Quem anteontem, após as 12h, ou ontem ao longo do dia, ligou a televisão ou acedeu a alguma rede social, viu certamente imagens de lugares onde dezenas ou centenas de milhares de pessoas se reuniram para estarem juntas no momento da passagem de ano e chegada a 2025. Às dos locais públicos juntaram-me mais uns muitos milhões de pessoas que, Mundo fora, como eu e nós fizemos, se reuniram em espaços privados com família e/ou amigas/os ou colegas de trabalho em contextos profissionais onde, juntas, passaram de ano. Juntas, em comunidade.
São, apesar de tudo, inspiradoras essas imagens. É realmente um paradoxo da actualidade a forma como pensamos e perspectivarmos a dimensão mais colectiva e comunitária. Tenho reflectido (e lido quem pensa e trabalha estes assuntos) bastante sobre como as formas que nos últimos anos mais utilizamos para aceder e partilhar informação e para comunicarmos, com especial destaque para as redes sociais, potenciam a criação e sedimentação de “grupos”, mas, simultaneamente, aparentam diminuir a “comunidade”.
Parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) individual do bem-estar quando há relevante percepção (e evidência) que mostra o quão interdependente é o bem-estar individual do bem-estar colectivo da comunidade onde a pessoa se insere. Ainda, parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) colectiva do erro e da culpa. Não o erro ou culpa de uma pessoa, antes a sua identificação colectiva. De políticas/os a povos. De religiões a grupos de pertença comunitária, tudo com impacto em fenómenos como a desconfiança, a polarização, o estigma ou mesmo a xenofobia e racismo. Tudo a influenciar violências diversas, o crescimento do autoritarismo e enfraquecimento das instituições democráticas e multilaterais. Tudo, finalmente, a desafiar o objectivo maior que parte do Mundo assinala a 1 de Janeiro – o Dia Mundial da Paz, em 2025 dedicado a como “podemos construir hoje uma paz duradoura”.
Certamente com mais comunidade. Com menos atribuição de culpas colectivas, mesmo em situações complexas e em que qualquer resposta simples será necessariamente simplista. Certamente, também, com mais acções bondosas e abnegadas como a do Raul Manarte que partilho – https://www.publico.pt/2024/12/28/mundo/entrevista/raul-manarte-ha-pausa-som-drones-helicopteros-bombardeamentos-ouvese-mar-gaza-2114841
Diz o Raul que “quando há uma pausa no som dos drones, dos helicópteros e dos bombardeamentos, ouve-se o mar em Gaza.” O mar de Gaza é o Mediterrâneo que une inúmeros e diversos países e povos, de Sagres a Gaza. Não esqueçamos o que nos une, o que cria comunidade e a forma como o nosso bem-estar individual também resulta (da possibilidade) do bem-estar colectivo. Disso, de construirmos Paz e de que todas e todos temos papel nesse processo, desde logo não contribuindo para a colectivização do erro ou culpa.
Que tenham um bom 2025. Que contribuamos, juntos, para um bom 2025 para todas as pessoas.

