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Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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Tecnologias e Pessoas mais Velhas

No Domingo, noite dentro, pude e pudemos fazer algo que muito gostamos, mas que, nesta fase, só em situações mais excepcionais podemos fazer: ir ao cinema. Fomos. Vimos, ouvimos e, sobretudo, sentimos o “Elis & Tom, Só tinha de ser com Você”.

Filme, documentário, em torno da gravação do mítico “Elis & Tom”, álbum que resulta do encontro entre duas pessoas incrivelmente talentosas, Elis Regina e António Carlos Jobim. Lançado em Agosto de 1974, comemora por estes dias o seu 50º aniversário e merece ser ouvido. Como o filme merece ser visto, o álbum merece ser ouvido e ouvido e ouvido. Um álbum com 50 anos.

No filme uma das pessoas que acompanhou a produção do trabalho aborda os impactos da tecnologia, hoje, e como, a seu ver, “torna tudo presente, não dando espaço ao pensamento e à criação de algo intemporal” capaz de passar e permanecer por “gerações e gerações”, como aconteceu com aquele disco. Diz, por outras palavras, que aquele trabalho não seria o mesmo num eventual 1974 numa Los Angeles feita, também, de pessoas com as suas tecnologias, como hoje existem. Di-lo mesmo considerando tratar-se de um álbum de duas pessoas adultas aquando da gravação.

Efectivamente os impactos – quer se trate dos potenciais benefícios, quer dos potenciais riscos – da utilização da tecnologia não se restringem aos bebés, crianças e jovens, momentos do desenvolvimento em que automaticamente pensamos quando reflectimos sobre os impactos das tecnologias.

A este propósito tive uma conversa que partilho com a Carla Rocha para o programa da Radio Renascenca “Quarto do Fundo”. Versando sobre “como as tecnologias podem afectar as pessoas mais velhas”, procurei nela reforçar a ideia anterior. Também sublinhar que os “ecrãs” e a “tecnologia” vai muito além das redes sociais e do telemóvel.

Discutimos benefícios para a saúde e bem-estar das pessoas mais velhas, para a relação, para a conexão, para maior informação sobre saúde e autocuidado e até para a prevenção das demências, através do seu uso adequado e moderado. Tal qual discutimos que usos inadequados e excessivos potenciam os riscos, nomeadamente ao nível de perdas cognitivas, do excesso de preocupação e ansiedade face, por exemplo, a fenómenos sociais decorrentes da visualização sucessiva de notícias, bem como de inactividade, perda de autonomia, dificuldades no sono, maior isolamento e até ao cibercrime.

Terminamos a discutir como podemos equilibrar a utilização dos ecrãs com a presença física junto de pessoas e em actividades, o papel das cuidadoras e cuidadores, formais e informais, neste processo e como todas e todos podemos contribuir para uma melhor sociedade com maior possibilidade de saúde e bem-estar, também através da tecnologia.

Muito obrigado, Carla Rocha.

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Decidir hoje, decidir amanhã

“Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Decisões que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida (…) A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

“Decidir hoje, decidir amanhã”, 88º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a investigação e caminho percorrido relativamente ao processo cognitivo de tomada de decisão, processo que inclui não apenas “dimensões racionais e observáveis, mas também emocionais e intuitivas.”

Pensa como “as significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão”. Como os “processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades.”

Partindo do exemplo do que hoje delegamos e do que poderemos ou não vir a delegar das nossas decisões à inteligência artificial, procura sublinhar que “se estas alterações podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes” será essencial “um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.”

Termina afirmando que sendo o processo de tomada de decisão “complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos”, se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também os desenvolvimentos em curso, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.”

Ps. Este texto é adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (2024; Edições 70), coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou.

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

Equidade–Diversidade–Inclusão. “Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava este referencial como um dos pilares fundamentais de todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.”

“Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal”, 87º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a importância de “programas que visem a vinculação das e dos mais jovens ao país” conterem, além de medidas junto da população mais jovem, “estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações”.

