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Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

2025

Quem anteontem, após as 12h, ou ontem ao longo do dia, ligou a televisão ou acedeu a alguma rede social, viu certamente imagens de lugares onde dezenas ou centenas de milhares de pessoas se reuniram para estarem juntas no momento da passagem de ano e chegada a 2025. Às dos locais públicos juntaram-me mais uns muitos milhões de pessoas que, Mundo fora, como eu e nós fizemos, se reuniram em espaços privados com família e/ou amigas/os ou colegas de trabalho em contextos profissionais onde, juntas, passaram de ano. Juntas, em comunidade.

São, apesar de tudo, inspiradoras essas imagens. É realmente um paradoxo da actualidade a forma como pensamos e perspectivarmos a dimensão mais colectiva e comunitária. Tenho reflectido (e lido quem pensa e trabalha estes assuntos) bastante sobre como as formas que nos últimos anos mais utilizamos para aceder e partilhar informação e para comunicarmos, com especial destaque para as redes sociais, potenciam a criação e sedimentação de “grupos”, mas, simultaneamente, aparentam diminuir a “comunidade”.

Parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) individual do bem-estar quando há relevante percepção (e evidência) que mostra o quão interdependente é o bem-estar individual do bem-estar colectivo da comunidade onde a pessoa se insere. Ainda, parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) colectiva do erro e da culpa. Não o erro ou culpa de uma pessoa, antes a sua identificação colectiva. De políticas/os a povos. De religiões a grupos de pertença comunitária, tudo com impacto em fenómenos como a desconfiança, a polarização, o estigma ou mesmo a xenofobia e racismo. Tudo a influenciar violências diversas, o crescimento do autoritarismo e enfraquecimento das instituições democráticas e multilaterais. Tudo, finalmente, a desafiar o objectivo maior que parte do Mundo assinala a 1 de Janeiro – o Dia Mundial da Paz, em 2025 dedicado a como “podemos construir hoje uma paz duradoura”.

Certamente com mais comunidade. Com menos atribuição de culpas colectivas, mesmo em situações complexas e em que qualquer resposta simples será necessariamente simplista. Certamente, também, com mais acções bondosas e abnegadas como a do Raul Manarte que partilho – https://www.publico.pt/2024/12/28/mundo/entrevista/raul-manarte-ha-pausa-som-drones-helicopteros-bombardeamentos-ouvese-mar-gaza-2114841

Diz o Raul que “quando há uma pausa no som dos drones, dos helicópteros e dos bombardeamentos, ouve-se o mar em Gaza.” O mar de Gaza é o Mediterrâneo que une inúmeros e diversos países e povos, de Sagres a Gaza. Não esqueçamos o que nos une, o que cria comunidade e a forma como o nosso bem-estar individual também resulta (da possibilidade) do bem-estar colectivo. Disso, de construirmos Paz e de que todas e todos temos papel nesse processo, desde logo não contribuindo para a colectivização do erro ou culpa.

Que tenham um bom 2025. Que contribuamos, juntos, para um bom 2025 para todas as pessoas.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Futuro da Psicologia Psicologia

Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos

1, 2, 3, 4, 5, (…) 97. Foram 97 os artigos que escrevi na rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) desde 24.02.2021 quando publiquei “Nós e os nossos Mundos”, o primeiro.

Três deles, um desejo para 2022 (Construirmos mais Paz), para 2023 (Promovermos mais bem-estar para todas e todos) e para 2024  (Um país mobilizado contra a violência doméstica). E 2025?

“Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos” é o 97º artigo e pensa os “Direitos Humanos enquanto base para a prevenção da guerra, justiça social e equidade e liberdade. Base, portanto, para construirmos mais Paz, promovermos mais bem-estar para todas e todos e prevenirmos todas as formas de violência, incluindo a violência doméstica. Base, ainda, para mais coesão social e maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas.”

Trata “um conjunto de indicadores que apontam para uma regressão, já de alguns anos e que parece tender a intensificar-se e aprofundar-se, da defesa cabal e intransigente da universalidade dos Direitos Humanos”, reflectindo sobre o que pode para tal contribuir, do “aumento do autoritarismo” ao “individualismo, polarização e quebra do multilateralismo e de coesão social” passando pelo “não cumprimento de alguns anseios e expectativas da população (…) o agravamento da desigualdade e iniquidades e uma quebra generalizada da confiança”.

