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Ainda o 6º Congresso OPP/XIII FIAP

O 6º Congresso da OPP/XIII da FIAP terminou há uma semana mas continua aqui. Associo-me a esse belo movimento com uma mensagem última em forma de agradecimento(s):

. Ao Francisco Miranda Rodrigues por ter confiado e me ter convidado a presidir à sua Comissão Organizadora e, nele, a todas as largas dezenas de psicólogas/os com diferentes papéis na Ordem dos Psicólogos Portugueses pelos seus múltiplos contributos para o sucesso do congresso;

. À Clara Silva e nela a toda equipa de trabalhadoras/es da OPP que formam, particularmente quando perante exigências complexas, uma força coesa, empenhada, criativa e segura. São inexcedíveis e são ainda capazes de agregar outras pessoas, no caso do Congresso o grupo de voluntárias/os (a quem também agradeço) que são a base (e que importante é a base) para que tudo funcione;

. À comissão científica excepcionalmente liderada pela Isabel Soares que teve um papel determinante da preparação da recepção das mais de 7 centenas de submissões à organização e moderação das sessões de comunicações, pósteres digitais e espaço jovem (especial agradecimento à Carolina Oliveira, força motriz desta iniciativa). Incrível trabalho.

. Ao João Reis, com quem tive uma impactante (pelo menos para mim) conversa sobre “um só planeta”; à Raquel Corval , Leonor Carvalho, Sandra Araújo e Isabel Soares com quem conversei sobre os primeiros mil dias (e que orgulho serem tema no congresso da OPP); à Ana Rita Gomes, Inês Pimenta de Castro, Andresa Oliveira, João Salgado, Maria João Mosca e Daniel Maia com quem conversei sobre a intervenção psicológica à distância e seus desafios e oportunidades. Neles agradeço às quase 5 centenas de oradoras/es e às/aos restantes quase 2500 participantes;

. Aos patrocinadores e stands que confiaram no congresso para associarem as suas marcas e produtos e que co-construiram a sua experiência, também fora das salas de sessões;

. Às organizações internacionais participantes, nomeadamente do espaço ibero-americano, países língua oficial portuguesa e à EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), American Psychological Association e COP.

A todas e todos agradeço o sentido de comunidade, o espaço de celebração.

“…e este percurso”, disse o Sr. Presidente da República na sessão Solene falando do processo de afirmação da psicologia e da valorização do contributo das psicólogas e psicólogos na sociedade portuguesa, “foi um percurso que explica estes congressos. Quem chega aqui aos congressos a sensação que tem é que este duplo congresso [OPP/FIAP] é uma festa. Não é o cumprimento de um dever, de uma obrigação, é uma festa. Se quiserem, uma festa de autodeterminação”.

A celebração da autodeterminação e da procura incansável da promoção da sua possibilidade para todas as pessoas por parte de 28.000 psicólogas/os, dia após dia, nos mais variados contextos. 28.000 psicólogas/os, cidadã(o)s.

Foi uma honra ter tido esta oportunidade e ter podido dar este meu contributo para este nosso Congresso.

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Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Lugar de…

Lugar de (re)encontro.

Lugar de debate.

Lugar de equipa.

Lugar de desafio.

Lugar de advogar.

Lugar de celebrar.

Lugar de contributo.

Lugar de equidade.

Lugar de interdisciplinariedade.

Lugar de autonomia.

Lugar de autocuidado.

Lugar de heterocuidado.

Lugar de ciência.

Lugar de prática.

Lugar de compromisso.

Lugar de intergeracionalidade.

Lugar de valorização.

Lugar de mobilização.

Lugar de questionamento.

Lugar de ética.

Lugar de formação.

Lugar de inovação.

Lugar de co-construção.

Lugar de comunidade.

Lugar de todas e todos.

Lugar da Psicologia.

Hoje, amanhã e depois de amanhã, Centro Cultural de Belém e ao redor | 6º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses | XIII Congresso da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP)

Até já. Lá ou por aí…

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais (Sábado; Ao redor…; 10.09.2024)

Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.

Sabemo-lo. Mas…

Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.

Sabemo-lo também. Mas…

Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:

a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.

 

b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.

c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.

 

d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.

 

e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.

 

f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.

 

Tiago Pereira

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais

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Futuro da Psicologia Política Psicologia

Psicadélicos

O Pedro Teixeira, PhD dedicou-se a escrever um ensaio que considero especialmente relevante. Editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama-se “Psicadélicos em Português” (https://ffms.pt/pt-pt/livraria/psicadelicos-em-portugues) e concentra um conjunto de informação, olhando o passado, o presente e potenciais futuros da utilização dos psicadélicos, do seu potencial e riscos.