Porquê, podem perguntar-se… Porque “temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar (…) Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações.”

No artigo procuro, como este contexto, sublinhar o quão fundamental pode ser as “organizações terem presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais à sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, culturas, géneros, gostos e de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos.”

“Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.”

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13 de Julho…

Conforme este nosso planeta não pára de rodar em torno do seu próprio eixo e de girar à volta do Sol, o que se passa nele não pára de nos surpreender. De nos desafiar.

À dias lia como estudos mais aprofundados sobre um fóssil, apelidado de “Tina” e descoberto em 1989 na província de Valência, vêm demonstrado como uma criança Neandertal, cujo tempo de vida se estima situado entre os 273 e os 146 mil anos antes de Cristo, viveu no mínimo até aos 6 anos com Síndrome de Down. Ou seja, como recuando centenas de milhares de anos encontramos antepassados nossos que desenvolveram sentido de pertença, de comunidade, de altruísmo perante outras e outros, o manifestaram e como foram também esses sentidos e atributos que nos trouxeram aos seres humanos de hoje, aos dias de hoje.

Penso-o à luz de dois recentes e extraordinários 13 de Julho nos EUA que, à sua forma, serão também lembrados por dezenas ou centenas de anos (embora, talvez, não centenas de milhares de anos):

a) O de 2013 quando Alicia Garza, junto com companheiros, “cunhou” a hastag “#BlackLivesMatter”, a propósito da morte de um jovem e do processo de julgamento da pessoa por ela responsável. Concorde-se mais ou menos com a forma como todo o movimento que se seguiu foi e tem sido gerido (por vezes utilizado), é um momento (e movimento, depois) simbólico da afirmação do valor de todas as vidas, de todas as pessoas, e de um bem maior que trata o respeito da pessoa humana, qualquer que seja a sua história, origem ou conjunto de características;

b) O de 2024 quando numa acção de campanha, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, a dias de ser formalmente indicado em convenção pelo Partido Republicano como novamente candidato às presidenciais de 2024, foi alvo de uma tentativa de assassinato que foi, por apoiantes e por adversárias/os, amplamente condenada como uma tentativa absolutamente inaceitável e intolerável de atentar contra uma vida humana e contra a ideia de democracia.

Numa mensagem de agradecimento ao apoio que justamente tem recebido, Donald Trump escreveu ontem na sua rede social que não deixará e deixarão “que o mal vença”. Por uma vez, estamos de acordo. Não deixar “que o mal vença”.

Não deixar que o mal vença os valores de pertença, comunidade e altruísmo que nos trouxeram aos dias de hoje. Não deixar que o mal vença a ideia de que cada ser humano é um ser com direitos, independentemente da sua história, origem ou conjunto de características. Não deixar que o mal vença um sistema de opinião e participação livre, de adversárias/os e não inimigas/os, de democracia.

Espero que possamos também concordar que, para tal, todos temos que fazer a nossa parte, mais ou menos singela, para criar condições e contribuir para objectivos, para um chão e para uma ideia de bem-comum e de possibilidade de compromisso entre pessoas que, naturalmente, podendo (e devendo) discordar, são parte de uma mesma sociedade.

Como à centenas de milhares de anos, hoje, olhando e contribuindo para o amanhã.

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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação (Ao redor…; 02.07.2024)

Lisboa, 14 de Maio de 2024: O governo português, reunido em Conselho de Ministros, aprova uma resolução que determina “o desenvolvimento de um novo aeroporto internacional de Lisboa, com a designação de Aeroporto Luís de Camões, localizado no Campo de Tiro de Alcochete”. Copenhaga, 14 de Maio de 2024: Ursula von der Leyen, numa intervenção no Congresso da Democracia de Copenhaga, defende que a “Europa tem de lutar pelos seus valores e pelas suas democracias sob pena de serem pirateadas por autoritarismos que procuram corroer e erodir tudo o que se construiu nos últimos 70 anos”.

