“(…) É mentira. É mentira.”
Será certamente recordado o momento em que António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal, reage exaltado a um diálogo com um cidadão a poucas horas do encerramento da campanha eleitoral relativa às Eleições Legislativas de 2019.
E, com esse momento, muitas discussões e reflexões sobre a sua reacção inapropriada (“intempestiva mas humana”, escreveria o PS aos seus militantes numa SMS horas depois), sobre questões da personalidade do anterior e próximo Primeiro-Ministro, sobre a forma como reage sob pressão ou a crises e, consequentemente, a gestão emocional que faz dos processos – em particular nas campanhas eleitorais, em que não parece ser tão eficaz quanto noutras “tarefas” políticas.
“(…) O senhor, quando foram os incêndios lá em cima, de Pedrógão Grande, estava nas suas merecidas férias. (…) Não esteve presente.”
Creio que também se discutirá e reflectirá sobre o que provocou a exaltação de António Costa. Esta frase, com a qual foi interpelado, reproduz algo que foi sendo dito (escrito, partilhado) explícita ou implicitamente por diversas personalidades com responsabilidades e motivações distintas. Algo dito ao longo dos últimos dois anos, com especial ênfase durante e no pós-greve dos motoristas em Agosto e da ligação deste facto ao período de férias de Rui Rio. Algo que é um exemplo claro da propagação de informação errada que – quer seja sem intenção (má informação), com intenção (desinformação) ou com intenção e agenda política (propaganda) – impacta na política e nos políticos podendo claramente influenciar comportamentos e tomadas de decisão neste âmbito.
Olhando de qualquer um dos lados, há um potencial contributo da ciência psicológica na sua compreensão, explicação e prevenção / intervenção. Quando reconhecido pelos políticos, um/a psicólogo/a pode conferir um apoio de e na proximidade, intervindo na dimensão emocional, na redução da ansiedade ou no apoio à preparação / gestão das crises e planeamento da comunicação. Quando reconhecida pela sociedade, a Psicologia, pode, a título de exemplo, contribuir para a sensibilização e o aumento da literacia em torno da temática das fake news, garantindo maiores condições para, conforme o psicólogo Sander van der Linden tem estudado, a sua inoculação (sim, inocular como uma vacina) e reconhecimento (para a identificação das “reais fake news” – não é curiosa esta contradição dos nossos tempos?).
Mas não gostaria de confinar esta reflexão a estas duas dimensões, antes num outro papel da Psicologia e das/os psicólogas/os na(s) política(s). Num momento em que se discute qual o programa e, até, que governo que teremos, gostaria de abordar a (insuficiente) utilização do conhecimento das ciências psicológicas e comportamentais no desenho, implementação e avaliação de políticas (públicas).
Legislar sobre e para pessoas sem as ter em conta ou desenhar políticas que dependem dos comportamentos das pessoas ou neles impactam, sem ter em conta o conhecimento disponível sobre como estas tomam decisões ou se comportam é, numa analogia às comunicações, como investir no desenvolvimento de um smartphone complexo que só funciona com 3G, não aproveitando as capacidades do 4 e do 5G já disponíveis. Logo, não adequado às características de quem poderá utilizar. Não conforme às expectativas destes. Não potenciado. Assim, muitas vezes, continua em 2019 a suceder em Portugal. Nova legislação 3G que se junta a legislação em vigor GPRS (pré-3G), quando o conhecimento disponível está já a preparar o pós-5G.
Este enorme hiato entre o conhecimento científico, em particular das ciências psicológicas e comportamentais, e a sua incorporação na(s) política(s) é gerador de amplos desperdícios e redunda em perdas significativas de eficácia e dinâmica da apelidada “máquina do estado”. Tem também custos enormes do ponto de vista económico e potencia a possibilidade de erro, sem intenção mas também com intenção, não apoiando a prevenção de fenómenos como o da corrupção, que impactam em diversos domínios da sociedade e desgastam a imagem do país, dos responsáveis pelas políticas e do seu próprio sistema democrático.
