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Acasos curiosos…

Como bem sabem, a nossa vida – e o que se passa na nossa vida – também resulta de um conjunto de acasos. Alguns particularmente felizes, como não há muito pude experimentar. Outros, infelizmente, menos felizes. Outros, ainda, apenas curiosos…

Há dias confrontei-me com um destes. A relação entre dois artigos de uma pequena newsletter que regularmente leio e o momento que vivemos e vivo.

Um a reafirmar algo que, conhecendo relativamente bem (no que aos estudos científicos diz respeito, mas também ao olhar empírico sobre a realidade), não deixa de ser curioso face ao momento actual… O artigo sublinhava que, geralmente, “as pessoas acreditam que a informação que possuem é suficiente para permitir que tomem boas decisões” e que outras pessoas “concordariam com elas, caso tivessem a mesma informação”, mesmo quando são confrontadas com realidades que rejeitam ambas as situações. A saber, que a informação é suficiente; ou que as pessoas decidem todas da mesma forma quando com a mesma informação.

O outro estudo versando sobre a forma como, apesar do levantamento de todas as restrições decorrentes da pandemia, continuarmos, hoje, a despender “menos tempo a realizar actividades fora de casa”, mantendo-se, em algumas áreas e comportamentos, “alterações significativas” próximas das que decorreram das medidas de proteção da população, ainda que mereça que se sublinhe que esta tendência (menos tempo/actividades fora de casa) se iniciou ainda antes da pandemia. Concluem as/os autores, “mesmo tendo sido eliminados os efeitos mais sérios, a COVID-19 continua a impactar as nossas vidas e o nosso quotidiano.”

Sem dúvida. Continua a influenciar a forma como nos relacionamos com as outras pessoas, com a informação disponível e, nesse sentido, com a forma como tomamos decisões e os resultados das mesmas. E continua a interagir com alterações sociais entretanto verificadas e com o acesso, as possibilidades e os impactos das novas tecnologias, por exemplo no acesso e disseminação de (des)informação e na tomada de decisão.

Também por isso, as/os autores do primeiro estudo concluem apelando a que usemos mais humildade, “assumindo que não sabemos tudo” e que manter a “curiosidade sobre as lacunas no nosso conhecimento pode resultar em processos de tomada de decisão mais informados e integrados para todas e todos.”

Isto é tão mais relevante quanto será importante que, juntos, trabalhemos pela consolidação, afirmação e desenvolvimento da psicologia e pela confiança na mesma enquanto ciência (pelo valor aqui demonstrado) e enquanto prática (como tantas e tantos bem sabemos).

Juntos devemos contribuir para um reconhecimento maior da psicologia na sociedade e pela importância, para cada pessoa, de evoluirmos – conforme Ian Walker defende – do actual STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para um PSTEM, que inclua a psicologia e que faça justiça à sua relevância em tudo quanto envolva pessoas, o seu comportamento e a tomada de decisão. O Mundo, portanto.

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A beleza das pequenas coisas | Gabriela Moita

Cada tempo histórico tem as suas características. Tem as suas dificuldades e os seus desafios específicos. Tem as suas belezas. Este nosso tempo não foge à regra.

Pergunto-vos, quando estão num lugar mais inóspito ou quando se confrontam com uma situação de vida mais exigente, não dão por vós a pensar como pessoas há dezenas, centenas, milhares de anos lidavam com essas situações e o quanto, invariavelmente, mais duro, exigente, por vezes desumano, seria? Eu faço-o. Muito. Recuando milhares de anos, séculos, décadas ou, muitas vezes, apenas alguns anos, para situações mais específicas. Faço-o e isso situa-me. Dá-me “chão”, dá-me aqui e agora, dá-me perspectiva em dois sentidos: para o passado e para quem nos antecedeu; para o futuro e para quem nos sucederá.

