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Entrevista Revista Psis21 – Especial COVID-19

Passam hoje 80 dias da formalização da criação do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, por mim coordenado. 80 dias, uma “volta ao mundo” no emblemático romance sobre o qual recentemente escrevi. 80 dias, tempo também para um balanço que fiz em entrevista na PSIS21 especial COVID-19 que aqui partilho: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/psis21_especial_covid.pdf

Entrevista que toca a criação do gabinete de crise, os seus objectivos e estratégias adoptadas. Que reflecte o que já foi feito e os fundamentos e impactos dessa acção. Que pensa as parcerias desenvolvidas e o papel da ciência psicológica e das/os psicólogas/os no desafio que vivemos. Que olha a equipa OPP e uma “lição” que guardarei: “quando existem competências (instaladas) e recursos (internos, de cada trabalhador/a; e externos, com as ferramentas disponibilizadas e o reforço do trabalho em equipa)” temos “mais e melhores condições de cumprir o papel que penso competir a uma associação pública profissional de Psicologia num desafio de saúde pública como o que enfrentamos… Guardarei esta equipa, as suas competências, resiliência, energia e empenho e, com ela, um exemplo concreto da importância da prevenção e da promoção de desenvolvimento e competências, objecto maior da Psicologia”.

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PanMemória

PanMemória. Artigo que partilho com o Miguel Ricou, publicado no Observador, que procura pensar como olharemos 2020.

Parte da ideia de que é hoje “difícil acreditarmos que nos próximos anos possamos considerar algo em 2020 como mais marcante para a humanidade que a COVID-19”. Recorda que isso decorre da inexistência de distanciamento histórico e de uma “visão clara do que sucederá nos próximos meses e anos relativamente ao vírus, às consequências sócio-económicas e psicológicas do isolamento (..), aos impactos nas democracias e organizações internacionais e (…) aos impactos da introdução de sistemas de monitorização e rastreabilidade de contactos entre cidadãos”. Reflecte sobre estes sistemas e o que poderão implicar no “modelo ético” de sociedade, nas pessoas e nas suas instituições”. Conclui que poderão “quando olharmos 2020 com distanciamento histórico, competir com a COVID-19 em torno do seu impacto na humanidade”, algo incompatível com a “volatilidade e falta de clareza na discussão/decisão” relativamente ao seu desenvolvimento e gestão.

Artigo parte de um conjunto de reflexões por nós publicados onde se incluem o “PandÉtica” (https://lnkd.in/gu8ANgB),o “PanDemocracia” (https://lnkd.in/g6AQJD5) e o “PanResposta” (https://lnkd.in/gptF9ZJ).

Disponível aqui.

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Estima e culpa; COVID-19 (Público; 02.05.2020)

Foi hoje publicado no jornal Público um trabalho da jornalista Sónia Trigueirão que trata as questões associadas à culpa e ao estigma relativos à COVID-19 e ao enorme desafio, de múltiplas consequências, que enfrentamos.

Nesse trabalho abordo as questões do estigma e as causas da deslocação de “o que culpar?” para “quem culpar?”, muito assente na forma como tomamos decisões (com os automatismos e enviesamentos associados) e no medo, reacção emocional hoje intensificada, propagada e generalizada. Medo que permite que adoptemos comportamentos de protecção mas que, pela irracionalidade, motiva também comportamentos discriminatórios e estigmatizantes, perigosos para a comunidade.

Reflicto ainda sobre como os próprios, cada um e a sociedade podemos contribuir para que quem sente culpa, vergonha ou estigma por ter sido infectado e poder ter infectado outros, substitua sentimentos “persistentes de discriminação e preconceito por sentimentos de integridade e respeito”.

Aqui.

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Caça-Mitos: Álcool e COVID-19 (TSF; Sem medo do Medo; 08.04.2020)

Em tempos dados a memórias – de tantas pessoas nos lembramos nos dias que correm – socorro-me do imaginário da minha geração e apelo a uma memória de um jovem Bill Murray na pele de Dr. Venkman sentado numa escadaria de garrafa de licor na mão. Garrafa esta partilhada com o Dr. Stantz enquanto discutem a criação de uma nova startup – Ghostbusters (Caça-Fantasmas). Um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo num filme que a todos toca.

