Portugal joga amanhã com Espanha a passagem à fase seguinte da Liga das Nações tal como jogou, em Junho de 2004, a passagem à fase seguinte do Euro 2004, que Portugal organizou. Muitas e muitos de nós recordam esse jogo que vi em Turim (Norte de Itália).
Ali vivi(a) enquanto estudante Erasmus e dali viajei, várias vezes, rumo a outras cidades italianas, muitas no Sul. Viagens num país lindíssimo e diverso. Num país com muitos países (e dialectos) dentro e de diferenças significativas entre Norte e Sul, diferenças que ajudam a compreender as eleições de ontem.
Meloni conduziu o Irmãos de Itália, partido de direita nacionalista, a força política mais votada. Independentemente do Governo que se constituir, da sua consistência (Itália teve 45 governos desde 1945) e do que será Meloni líder de Governo, é paradigmático que o partido cresça de 4 para 26% entre as eleições de 2018 e as de 2022. Há, como sempre existem, múltiplas razões que podem justificá-lo em Itália. Como existem para o comunicado do Chega que defende “que estes ventos de mudança [chegarão] a Portugal” e levarão “a uma reconfiguração política da Europa”.
Meloni faz da defesa da meritocracia, escola. Diz que o “mérito é o carburante do Mundo”, que tudo “reside na vontade, sacrifício e paixão” e que “não se devem aceitar limites impostos pelos outros”. Discurso motivacional, com ressonância, mas que choca com o discurso anti-imigração e o seu apego à “teoria” da “grande substituição” que torna seu objectivo evitar a “extinção dos Italianos”. O contrassenso continua quando afirma que a “segurança das cidades italianas está fora de controlo” pelas “políticas migratórias dos últimos anos”, apesar da taxa de criminalidade ter caído significativamente de 1990 a 2019 (a de homicídios 72%). Contrassenso aqui, coerência no desconsiderar dos factos, da ciência, dos valores democráticos e direitos humanos (veja-se a posição sobre pessoas LGBTI+) ou da preservação do Planeta (e sobre crise climática).
18 anos (desde 2004) ou 4 anos (desde 2018) que nos trouxeram a uma Meloni previsível chefe de governo, demonstração da aceleração e volatilidade do tempo que vivemos e de como, respeitando resultados eleitorais e as/os votantes, devemos mobilizar-nos contra a utilização do ressentimento e ódio como programa político. Um Mundo complexo precisa de respostas sustentadas que tragam esperança às pessoas e “vençam” as soluções simplistas resultantes deste tipo de partidos/coligações, Mundo fora.
Disponibilizar estas soluções exige diálogo e co-construção. Implica conversas interdisciplinares em temas desafiantes. Fá-lo-ei (em torno da pobreza, da COVID-19 e da saúde mental no Ensino Superior) e fá-lo-emos no 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, sob o mote “Tempo da Psicologia”. Com determinação, empenho e consciência dos riscos que enfrentamos, mas com a certeza de que passo-a-passo, com todas e todos e com a ciência (incluindo a psicológica) é possível caminhar no sentido de um Mundo… melhor.