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COVID-19 Psicologia

O perigo do estigma (Sem Medo do Medo; TSF; 25.03.2020)

A necessidade de nos relacionarmos com outros é a nossa principal ‘adição’. Não o álcool, as drogas, os ecrãs ou a internet. Aliás, estas resultam em muito da necessidade que alguns sentem em se relacionar. Somos seres sociais e, quando confrontados com um vírus que nos diminui a possibilidade de nos relacionarmos e nos traz ansiedade e medo, é natural que procuremos (os) culpados. Nesse movimento, não raras vezes de desresponsabilização, podemos estigmatizar e discriminar os outros e, ao fazê-lo, desprotegemo-nos porque acabamos por promover que esses outros escondam factores de risco (contactos com pessoas infectadas ou viagens para locais com transmissão comunitária activa) para não serem estigmatizados ou discriminados.

Assim, tal como o combate ao vírus e a protecção mútua a todos compete, o combate à estigmatização também depende de todos:

a)     Da comunicação social, que deve ser parceira das autoridades na disseminação de informação credível e de recomendações baseadas na evidência científica, evitando utilizar linguagem potencialmente estigmatizante (“vírus chinês”);

b)    Dos decisores e mobilizadores sociais, que devem orientar a sua acção para a promoção de comportamentos pró-saúde, mas também pró-sociais, não contribuindo para a estigmatização e desinformação, colectivizando a responsabilidade ao invés de a individualizar e apelando à cooperação de todos;

c)     De cada um de nós, que temos o dever de cumprir rigorosamente as recomendações das autoridades, consultar e partilhar apenas informação de fontes credíveis e não estigmatizantes, adoptar comportamentos pró-sociais de solidariedade, altruísmo e empatia e procurar evitar enviesamentos cognitivos e estereótipos (um carro de supermercado cheio pode corresponder a compras para uma família numerosa ou também para ajudar um vizinho).

Vivemos uma pandemia democrática, que a todos afecta e que nos pode infectar a todos, sem excepção. Contudo, as suas consequências directas (saúde) e indirectas (económicas e sociais – violência e desigualdades) não o são. Não esqueçamos os que, de nós, estão mais vulneráveis pelo contacto com a doença ou com as suas consequências, hoje e amanhã. Invistamos na coesão, não na estigmatização.

“Hoje a nossa maior força é estarmos afastados. Porém, separados estamos mais unidos do que nunca”.

Tiago Pereira; Sem Medo do Medo (TSF); 25.03.2020

Com áudio aqui: https://www.tsf.pt/programa/sem-medo-do-medo/o-perigo-do-estigma-11980984.html

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