Escreve o Pedro, na nota de abertura do livro, que os psicadélicos “transportam a mente humana e também os sentidos para lugares deslumbrantes ou inóspitos (…) perdidos nos mil atalhos da memória”. Perdidos nos mil atalhos da memória e determinados pelos milhões de ligações da nossa experiência, do nosso sentir e do nosso conhecimento na relação connosco e com o que nos rodeia, acrescento.

Esta multiplicidade e diversidade fascina-me. Fez-me querer estudar psicologia para a poder compreender um pouco melhor. Ou, talvez, apenas para a (e me) questionar melhor. Fez-me ser psicólogo, depois, pelo que sinto que a profissão pode contribuir, com este conhecimento e as práticas que dele resultam, para intervir junto de pessoas e comunidades e, ainda, para informar políticas públicas, sempre no sentido da promoção de maior equidade e coesão social e, nesse sentido, de mais saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas.

É neste sentido – do fascínio pela multiplicidade, pela diversidade, pela compreensão do que nos rodeia – que entendo o convite do Pedro para estar no debate (“Psicadélicos: Para quê e para quem?”) em torno do livro e organizado pela SafeJourney, no próximo Domingo (22.09) em Lisboa. Nesse e no sentido em que também prefiro (e opto por) recusar o conformismo, conforme uma característica que o Pedro diz, também nessa nota de abertura, ser comum às pessoas que encontra nesta “comunidade”.

O mote do debate será a partilha de “impressões, questões e inquietações que a leitura do livro” nos suscitou e, estou certo, será um debate construtivo, porque feito com a segurança de termos pessoas que se respeitam e aceitam mutuamente. Eu acrescento, por ter pessoas que admiro. Estarei com o Fernando Alvim, a Joana Bértholo, o Joaquim Evangelista e o Pedro Marques Lopes e será moderado pelo José Maria Pimentel, sendo que a expressão moderação quando se trata do José Maria Pimentel ganha outra expressão e significado. Isto, além do Pedro Teixeira, claro está.

Em 2020, para um trabalho do Expresso, o João Taborda da Gama dizia que “porventura, na nossa geração, não vamos apanhar outro tema de mudança social tão grande como este”, os psicadélicos. Num tempo de crise climática, de inteligência artificial generativa, de conflitos militares significativos e de alterações sócio-económicas e demográficas por todo o Mundo, os psicadélicos. Venha ou não a ser o mais significativo do nosso tempo, impõe-se que reflictamos. Hoje e amanhã. Vêm fazê-lo comigo e connosco?

Mais informações: https://www.tickettailor.com/events/safejourney/1385343

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Psicologia

Agência.

Lembram-se da “TINA”, o acrónimo em inglês para o “NHA” português [There Is No Alternative | Não Há Alternativa]?

Estamos num desses momentos. Confrontados com incêndios que nos fazem sentir impotentes e descrentes em que possamos fazer algo para prevenir, no futuro, estas situações e os seus impactos. Confrontados com fenómenos sociais que, conjugados no tempo, nos fazem desafiar a percepção de segurança que o nosso país continua a oferecer, por comparação à grande maioria (quase totalidade) de países, Mundo fora.

Estamos num desses momentos porque, sozinhos, sentimo-nos distantes, desempoderados e descrentes de poder fazer algo que, significativamente, contribua para minimizar estas situações e mitigar os seus efeitos.

Mas… Assim não é. Pensemos nas pessoas, hoje e nos últimos dias, envolvidas no combate aos incêndios e apoio às populações. Em como as comunidades se unem para, juntas, resistirem. Em como profissionais e voluntárias/os dão o que têm e o que não têm pelas outras pessoas e pelos lugares.

Neles inspirado, pensemos em como, mesmo à distância, podemos contribuir e advogar para uma mobilização social que reconheça local e globalmente a crise climática e como podemos contribuir, individual, colectiva e globalmente para a sua mitigação. Como podemos advogar por alterações no ordenamento do território e na organização da sociedade, para maior prevenção destas situações. Também para uma preparação das comunidades para protocolos de actuação em situações como os desastres naturais ou acontecimentos inesperados, aumentando a sua percepção de controlo, a resiliência individual e colectiva e a sua segurança e previsibilidade. Como podemos, mesmo à distância, dar pequenos grande contributos como são exemplo dar sangue, conversar e ligarmo-nos a pessoas próximas, comunicar estes fenómenos com as crianças e jovens diminuindo o seu impacto. Como nos podemos aproximar e suportar as pessoas que mais sofrem com estes fenómenos e construirmos comunidades. Como podemos contribuir para fazer cair o “N” da TINA e do NHA e promover agência nas pessoas e comunidades.

