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De pequenino é que se torce o ecrãzinho (Ao redor…; 16.05.2023)

“Quero ir a todas maternidades do país e quero que, quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloque uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.” Foi a proposta experimental impossível que Adam Alter apresentou quando Malcolm Gladwell o desafiou para um desenho experimental com uma “varinha mágica de investigação”. Fê-lo considerando a lacuna de conhecimento relativo aos que poderão ser os efeitos a longo prazo da exposição a ecrãs e redes sociais, em diferentes momentos da nossa vida.

Havendo quem entenda que as preocupações com estes temas são excessivas, creio importante reflectirmos sobre os seus impactos, particularmente em bebés, crianças e adolescentes e sobre o que sabemos do seu efeito a curto/médio prazo. Senão, vejamos.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, pudemos recentemente comparar resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19 e dos seus impactos no relacionamento interpessoal e na Educação. Em Português, na Oralidade, a percentagem de alunas/os que “conseguiram” caiu 46,4 pontos percentuais, de 59,7% para 13,3%, aumentando 42,8 pontos a percentagem de crianças que revelaram dificuldade ou não conseguiram / não responderam (de 16,1% para 62,9%). Valores que confirmam o que ouvimos ao redor e preocupa as equipas técnicas que trabalham com estas idades: um aumento considerável de dificuldades na área da fala e na aquisição da “língua materna”, menor número e diversificação de palavras e maior utilização de “estrangeirismos”, associados a vídeos e jogos online, observados cada vez mais precocemente.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, podemos também comparar as alterações ao nível dos problemas de saúde mental das e dos jovens nos últimos anos. Alguns estudos demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no Reino Unido ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França. E, ao contrário do anterior, estes últimos anos remetem para mais de uma década, com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”. Um artigo recente do “Finantial Times” apresenta-o, graficamente. Nele, três linhas sobem consistentemente de 2010 a 2022: a de jovens dos EUA que referem não se ter encontrado presencialmente com amigas/os no último mês (de 4% para 12%); a dos que referem não se “sentirem bem por viver” (de 6% para 11%) e a do aumento do suicídio na adolescência. Gráficos em linha com as já consideráveis investigações que demonstram correlação, mais significativa no sexo feminino, entre longos períodos de exposição a redes sociais e a deterioração da saúde mental na população jovem.

Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.

Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz (por exemplo, nos limites de idade de utilização de tecnologias ou de aplicações), o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas, se conforme os dados de fenotipagem digital do “Sistema de Vigilância e Monitorização da Actividade Física e Desportiva”, 71,2% da população adulta em Portugal cumpre as recomendações de actividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um número superior as de vacinação, qual é a percentagem que cumpre as recomendações da OMS para a exposição a ecrãs de crianças com menos de 5 anos a seu cargo? A OMS recomenda que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária. Ora, das cadeirinhas de bebé com suporte para tablet, às mesas de cafés e restaurantes à nossa volta, creio sabermos que, ao contrário de outras recomendações da OMS, estas não são, infelizmente, particularmente consideradas.

Sabemos porquê. Pela própria utilização e pressão que se coloca a quem cuida e pela facilidade, adequação ao estilo de vida e resultado da utilização de ecrãs. É muito mais simples, por exemplo, quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas. É muito mais simples para que nós, adultos, possamos prevenir conflitos e desfrutar de diferentes momentos. Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tendemos a olhar este desafio e os problemas que dele resultam em dimensões iminentemente individuais, não considerando que estas alterações profundas marcam hoje a sociedade e uma geração de bebés, crianças, adolescentes, jovens, mas também de quem cuida. Com a presença fortíssima de ecrãs há menos pessoas disponíveis para interacções presenciais, facto que reforça a dificuldade e os desafios que se colocam às mesmas. Com a presença fortíssima de ecrãs acresce a pressão para a sua utilização como meio de entretenimento e lazer, pressão que decorre quer das próprias crianças que querem como as outras fazê-lo e participar nesse meio, quer de quem cuida dessas crianças que pretendem que as nossas se mantenham, desde logo, sentadas e sossegadas nos espaços públicos, mas não apenas. Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar, sob pena do que hoje verificamos poder ser mais grave no futuro, também pelo que aí vem com a inteligência artificial, com níveis potenciais de aditividade, “negócio” e impacto ainda imprevisíveis. Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?