Vem esta minha reflexão e partilha a propósito de ter ouvido uma maravilhosa conversa entre duas pessoas que, cada qual à sua maneira, muito admiro. O Bernardo Mendonça, um comunicador nato e dinamizador de (boas, “ricas” e impactantes) conversas. A Gabriela Moita, também uma extraordinária comunicadora, com uma experiência de vida incrível e com uma enorme capacidade de tornar perceptível, tangível e claro, dimensões científicas e fenómenos que são, invariavelmente, profundamente complexos. A Gabriela tem sempre palavras para o que parece não (poder) ter palavras.

É assim hoje. Será assim amanhã, estou certo. Mas, mais relevante, é assim há muito. Quanto era, ainda, mais difícil. A Gabriela é uma pessoa e uma profissional com uma importância fundamental na, hoje, maior literacia da população relativamente aos temas da psicologia e da sexualidade e para uma maior percepção e compreensão dos potenciais contributos da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nos desafios fundamentais das pessoas e da sociedade.

Além de acompanhar, formar e supervisionar muitas gerações de psicólogas e psicólogos, ajuda desde há muito e ajudará a que seja mais possível a outras e outros darem este contributo, fazerem este trabalho e continuarem este seu caminho. Ajudou-me e ajuda-me, muito. Sempre. Sempre com uma bondade sem limites e com uma generosidade inexcedível.

Ouçam. Sintam. Confrontem-se. Partilhem.

Para mim, e em mim, foram minutos preciosos da minha vida. Para a minha vida. Obrigado.

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte I]

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte II]

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Violência nas Escolas

Por estes dias, embora não pelos melhores motivos e até sem o melhor e, porventura, mais factual, enquadramento, discutiu-se a temática das práticas agressivas e da violência na Escola. Algo que, por si, tem já um enorme valor pela importância que tem para a prevenção e mitigação destes fenómenos a afirmação cabal da não complacência das Escolas e da sociedade com estas situações e o sublinhar da não inevitabilidade das mesmas.

Na passada quinta-feira, a @Antena 1 dedicou mesmo o seu programa Antena Aberta a este tema e, tendo tido oportunidade de nele participar (contributo que abaixo partilho), procurei:

 

a) Sublinhar o que atrás refiro notando, também, que a violência em contexto escolar, aliás como a doméstica, não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas, dando-lhes uma atenção mais signficativa face a aspectos mais positivos e/ou antigos), procurando rebater uma ideia que havia sido levantada numa intervenção anterior que procurava defender que há 4 ou 5 décadas não existia violência no namoro e na Escola como hoje, infelizmente, existe;

b ) A necessidade de progressivamente se caminhar para uma alteração na forma como a sociedade olha, pena e classifica a Escola e a sua actuação. “Além do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), a escola tem de preparar as crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a abertura ao outro e para a empatia”, e isso é um trabalho das Escolas que tem que ser reconhecido, contribuindo esse reconhecimento para maior envolvimento das Escolas na resposta, na ctuação e na prevenção dos fenómenos de violência;

c) Também o quão fundamental é, para a prevenção destas situações, a forma como a Escola pode (deve) contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;

d) Ainda, que a Escola é hoje, felizmente e ao contrário de outros momentos históricos, para todas e todos, algo que necessariamente comporta desafios pela menor motivação de envolvimento de alguns/algumas estudantes ou pela necessidade de espaços e práticas mais inclusivas, dando apenas dois exemplos.

Finalmente, algo que acabei por não poder referir, mas cuja importância creio relevante. A par de docentes e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, devemos intencionalizar a participação e o papel do pessoal não docente nestas matérias. Mas, para isso, temos também e enquanto sociedade, de valorizar mais e mais esta função e papel – a todos os níveis – e, particularmente, empoderar estas pessoas para um complemento a cada dia mais essencial numa Escola em profunda transformação.

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Ciência e Evidência na Administração e Políticas Públicas

Ontem, com os discursos de encerramento do congresso do PS e da cerimónia de formalização da AD, ouvimos os principais candidatos a primeiro-ministro.