Recentemente a Organização Mundial da Saúde lançou o Mythbusters (Caça-Mitos) como contributo para o combate à desinformação paralelo ao combate à pandemia COVID-19. Entre caricatos mitos (“se conseguir suster a respiração 10 segundos sem tossir não tem COVID-19”; “tomar um banho quente ou comer alho previne a COVID-19”), surge a resposta factual para o mito que associa o consumo de álcool a uma propensa protecção contra o vírus: “beber álcool não protege contra o vírus…” acrescentando “…e pode ser perigoso”. E, se pode ser perigoso em quaisquer circunstâncias, pode sê-lo especialmente quando consumido em excesso ou sem controlo aquando de uma pandemia baseada num vírus com forte poder de propagação e infecção que por estes dias nos ‘obriga’ a um isolamento quase generalizado.

Ao contrário do referido mito, a evidência científica disponível indica que a imunidade diminui com o consumo excessivo de álcool, tornando a pessoa mais susceptível ao vírus e às suas consequências (nomeadamente ao nível respiratório). Depois, as situações de crise e de isolamento e os sentimentos de incerteza e solidão que podem despoletar, surgem associados ao aumento do consumo e do consumo excessivo de álcool. Consumo este, por sua vez, associado a fenómenos como a violência doméstica, problemática também especialmente sensível em situações de confinamento. Finalmente, os muitos portugueses com consumos problemáticos de álcool estão entre os grupos populacionais mais vulneráveis no enfrentar da pandemia. Parte deles mais velhos e alguns muito isolados, podem vivenciar este momento com significativa ansiedade, com perda de suporte social ou com síndromes de abstinência, por dificuldade de acesso, que acrescem às restantes consequências da pandemia. Em todas estas situações é essencial o apoio e a não estigmatização da família, cuidadores e comunidade, a promoção da ajuda a partir de canais de comunicação simples e eficazes com profissionais de saúde / serviço social (por exemplo a Linha 1414) e um compromisso ético-profissional de manutenção da relação de apoio e suporte quando já existente.

Noutro prisma, importa sublinhar que alguma evidência parece apontar para que quem tem consumos de álcool esporádicos e de baixo risco (tipicamente, uma unidade nas Mulheres e cerca de duas nos Homens) possa beneficiar da manutenção desse comportamento em período de isolamento. Não que quem habitualmente não beba o deva passar a fazer ou que quem esporadicamente o faça deva passar a fazê-lo regularmente, ainda que em quantidades de baixo risco. Antes, que potenciais consequências do isolamento como a tensão, a raiva, a exaustão emocional ou o stresse possam ser ligeiramente atenuadas, com consumos esporádicos e de baixo risco em pessoas que já o faziam e que mantêm autorregulação desse comportamento na situação que vivemos onde factores externos podem condicionar a percepção de risco e controlo relativamente ao consumo. Portanto, se por vezes brindamos com amigos ou em família, que o mantenhamos controladamente e respeitando o isolamento actual, quem sabe se para ‘selar’ a startup CovidBusters.

Álcool, um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo na COVID-19 que a todos toca e que, juntos e só juntos, venceremos.

TSF (Sem medo do Medo); 08.04.2020; Áudio aqui

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PandÉtica (Jornal Expresso; 06.04.2020)

Imagine-se em Novembro de 2020, sentado à janela de um comboio de onde comtempla um cinzento nascer de dia. Os sons quotidianos da viagem quotidiana misturam-se com pensamentos diversos e com uma certa reflexão acerca do planeamento do dia cheio e importante que espera na sua organização. Às 07.39h sai da carruagem na estação do Oriente, em Lisboa, e às 07.41h a caminho do metro o ecrã do seu telemóvel fica repentinamente vermelho e nele surge a seguinte mensagem:

“Cara Vitória, solicitamos que se desloque o mais rapidamente possível para a sua residência, cumprindo estritamente as regras de distanciamento físico e que nela permaneça até indicações em contrário. A saúde pública depende de todos.” 

Vivemos numa sociedade em que o respeito pela diferença, pela liberdade individual e pela privacidade são direitos e valores basilares. Contudo, na mesma sociedade, as pessoas recorrem a um conjunto diverso de tecnologias sem as compreenderem totalmente, sem terem consciência activa dos dados e informações (pessoais) que partilham ou com quem o fazem, colocando elas próprias em causa a (sua) liberdade e privacidade. Nesta sociedade, os algoritmos são responsáveis por tomar(mos) decisões, muitas vezes sem que disso tenhamos consciência, seja quanto fazemos uma compra ou quando elegemos os nossos representantes. Vivemos numa sociedade que trata a tecnologia por tu, mas não estabelece com ela uma relação íntima de conhecimento profundo das suas características, funcionamento ou intencionalidades.

