“Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções.”
“Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar”, 83º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa o quão diferente é ser-se um/a adolescente de 14 anos hoje face a 1998 (ou há alguns, não tantos, anos) e o quanto, os hoje mais velhos, “sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades”.
“Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. (…) Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.”
“Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista”, refiro no artigo, dizendo que, “apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.”
Explico depois porquê e termino sublinhando que se “investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo.”
“No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.”