Partilho, a esse propósito, duas reflexões sobre o pensar da política pública no momento que vivemos:

a) Continuamos a ter dificuldade para, enquanto país e comunidade, conforme nos mobilizamos para responder a desafios, estabelecermos planos e medidas de resposta às consequências dos mesmos. Isto penaliza grupos específicos, a justiça intergeracional, o legado e a equidade. Foi assim com a geração que viveu a Guerra Colonial. Foi assim com o impacto da crise socioeconómica do início da década passada, cujas consequências são visíveis hoje na demografia, trabalho ou nos problemas de saúde mental da população. Parece ser assim com as consequências da COVID-19 nos processos de desenvolvimento de bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade, com consequências graves para o seu (e nosso, comunidade) futuro. Todos os estudos o comprovam mas convido a ouvirem as equipas de intervenção precoce que, em muito difíceis condições e com uma falta de recursos gritante, acompanham monte a monte, lugar a lugar, apartamento a apartamento estes bebés e crianças. No Reino Unido, também a caminho de eleições, é um assunto central da campanha e dos partidos, pensando-se o presente, projectando-se o futuro (ver aqui). Será assim, desta vez, em Portugal?

b) Estas relevantes iniciativas carecem de incorporação de ciência e evidência. Fala-se, e bem, de transferência de ciência, conhecimento e tecnologia para as empresas. Fala-se, menos, da sua transferência e incorporação nas práticas da administração e nas políticas públicas. Isso é essencial para evoluirmos, verdadeiramente, de práticas assistencialistas (acesso) nas dimensões sociais para práticas de promoção da equidade, inclusão e capacitação (acesso + qualidade, eficiência e eficácia). É necessário, possível, crucial, que ao crescimento da possibilidade de acesso à creche (importantíssima) se associe a melhoria da qualidade da educação dos 0-3 anos; que à dinamização de mais e mais variadas respostas de acompanhamento de pessoas idosas se associe qualidade nas práticas; que aos processos de desinstitucionalização se associe a capacitação a qualificação das respostas de proximidade; que ao reconhecimento do estatuto de cuidador/a informal se associe a possibilidade de autocuidado e desenvolvimento de competências de cuidadoras/es.

Fazendo-o estaremos mais próximos de responder a necessidades e expectativas das pessoas, num quadro democrático, de confiança nas instituições, pessoas e ciência. Fazendo-o criaremos antídoto para o crescimento de forças que colocam em causa a democracia, a confiança nas instituições, pessoas (todas) e ciência.

Aqui e em qualquer lugar do Mundo isso é e será decisivo para defendermos uma sociedade de coesão e direitos humanos, capaz de promover a possibilidade de bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

“Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro.” Ainda assim, acompanho o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”.

“Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento”, 60º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como um dispositivo que “permite aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies”, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos”, pode ser disruptivo, transformar-se e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos e como se prestam serviços de Educação e Saúde.”

“Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, particularmente para quem vive/trabalha em locais mais remotos, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”.

Assistiremos, potencialmente, a mudanças na forma de “formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção.”

“Poderá, também, ter um positivo impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.”

Deve, portanto, “para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica” e concorrer para “mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.”

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A morte da COVID é manifestamente exagerada

O jornal Inevitável desta semana volta ao tema da pandemia e dedica a sua edição a pensar e a reflectir o momento actual da COVID-19 e os diversos e múltiplos impactos da pandemia. Sob o mote “A morte da COVID é manifestamente exagerada”, reúne um conjunto de contributos, incluindo uma conversa/entrevista minha com a jornalista @Sónia Peres Pinto, que abaixo partilho.

Ao destaque da capa do jornal (“A ansiedade e os ataques de pânico aumentaram muito nas crianças e jovens”), a partir de um relato meu do que as colegas psicólogas e psicólogos referem relativamente às questões da saúde mental na população mais jovem, junta-se o destaque do interior da entrevista (“Não regressámos todos ao que éramos em 2019”), reflexão minha sobre a forma (diversa) e o tempo (diverso) do regresso à “normalidade” (dos eventos, das comemorações, do trabalho, …).

