
Em 2007, quando a Apple lançou o primeiro iPhone, os 499 dólares que custava e os poucos serviços que disponibilizava deixaram as pessoas descrentes do seu potencial. Não há muito tempo, ouvi na primeira pessoa o CEO da Nokia à época explicar porque estavam certos de que a Apple cometera um erro e de que os clientes queriam telemóveis “pequenos, não grandes”, “baratos, não caros” e que para enviar/ler emails e ver/tirar fotografias “prefeririam outros dispositivos a um telemóvel”. Ouvi-o explicar e reflectir sobre o que aprendeu com esse “erro”, enquanto mostrava um gráfico com uma curva decrescente vertiginosa das vendas da Nokia após 2007.
Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro. Temos diversas características, desde logo emocionais e cognitivas, que assim o determinam. Em todo o caso, tendo a acompanhar o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”. Permitem aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies. Permitem, já hoje, pelo olhar, gestos e voz (talvez sem isso no futuro) realizar acções e interagir com o computador e as suas aplicações, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos, logo sem barreiras físicas entre ambos, sobrepondo imagens do “Mundo digital” no que vemos do “Mundo real” diante de nós.
A diferença do dispositivo agora apresentado para outros óculos de realidade virtual e aumentada é, potencialmente, muito significativa e disruptiva, trazendo um conjunto de inovações, possibilitando a emergência de outras e acrescentando a novidade que permite que os olhos da pessoa não fiquem cobertos, permitindo interacções simultâneas com pessoas no “Mundo real” e pessoas no “Mundo digital”, visualizadas no mesmo espaço físico. A “The Economist” fez um trabalho sobre este novo computador, dizendo que, tal qual o iPhone evoluiu, o “Vision Pro” poderá não necessitar de muitos anos para deixar de ser “apenas” um dispositivo que permite ver fotografias em “dimensões reais”, realizar chamadas vídeo com “imagem à frente dos nossos olhos e não num dispositivo” ou ver filmes a “360º”. Para se transformar, como o IPhone se transformou, influenciando decisivamente o mercado de smartphones, e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos ou como influenciará a Educação e a Saúde.
Recentemente visitei um conjunto de colegas psicólogas e psicólogos que trabalham em zonas insulares relativamente remotas do nosso país e, por essa via, com menor acesso ao contacto com profissionais das mesmas áreas de forma presencial, menor acesso a formação, supervisão e com maior sofrimento ético decorrente da impossibilidade deontológica de realizar determinadas intervenções pela relação prévia com a/o cliente, por intervenção com pessoas a ela/ele relacionadas/os ou por não ter formação ou experiência numa área específica. Acontece na psicologia, com algumas especificidades, como acontece num conjunto de outras áreas profissionais, desde logo da Saúde.
Creio, também por isso, ser fundamental que participemos com interesse nesta eventual “nova era”. Alguns dos problemas referidos podem beneficiar significativamente da tecnologia e dos dispositivos e aplicações que se desenvolverão a partir do “Vision Pro” e da democratização dos computadores espaciais. Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas e possibilidades que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”, potenciando a possibilidade de encontro, formação, treino e intervenção a partir de qualquer local, desde que exista acesso a uma internet segura e rápida e a um conjunto de dispositivos que o permitam e facilitem.
Mas uma “nova era” não se faz com um novo dispositivo apenas, mas com um conjunto de tecnologia que se pode a ele associar. O Fórum Económico Mundial disponibilizou recentemente um relatório que trata as “10 Tecnologias Emergentes de 2023” com maior impacto numa combinação de dimensões que inclui pessoas, planeta, prosperidade, indústria e equidade. Nestas, surge a inteligência artificial generativa e a sua utilização além da produção de textos, por exemplo em protocolos terapêuticos de saúde personalizados. Surgem as aplicações do metaverso à saúde mental e a forma como partilhar espaços virtuais e a exposição a ambientes digitais, se utilizados intencional e responsavelmente, podem promover a saúde mental e o bem-estar. Surge, ainda, a inteligência artificial e a aprendizagem automática ao serviço dos sistemas de saúde, melhorando a resposta em saúde pública pela integração de dados e o acesso de cidadãos a serviços de saúde pela melhor organização dos sistemas de saúde.
A conjugação do anterior pode representar uma verdadeira mudança na forma de formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e, finalmente, de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia e a experiência de situações específicas), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção, apenas para dar alguns exemplos.
Pode, também, ter um positivo e verdadeiro impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a Apple apenas “disparou o tiro de partida” com o “Vision Pro”, conforme termina o trabalho da “The Economist”. Corramos se queremos chegar à meta, sem ficar pelo caminho. Meta esta que deve, para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica e, na psicologia, a dimensões que o Fórum Económico Mundial destacou no relatório citado: por mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.
Tiago Pereira
Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento
in Sábado (Ao redor…); 27.06.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uns-oculos-para-pensarmos-as-profissoes-no-futuro-e-a-solidao-e-isolamento