Não começando com o “Al” das palavras de origem árabe (como Algarve e a sua alfarroba), tenho pensado muito na Alhambra e na sua relação com o verbo atomizar.
Este Verão visitei a Alhambra (Granada), provavelmente o melhor preservado conjunto de monumentos representativos da história da cultura e arquitectura islâmica da Península Ibéria. Aconselho vivamente a visita a quem ainda não teve essa oportunidade, pela beleza e pela história que encerra, naturalmente, mas, também, pela coesão e identidade daquele aglomerado de edifícios, jardins, caminhos e espaços públicos e pela intencionalidade com que foi construído. Cada peça, cada canto e recanto, cada jardim, cada pormenor parece perspectiva de pensado, planeado e executado na perfeição e com atenção ao mais ínfimo detalhe, criando sentido, dando significado ao espaço e melhorando a sua eficiência. Isto, nas dimensões de promoção do bem-estar de quem lá habitava, na rentabilização dos recursos naturais e na segurança e força (poder) que passava a quem visitava a Alhambra ou pensava “conquistá-la”.
A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, de construção de comunidade. A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, do que pode ser construído em comunidade.
Recorda-nos a importância da colaboração, do trabalho em equipa, das relações e do foco na coerência do conjunto, do todo. Recorda-nos a importância de resistirmos aos processos de atomização e fragmentação em sociedade, hoje muito comuns em particular nos serviços públicos. Não raras vezes, quer por processos de redução de custos, ausência de recursos e/ou resposta mais imediata a necessidades, quer por processos de desconfiança e de falta de colaboração entre profissionais, quer por processos de hiperespecialização, temos, enquanto comunidade e sociedade, optado pela desagregação de conjuntos coerentes (partes que fazem um todo) de resposta/serviços, pulverizando acções, segmentando-as e dividindo as acções. Na saúde. Cada vez mais na Educação, perdemos comunidade e conjunto em função da dispersão e individualização de processos e acções.
Perdemos comunidade e perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhores respostas às pessoas. Perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhor e, com isso, espaço de construir comunidade.
Também por isso, importa que pensemos nos impactos para o futuro das respostas que hoje construímos para os desafios que se nos colocam no presente mais imediato. Na sua sustentabilidade e impacto a médio e a longo prazo. Eventualmente na forma como podem, essas respostas, criar desafios e como os consideramos.
A Alhambra é, para mim, não sem problemas e sem a necessária contextualização, uma expressão viva do poder da comunidade e de como comunidade gera comunidade e, em sentido contrário, atomização gera fragmentação.