Além destes destaques, a entrevista foca outros aspectos, como são exemplo a ideia de que “o regresso a determinas as rotinas é um momento de celebração e de partilha”, fundamental à nossa identidade, ao bem-estar e à saúde mental ou a de que “não há hoje um psicólogo no SNS que tenha tempo para receber mais pessoas”, discutindo a necessidade de um investimento mais significativo e assertivo do Serviço Nacional de Saúde no reforço de profissionais de saúde mental, também porque as “pessoas com menos recursos são as que têm maior dificuldade em aceder-lhes”.

A quem possa interessar, partilho links para a entrevista completa nos sites Jornal i e Nascer do Sol.

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19

Ecrãs e redes sociais…

“Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?” Assim termina o texto que começa numa “varinha mágica de investigação” de Adam Alter: “…Quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloca uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.”

“De pequenino é que se torce o ecrãzinho”, 58º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre o impacto da exposição a ecrãs e redes sociais, trazendo a muito negativa comparação de “resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19” em Português e, especificamente, na Oralidade. Traz, também, estudos que “demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no UK ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França”, aumentos “com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”.

“Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.”

“Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz, o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas (…) quem cumpre as recomendações da OMS de que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária?”

“Sabemos que poucas pessoas e porquê. “…É muito mais simples quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas (…) Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.”

“Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar.”

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COVID-19, 20, 21, 22, 23, … (Ao redor…; 20.03.2023)

Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente. É que, ao contrário das transformações positivas na nossa vida, normalmente incrementais, morosas e sem “uma data”, há mudanças e/ou perdas bruscas que decorrem de um acontecimento muitas vezes imprevisto, datado. Com dia, hora e até local.

E, se assim é com cada uma e um de nós, assim é com o Mundo e com o que dele nos chega, particularmente via comunicação social e redes sociais. Como a prosperidade e as melhorias não têm, normalmente, data e não se compadecem com a actualidade do dia-a-dia, chega-nos, desequilibradamente, mais informação sobre acontecimentos negativos súbitos que processamos e integramos, também, através de mecanismos de generalização e considerando e focando mais a nossa atenção em factos ou aspectos negativos face a positivos, algo que configura o apelidado “viés da negatividade”.

Tudo isto ajuda a explicar porque nos é tão simples de evocar ou ter presente datas de acontecimentos negativos significativos. Como recordamos onde estávamos, por vezes até o que estávamos a fazer, quando soubemos dos atentados nos Estados Unidos da América em 11 de Setembro de 2001 ou dos incêndios de 15 de Outubro de 2017 em Portugal. Como recordamos as datas relativas aos primeiros casos confirmados, à primeira morte ou ao primeiro dever de recolhimento obrigatório em Portugal em virtude da COVID-19 em 2020.

Passaram três anos e recordo cada um destes momentos, colectivos, e um outro, muito próximo. Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós. Nessa altura e, em bom rigor, talvez ainda hoje na sua totalidade.

Nos três anos que decorreram entre esse dia e a passada segunda-feira 13 de Março, dia em que terminou a estrutura do gabinete de crise e em que, formalmente, deixei as funções de seu coordenador, muito mudou. No Mundo, onde se interrompeu a descida progressiva da percentagem de pessoas com fome e em pobreza extrema. Em Portugal, onde assistimos a uma diminuição da esperança média de vida à nascença, algo que já não sucedia desde 1996, e onde a COVID-19 irrompeu como responsável por entre 5 e 10% das mortes totais nos anos de 2020, 2021 (o pior, com 9,6%) e 2022, num total de mais de mais de 26.000 mortes a que se junta um número indeterminado, mas muito significativo, de complicações sucessivas e/ou doenças agravadas na população. Onde, também por isto, pela crise socioeconómica decorrente da pandemia e pelas fortes restrições e alterações aos padrões de vida, aumentou consideravelmente o sofrimento psicológico e, em alguns casos e particularmente junto de grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade, aumentou a prevalência de dificuldades de saúde mental ou mesmo de doença mental, particularmente associadas ao stresse, à ansiedade e à depressão. Onde, ainda e por muito relevante, muitas crianças e jovens, também particularmente em situação de maior vulnerabilidade, viram impactados e prejudicados os seus percursos escolares e educativos em virtude do encerramento das Escolas e de outras actividades, com perdas significativas e de exigente (para alguns, impossível) recuperação. Perdas que agravam a já de si grave crise na área da saúde mental da população mais jovem, não apenas resultante da pandemia, manifesta, por exemplo, nos dados que demonstram o aumento do mal-estar (físico e psicológico), da insatisfação com a vida e dos comportamentos auto lesivos.