Estávamos em 1969 quando se iniciou em Portugal o debate sobre a relocalização do Aeroporto da Portela. Processo cuja concretização da resolução acima referida pode concluir, mais de 60 anos depois e após múltiplas e diversas decisões e possibilidades de relocalização. Vivia-se, em 1969, tal como se vivia em Espanha, numa das últimas ditaduras que resistiam enquanto ditadura na Europa do pós II Guerra Mundial e seria certamente inimaginável que esta decisão pudesse demorar 60 anos a ser concretizada. Um inimaginável que, dia-a-dia, pelos avanços e recuos nas decisões e não-concretizações, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “novo aeroporto” e que fez com que, necessariamente, desviássemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos.

Não precisamos de recuar tantas décadas para considerarmos inimaginável o momento que vivemos na Europa. Momento que, conforme von der Leyen bem refere, se caracteriza por um forte questionamento dos valores da União Europeia e das suas Democracias. Um pouco como observamos com a ascensão de populismos e políticas iliberais Mundo fora – com o exemplo dos EUA e dos estados tradicionalmente autoritários sempre presente – parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “populista” e fez com que, necessariamente, desviemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.

Com que naturalizássemos, também, a mentira em política. Com que naturalizássemos que, pese embora um desempenho confrangedor de Biden, seja possível, hoje, considerar-se que o primeiro debate das presidenciais de 2024 dos EUA foi vencido por um político como Trump, cujo valor da verdade e dos factos não reconhece ou respeita e que, por isso, normalmente (como foi o caso) não cumpre regras mínimas para debater em democracia, logo, para vencer qualquer debate democrático.

Aqui chegados, reconhecendo-se este caminho e história, sabendo-se os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar, particularmente de pessoas em situação de vulnerabilidade, e compreendendo-se o comportamento humano e como decorrem os processos descritos, importa desenvolver estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos.

Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e de compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática em todas as idades. Promover o diálogo, também, entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes e pontos de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e do sentido de representatividade.

Tudo isto. Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade. Conforme o Fórum Económico Mundial – que considera a má informação e a desinformação o risco global mais severo no curto prazo – von der Leyen, no mesmo discurso que atrás referi, deu-nos um importante exemplo do que podemos e devemos fazer quando refere que “é essencial que as pessoas saibam qual é a influência da má informação e da desinformação e quais são as técnicas por detrás delas, pois à medida que o conhecimento aumenta, as hipóteses de sermos influenciadas/os diminuem, e isso fortalece a resiliência da sociedade”. Disse-o para depois defender que, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Dito de outra forma, é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço. A este propósito, e caso tenham interesse, aconselho os trabalhos do psicólogo Sander van der Linden e das equipas com quem tem trabalhado no desenvolvimento de recursos e jogos pedagógicos de combate à desinformação e aos seus impactos negativos nas pessoas e sociedade, como é o caso do “Bad News Game”, com evidência científica promissora.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas. Enfrentar o desafio do populismo exige proactividade e uma actuação multifacetada, que considere o tempo presente, mas pense também a história e os seus exemplos e pense o futuro e a forma como, numa perspectiva de legado, podemos contribuir para um país e um Mundo de Direitos e com maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas no futuro.

 

Tiago Pereira

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

in Sábado (Ao redor…); 02.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ai-habituamo-nos-habituamo-nos-ou-o-importante-papel-da-mobilizacao-e-da-inoculacao

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Planeta em mudança

A Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou uma extraordinária conversa entre Pedro Pinto e um inspirador historiador Peter Frankopan, gravada à dias em Lisboa para um episódio do podcast “Não é assim tão simples”.

Aconselho-a. Muito. É sobre um “planeta em mudança” e, como não podia deixar de ser, a conversa “dança” permanentemente com a crise climática que vivemos, mas, também, com a crise de confiança, os seus fundamentos e a forma como, globalmente, nos relacionamos, colaboramos e adaptamos. Como no fundo, como diz Frankopan, “recuando no tempo profundo, uma das razões para o sucesso foi sempre a resiliência” e como “continua a ser uma arma poderosa para combater os desafios actuais”.