Para depois funcionar como um apelo a que possamos “em 2025 e sempre, fazer a nossa parte para protegermos a universalidade dos Direitos Humanos. E fazer a nossa parte depende de os cumprirmos, através das nossas acções, contributo para acções de quem nos rodeia e para instituições que assentem nesses valores e que tenham a confiança da população para os prosseguirem, mesmo nos períodos mais difíceis e desafiantes.” Cumpri-los depende, ainda, de “não contribuirmos para a degradação e enfraquecimento das instituições e para a criação de contextos de (percepção de) insegurança ou de (percepção de) desorganização, propícios ao surgimento de figuras – quase sempre as maiores contribuidoras para a criação desses contextos e que só deles podem emergir – que se propõem salvar a instituição que ajudaram a degradar, quando não o país ou o Mundo.”

Precisamos, assim, “de um compromisso e de uma responsabilidade individual e colectiva, moral e ética”, afirmo no artigo que termino referindo que “eu por aqui o procurei e procuro fazer”. E que “eu por aí o procuro e procurarei fazer.”

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COVID-19 Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Acasos curiosos…

Como bem sabem, a nossa vida – e o que se passa na nossa vida – também resulta de um conjunto de acasos. Alguns particularmente felizes, como não há muito pude experimentar. Outros, infelizmente, menos felizes. Outros, ainda, apenas curiosos…

Há dias confrontei-me com um destes. A relação entre dois artigos de uma pequena newsletter que regularmente leio e o momento que vivemos e vivo.

Um a reafirmar algo que, conhecendo relativamente bem (no que aos estudos científicos diz respeito, mas também ao olhar empírico sobre a realidade), não deixa de ser curioso face ao momento actual… O artigo sublinhava que, geralmente, “as pessoas acreditam que a informação que possuem é suficiente para permitir que tomem boas decisões” e que outras pessoas “concordariam com elas, caso tivessem a mesma informação”, mesmo quando são confrontadas com realidades que rejeitam ambas as situações. A saber, que a informação é suficiente; ou que as pessoas decidem todas da mesma forma quando com a mesma informação.

O outro estudo versando sobre a forma como, apesar do levantamento de todas as restrições decorrentes da pandemia, continuarmos, hoje, a despender “menos tempo a realizar actividades fora de casa”, mantendo-se, em algumas áreas e comportamentos, “alterações significativas” próximas das que decorreram das medidas de proteção da população, ainda que mereça que se sublinhe que esta tendência (menos tempo/actividades fora de casa) se iniciou ainda antes da pandemia. Concluem as/os autores, “mesmo tendo sido eliminados os efeitos mais sérios, a COVID-19 continua a impactar as nossas vidas e o nosso quotidiano.”

Sem dúvida. Continua a influenciar a forma como nos relacionamos com as outras pessoas, com a informação disponível e, nesse sentido, com a forma como tomamos decisões e os resultados das mesmas. E continua a interagir com alterações sociais entretanto verificadas e com o acesso, as possibilidades e os impactos das novas tecnologias, por exemplo no acesso e disseminação de (des)informação e na tomada de decisão.

Também por isso, as/os autores do primeiro estudo concluem apelando a que usemos mais humildade, “assumindo que não sabemos tudo” e que manter a “curiosidade sobre as lacunas no nosso conhecimento pode resultar em processos de tomada de decisão mais informados e integrados para todas e todos.”

Isto é tão mais relevante quanto será importante que, juntos, trabalhemos pela consolidação, afirmação e desenvolvimento da psicologia e pela confiança na mesma enquanto ciência (pelo valor aqui demonstrado) e enquanto prática (como tantas e tantos bem sabemos).

Juntos devemos contribuir para um reconhecimento maior da psicologia na sociedade e pela importância, para cada pessoa, de evoluirmos – conforme Ian Walker defende – do actual STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para um PSTEM, que inclua a psicologia e que faça justiça à sua relevância em tudo quanto envolva pessoas, o seu comportamento e a tomada de decisão. O Mundo, portanto.

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Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eleições OPP 2024

 

Estou certo de que algumas pessoas que, acompanhando o que escrevo e o que outras e outros colegas psicólogas/os aqui escrevem, não sendo elas próprias psicólogas ou psicólogos, estarão admiradas/os pela quantidade de mensagens relativas às eleições da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que amanhã, dia 29.11, acontecem. 