Desde questões, simples, como é exemplo o conhecimento dos estudos de que nos comprometemos mais na resposta a um inquérito ou formulário quando assinamos antes do seu preenchimento face a assinarmos no final do seu preenchimento, respondendo assim com “mais verdade”. A outras mais complexas, como é exemplo o conhecimento de que as/os utentes sentem menos stress e ansiedade (que não raras vezes surgem associados às situações de violência face aos profissionais de saúde) quando têm informação concreta dos passos (e etapas) pelas quais passarão quando entram num serviço de saúde com um mapeamento claro e simples das diversas etapas pelas que passarão e respectivos tempos de espera. Assim o diz a ciência, com estudos e amplos exemplos a comprovarem-no mas… enquanto utentes, se numa situação de fragilidade entrarmos numa urgência de um hospital o mais certo será a incerteza do que depois da triagem virá, por onde passaremos, que tempo demorará… Tal qual se pelo meio ou no final dessa ida ao hospital preenchermos um qualquer inquérito com assinatura (de hábitos de vida, de avaliação de satisfação, …), o mais certo é que o local para assinarmos o formulário seja o último passo. Multipliquemos por muitos estes exemplos e vejamos a quantidade de conhecimento não utilizado no desenho e na própria aplicação de políticas e o que se perde (e se deixa de ganhar) em consequência.
Como forma de percorrermos um caminho que diminua progressivamente este hiato creio fundamental uma maior sensibilização dos decisores para a utilização deste conhecimento. Nesta viagem, investimentos na simplificação e modernização administrativa e experiências como a da criação do LabX devem ser valoradas, aprofundadas e complementadas por outras que partindo, também, de organizações da sociedade civil consigam demonstrar as mais-valias destes processos. Foi exactamente com esse objectivo que, numa parceria entre Secretaria de Estado da Modernização Administrativa na pessoa do Sr. Secretário de Estado Luís Goes Pinheiro, a Fundação Calouste Gulbenkian na pessoa do Diretor-Adjunto do Programa Gulbenkian Conhecimento, Pedro Cunha, e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, se realizou em 11 de Julho passado o workshop Behavioural Insights e Políticas junto de um conjunto de mais de 30 altos dirigentes da administração pública.
Aqui, o António Silva, o Francisco Miranda Rodrigues e eu procuramos sensibilizar quem participou para as mais valias da integração deste conhecimento na sua prática e na acção das equipas sob sua responsabilidade. Para tal, além de rapidamente passarmos pelas origens e bases deste tipo de conhecimento, procuramos que através de exemplos (e dos seus impactos) e da apresentação de metodologias de trabalho neste âmbito, quem participou levasse consigo uma ideia concreta da razão para utilizar estas ferramentas, dos resultados que daí podem decorrer mas também do como o fazer, partindo de um problema identificado e com a sucessiva exploração do mesmo, procura de soluções e teste das mesmas. Testagem esta determinante nestes processos…
Esta metodologia – assente no método RCT (Randomized Controlled Trial), o mesmo utilizado no teste de novos medicamentos – tem sempre como pressuposto o teste da eficácia da solução proposta a partir de um grupo experimental de pessoas (a quem se aplica a “solução”) e um grupo de controlo (a quem nada se altera), para validação da solução. Aqui na foto, um ilustrativo simples (não científico) do potencial destas metodologias. Tendo-se como objectivo o aumento do consumo da salada, colocou-se a hipótese de que se esta estivesse mais acessível para um grupo (“à frente” na mesa da comida), este consumiria mais salada face a um outro grupo em que a salada não estive tão acessível (“atrás” na mesa da comida). As fotos abaixo ilustram (na segunda a salada estava inicialmente onde estão agora os pratos de sobremesa) o que aconteceu no almoço do grupo antes do workshop, grupo este que se sentou aleatoriamente em duas mesas redondas que tinham em frente as duas mesas que vêem nas fotos, fotos estas, agora menos impactantes face a quem as viu (e, com elas, se viu no seu comportamento) no workshop.
É um outro pequeno e muito prático exemplo de como criar ou retirar “barreiras” (retirar ou acrescentar “etapas” entre o comportamento inicial e o objectivo, tornar mais ou menos acessível) pode promover um ou outro comportamento, sem retirar a liberdade da pessoa na “escolha”. Pensemos, por exemplo, nas barreiras que se nos colocam quando necessitamos de aceder digitalmente a uma declaração ou mesmo, voltando às eleições, para votar quando estamos deslocados da nossa residência. Ou, noutra perspectiva, na facilidade como dentro de algumas localidades podemos circular num automóvel na via principal em grande velocidade.
Aqui fica (mais) um desafio para o novo governo – o de a utilizar mais conhecimento da psicologia na sua acção. Da minha e da nossa (OPP) parte o governo pode contar com contributos nesta área mas também com o constante desafio e estímulo nesse sentido, em favor de melhores e mais eficazes políticas. Em favor do país e das pessoas que o fazem país.