 

Tiago Pereira

De pequenino é que se torce o ecrãzinho

in Sábado (Ao redor…); 16.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-pequenino-e-que-se-torce-o-ecrazinho

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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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Columbine, 24 anos…

Elephant. Filme de Gus Van Sant, (parcialmente) baseado no massacre na Escola de Columbine, sobre o qual passaram 24 anos ontem. Quem, como eu, frequentava à época uma Escola como a de Columbine não esquece(rá) o massacre. Quem, como eu, vive o cinema, não esquece(rá) o filme, extraordinário. Quem, como eu, gosta de metáforas, do simbólico, de pormenores, não esquece(rá) a associação, via título e forma do filme, entre um assunto particularmente difícil e complexo (a realidade dos tiroteios nas Escolas nos EUA e a violência no geral) e a “parábola do(s) cego(s) e do elefante”, onde cada pessoa consegue descrever uma parte do objecto/fenómeno, mas ninguém consegue percepcioná-lo na sua totalidade e integridade.

Ontem, não por acaso quando passavam 24 anos de Columbine, acordamos com a discussão pública via comunicação social de um assunto antes em discussão privada (em grupos de mensagens) e pública, mas via redes sociais. Falo da “apelidada” ameaça de massacre em Escolas em Portugal, propagada e reproduzida via uma mensagem numa rede social e ao longo do dia classificada pelas autoridades como “brincadeira de mau gosto”, conforme aliás o título desta peça da SIC, na qual tenho um pequeno contributo/participação.

A peça abriu ontem o Jornal da Tarde, considerando algum alarme com a situação e procurando garantir informação sobre um fenómeno complexo, com diversas partes. O medo e como, enquanto emoção, influencia a nossa tomada de decisão e comportamento. O desconforto associado à imprevisibilidade, insegurança e falta de controlo, particularmente quando se trata de crianças e jovens, e a necessidade de procurarmos controlo e previsibilidade. A forma como a informação se propaga, se reproduz, se “refina” (ganhando pormenores e exemplos) via redes sociais, particularmente a que “joga” com emoções como o ódio, a raiva e o medo. Também, a forma como o viés da negatividade nos influencia para darmos mais atenção a eventos/acontecimentos negativos e, portanto, os considerarmos mais prováveis/possíveis.

Mais, a forma como em ambientes digitais mais despersonalizados, anonimamente ou não, pessoas (e pessoas mais jovens) são capazes de comportamentos que noutros contextos não existiriam, como forma de afirmação e/ou chamada de atenção. Ainda, a importância da literacia digital e da boa informação ocupar o espaço potencial da má ou da desinformação, particularmente quando a boa informação provém de mediadores/referências, como a comunicação social, personalidades públicas e autoridades que devem, como aconteceu, sem alarme, mas sem complacência, atender a estes fenómenos e procurar garantir o possível controlo e segurança.

Um elefante, portanto. Complexo, cheio de partes, ângulos, pormenores, difícil de descrever na sua totalidade e integridade e, até por isso, a necessitar que todos o olhemos, pensemos e previnamos.

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Psicologia Tecnologia Tomada de Decisão

Ética, Psicologia e Tecnologia em 3 Harris

Ed Harris – Actor que, pelas feições e pela voz, dificilmente esquecemos. Não creio possível que quem viu tenha ficado indiferente a como interpretou e realizou o filme Pollock onde nos mostra o pintor referência do expressionismo abstracto e autor do “A chave” que aqui partilho. O abstracto, tão empolgante na arte, não pode ser trazido para o contexto das novas tecnologias e isso é uma das chaves para a ética nas e das mesmas.