 

Peço-lhes paciência para uma mais e peço que reflictam, comigo, sobre o quão bom é vermos esta vitalidade no debate de uma ordem profissional, particularmente quando o debate é construtivo e voltado para a principal missão e atribuição de uma ordem: “A defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços”. Mais, no tempo que vivemos em que a psicologia, enquanto ciência e prática, é tão relevante aos principais desafios que se colocam à vida e ao bem-estar das pessoas, sejam de índole societal ou individual.

 

Às e aos colegas reforço o atrás, dizendo que são quase 3% do universo eleitoral (quase 10% em algumas regiões) as pessoas que se propõem dedicar do seu tempo e empenho à sua Ordem, candidatando-se. Isto num tempo em que todos os incentivos estão do lado de nada fazer, de com nada nos comprometermos, de a nada aderirmos porque, se o fizermos (e particularmente se eleitos), seremos, naturalmente, julgados, criticados, atacados, muitas vezes de forma injusta, desadequada e pouco construtiva, por quem nunca se tendo confrontando com os desafios com que as pessoas eleitas se confrontam, se precipita de forma por vezes pouco empática para verificações de incompetência, não integralidade ou não compromisso.

 

Eu, em 2020, depois de 6 anos enquanto coordenador operacional da OPP e quando vivíamos o 1º ano de pandemia por COVID-19 e coordenava o gabinete de crise, candidatei-me a vogal da direcção nacional integrado na lista que venceria as eleições, liderada pelo Francisco Miranda Rodrigues, a quem agradeço a confiança. Não fiz tudo bem, certamente, mas fiz o que fiz, contribui o que contribui, de forma dedicada e totalmente comprometida com a profissão e com o melhor interesse das pessoas que beneficiam da psicologia.

 

Hoje sou, orgulhosamente e assumindo responsabilidade, o 1º candidato pela Região Sul à Assembleia de Representantes (AR), integrado na lista B, Mais Ordem Mais Profissão, liderada pela Sofia Ramalho, a quem agradeço a confiança e a dedicação. Como agradeço às muitas centenas de psicólogas/os que fizeram, fazem e farão parte deste grupo, deste projecto, e que para ele tanto contribuíram num compromisso com uma visão que julgo merecer a oportunidade (de que creio todas e todos creio beneficiaríamos) de continuar e aprofundar o caminho que vem sendo percorrido.

 

Partilho qual sentimos ser o nosso contributo, a partir AR. Partilho o programa que participadamente construímos e que assumimos. Partilho 9 razões para 6ª Feira, dia 29.11, merecermos a vossa confiança.

 

 

Apresentação das/os candidatas/os à AR: https://www.youtube.com/watch?v=3s5VdJ3PKIw

 

Programa: https://maisordemmaisprofissao.pt/programaeleitoral/

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Comportamento Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

Esta afirmação consta de um trabalho que trata a forma como é fundamental – particularmente quando vivemos um período de desafio significativo nas questões da saúde mental – que as psicólogas e os psicólogos possam estimular, com o seu conhecimento, conversas informadas sobre saúde mental “em gelatarias, cabeleireiros, barbeiros e salões de beleza, restaurantes e outros lugares do nosso dia-a-dia”.

É uma afirmação de Ariana Hoet, directora executiva da “The Kids Mental Health Foundation”, uma fundação que se propõe contribuir para um Mundo em que a “saúde mental é parte vital do crescimento”, desenvolvendo nas pessoas adultas “competências para ajudarem as crianças a lidarem com os desafios da sua vida”.

Apesar do artigo tratar uma realidade distinta, creio existirem paralelos para outros países, incluindo Portugal, nas questões sobre como a formação prepara insuficientemente as e os profissionais para comunicar com diferentes públicos, disseminar a ciência e promover literacia e o viés existente para a comunicação mais académica / entre pares, bem como nos desafios que se colocam à saúde mental, particularmente de grupos específicos da população (crianças e jovens, pessoas em situação de exclusão e pobreza, …).