A partir desta realidade enfrentamos uma pandemia que nos obriga a questionar o nosso modo de vida. Considerando a informação disponível e numa sociedade baseada em princípios, seria de esperar que todos assumíssemos um comportamento responsável e pró-social, mantendo-nos isolados e, quando tal não fosse possível, assumindo comportamentos protetores que evitassem a transmissão do vírus. Contudo, não é isso que se verifica.

Para além de uma resistência à alteração dos comportamentos, natural numa fase inicial; persistem mecanismos de simplificação da informação que levam à manutenção de comportamentos de risco; persistem movimentos de ocultação para evitar estigma; persistem mecanismos de culpabilização que visam encontrar responsáveis e penalizá-los como se isso nos colocasse a salvo; e persistem dificuldades na compreensão e aceitação da necessidade de comportamentos de proteção, por mais simples que possam parecer para alguns de nós. A persistência destas realidades é paradoxal, uma vez que nos guiamos por um modelo ético baseado na racionalidade do ser-humano, a partir do qual todos e cada um deveriam ser capazes de tomar as melhores decisões não apenas para si, mas também para a comunidade a que pertencem.

Dos comportamentos que observamos e questionamos, emergem outras interrogações relativamente ao modelo ético que pauta o nosso comportamento enquanto cidadãos e comunidades, sobressaindo dicotomias entre interesses, públicos e privados. A evolução desta pandemia  e das suas consequências económicas e sociais, implicará uma reflexão sobre a qualidade da resposta à crise por parte dos sistemas democráticos quando comparada com a de sistemas menos democráticos, tal como nos obrigará a re-pensar o peso da auto-determinação e da privacidade quando está em causa a segurança e vida (individual e colectiva) dos cidadãos.

Não tenhamos dúvidas, nos próximos meses será inevitável discutir-se por razões de saúde pública a utilização de tecnologia que coloca claramente em causa a nossa privacidade. Parte da discussão assentará na possibilidade de registo permanente de movimentos e contactos, tendente a uma eficaz rastreabilidade de situações, permitindo um progressivo levantamento de medidas tão significativas de confinamento, com forte impacto no bem-estar dos cidadãos e na economia.

Os períodos de crise sempre trouxeram alterações aos valores individuais e/ou societais. A própria valorização do bem comum implica condicionamentos das vontades e garantias individuais. Em todo o caso, a ética corresponde a um conjunto de princípios e normas morais que podem orientar as nossas decisões em situações específicas. Importa por isso estabelecer à partida, sem condicionalismos e em função dos diversos cenários possíveis, quais os valores que devem predominar, prevenindo improvisações imponderações ou experimentalismos e garantindo que não perdemos a orientação fundamental da sociedade em que queremos viver.

Assim, urge que discutamos abertamente cenários e perguntemos; Que modelo ético queremos adotar ou construir? Como podemos equilibrar a necessidade de decidir em função do bem-coletivo em circunstâncias excecionais como a desta pandemia, com regimes democráticos como o nosso? Não querendo partir das visões absolutas e inexpugnáveis dos regimes autoritários, que definem de modo totalitário o que é melhor para todos, como conseguiremos partir de valores não absolutos e de decisões participadas? Como podemos promover uma ética com cidadania ativa e uma cidadania ativa com ética, potencialmente mais lenta na mudança de comportamentos, mas também mais rica, diversa e respeitadora, que responda às necessidades de saúde e de saúde pública de todos? Assim, urge que discutamos abertamente cenários que envolvam se e até que ponto estamos dispostos a perder privacidade, ainda que em condições excecionais, na procura da preservação da saúde e segurança e na promoção da economia ou do bem-estar.

Caso nos demitamos deste debate, deve restar claro que estaremos a contribuir para maior erosão da confiança nas instituições democráticas, reforçando visões autoritárias que invariavelmente resultam em perdas maiores de auto-determinação e direitos.

Se nos ler em Pequim em Março de 2020 e for um cidadão da República Popular da China não necessita de imaginar a história da Vitória. Compre um bilhete para um comboio chegue à estação “Beijing West” naquele horário. Receberá depois a SMS se tiver febre, febre esta controlada automaticamente enquanto caminha no átrio da estação. Receberá ainda a SMS se, não tendo febre, tiver viajado na mesma carruagem com alguém que tenha.  

Mesmo em contexto de uma complexa pandemia, não nos isolemos deste debate. Discutamos abertamente cenários. Agora.