Sydney J. Harris – Jornalista e Escritor, afirmou que o real “perigo não era que os computadores começassem a pensar como seres humanos mas que estes viessem a pensar como computadores”. Uso-o para, dizendo-o de outra forma, me associar à defesa de que toda a nova tecnologia deve considerar, em desenvolvimento e implementação, os seus impactos nas pessoas e na sociedade. Afirmo-o alertando para a necessidade de uma atitude ética neste processo e para o contributo da ciência psicológica na mesma e faço-o num momento especialmente relevante porque o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida passou a ter como Conselheiro o Miguel Ricou, representando a Ordem dos Psicólogos Portugueses e as psicólogas e psicólogos portugueses.

Tristan Harris – Co-fundou e dirige o Centro de Tecnologia Humana e reflecte sobre os impactos de uma tecnologia que “nos conhece melhor do que nos conhecemos a nós próprios”. Quando assim é, a Psicologia é fulcral. Digo-o eu e di-lo a psicóloga A.Sethumadhavan que na Microsoft dirige uma unidade centrada na experiência dos Utilizadores, IA,Ética e Sociedade. Recentemente explicava como a sua Unidade trabalha para garantir que, no desenvolvimento de novos produtos, são considerados 6 pilares éticos (inclusão, justiça, privacidade/segurança, transparência, confiança e prestação de contas), dando exemplos de como trabalhava não apenas questões importantíssimas (mas hoje mais óbvias) relacionadas com dimensões sociais e culturais, mas também aspectos relacionados com a personalidade. Explicava como, por ex., tratavam o binómio extroversão/introversão das utilizadoras e utilizadores, não apenas numa dimensão de literacia e desmistificação de preconceitos junto das equipas (nomeadamente a valorização normalmente atribuída à extroversão – a este propósito leia-se o excelente artigo da Raquel Raimundo | https://www.publico.pt/2021/05/06/impar/noticia/extrovertido-nao-qualidade-introvertido-nao-defeito-1961095), mas como investigavam formas de tornar a tecnologia mais inclusiva de pessoas mais introvertidas, garantindo maior responsividade dos produtos ao maior tempo de reflexão para reacção que necessitam face às e aos mais extrovertidas.

Um exemplo apenas de um amplo conjunto de conhecimento e de evidência científica que pode ser mobilizada para junto das equipas que desenvolvem/implementam novas tecnologias e que, quem sabe, pode ser “chave” para uma tecnologia mais ética e responsiva às pessoas e por isso mais promotora de bem-estar e coesão social.

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Psicologia Tecnologia

(só) 13 anos de iPhone.

iPhone

A 9.1.07 Steve Jobs apresenta-o na Macworld. “De quando em vez um produto revolucionário muda tudo”, diz.

Penso… Há 13 anos e 1 dia apenas a sua equipa conhecia a palavra iPhone. Hoje tantos a conhecemos e reconhecemos o seu legado no desenvolvimento dos smartphones e seu enraizamento no modo de vida de tantas pessoas.

Sinto este enraizamento com a “minha” Courrier Internacional. Há largos anos que a cada mês a leio. A deste mês trata também de “um ‘produto’ revolucionário (que) muda tudo” – os algoritmos que decidem.

Sistemas de inteligência artificial que analisam dados para identificar riscos de maus tratos, reincidência criminal, doenças, etc.

Sistemas desenvolvidos por seres humanos e, assim, potenciadores dos seus preconceitos e enviesamentos. Sistemas discriminadores de mulheres em concursos, de minorias na saúde e na justiça. Sistemas que erram e que necessitam de uma “reflexão ética profunda e de supervisão” (Hannh Fry; Olá Futuro).

Sistemas (e revolução, portanto) que precisam da Psicologia: do seu conhecimento da pessoa e da tomada de decisão; do seu insight ético; do seu papel nas adições “à tecnologia” ou nos desafios das transformações na educação e no mundo do trabalho…

Enfim, do seu papel na adaptação (também psicológica) da pessoa a (mais) esta revolução.