Categories
Behavioural Insights Comportamento Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Climate change and Psychology: Past, present and a better future (Moderação International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action)

Há uma semana começava em Lisboa a International Summit on Psychology and Global Health – A Leader in Climate Action, momento histórico para a Psicologia a nível mundial.

Da Summit, organizada pela APA e pela OPP resultaram uma proclamação e uma resolução conjunta (https://lnkd.in/g8xZNab), além de compromissos de cada uma das 42 Associações nacionais e internacionais de Psicologia, dos 5 continentes,para promover os contributos da Psicologia e das/os psicólogas/os na crise climática.

Além de ter tido a oportunidade de trabalhar na sua organização, moderei na sessão aberta a mesa “Climate change and Psychology: Past, present and a better future” onde intervieram os tão inspiradores quanto conhecedores Janet Swin e José Palma-Oliveira.

Como aí referi, se a Psicologia estuda há décadas o comportamento, as suas motivações e a tomada de decisão,é urgente (re)posicioná-la como ciência que informa e que é decisiva na decisão política e no desenho das políticas.

“Encorajados pela recente onda de preocupação” mas também por uma de optimismo, assumamos, psicólogas/os, a nossa responsabilidade, multipliquemos e apliquemos o nosso contributo neste enorme desafio societal.

Pelas pessoas. Por um mundo com futuro. Por um futuro com mais bem-estar e equidade para todas/os.

Categories
Behavioural Insights Comportamento Política Psicologia Tomada de Decisão

Comportamento. Tomada de decisão. Futuro? [Challenges of Government Conference 2019]

“Parabéns pelo dia sem Escola!”

Foi este o primeiro cumprimento que Kate Forbes, Ministra das Finanças Públicas e Economia Digital do Governo da Escócia, recebeu de um membro do Parlamento Escocês quando assumiu funções como Ministra. Tinha 28 anos e ali sentiu aquilo que já sabia. Que sendo jovem (e mulher) teria que mostrar sempre mais (provar) para ser respeitada naquelas funções.

Ao lado de Syed Saddiq, 26 anos, Ministro da Juventude e do Desporto da Malásia, foi este o primeiro estímulo que Kate Forbes deu a quem como eu e o meu colega Duarte Zoio teve oportunidade de participar na Challenges of Government Conference 2019 promovida pela Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford para reflectir sobre as novas gerações, as políticas de envolvimento e o papel das/os jovens, hoje, nas (e fora das) instituições governamentais.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Batool Asadi considera que “não é nada de mais” ser a primeira mulher Assistant Comissier no Paquistão, sublinhando sentir que tem atributos que não apenas ser mulher. Sim, tem. Mas, é claramente algo, ‘algo de mais’. É um ponto de viragem. Um ponto de viragem, como o que estamos a começar a discutir relativo à forma de governo e à acção nos principais desafios societais que enfrentamos, onde o comportamento e a tomada de decisão são chave para o futuro. Onde a identidade, a sua procura e a sua construção são fundamentais. Mas de que futuro falamos quando…

“No meu país há 1 milhão de novos jovens a entrar no mercado de trabalho a cada mês.”

Dizia no mesmo painel, Snigdha Poonam. 12 milhões de novos jovens trabalhadores a cada ano nesse país (mundo) que é hoje a Índia, com mais de 1300 milhões de habitantes e que se estima que a partir de 2022 passe a ser o país com mais habitantes do Mundo, ultrapassando a China.

Como pensar a identidade num mundo em mudança? Num mundo crescentemente impactado pela tecnologia, onde num ano se guardam tantos bits de dados quantos grãos de areia existem em todas as praias do mundo (estima-se que 1 elevado a 22)? Num mundo crescentemente impactado com ´novos nacionalismos´ e ´tribalismos´? Num mundo em que países antes liderantes parecem ter encontrado ´novos muros´, também no que se refere aos tradicionais indicadores de desenvolvimento, nomeadamente económicos (salário médio não sobe nos EUA desde os anos 70) ou de saúde (a esperança média de vida nos homens nos dos EUA desceu nos últimos três anos, com um contributo significativo das doenças crónicas, do consumo de drogas e do suicídio).

