

Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.

Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.

E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.

Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.

Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.

Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.

 

Tiago Pereira

Onde estava na transição digital?

in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital

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Onde estava na transição digital?

Ricardo Araújo Pereira costuma afirmar que, mesmo quando se tem essa pretensão, um/a humorista “não consegue controlar totalmente o efeito do [seu] humor”. E o humor, como sabemos, tem um papel muito importante e diverso na sociedade. Porque nos diverte e faz sentir bem. Porque nos aproxima e permite sintonizar com outras e outros e começar/continuar conversas. Porque nos permite olhar, criticamente, o que nos rodeia. Em Portugal, como noutros países, diferentes gerações têm beneficiado do humor e, num certo momento da minha vida, o Herman José (e toda a sua equipa), particularmente no Herman Enciclopédia, marcaram-me muito. Entre tantas outras personagens recordo o “Artista Bastos”, personagem inspirada no Baptista-Bastos e que ajudou a projectar para os nossos dias a pergunta “Onde estava/s no 25 de Abril?”.

“Onde estava na transição digital”, 65º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) usa duma apropriação da pergunta ao processo de transição digital em curso, processo “com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura”. Fi-lo, pois, “julgo ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante” (…) dado que com “a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia” que “requererão da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.”

Mas, não existindo apenas benefícios perspectivados desta transição em curso (também desafios e riscos que procuro, também, reflectir no artigo), devemos advogar e contribuir para “desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.”

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento (Ao redor…; 17.06.2023)

Em 2007, quando a Apple lançou o primeiro iPhone, os 499 dólares que custava e os poucos serviços que disponibilizava deixaram as pessoas descrentes do seu potencial. Não há muito tempo, ouvi na primeira pessoa o CEO da Nokia à época explicar porque estavam certos de que a Apple cometera um erro e de que os clientes queriam telemóveis “pequenos, não grandes”, “baratos, não caros” e que para enviar/ler emails e ver/tirar fotografias “prefeririam outros dispositivos a um telemóvel”. Ouvi-o explicar e reflectir sobre o que aprendeu com esse “erro”, enquanto mostrava um gráfico com uma curva decrescente vertiginosa das vendas da Nokia após 2007.

Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro. Temos diversas características, desde logo emocionais e cognitivas, que assim o determinam. Em todo o caso, tendo a acompanhar o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”. Permitem aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies. Permitem, já hoje, pelo olhar, gestos e voz (talvez sem isso no futuro) realizar acções e interagir com o computador e as suas aplicações, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos, logo sem barreiras físicas entre ambos, sobrepondo imagens do “Mundo digital” no que vemos do “Mundo real” diante de nós.

A diferença do dispositivo agora apresentado para outros óculos de realidade virtual e aumentada é, potencialmente, muito significativa e disruptiva, trazendo um conjunto de inovações, possibilitando a emergência de outras e acrescentando a novidade que permite que os olhos da pessoa não fiquem cobertos, permitindo interacções simultâneas com pessoas no “Mundo real” e pessoas no “Mundo digital”, visualizadas no mesmo espaço físico. A “The Economist” fez um trabalho sobre este novo computador, dizendo que, tal qual o iPhone evoluiu, o “Vision Pro” poderá não necessitar de muitos anos para deixar de ser “apenas” um dispositivo que permite ver fotografias em “dimensões reais”, realizar chamadas vídeo com “imagem à frente dos nossos olhos e não num dispositivo” ou ver filmes a “360º”. Para se transformar, como o IPhone se transformou, influenciando decisivamente o mercado de smartphones, e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos ou como influenciará a Educação e a Saúde.

Recentemente visitei um conjunto de colegas psicólogas e psicólogos que trabalham em zonas insulares relativamente remotas do nosso país e, por essa via, com menor acesso ao contacto com profissionais das mesmas áreas de forma presencial, menor acesso a formação, supervisão e com maior sofrimento ético decorrente da impossibilidade deontológica de realizar determinadas intervenções pela relação prévia com a/o cliente, por intervenção com pessoas a ela/ele relacionadas/os ou por não ter formação ou experiência numa área específica. Acontece na psicologia, com algumas especificidades, como acontece num conjunto de outras áreas profissionais, desde logo da Saúde.

Creio, também por isso, ser fundamental que participemos com interesse nesta eventual “nova era”. Alguns dos problemas referidos podem beneficiar significativamente da tecnologia e dos dispositivos e aplicações que se desenvolverão a partir do “Vision Pro” e da democratização dos computadores espaciais. Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas e possibilidades que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”, potenciando a possibilidade de encontro, formação, treino e intervenção a partir de qualquer local, desde que exista acesso a uma internet segura e rápida e a um conjunto de dispositivos que o permitam e facilitem.

Mas uma “nova era” não se faz com um novo dispositivo apenas, mas com um conjunto de tecnologia que se pode a ele associar. O Fórum Económico Mundial disponibilizou recentemente um relatório que trata as “10 Tecnologias Emergentes de 2023” com maior impacto numa combinação de dimensões que inclui pessoas, planeta, prosperidade, indústria e equidade. Nestas, surge a inteligência artificial generativa e a sua utilização além da produção de textos, por exemplo em protocolos terapêuticos de saúde personalizados. Surgem as aplicações do metaverso à saúde mental e a forma como partilhar espaços virtuais e a exposição a ambientes digitais, se utilizados intencional e responsavelmente, podem promover a saúde mental e o bem-estar. Surge, ainda, a inteligência artificial e a aprendizagem automática ao serviço dos sistemas de saúde, melhorando a resposta em saúde pública pela integração de dados e o acesso de cidadãos a serviços de saúde pela melhor organização dos sistemas de saúde.

A conjugação do anterior pode representar uma verdadeira mudança na forma de formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e, finalmente, de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia e a experiência de situações específicas), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção, apenas para dar alguns exemplos.

Pode, também, ter um positivo e verdadeiro impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a Apple apenas “disparou o tiro de partida” com o “Vision Pro”, conforme termina o trabalho da “The Economist”. Corramos se queremos chegar à meta, sem ficar pelo caminho. Meta esta que deve, para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica e, na psicologia, a dimensões que o Fórum Económico Mundial destacou no relatório citado: por mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.

 

Tiago Pereira

Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

in Sábado (Ao redor…); 27.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uns-oculos-para-pensarmos-as-profissoes-no-futuro-e-a-solidao-e-isolamento