Eu, singelamente, procuro fazê-lo. Junto das pessoas mais próximas. Também em pequenos contributos como os que partilho, sobre a importância de comunicarmos fenómenos como o da EB da Azambuja com crianças e jovens (obrigado Nuno Vinha) ou sobre a hiper-exposição e o papel da comunicação e do suporte da comunidade (obrigado, Carla Jorge de Carvalho). Acredito na possibilidade de mudança e isso é, para mim, um factor protector.

A mudança é possível. De outra forma, aquando destas situações, não falaríamos ainda do impacto na saúde mental e bem-estar. A mudança é possível. Podemos empoderar pessoas e comunidades para lidar com estes fenómenos. Podemos promover recursos individuais e comunitários, mesmo tudo fazendo para que estes fenómenos não se repitam.

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

A fuga do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus foi o acontecimento mediático da semana passada. Sendo um acontecimento necessariamente significativo, temo que esta atenção resulte no que resultou o sobressalto após a fuga do EP de Caxias de 2017: poucas alterações substantivas ao sistema judicial e prisional; pouco debate sobre as condições da reclusão e dos processos de prevenção da (pequena) criminalidade e de reinserção e reintegração.

Vejamos. Portugal é o 7º país mais seguro do Mundo e o 7º país da União Europeia (UE) com menor taxa criminalidade violenta. Tem, em simultâneo, um número de reclusas/os acima da média na UE e é o país da UE com penas de prisão médias mais longas.

Um paradoxo? Sim, certamente… Pequenos comentários sobre ele:

 

a) Um trabalho da “The Psychologist” de 10.09 trata o tema e parte de uma ideia sobre a qual creio devermos reflectir: a necessidade de inscrevermos que “as pessoas estão detidas como punição e não para serem punidas”;

 

b) Reforça, depois, o papel da pobreza e da exclusão como trajectórias para a (pequena) criminalidade e o ciclo de, após uma detenção, a dificuldade de integração social (trabalho, habitação, …) potenciar a reincidência. Algo especialmente factual em Portugal onde a população reclusa é maioritariamente marcada pela pertença comunitária não maioritária e/ou pela pobreza. Onde a taxa de reincidência é muito elevada;

 

c) O populismo, ontem mais latente que hoje na população portuguesa, mas que sempre influenciou (influencia) decisoras/es e partidos “catch all”, muito contribuiu (contribui) para inexistência de pressão da sociedade civil para a garantia de melhores condições para reclusas/os e para profissionais que trabalham no sistema prisional, quer sejam as/os que garantem a segurança de reclusas/os e sistema, quer quem se foca na promoção da educação, saúde, trabalho (reinserção social). Fazem-no pela utilização do exemplo, factual por vezes, não factual noutros, contra dados oficiais e pelo exacerbar do revanchismo e medo como estímulo para políticas públicas claramente contracíclicas face à ciência e às boas práticas nos direitos humanos.

Que este seja um tempo de pensarmos em transformações que, sendo complexas, são possíveis. Que atendemos às e aos profissionais. Que empoderemos as comunidades para a inclusão. Que pensemos as condições, a saúde (incluindo a saúde mental) e o bem-estar da população reclusa. Que previnamos as condições sociais que determinam as trajectórias e diminuamos a reincidência. Tudo investimentos de retorno económico significativo e de promoção de bem-estar e coesão social.

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

Ps. Imagem captada pelas câmaras de videovigilância do EP de Vale Judeus partilhada por diversos órgãos de comunicação social depois de disponibilizada numa rede social do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (!).

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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A Alhambra e a atomização…

Não começando com o “Al” das palavras de origem árabe (como Algarve e a sua alfarroba), tenho pensado muito na Alhambra e na sua relação com o verbo atomizar.

Este Verão visitei a Alhambra (Granada), provavelmente o melhor preservado conjunto de monumentos representativos da história da cultura e arquitectura islâmica da Península Ibéria. Aconselho vivamente a visita a quem ainda não teve essa oportunidade, pela beleza e pela história que encerra, naturalmente, mas, também, pela coesão e identidade daquele aglomerado de edifícios, jardins, caminhos e espaços públicos e pela intencionalidade com que foi construído. Cada peça, cada canto e recanto, cada jardim, cada pormenor parece perspectiva de pensado, planeado e executado na perfeição e com atenção ao mais ínfimo detalhe, criando sentido, dando significado ao espaço e melhorando a sua eficiência. Isto, nas dimensões de promoção do bem-estar de quem lá habitava, na rentabilização dos recursos naturais e na segurança e força (poder) que passava a quem visitava a Alhambra ou pensava “conquistá-la”.