Mas, e o que esperar da juventude e das novas gerações?

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Peter Frankopan autor do “The new silk roads” trouxe-nos pistas para pensar nesta questão ao reflectir sobre o papel das/os jovens ao longo da história, desde os antigos impérios construídos por jovens “que correram riscos” (pensemos em Júlio César, por exemplo), aos não tão antigos ´impérios´ também eles em muito dependentes de jovens (as médias de idades dos participantes no congresso Bolchevique em 1917, no congresso que lançou o partido Nazi Alemão ou dos recrutados pelo ISIS são todas inferiores a 30 anos). E pensando na contemporaneidade, em que parte da inovação e da irreverência juvenil se concentra em Silicon Valley, poderemos reflectir como a norma social de comportamento das/os jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos.

“E quando tudo parece impossível?”

Perguntou uma jovem do Zimbabwe a Chuka Umunna membro do parlamento e candidato pelos LibDems às próximas eleições no Reino Unido, onde o Brexit mais de três anos após o referendo se mantém como tema de debate (único). Quando olhamos para a estrutura da administração pública do Zimbabwe e não encontramos espaço para a mudança… Espaço para a esperança, espaço para jovens como ela?

“Ask yourself what is possible!”

Havia já respondido, antes, Yemi Babington-Ashaye defendendo que devem as/os jovens, em qualquer circunstância, assumir sempre a sua “representação” ainda que numa perspectiva incremental como forma de ultrapassar esta crise de representação.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

A Challenges of Government Conference 2019, dedicada às novas gerações, foi em mim ainda mais impactante pelo ambiente próximo, amigável, ‘aceitante’ de todas/os criado à volta da conferência pela Dean da Blavatnik School of Government Ngaire Woods e sua equipa. Um ambiente, até certo ponto, contrastante com a polarizada sociedade em que vivemos, mesmo no Reino Unido. Durante o curioso continental breakfast organizado para discutir o Brexit no segundo dia da conferência foi mostrada esta imagem…

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

…que mostra bem como se polarizou a sociedade e como Londres parece uma ilha no Reino Unido (continental, neste gráfico). E, dentro ou fora das instituições, as/os jovens devem comprometer-se numa mobilização para aproximar e não extremar, não estigmatizando, antes valorizando a diferença e as diferenças.

Envolvimento, identidade, juventude, norma social, crise de representação, mobilização para aproximar e não extremar… Pistas para pensar o presente e o futuro, a juntar ao papel das ciências comportamentais (do comportamento e da tomada de decisão) para o futuro… Para o futuro do(s) governo(s) e das pessoas que os fazem. Porque, vivemos um ponto de viragem.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Um ponto de viragem como foi a marcha de Selma a Montgomery, também percorrida por Martin Luther King cujo imaginário nos recorda que o (‘bom’, permitam-me) poder não nos é dado, é (por Nós, permitam-me também) conquistado. E assim sendo…

Categories
Behavioural Insights Comportamento Política Psicologia

A Psicologia e a(s) política(s)

“(…) É mentira. É mentira.”

Será certamente recordado o momento em que António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal, reage exaltado a um diálogo com um cidadão a poucas horas do encerramento da campanha eleitoral relativa às Eleições Legislativas de 2019.

E, com esse momento, muitas discussões e reflexões sobre a sua reacção inapropriada (“intempestiva mas humana”, escreveria o PS aos seus militantes numa SMS horas depois), sobre questões da personalidade do anterior e próximo Primeiro-Ministro, sobre a forma como reage sob pressão ou a crises e, consequentemente, a gestão emocional que faz dos processos – em particular nas campanhas eleitorais, em que não parece ser tão eficaz quanto noutras “tarefas” políticas.

“(…) O senhor, quando foram os incêndios lá em cima, de Pedrógão Grande, estava nas suas merecidas férias. (…) Não esteve presente.”