Finalmente, a pandemia impactou significativamente o bem-estar de forma geral. Hoje mesmo, Dia Internacional da Felicidade, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas publicou o relatório da felicidade mundial (2020-2022) onde Portugal mantém o 56º lugar, 22 lugares abaixo do 34º de 2019, numa análise que engloba as dimensões do rendimento disponível, do apoio social, da esperança de vida com saúde, da liberdade, generosidade e da percepção da corrupção, todas directa ou indirectamente influenciadas pela pandemia.

Pandemia que, mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades. Mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde. Enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.

Pandemia que, também mais que transformar, tornou mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão. “…viu-o lá fora, na viela, por trás da cerca alta. Um homem possante, um gigante escondido por trás da cerca de um metro e oitenta, a pá despontando de tempo a tempos, devolvendo a neve ao céu”, excerto do “A primavera há-de chegar, Bandini”. Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

Tiago Pereira

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

in Sábado (Ao redor…); 20.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/covid-19-20-21-22-23-

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

“Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente (…) Passaram três anos e recordo (…) [a] Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós.”

“COVID-19, 20, 21, 22, 23, …”, 54º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como a pandemia, “mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades” e sobre o meu papel, e o de tantas e tantos outros psicólogos, ao longo da mesma.

Sobre como trouxe “mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde.” Sobre como enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.”

Sobre como tornou “mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão (…) Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

13.03.2020 – 13.03.2023

Hoje passam 3 anos da criação do gabinete de crise COVID-19 da @Ordem dos Psicólogos Portugueses e da minha nomeação para seu coordenador. Hoje terminará, formalmente, o gabinete de crise COVID-19 da OPP e eu deixarei (formalmente) a sua coordenação.

Quem habitual ou ocasionalmente me lê sabe-me palavroso. Hoje, neste momento, não o serei. Quero apenas escrever, e com palavras dizer: Obrigado, obrigado, obrigado!

Ao @Francisco Miranda Rodrigues que confiou em mim e me confiou esta enorme tarefa e desafio.

À equipa, do gabinete e da OPP, incluindo todas as pessoas dos órgãos eleitos, comissões e grupos de trabalho, que, num contexto particularmente exigente, deu uma resposta excepcional, de envolvimento, de empenho e de vínculo com os valores da organização e com o seu (importante) papel social e de especial interesse público num momento de grave crise.

A quem, desapegadamente, se envolveu na actividade e no contributo da OPP ao longo da pandemia, particularmente nos momentos mais críticos. Foram centenas de psicólogas e psicólogos (e não apenas) e jamais esquecerei alguns dos muitos telefonemas que recebi, particularmente nos primeiros dias, com tantas e tantos colegas a disponibilizarem-se para o que pudesse ser necessário naquele momento.

Foram cometidos erros, certamente. Cometi erros, certamente. Mas orgulho-me, orgulho-me, orgulho-me.

Orgulho-me do contributo no período de pandemia, primeiro, das psicólogas e dos psicólogos a partir dos seus contextos de trabalho, por vezes com e em condições particularmente difíceis. Orgulho-me do contributo da OPP e da forma como, mantendo a sua actividade e as suas atribuições, procurou apoiar as pessoas, as famílias e o país (e não apenas). Finalmente, permitam-me, orgulho-me do meu próprio contributo naquele que foi, também certamente, o meu maior desafio profissional até hoje.

Orgulho-me, muito, muito, muito.

Agradeço, muito, muito, muito.