Também por isso tenho procurado contribuir para que se reflicta sobre um mais vasto contributo das psicólogas e psicólogos na disponibilização (e impacto) mais amplo da ciência psicológica, aproximando-a mais dos contextos de vida das pessoas, também a partir da influência conjunta com outras ciências, do trabalho com outros profissionais e com pessoas referência às vidas de outras pessoas. E faço-o a partir de quatro elementos que penso centrais da importância desse movimento:

a) Chegar a mais pessoas e a pessoas que dificilmente de outra forma procuram / conseguem aceder a serviços de psicologia;

b) Gerar mais capacidade de detecção precoce de problemas e, logo, maior possibilidade de intervenções mais próximas, custo-eficazes e que reduzam sofrimento;

c) Contribuir para a prevenção a partir de uma maior sensibilidade aos temas da saúde mental e da transformação societal em questões que concorrem para os desafios que hoje enfrentamos;

d) Fomentar conhecimento, literacia e ferramentas que permitam maior auto e heterocuidado nas comunidades.

Faço-o por aqui. Faço-o por aí. Fi-lo, por exemplo, em participações recentes em eventos próximos de comunidades e diferentes profissionais: em Albufeira, reflectindo sobre “Equidade e justiça social na Saúde Mental” (com a Carla Fernandes com moderação da Cláudia Cristina Dias Guedelha); em Aveiro, sobre ciclos de pobreza e o papel da parentalidade e sucesso educativo (com a Maria João Marques, a Carla Sousa, a Andreia Carvalho e a Sandra Araújo com moderação da Catarina Isabel Reis Neves).

Um pequeno contributo meu, nosso. De um tanto que há a fazer…

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Futuro da Psicologia Política Psicologia

Saúde mental no Trabalho – Fact Check da Saúde

Tenho reflectido muito sobre o aparente paradoxo de, em parte significativa do Mundo existir, hoje, uma discussão ampla sobre a importância da saúde mental e bem-estar e, até, acções mais significativas de suporte às populações neste âmbito, mas, simultaneamente, os indicadores nesta área apresentarem números crescentemente preocupantes e a percepção da população sobre o apoio nesta área ser muito baixa.

Há um conjunto de razões que, creio, apoiam a compreensão deste aparente paradoxo que se reflecte em diversas áreas, da saúde mental da população jovem à saúde mental e bem-estar no trabalho. Um recente trabalho da Gallup assinalava que, apesar da maior “preocupação com a saúde mental” e do crescimento de “iniciativas de bem-estar e programas de assistência”, a “percentagem de trabalhadoras/es que concordam fortemente que a sua organização se preocupa com o seu bem-estar geral atingiu um recorde negativo de 21% no início de 2024”. Este foi o valor mais baixo dos últimos 15 anos.

Apesar das limitações do estudo creio interessantes as propostas que apresenta às organizações para mitigar o tal paradoxo: avaliarem o impacto das acções e recursos que disponibilizam; expandir as estratégias de bem-estar para abarcarem os diversos elementos do bem-estar e a cultura da organização; e integrar o bem-estar nas “conversas”, em particular das lideranças.

Sobre esta necessidade partilhei convosco há cerca de um mês uma conversa com a Diana Bouça-Nova, aquando do Dia Mundial da Saúde Mental, este ano dedicado à saúde mental no trabalho.

Hoje, num outro exercício com o mesmo objectivo maior – reforço da literacia, da compreensão sobre estes fenómenos e sobre o seu impacto e sobre o que, de acordo com a melhor evidência científica disponível, pode ou não pode funcionar e porquê – partilho um episódio do “Fact Check da Saúde” – Canal S+

Versou a saúde mental no trabalho e com a Filipa Palha, sob moderação do Vasco Domingos e convite do João Maria Condeixa (a quem agradeço a confiança), coube-me abordar a relação dos factores profissionais com a saúde mental, as dimensões da conciliação entre vida pessoal e familiar e profissional ou o retorno potencial de iniciativas baseadas na evidência no bem-estar, produtividade e desenvolvimento organizacional.

Convido-vos a ver. Convido-vos a participar nesta reflexão e conversas que devem, a bem de todas e todos creio, ser aprofundadas.

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Wild Robot

Afinal… “A bondade é uma técnica de sobrevivência”.

Há dias partilhei por aqui um artigo que escrevi que resulta de uma reflexão que faço sobre a profunda articulação entre a empatia e a democracia, nos seus princípios e fundamentos de organização, onde o reconhecimento, a confiança, a equidade, a justiça integeracional e a coesão social são princípios e missões fundamentais.

