Uma cornucópia é um símbolo que representa, desde a mitologia grega e romana, ideias de fertilidade, riqueza e abundância. Foi o nome escolhido pela artista Björk para o seu último espectáculo, uma produção que envolve diversas artes performativas em torno dos seus álbuns “Utopia” e “Fossora”. Passou por Portugal, em Setembro, e é, à sua forma, uma manifestação da sua reflexão e activismo por um futuro com maior equidade e onde pessoas e ecossistemas coexistam de forma sustentável e produtiva.
Reflexão que será certamente resultado também da sua história e experiência. Björk nasceu em Reykjavík, cidade-capital da Islândia, uma ilha remota do Atlântico Norte, com apenas cerca de 1000 anos de ocupação humana, mas que tem feito caminho na eliminação total dos combustíveis fósseis, ousando fazer da energia gerada por uma ameaça letal (a actividade vulcânica) energia limpa e um recurso-chave para a qualidade de vida das pessoas e para a atratividade e competitividade do território. Apenas um de vários exemplos possíveis que fazem da Islândia um caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.
Apenas um exemplo de porque é que a Islândia é hoje olhada como um caso de sucesso de transformação que – a partir da motivação de ousar cooperar, criar e encontrar soluções criativas para fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses recursos – pode resultar em aumento de bem-estar.
Na Islândia, enquanto país, mas também nos seus habitantes. Conforme escreveu o jornalista Mário Rui Vieira, no final do ano passado, quando em 1993 a Björk apresentou “Debut”, o seu primeiro álbum, “a Islândia era um território bem mais enigmático do que é hoje”. Diferente, muito diferente, acrescento eu. Foi, também, por pessoas como ela que a transformação ocorreu. Nessa entrevista, Björk afirma que se “tivesse escutado aquilo que a Islândia queria [para ela], teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que fez. Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país.
Como felizmente muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva. Cedo mitigam uma procura por cumprir valores, ambições e sonhos e toldam a autenticidade, fundamental a uma vida de e com propósito e à nossa saúde, sobretudo mental, e bem-estar.
Existem, porém, e como dizia, muitas histórias de não conformidade. Umas públicas e por todas e todos reconhecidas, como a da Björk ou do Nobel da Literatura português, José Saramago. Pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica para se cumprirem sempre a partir, todavia, de um conjunto de acasos felizes, que também se procuram e constroem com abertura às outras pessoas e interesse pelo que nos rodeia. Pessoas que o conseguem, desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.
Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (casos excepcionais de sucesso – do jogador de futebol extraordinário a uma incrível empreendedora) do que a grande maioria das pessoas que não chegam a essas posições, “desaparecendo” (não sobrevivendo) no caminho. Tendemos, portanto, a considerar este tipo de sucesso como algo mais comum do que realmente é.
Este fenómeno tem duas consequências importantes. A primeira relativa à forma como esta situação pode gerar processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns. Outra, não menos importante, a forma como podemos negligenciar os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso, factores múltiplos e muitas vezes muito precoces em termos do desenvolvimento. Efectivamente não partimos todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas.
Aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade. São, ainda, garantia de mais auto e heterocuidado, sentido de pertença e de abertura às e aos outros e, nesse sentido, de mais desenvolvimento e prosperidade para as comunidades e países. Foi o que a Islândia, ao longo das últimas décadas e com uma eficácia tremenda, foi capaz de fazer, sendo hoje um dos países do Mundo com menor taxa de (risco) pobreza, menor desigualdade entre pessoas com mais e menos rendimentos e, há mais de 10 anos, o país com menor desigualdade, nomeadamente salarial, entre Homens e Mulheres.
Por estes dias visitei a exposição do, também extraordinário, Siza Vieira, na Fundação Calouste Gulbenkian. Além de nos proporcionar uma visão ampla sobre o seu não-conforme trabalho na arquitectura, apresenta-nos os pilares desse trabalho, nomeadamente o conjunto de valores que o sustenta e o seu gosto pelo espaço e pelo desenho. A certa altura, uma citação: “Nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem.” Desenhos, acrescento, de momentos em que nos confrontamos com diferentes estímulos, culturas, papéis, formas de fazer… Em que imaginamos, em que buscamos e em que trazemos connosco. Nestes próximos dias vou viajar e…
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflectirei sobre como certas mudanças podem não apenas melhorar vidas, individuais, mas servir de catalisador para a transformação social. Como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país. Como podemos, ainda, ser facilitadores da criação de oportunidades para que outras pessoas o possam fazer. No fundo, como podemos fazer o melhor possível com os recursos que temos, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos.
Tiago Pereira
Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos
in Sábado (Ao redor…); 18.06.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/podermos-ser-o-que-queremos-ser-e-nao-apenas-o-esperado-que-sejamos