Creio que também se discutirá e reflectirá sobre o que provocou a exaltação de António Costa. Esta frase, com a qual foi interpelado, reproduz algo que foi sendo dito (escrito, partilhado) explícita ou implicitamente por diversas personalidades com responsabilidades e motivações distintas. Algo dito ao longo dos últimos dois anos, com especial ênfase durante e no pós-greve dos motoristas em Agosto e da ligação deste facto ao período de férias de Rui Rio. Algo que é um exemplo claro da propagação de informação errada que – quer seja sem intenção (má informação), com intenção (desinformação) ou com intenção e agenda política (propaganda) – impacta na política e nos políticos podendo claramente influenciar comportamentos e tomadas de decisão neste âmbito.

Olhando de qualquer um dos lados, há um potencial contributo da ciência psicológica na sua compreensão, explicação e prevenção / intervenção. Quando reconhecido pelos políticos, um/a psicólogo/a pode conferir um apoio de e na proximidade, intervindo na dimensão emocional, na redução da ansiedade ou no apoio à preparação / gestão das crises e planeamento da comunicação. Quando reconhecida pela sociedade, a Psicologia, pode, a título de exemplo, contribuir para a sensibilização e o aumento da literacia em torno da temática das fake news, garantindo maiores condições para, conforme o psicólogo Sander van der Linden tem estudado, a sua inoculação (sim, inocular como uma vacina) e reconhecimento (para a identificação das “reais fake news” – não é curiosa esta contradição dos nossos tempos?).

Mas não gostaria de confinar esta reflexão a estas duas dimensões, antes num outro papel da Psicologia e das/os psicólogas/os na(s) política(s). Num momento em que se discute qual o programa e, até, que governo que teremos, gostaria de abordar a (insuficiente) utilização do conhecimento das ciências psicológicas e comportamentais no desenho, implementação e avaliação de políticas (públicas).

Legislar sobre e para pessoas sem as ter em conta ou desenhar políticas que dependem dos comportamentos das pessoas ou neles impactam, sem ter em conta o conhecimento disponível sobre como estas tomam decisões ou se comportam é, numa analogia às comunicações, como investir no desenvolvimento de um smartphone complexo que só funciona com 3G, não aproveitando as capacidades do 4 e do 5G já disponíveis. Logo, não adequado às características de quem poderá utilizar. Não conforme às expectativas destes. Não potenciado. Assim, muitas vezes, continua em 2019 a suceder em Portugal. Nova legislação 3G que se junta a legislação em vigor GPRS (pré-3G), quando o conhecimento disponível está já a preparar o pós-5G.

Este enorme hiato entre o conhecimento científico, em particular das ciências psicológicas e comportamentais, e a sua incorporação na(s) política(s) é gerador de amplos desperdícios e redunda em perdas significativas de eficácia e dinâmica da apelidada “máquina do estado”. Tem também custos enormes do ponto de vista económico e potencia a possibilidade de erro, sem intenção mas também com intenção, não apoiando a prevenção de fenómenos como o da corrupção, que impactam em diversos domínios da sociedade e desgastam a imagem do país, dos responsáveis pelas políticas e do seu próprio sistema democrático.

