“Há alguns anos, uma instituição social que trabalha com crianças pediu-me para desenvolver uma ideia que envolvesse os direitos das crianças (…) Ocorreu-me que uma maneira de abordar algumas das situações complexas e dos problemas sociais que afectam as crianças seria olhar para os quartos de crianças em diferentes circunstâncias”. É assim que James Mollison, um fotografo britânico que procura cruzar esta disciplina artística com a reflexão e acção sobre o Mundo e seus desafios societais, narra o projecto “Where Children Spleep” [Onde Dormem as Crianças], um conjunto significativo de pequenas biografias de crianças muito diversas, de todos os contextos do Mundo, acompanhadas por uma fotografia sua e por uma fotografia do lugar onde dormem. Um projecto interessantíssimo que nos recorda que estando expostos a condições diversas, todas e todos partilhamos muito de comum, ao longo de toda a nossa vida.
Dormimos, desde logo. Fechamos os olhos, respiramos, sonhamos, abrimos os olhos, acordamos. Fazemo-lo, uns dias mais tranquilamente, outros nem tanto. Por vezes com conforto e segurança, outras nem tanto. Brincamos. Rimos. Sofremos. Todas e todos, sofremos, também aqui cada qual com a sua circunstância, conforme a célebre abertura do “Anna Karenina” de Tolstoy: “Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
Recordo, como cada pessoa que me lê, diferentes momentos da minha vida em que sofri. Alguns com uma intensidade tal que, ainda hoje ao recordá-los, sou transportado para o momento. Como que sinto a temperatura, os cheiros, os sons, as emoções desse momento. Recordo, dizia, vários, mas evoco um em específico, pelas suas características e pela forma como se relaciona com esta importante obra. Estávamos na primeira metade da década de 1990. Estava na Escola e, um infeliz incidente entre dois colegas, resultou num trágico acidente. Guardo comigo e acompanham-me imagens, sons e sensações desse acontecimento, incluindo da campainha que tocou “para a saída” como se nada tivesse acontecido e da ambulância no interior da Escola.
Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.
Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer. Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica. Porque estas pessoas, de certa forma representando outras, partilham as suas experiências, contribuindo, para uma maior sensibilidade a estes temas e para a capacitação de psicólogas, psicólogos e outros profissionais. Porque, ainda, nos desafiam a pensar o futuro, assinalando caminhos para a melhoria de práticas e do seu enquadramento, visando uma melhor preparação das pessoas, das comunidades e melhores respostas. Muito obrigado a todas e a todos.
Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer, dizia. Também porque a sua coordenadora, a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.
Permitam-me uma palavra final sobre mim, aqui. Desde há anos, em diferentes funções, tenho procurado contribuir para que as áreas de intervenção psicológica em situação de crise e catástrofe e dos primeiros socorros psicológicos se disseminem na formação inicial e contínua de todas e todos os psicólogos, contributo que me parece essencial para maior possibilidade de intervenção e resposta de cada profissional, em cada contexto, em momentos particularmente sensíveis da vida das pessoas, apoiando processos de estabilização emocional e prevenindo, numa primeira linha, o desenvolvimento de problemas psicológicos mais complexos. Mais, quando a Ana Oliveira me fez este convite era ainda coordenador do ainda existente Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Foram, sabemos todas e todos, e em particular quem trabalha nas áreas que encontrarão detalhadas nas páginas seguintes, momentos absolutamente excepcionais e particularmente difíceis. Sabemos o quão requereu de nós, mas, em simultâneo e assim foi comigo, o quão significativo e o quão marcante pelo propósito que representou, também para tantas pessoas e para tantos profissionais, o seu contributo. Sabemos, finalmente, que teremos enquanto país e comunidade que enfrentar catástrofes e outras situações de crise no futuro e que as enfrentaremos com maior preparação se parte de uma comunidade sensibilizada e unida para estes temas, com estruturas de resposta estabelecidas, papéis definidos, profissionais capacitadas/os, organizadas/os em diferentes níveis de intervenção e especialização. Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.
Tiago Pereira
Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial (Prefácio)
Pactor [2024]