Princípios estes profundamente ligados à possibilidade de bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas e, logo, à psicologia enquanto objecto e enquanto profissão, como bases da sua identidade.

Este Sábado, eu e o meu filho mais velho fomos ver um filme – Wild Robot | Robot Selvagem – que parte de uma narrativa curiosa que imagina um Robot “inteligente” e o seu enquadramento e contexto (a imaginação de um futuro possível) num cenário de uma “selva” (a imaginação de um passado possível), em que animais e Robot comunicam e interagem entre si. Para quem não viu e para quem nada sabe sobre o filme, creio que as linhas anteriores são suficientes para pensarem o conjunto de poderosas metáforas e alegorias que resultam da maior – este enquadramento.

Deixo-vos, também por isso, uma espécie de convite a que, na continuidade do que havia escrito no tal artigo, possam ver o filme e sobre ele, como o tenho feito, reflectir um pouco… E deixo duas sugestões de reflexão:

a) A forma como possibilita, à sua maneira, colocar milhões de crianças e jovens (e adultas/os) Mundo fora a pensar a triangulação entre a bondade, a relação e a nossa interdependência. Como, muitas vezes “contra” os nossos instintos e vieses, é a cooperação, a relação e um pensamento mais a médio e longo prazo e não a competição, o conflito destrutivo e um certo hiperimediatismo e procura de “ganhos imediatos e individuais”, que mais contribuem para a nossa sobrevivência, para o nosso bem-estar e para um futuro de médio e longo prazo, melhor para nós e para todas e todos.

b) A forma como, à sua maneira, coloca milhões de crianças e jovens (e adultas/os) perante paradoxos: o do filme e de um “acidente” que, sendo mortal para a família de uma personagem, a “salva”; o do Mundo que, hoje com muita reflexão sobre estes temas, com um maior foco nas últimas décadas nos Direitos Humanos e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável caminha como caminha. Num e noutro caso a fazer-me (fazer-nos?) pensar o que poderá estar a falhar (para melhorarmos), mas também onde estaríamos se atravessássemos o actual contexto sem esse caminho que, apesar de tudo, fomos capazes de percorrer e que urge ser reforçado, continuado e aprofundado.

Até porque, como o filme bem mostra, parece que tudo pode mudar. E que se abrem múltiplas possibilidades quando acreditamos que é possível um Mundo melhor e que “para (sobre)viver temos que ser mais do que aquilo para o qual nos programam”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Futuro da Psicologia Psicologia Tecnologia

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

Lembram-se dos sprays extraordinários que prometiam resolver a calvície com a produção de “cabelo instantâneo” das televendas?

“Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar (…) Hoje, a reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, há um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento: as dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos EUA.”

“Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar”, 93º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência, quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm estudos de impacto).”

Esta realidade “tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter na promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.” Mas, mais, “quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados e confidencialidade” pode determinar a utilização abusiva de pensamentos, emoções e dados biométricos de pessoas, algumas em situação especialmente vulnerável (no texto descrevo o caso da BetterHelp’s).

Ainda, esta expansão, “a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups potencia: a) a simplificação, pela criação de algoritmos que tendem a transformar fenómenos complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) a generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, gerando menor identificação, utilização e eficácia em pessoas com menor educação, práticas culturais diversas, etc.

Neste sentido, “para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações podem ter, além da utilização do online para sessões/consultas (…) Podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e melhoria da eficácia das intervenções.

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Saúde Mental no Trabalho

“Não pode haver assédio no local de trabalho e ioga à hora de almoço… E quem lidera não pode entender que, por haver ioga, os problemas estão todos resolvidos.”

Foi esta a frase que a CNN Portugal destacou da conversa que tive com a Diana Bouça-Nova no Domingo que aqui partilho.