Ouvi-los fez-me e faz-me:

a) Regressar a 2019 quando estive com o Peter Frankopan, em Oxford, na “Challenges of Government”, conferência à qual aportou uma reflexão impactante sobre o papel da população mais jovem, dos riscos que corre e da disrupção que historicamente trouxe. De Júlio César aos participantes nos Congressos Bolchevique de 1917 ou no que criou o Partido Nazi, terminando na contemporaneidade e nos impactos na sociedade de pessoas muito jovens a partir de Silicon Valley. Num pequeno texto que então escrevi refiro-me à forma como me fez reflectir sobre como “a norma social de comportamento das/os mais jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos” ou, acrescento, em torno da necessária (priorização da) transição climática;

b) Partilhar, convosco, o projecto “Battered Waters” da Anush Babajanyan, vencedora do prémio “Long-Term Project” do World Press Photo de 2023. A imagem que partilho é apenas uma de um trabalho amplo, diverso e profundo em torno da dificuldade de acesso a água na Ásia Central e da adaptação das populações e impacto nelas desta realidade.

c) E, finalmente, partilhar também um contributo científico onde colaborei enquanto representante da Ordem dos Psicólogos Portugueses no “Expert Reference Group for Psychology and Climate Change” da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), intitulado “Climate Crisis and the Human Factor: 10 Psychological Keys to Unlocking Climate Action”. Relatório onde encontram um conjunto específico de contribuições da psicologia, enquanto ciência e prática, para a tão desafiante e hercúlea, quanto relevante e urgente, transição climática.

Uma transição que implica resiliência, é certo, mas, também, capacidade de adaptação, de colaboração e relação. Que implica ciência e uma sociedade comprometida.

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Dia Mundial das Redes Sociais

“Um em cada quatro jovens em Portugal utiliza as redes sociais mais de 6 horas por dia. É evidente que este é um comportamento inapropriado, desde logo porque essas 6 horas não podem ser utilizadas noutro tipo de actividades que poderiam ser importantes para o seu desenvolvimento e participação social.”

Parte da conversa que tive com a Cristina Freitas, na SIC Notícias, na manhã de Domingo, Dia Mundial das Redes Sociais que partilho. Conversa sobre a utilização das redes sociais e os seus impactos, sobretudo na população mais jovem. Sobre um tema tão importante e, creio, tão urgente.

Porque certamente todos sentimos os seus impactos. Os menos positivos, conforme os referidos no enquadramento da peça, a partir de declarações da minha colega Sofia Ramalho, nomeadamente na diminuição do diálogo entre gerações, na dependência e na saúde mental. A estes, na peça, acrescento que quando o uso é desadequado (referindo que isso depende dos tempos, momentos e objectivos de utilização e de características individuais de quem utiliza), podem existir outras consequências negativas na saúde e bem-estar, como a diminuição da prática de actividade física, participação social, alterações no sono, no comportamento alimentar ou um maior isolamento. Assinalo, ainda, impactos negativos em dimensões emocionais e na auto-estima quando a utilização visa o contacto e partilha com conteúdos violentos ou tendentes à comparação social.

Mas, na conversa, procuro sublinhar existirem também um conjunto de impactos positivos da utilização, quando adequada, das redes sociais. Entre outros que poderia ter focado, refiro a relação e conexão com pares, o maior suporte social e a partilha, participação e envolvimento em grupos, iniciativas e organizações.

Abordo, ainda, a importância da supervisão dos adultos de referência desta utilização por parte da população mais jovem, seja a partir da família ou dos contextos de educação formal e não formal, advogando pelo estabelecimento de canais de comunicação que permitam conhecermos e apoiarmos a sua participação, protecção e segurança em ambiente digital.

Termino procurando assinalar um conjunto de contributos que a psicologia pode aportar a esta conversa. Desde logo na literacia e apoio às tomadas de decisão, mais individuais (pessoas e famílias) e de desenho de políticas, a partir da informação e conhecimento da ciência psicológica – a esse propósito a Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibilizará em breve um conjunto de documentos/contributos e este será um tema central do seu próximo congresso. Ainda, e finalmente, na intervenção e apoio que psicólogas e psicólogos podem disponibilizar junto de pessoas com usos mais problemáticos das redes sociais ou com problemas que desse uso decorram.

