A dias do início da invasão e da actual guerra na Ucrânia, Y.N.Harari escrevia na “The Economist” que a “mais óbvia consequência deste regresso à lei da selva seria um forte aumento das despesas militares à custa de tudo o resto”. Por “lei da selva” referia-se à “possibilidade de países poderosos conseguirem esmagar impunemente os seus vizinhos mais fracos”. Por “à custa de tudo o resto” referia-se a que “o dinheiro que deverá ir para professoras/es, enfermeiras/os e assistentes sociais será investido em tanques, mísseis e armas cibernéticas” bem como à “fragilização da cooperação mundial, especialmente na prevenção das alterações climáticas ou na regulação de tecnologias potencialmente perigosas como a inteligência artificial e a engenharia genética”, resultante da impossibilidade de se “trabalhar ao lado de países que se estão a preparar para nos apagar do mapa”. O texto (“A história da humanidade está em jogo”), embora não os mencionando, é um excelente ensaio para pensarmos como evoluiu a sociedade e o Mundo no sentido de se organizar em torno dos objectivos do desenvolvimento (hoje sustentável) (ODS) e de como os tratados de direito e cooperação internacional e a carta da ONU que os sustentam podem, rapidamente, ser questionados e desinvestidos.
Também a dias de uma iniciativa da Ordem dos Psicólogos Portugueses na OECD – OCDE foi, por esta organização para a cooperação e desenvolvimento económico, publicado um relatório sobre o (in)cumprimento actual dos 17 ODS e das suas metas para 2030. Na perspectiva do copo (meio cheio ou vazio) creio que a imagem permite que sintamos, provavelmente em simultâneo, que há caminho já (e a ser) percorrido (por ex. nas áreas da saúde e bem-estar ou da qualidade da água e saneamento) e que há (muito) caminho por percorrer (por ex. na fome ou na igualdade de género). Permite-nos, também, intuir que, após retrocessos resultantes da pandemia por COVID-19, a Guerra e a sucessiva instabilidade internacional ameaçam o comprometimento e empenhamento nos ODS e nas suas dimensões chave: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceiras, esta, talvez, a área menos desenvolvida face aos objectivos estabelecidos.
Junto com o Francisco Miranda Rodrigues, a Sofia Ramalho, a Alexandra Antunes e a Patrícia Batista foi exactamente a parceria com a OCDE que procuramos estimular neste dia de reuniões de trabalho, contactos e de colaboração com as suas áreas de “Desenvolvimento e Cooperação”, “Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais”, com o “Centro de bem-estar, inclusão, sustentabilidade e igualdade de oportunidade” e com a Associação de Trabalhadores da OCDE. Falamos de cooperação e de contributos da psicologia. Falamos de desafios societais complexos “sem fronteiras”, de ODS e do seu futuro e de como, já hoje, devemos preparar e contribuir para o pós-2030. Porque no presente preparamos o futuro. Porque, tal como Harari fecha o artigo, não podemos esquecer que “o que é velho já foi novo” e que “tudo se resume a escolhas humanas.”