Com Miguel Ricou; in Jornal Expresso, 06.04.2020

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Instinto do Medo (Sem Medo do Medo; TSF; 26.03.2020)

Por estes dias em que se recomendam leituras, ler o “Factfulness”, do especialista em saúde internacional Hans Rosling, pode ser algo paradoxal. Ao excelente exercício que nos propõe de confronto com estereótipos, preconceitos, falhas de informação e de processamento que justificam a proposta de 10 instintos que distorcem a nossa perspectiva da realidade, contrapõe-se um subtítulo de livro desafiador ao momento que vivemos – “Dez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo – E porque as coisas estão melhor do que pensamos”. Um destes 10 instintos é o do medo.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que partilhamos com outros na nossa casa, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso país, em grande parte do nosso mundo. O medo, enquanto padrão de reacção emocional semelhante ao padrão do vírus, que viaja e contagia, conforme Danielle Ofri descreveu aquando da gripe H1N1.

O medo que nos permite activar ‘defesas’, cumprir recomendações das autoridades e adoptar comportamentos pró-saúde. Que motiva a alteração de comportamentos ou hábitos (como os de etiqueta respiratória) ou a aceitação de perdas (como as decorrentes do distanciamento ou isolamento social).

Mas também, o medo que nos impele a não considerarmos os factos (agindo com irracionalidade) e a assumirmos como ponto de partida o ‘menos bom dos outros’, o seu egoísmo. Que motiva que pessoas (por exemplo, portadoras de um vírus ou vítimas de violência) escondam factos para não serem estigmatizadas, desprotegendo quem, também por medo, as estigmatiza. Que motiva reacções como a acusação (e agressão) a professores em missão de cooperação em Baucau (Timor-Leste), por supostamente serem responsáveis pela existência de casos no país, desprotegendo quem acusa pois poderão ‘perder’ estes professores.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que, também paradoxalmente, nos protege e nos desprotege.

Que o medo que nos protege vença.

Tiago Pereira; Sem Medo do Medo (TSF); 26.03.2020

Com áudio aqui: https://www.tsf.pt/programa/sem-medo-do-medo/instinto-do-medo-11987719.html

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O perigo do estigma (Sem Medo do Medo; TSF; 25.03.2020)

A necessidade de nos relacionarmos com outros é a nossa principal ‘adição’. Não o álcool, as drogas, os ecrãs ou a internet. Aliás, estas resultam em muito da necessidade que alguns sentem em se relacionar. Somos seres sociais e, quando confrontados com um vírus que nos diminui a possibilidade de nos relacionarmos e nos traz ansiedade e medo, é natural que procuremos (os) culpados. Nesse movimento, não raras vezes de desresponsabilização, podemos estigmatizar e discriminar os outros e, ao fazê-lo, desprotegemo-nos porque acabamos por promover que esses outros escondam factores de risco (contactos com pessoas infectadas ou viagens para locais com transmissão comunitária activa) para não serem estigmatizados ou discriminados.

Assim, tal como o combate ao vírus e a protecção mútua a todos compete, o combate à estigmatização também depende de todos:

a)     Da comunicação social, que deve ser parceira das autoridades na disseminação de informação credível e de recomendações baseadas na evidência científica, evitando utilizar linguagem potencialmente estigmatizante (“vírus chinês”);

b)    Dos decisores e mobilizadores sociais, que devem orientar a sua acção para a promoção de comportamentos pró-saúde, mas também pró-sociais, não contribuindo para a estigmatização e desinformação, colectivizando a responsabilidade ao invés de a individualizar e apelando à cooperação de todos;

c)     De cada um de nós, que temos o dever de cumprir rigorosamente as recomendações das autoridades, consultar e partilhar apenas informação de fontes credíveis e não estigmatizantes, adoptar comportamentos pró-sociais de solidariedade, altruísmo e empatia e procurar evitar enviesamentos cognitivos e estereótipos (um carro de supermercado cheio pode corresponder a compras para uma família numerosa ou também para ajudar um vizinho).

Vivemos uma pandemia democrática, que a todos afecta e que nos pode infectar a todos, sem excepção. Contudo, as suas consequências directas (saúde) e indirectas (económicas e sociais – violência e desigualdades) não o são. Não esqueçamos os que, de nós, estão mais vulneráveis pelo contacto com a doença ou com as suas consequências, hoje e amanhã. Invistamos na coesão, não na estigmatização.