Uma conversa que devemos continuar… Uma conversa que necessita da participação de todos.

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Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia

“Conteúdo. Embalagem. Visibilidade.”

 

Como num triângulo, neste início de semana/mês/semestre, gostava de partilhar convosco o terceiro volume-vértice da colecção de “Artigos PsiCarreiras da Ordem dos Psicólogos Portugueses”.

 

Após o primeiro – “Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia” (https://www.linkedin.com/pulse/prefácio-ser-psicólogo-o-início-de-carreira-em-tiago-pereira/?trackingId=oNyvSQmUQCW8l6TZq%2FjLOg%3D%3D) – qual conteúdo, em torno do que significa, hoje, ser psicólogo e iniciar uma carreira em psicologia…

 

E o segundo – “Carreira em psicologia num mundo imprevisível – Pistas para “navegar” com confiança e adaptabilidade” (https://www.linkedin.com/pulse/prefácio-carreira-em-psicologia-num-mundo-pistas-para-tiago-pereira-kxxif/?trackingId=vJmU2ZHZSliHrjj3EKN1OA%3D%3D), qual embalagem, sobre como participarmos num Mundo vertiginoso e imprevisível, como a confiança e a adaptabilidade são chave para psicólogas e psicólogos e como pode, a ciência e a profissão, contribuir para uma sociedade mais capaz de, com maior equidade, possibilitar saúde, bem-estar e capacidade de autodeterminação…

 

Publicamos, agora, o terceiro volume – “Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia”, em torno da relevância da presença e da notoriedade no quadro do mercado de trabalho em psicologia, numa sociedade de informação a cada dia mais abundante e de interesse crescente pelos temas da saúde mental e bem-estar.

 

No prefácio, do qual os excertos anteriores adapto e cujo link abaixo partilho, escrevo que este e-book também é “organizado e triangulado nesta relação. Uma componente conteúdo, com artigos e recursos maioritariamente centrados na forma como nos podemos pensar e projectar pessoal e profissionalmente no presente e no futuro. Uma componente embalagem, com artigos sobre a forma com podemos apresentar, com impacto, esse conteúdo. Finalmente, uma componente visibilidade, com artigos maioritariamente centrados na forma como desenvolver, primeiro, e promover e destacar, depois, a nossa marca e criar, por essa via, oportunidades relevantes e relações significativas. Cada parte, parte indispensável de um todo que resulta da forma como (nos) comunicamos.”

 

Agradeço a toda a equipa, parte indispensável, envolvida neste projecto e às autoras e autores: Ana Leonor Baptista; Ana Sofia Nobre; Artur Moura Queirós, Edite Queiroz, Joana Almeida Monteiro; Joana Inácio, Mafalda Reis, Marta Alves; Rita Tavira Santos e Rodrigo Dumas Diniz.

 

Equipa, parte indispensável de um todo.

 

Muito obrigado.

 

Tiago Pereira

Prefácio | Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebook_guiapraticodemarketingpessoaleprofissional.pdf

JUN2024

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Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos (Ao redor…; 18.06.2024)

Uma cornucópia é um símbolo que representa, desde a mitologia grega e romana, ideias de fertilidade, riqueza e abundância. Foi o nome escolhido pela artista Björk para o seu último espectáculo, uma produção que envolve diversas artes performativas em torno dos seus álbuns “Utopia” e “Fossora”. Passou por Portugal, em Setembro, e é, à sua forma, uma manifestação da sua reflexão e activismo por um futuro com maior equidade e onde pessoas e ecossistemas coexistam de forma sustentável e produtiva.