Desde questões, simples, como é exemplo o conhecimento dos estudos de que nos comprometemos mais na resposta a um inquérito ou formulário quando assinamos antes do seu preenchimento face a assinarmos no final do seu preenchimento, respondendo assim com “mais verdade”. A outras mais complexas, como é exemplo o conhecimento de que as/os utentes sentem menos stress e ansiedade (que não raras vezes surgem associados às situações de violência face aos profissionais de saúde) quando têm informação concreta dos passos (e etapas) pelas quais passarão quando entram num serviço de saúde com um mapeamento claro e simples das diversas etapas pelas que passarão e respectivos tempos de espera. Assim o diz a ciência, com estudos e amplos exemplos a comprovarem-no mas… enquanto utentes, se numa situação de fragilidade entrarmos numa urgência de um hospital o mais certo será a incerteza do que depois da triagem virá, por onde passaremos, que tempo demorará… Tal qual se pelo meio ou no final dessa ida ao hospital preenchermos um qualquer inquérito com assinatura (de hábitos de vida, de avaliação de satisfação, …), o mais certo é que o local para assinarmos o formulário seja o último passo. Multipliquemos por muitos estes exemplos e vejamos a quantidade de conhecimento não utilizado no desenho e na própria aplicação de políticas e o que se perde (e se deixa de ganhar) em consequência.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Como forma de percorrermos um caminho que diminua progressivamente este hiato creio fundamental uma maior sensibilização dos decisores para a utilização deste conhecimento. Nesta viagem, investimentos na simplificação e modernização administrativa e experiências como a da criação do LabX devem ser valoradas, aprofundadas e complementadas por outras que partindo, também, de organizações da sociedade civil consigam demonstrar as mais-valias destes processos. Foi exactamente com esse objectivo que, numa parceria entre Secretaria de Estado da Modernização Administrativa na pessoa do Sr. Secretário de Estado Luís Goes Pinheiro, a Fundação Calouste Gulbenkian na pessoa do Diretor-Adjunto do Programa Gulbenkian Conhecimento, Pedro Cunha, e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, se realizou em 11 de Julho passado o workshop Behavioural Insights e Políticas junto de um conjunto de mais de 30 altos dirigentes da administração pública.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Aqui, o António Silva, o Francisco Miranda Rodrigues e eu procuramos sensibilizar quem participou para as mais valias da integração deste conhecimento na sua prática e na acção das equipas sob sua responsabilidade. Para tal, além de rapidamente passarmos pelas origens e bases deste tipo de conhecimento, procuramos que através de exemplos (e dos seus impactos) e da apresentação de metodologias de trabalho neste âmbito, quem participou levasse consigo uma ideia concreta da razão para utilizar estas ferramentas, dos resultados que daí podem decorrer mas também do como o fazer, partindo de um problema identificado e com a sucessiva exploração do mesmo, procura de soluções e teste das mesmas. Testagem esta determinante nestes processos…

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Esta metodologia – assente no método RCT (Randomized Controlled Trial), o mesmo utilizado no teste de novos medicamentos – tem sempre como pressuposto o teste da eficácia da solução proposta a partir de um grupo experimental de pessoas (a quem se aplica a “solução”) e um grupo de controlo (a quem nada se altera), para validação da solução. Aqui na foto, um ilustrativo simples (não científico) do potencial destas metodologias. Tendo-se como objectivo o aumento do consumo da salada, colocou-se a hipótese de que se esta estivesse mais acessível para um grupo (“à frente” na mesa da comida), este consumiria mais salada face a um outro grupo em que a salada não estive tão acessível (“atrás” na mesa da comida). As fotos abaixo ilustram (na segunda a salada estava inicialmente onde estão agora os pratos de sobremesa) o que aconteceu no almoço do grupo antes do workshop, grupo este que se sentou aleatoriamente em duas mesas redondas que tinham em frente as duas mesas que vêem nas fotos, fotos estas, agora menos impactantes face a quem as viu (e, com elas, se viu no seu comportamento) no workshop.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem
Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

É um outro pequeno e muito prático exemplo de como criar ou retirar “barreiras” (retirar ou acrescentar “etapas” entre o comportamento inicial e o objectivo, tornar mais ou menos acessível) pode promover um ou outro comportamento, sem retirar a liberdade da pessoa na “escolha”. Pensemos, por exemplo, nas barreiras que se nos colocam quando necessitamos de aceder digitalmente a uma declaração ou mesmo, voltando às eleições, para votar quando estamos deslocados da nossa residência. Ou, noutra perspectiva, na facilidade como dentro de algumas localidades podemos circular num automóvel na via principal em grande velocidade.

Aqui fica (mais) um desafio para o novo governo – o de a utilizar mais conhecimento da psicologia na sua acção. Da minha e da nossa (OPP) parte o governo pode contar com contributos nesta área mas também com o constante desafio e estímulo nesse sentido, em favor de melhores e mais eficazes políticas. Em favor do país e das pessoas que o fazem país.