“Hoje a nossa maior força é estarmos afastados. Porém, separados estamos mais unidos do que nunca”.

Tiago Pereira; Sem Medo do Medo (TSF); 25.03.2020

Com áudio aqui: https://www.tsf.pt/programa/sem-medo-do-medo/o-perigo-do-estigma-11980984.html

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Chape, chapinha.

Fechemos os olhos. Pensemos no rio da nossa infância e numa pedrinha. Braço atrás e splash, círculo grande; splash, círculo pequeno.

Efeito concêntrico que tão bem descreve a causa-efeito de uma decisão, de um acto.

Ontem passaram 16 anos do atentado de Atocha. Dele também resultou a traumatização de profissionais de saúde que, voluntariosos mas sem preparação (formação, protocolo) e sem medidas de autocuidado, se deslocaram ao local para ajudar. Caos, consequências.

Em 2014 a OPP organizou uma bolsa hoje com 1200 psicólogos formados para intervir em situações de catástrofe, com protocolo definido e por activação pela ANEPC (Incêndios, 2017). Estes psicólogos receberam hoje informação de que podem reforçar a linha SNS24 por iniciativa da SPMS para aumentar a capacidade de resposta sobre a actual pandemia, atendendo ao estado emocional de quem procura informação.

Hoje, dia em que o governo anunciará medidas adicionais para a sua contenção, sendo o encerramento de Escolas possível.

De um lado,mais saliente, tudo fazer para diminuir as possibilidades de contágio.

De outro, menos saliente, milhares de crianças/jovens sem a única refeição quente do dia e maior indisponibilidade de profissionais (de limpeza,saúde, bombeiros) agora fulcrais.

Efeitos concêntricos das nossas decisões, acções.

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TotoVírus

“Dou-te 20 valores; és um 13 no Totobola”.

Parte do “brilhozinho nos olhos” (Sérgio Godinho), toca no meu imaginário também ao referir-se ao emblemático 1Xis2 do jogo que permite escolher uma tripla garantindo à partida o acerto numa das 13 apostas.

Ao Totobola associo o que chamo ‘atitude Totovírus´ de algumas pessoas face ao COVID-19.

Pela abordagem de jogo (não-científica) à situação, confundindo prevenção com contenção (ex. mortes por AVC vs COVID-19), comparando os seus efeitos com os de outros vírus com vacina ou utilizando acriticamente médias, negligenciando grupos vulneráveis (ex. seniores).

Porque utilizam leituras 1X2 (ganhas à partida) face às medidas implementadas: se a situação vier a ter pouco impacto, foram excessivas; se vier a ter muito impacto, foram insuficientes/tardias; se forem um sucesso, não foram mais do que a ‘obrigação’ das autoridades.

Precisamos de adoptar uma atitude de fairplay social: optimismo factual, comportamentos de segurança e autocuidado (também emocional) e de heterocuidado (amigos, familiares, outros cidadãos).

Precisamos mutuamente de nos proteger e de confiar e cuidar de quem, pessoas como nós, tem hoje a dura missão de, dia-a-dia, transferir e aplicar o conhecimento (científico) do vírus e da sua propagação para a resposta a este grande desafio.

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Comportamento COVID-19 Psicologia

Da disponibilidade…

Amígdalas cerebelosas. Duas pequenas esferas de neurónios, parte do nosso sistema límbico. Cruciais às emoções e,assim, ao nosso comportamento, decisões, bem-estar.

Partilham nome com as amígdalas da garganta que, ao inflamar (em crise), provocam amigdalites.

Não estão descritas ‘amigdalites cerebelosas’ para crises que nos provocam ‘inflamações’ de emoções. Não estão, mas existem. Em algumas pessoas agora mesmo e a propósito do muito desafiante COVID-19. Não estão, mas previnem-se: ´lutando contra´ os nossos ´enviesamentos de disponibilidade´ de informação (quantos responderiam Espanha se perguntasse qual o país da península ibéria com maior risco de pobreza?); ’lutando contra’ contágios e atitudes nossas de “consideração extrema” ou de “desconsideração extrema” das situações, procurando, construindo e partilhando informação fidedigna actualizada (DGS/OMS); dando ‘nome’ às nossas emoções ‘negativas’(aos medos, ansiedades), reconhecendo-as (algo que só por si provoca a sua diminuição), aceitando-as, ultrapassando-as, ‘desinflamando-as´.

Porque enfrentar este grande desafio chamado COVID-19 a todos compete.