Reflexão que será certamente resultado também da sua história e experiência. Björk nasceu em Reykjavík, cidade-capital da Islândia, uma ilha remota do Atlântico Norte, com apenas cerca de 1000 anos de ocupação humana, mas que tem feito caminho na eliminação total dos combustíveis fósseis, ousando fazer da energia gerada por uma ameaça letal (a actividade vulcânica) energia limpa e um recurso-chave para a qualidade de vida das pessoas e para a atratividade e competitividade do território. Apenas um de vários exemplos possíveis que fazem da Islândia um caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.

Apenas um exemplo de porque é que a Islândia é hoje olhada como um caso de sucesso de transformação que – a partir da motivação de ousar cooperar, criar e encontrar soluções criativas para fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses recursos – pode resultar em aumento de bem-estar.

Na Islândia, enquanto país, mas também nos seus habitantes. Conforme escreveu o jornalista Mário Rui Vieira, no final do ano passado, quando em 1993 a Björk apresentou “Debut”, o seu primeiro álbum, “a Islândia era um território bem mais enigmático do que é hoje”. Diferente, muito diferente, acrescento eu. Foi, também, por pessoas como ela que a transformação ocorreu. Nessa entrevista, Björk afirma que se “tivesse escutado aquilo que a Islândia queria [para ela], teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que fez. Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país.

Como felizmente muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva. Cedo mitigam uma procura por cumprir valores, ambições e sonhos e toldam a autenticidade, fundamental a uma vida de e com propósito e à nossa saúde, sobretudo mental, e bem-estar.

Existem, porém, e como dizia, muitas histórias de não conformidade. Umas públicas e por todas e todos reconhecidas, como a da Björk ou do Nobel da Literatura português, José Saramago. Pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica para se cumprirem sempre a partir, todavia, de um conjunto de acasos felizes, que também se procuram e constroem com abertura às outras pessoas e interesse pelo que nos rodeia. Pessoas que o conseguem, desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.

Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (casos excepcionais de sucesso – do jogador de futebol extraordinário a uma incrível empreendedora) do que a grande maioria das pessoas que não chegam a essas posições, “desaparecendo” (não sobrevivendo) no caminho. Tendemos, portanto, a considerar este tipo de sucesso como algo mais comum do que realmente é.

Este fenómeno tem duas consequências importantes. A primeira relativa à forma como esta situação pode gerar processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns. Outra, não menos importante, a forma como podemos negligenciar os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso, factores múltiplos e muitas vezes muito precoces em termos do desenvolvimento. Efectivamente não partimos todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas.

Aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade. São, ainda, garantia de mais auto e heterocuidado, sentido de pertença e de abertura às e aos outros e, nesse sentido, de mais desenvolvimento e prosperidade para as comunidades e países. Foi o que a Islândia, ao longo das últimas décadas e com uma eficácia tremenda, foi capaz de fazer, sendo hoje um dos países do Mundo com menor taxa de (risco) pobreza, menor desigualdade entre pessoas com mais e menos rendimentos e, há mais de 10 anos, o país com menor desigualdade, nomeadamente salarial, entre Homens e Mulheres.

Por estes dias visitei a exposição do, também extraordinário, Siza Vieira, na Fundação Calouste Gulbenkian. Além de nos proporcionar uma visão ampla sobre o seu não-conforme trabalho na arquitectura, apresenta-nos os pilares desse trabalho, nomeadamente o conjunto de valores que o sustenta e o seu gosto pelo espaço e pelo desenho. A certa altura, uma citação: “Nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem.” Desenhos, acrescento, de momentos em que nos confrontamos com diferentes estímulos, culturas, papéis, formas de fazer… Em que imaginamos, em que buscamos e em que trazemos connosco. Nestes próximos dias vou viajar e…

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflectirei sobre como certas mudanças podem não apenas melhorar vidas, individuais, mas servir de catalisador para a transformação social. Como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país. Como podemos, ainda, ser facilitadores da criação de oportunidades para que outras pessoas o possam fazer. No fundo, como podemos fazer o melhor possível com os recursos que temos, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos.

 

 

Tiago Pereira

Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

in Sábado (Ao redor…); 18.06.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/podermos-ser-o-que-queremos-ser-e-nao-apenas-o-esperado-que-sejamos