Conversa a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, da Saúde Mental no trabalho (tema em 2024) e que tocou:

a) A preocupação crescente de empresas e organizações com este tema, mas a necessidade de se continuar e aprofundar este caminho;

b) O papel da World Health Organization na promoção de literacia da população e no reforço da importância, também, dos factores psicológicos e sociais na saúde mental;

c) O destacar que o tema do dia em 2024 assinale a importância dos locais de trabalho, quer no quanto podem ser um factor protector, como um factor de risco da saúde mental das/os trabalhadoras/es;

d) Os custos, também económicos, que acarretam às empresas e organizações o absentismo e presentismo relacionado com situações de stresse e problemas de saúde mental (https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_relatorio_prosperidadeesustentabilidadedasorganizacoes2023.pdf);

e) Como até 30% destes custos podem ser preveníveis com intervenções de avaliação e prevenção de riscos psicossociais e o quanto poderia ser importante a concretização das recomendações da Direção-Geral da Saúde e de grupos de peritos ao Governo visando alterações legislativas para a criação da figura da/o “Psicóloga/o do Trabalho” e sua inclusão nas equipas de saúde ocupacional;

f) O quão relevante poderá ser generalizar, por via dessa alteração, padrões e actividades mínimas que permitam avaliar e gerir riscos psicossociais com equidade (para todas e todos os trabalhadores e não apenas em empresas / organizações mais sensíveis a estes temas) e, dessa forma, estabelecerem-se planos de acções visando os factores que concorrem para a emergência dos problemas (exigências cognitivas e/ou emocionais; problemas de conciliação; problemas de confiança, relação e comunicação; horários de trabalho; …) e não apenas actuar sobre as consequências dos mesmos;

g) Como, além do rendimento disponível, naturalmente muito importante, um foco na promoção da saúde e bem-estar no trabalho em Portugal pode ser, também, factor de atração e vínculo ao país, particularmente da população mais jovem;

h) Com a intervenção que destaco no início, salientar a necessidade das respostas de promoção da saúde mental e bem-estar no trabalho serem integradas, alinhadas, priorizadas e generalizadas em toda a organização e que “nem tudo serve”, reforçando que existe ciência e evidência científica e que existem profissionais preparados para com eficácia apoiar organizações e empresas neste objectivo.

Grosso modo, assim foi a conversa mas convido-vos a ver…A ver e a comentar, se desejarem. Até porque, como a Diana Bouça-Nova diz no final, também eu gostava que continuássemos esta conversa. Esta importante conversa.

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Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia

Estamos no início da semana onde, 5ª feira (10.10), se comemora o Dia Mundial da Saúde Mental. Felizmente, nos últimos anos e num processo crescente desde antes da pandemia (acelerado nesse período), escrevemos, conversamos, partilhamos e educamos muito mais sobre saúde mental todos os dias do ano. Como em tudo, esse facto, não tendo apenas aspectos positivos, é algo muito importante e relevante e tem um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos que para ele contribuem com o seu trabalho e com a sua participação.

Outra, creio, vem mais paulatinamente a caminho. Também muito importante e relevante e com um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, refere-se à forma como se escreve(rá), conversa(rá), partilha(rá) e educa(rá) sobre os processos de tomada de decisão e o conjunto de factores pessoais, interpessoais, sociais e contextuais que apoiam a sua compreensão. E como, paralelamente, podemos crescer em quantidade, qualidade e impacto os contributos das ciências comportamentais – particularmente da psicologia – para o desenho, implementação e avaliação de políticas públicas.

Ambas as alterações carecem de uma ciência psicológica sólida e confiável e de uma profissão de psicóloga/o com um exercício claramente assente em padrões éticos e deontológicos co-construidos, partilhados e consequentes.

Também por isso, em boa hora, a Ordem dos Psicólogos Portugueses viu finalmente consagrada a sua representação no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida onde é superiormente representada pelo Miguel Ricou. Ele e a presidente do CNECV (Maria do Céu Patrão Neves ) editaram o “Ética Aplicada – Psicologia” e, simpaticamente, convidaram-me a escrever um capítulo: “A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” (sobre isso aqui escrevi).

Ora, amanhã (na FPCE da Universidade do Porto), estarei numa conversa/apresentação do livro com o Miguel Ricou e o Luís Fernandes com o mote: “Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia”. Tenho viés porque admiro-os muito mas tenho cá para mim que vai ser estimulante. Junta(m)-se a nós?

Ps. Hoje passa um ano sobre os hediondos acontecimentos resultantes da invasão por combatentes do Hamas de Israel. Faltam-me palavras para os descrever. Como me faltam para descrever tudo quanto nestes 365 dias, incluindo os graves crimes cometidos pelo exército de uma Democracia/Estado de Direito, aconteceu em sua consequência e/ou por eles justificado. Proponho, hoje, um pequeno texto que escrevi sob forma de pequena e singela de reflexão e proposta acção. Chamei-lhe “Reconhecer”.