A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, de construção de comunidade. A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, do que pode ser construído em comunidade.

Recorda-nos a importância da colaboração, do trabalho em equipa, das relações e do foco na coerência do conjunto, do todo. Recorda-nos a importância de resistirmos aos processos de atomização e fragmentação em sociedade, hoje muito comuns em particular nos serviços públicos. Não raras vezes, quer por processos de redução de custos, ausência de recursos e/ou resposta mais imediata a necessidades, quer por processos de desconfiança e de falta de colaboração entre profissionais, quer por processos de hiperespecialização, temos, enquanto comunidade e sociedade, optado pela desagregação de conjuntos coerentes (partes que fazem um todo) de resposta/serviços, pulverizando acções, segmentando-as e dividindo as acções. Na saúde. Cada vez mais na Educação, perdemos comunidade e conjunto em função da dispersão e individualização de processos e acções.

Perdemos comunidade e perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhores respostas às pessoas. Perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhor e, com isso, espaço de construir comunidade.

Também por isso, importa que pensemos nos impactos para o futuro das respostas que hoje construímos para os desafios que se nos colocam no presente mais imediato. Na sua sustentabilidade e impacto a médio e a longo prazo. Eventualmente na forma como podem, essas respostas, criar desafios e como os consideramos.

A Alhambra é, para mim, não sem problemas e sem a necessária contextualização, uma expressão viva do poder da comunidade e de como comunidade gera comunidade e, em sentido contrário, atomização gera fragmentação.

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O MEC…

“Viver com preconceitos é como passear de tanque.”

Faço parte do conjunto de pessoas que com regularidade lê o Miguel Esteves Cardoso. Leio-o e, como ele, reflicto sobre o Mundo ao redor. Aprendi e aprendo muito com ele. Pensei e penso, senti e sinto muito com ele.

Ontem, sobre como os nossos preconceitos e vieses influenciam a nossa tomada de decisão e comportamento. Influenciam a nossa vida e, nesse sentido, porque todas e todos os temos, a nossa sociedade.

“Espreita-se a rua, vêem-se as pessoas e até podemos arriscar e mostrar a cabeça, para poder falar directamente com alguém, ou respirar o vento. Mas estamos dentro de um tanque. E não é assim que se mexem os animais deste planeta”.

Não, não é. E o MEC descreve, à sua maneira, porque não, não é, e porque isso nos retira oportunidades de experimentar, de sentir, de ser. Porque pode encerrar-nos, mas…

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem…”

Diz, com propriedade. Efectivamente os vieses que suscitam que, com maior ou menor intensidade – também dependendo das nossas características e experiências, do nosso momento de vida e do tema/acontecimento a que se apliquem – automaticamente consideremos mais o presente e o imediato (face ao passado e mais distante), o negativo (face ao positivo), que confirmemos as nossas ideias prévias e preconceitos tiveram e têm um papel na nossa protecção enquanto indivíduos e espécie.

Um bom exemplo é o viés da intencionalidade que, muitas vezes, surge associado a explicações sobrenaturais para fenómenos naturais ou a teorias da conspiração. A crença de que se algo aconteceu, aconteceu porque algo ou alguém intencionalmente o provocou (desde logo, retirando espaço ao fundamental acaso das nossas vidas), foi muito importante numa perspectiva de evolução da espécie para a defesa e protecção face a ameaças externas. Historicamente, a “perda” associada a se pensar que podia existir um “elemento ameaçador” que fez com que caísse um fruto duma árvore atrás de nós sem que esse elemento existisse gerou, apesar de tudo, decisões e comportamentos com menor perda potencial relativamente a achar-se que o fruto tinha simplesmente caído por si e existir mesmo um “elemento ameaçador” na árvore atrás de nós, de onde caiu o fruto.

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem. Mas também nos protegem do que é bom.”

Protegem do que é bom…

Hoje, embora alguns vieses não contribuam para o pensarmos e sentirmos assim, o Mundo, para a maioria das pessoas (infelizmente não para todas), é menos ameaçador.

Experimentemos, portanto, pensar diferente, fazer diferente. Permitamo-nos sentir diferente. Quem sabe gostaremos. Quem sabe compreenderemos melhor a/o outra/o. Quem sabe sentir-nos-emos mais e melhor…

Dia bom para vocês… Hoje é um bom dia para ser um dia bom.

Ps. Experimente ler o “Experimente que vai ver” [MEC | 05.09.24]

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.