Categories
Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Despersonalização

“Nas entrevistas perguntam-me o que é que eu como cineasta palestiniano penso disto mas a Jarmusch perguntam o que é que ele acha enquanto Jim Jarmusch.”

Elia Suleiman descreve numa frase simples uma realidade complexa, assente nos fenómenos de grupo, preconceito e despersonalização. Frase que me lembra uma manhã, quando ainda jovem psicólogo, dois grupos de alunos da Escola / Comunidade onde trabalhava se dividiram por si no J.Zoológico. Um grupo seguiu com um segurança sempre atento. Outro sem segurança. Recordarei sempre o que um menino de 10 anos que seguiu no 1º grupo me disse sobre o impacto nele de sempre perder o “nome” pela associação a um “grupo”.

Fenómenos base do que habitualmente denominamos racismo. OluTimehin Adegbeye escrevia recentemente que “a nossa “obsessão” com as “atitudes racistas” podia esconder o “racismo do sistema” e que isso determinava o porquê de “podermos ser racistas sem sermos um/a racista”.

Conheci Suleiman no Intervenção Divina que realizou e interpretou. Conheço, interesso-me e estudo estes fenómenos desde há já alguns anos. Sinto, sei, que não é de “intervenções divinas” que necessitamos para os prevenir e abolir.

Antes de os reconhecer. De desenvolver na sociedade factores protectores. De empoderar. E de, todos e com todos, co-construirmos.

Categories
Política

Empatia e Enviesamento na Negatividade

O enviesamento da negatividade é hoje muito utilizado na mobilização e debate público.

Todos nós, com menor ou maior frequência e intensidade, a ele estamos expostos pelo maior impacto no nosso “sentir psicológico” de acontecimentos, pensamentos ou emoções negativas face a neutras ou positivas de igual intensidade. Acontecimentos (…) e políticos.

Nos próximos meses corremos o risco de a presença constante de Trump e do seu crescente discurso bélico – pela transformação de adversários em inimigos – onde não cabe a dúvida, contribuir para a degradação “global” da confiança nas instituições e líderes, com tudo o que isso implica hoje (em pandemia), amanhã (reemergência do populismo) e no futuro. Preveni-lo faz-se, claro está, com contraditório aos “Trumps” mas faz-se também tornando mais saliente/presente outras formas de governação.

Como Sanne Blauw defende quem duvida (procurando diferentes ângulos por aberto à mudança) e assume que erra (como J.Ardern fez recentemente por não terem sido testadas duas pessoas que entraram na NZ provenientes do UK) está sempre mais próximo de acertar.

Que tornemos mais saliente / presente quem, líder, duvida e faz da capacidade empática e da sintonia com o sofrimento dos outros forças mobilizadoras e inspiradoras face aos que tudo sempre sabem.

 

Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia Política

Chape, chapinha.

Fechemos os olhos. Pensemos no rio da nossa infância e numa pedrinha. Braço atrás e splash, círculo grande; splash, círculo pequeno.

Efeito concêntrico que tão bem descreve a causa-efeito de uma decisão, de um acto.

Ontem passaram 16 anos do atentado de Atocha. Dele também resultou a traumatização de profissionais de saúde que, voluntariosos mas sem preparação (formação, protocolo) e sem medidas de autocuidado, se deslocaram ao local para ajudar. Caos, consequências.

Em 2014 a OPP organizou uma bolsa hoje com 1200 psicólogos formados para intervir em situações de catástrofe, com protocolo definido e por activação pela ANEPC (Incêndios, 2017). Estes psicólogos receberam hoje informação de que podem reforçar a linha SNS24 por iniciativa da SPMS para aumentar a capacidade de resposta sobre a actual pandemia, atendendo ao estado emocional de quem procura informação.

Hoje, dia em que o governo anunciará medidas adicionais para a sua contenção, sendo o encerramento de Escolas possível.

De um lado,mais saliente, tudo fazer para diminuir as possibilidades de contágio.

De outro, menos saliente, milhares de crianças/jovens sem a única refeição quente do dia e maior indisponibilidade de profissionais (de limpeza,saúde, bombeiros) agora fulcrais.

Efeitos concêntricos das nossas decisões, acções.

Categories
Comportamento Democracia Política Psicologia

Ainda o ‘vento’…

“Sopra um vento soberanista e autoritário sobre o mundo.”

Revisito esta frase do J.Fernandes e o trabalho de dois psicólogos que me ajudam a pensá-la. Um refere hoje no Público que o aumento “da ansiedade, do medo e da percepção das ameaças” decorrente da globalização explica este ‘vento’.

F. Moghaddam estuda como hoje se “extremam e radicalizam” posições em política, distraindo apoiantes de “fraquezas próprias” pelo foco na “ameaça externa”. Se de um exemplo necessitássemos, convido ao gráfico abaixo e à reflexão sobre a não-oscilação da taxa de aprovação de Trump no processo de impeachment mesmo quando as graves revelações se sucediam. 

Esta polarização da política é também determinada pelos efeitos da identidade de grupo que H.Tajfel descreveu há décadas quando, após sobreviver ao holocausto por um ‘efeito de grupo’, demonstrou experimentalmente que a simples pertença a grupos, mesmo randomizados ou não claramente definidos, gera fenómenos de defesa e valorização do “nós” face a um “outros” que discriminamos e, não raras vezes, hostilizamos. 

Precisamos, talvez como nunca, de relação com outros diferentes de nós.

De capacidade empática. De curiosidade, humildade, abertura, aceitação.

De não cristalizarmos em nós e no nosso grupo. 

Somos seres sociais. Não somos ‘redes sociais’.

Categories
Comportamento Democracia Política Psicologia

Capicuas.

Esta semana começou numa capicua (02022020). Uma data cujo reverso é ela própria. A semana passada terminara com (imperfeitas) ‘capicuas’.

O histórico dia do Brexit cujo reverso não é ele próprio. Após um 2º referendo à presença (envolvimento) do Reino Unido na União Europeia, o leave venceu. Havia perdido por muito em 1975, venceu por pouco em 2016 (como agora o “leave means leave”).

O princípio do fim do processo de impeachment de Trump,  onde a novidade não terá sido tanto o resultado da votação, antes o seu advogado ter defendido que a “troca de favores” com o “objetivo da sua reeleição” não poderia ser punida por considerada de “interesse público”.

Num e noutro caso, o reverso não será o mesmo.

Num e noutro caso, com responsabilidades de diversas partes.

Num e noutro caso, explorando medos, tribalismos contemporâneos, fake news e análises de dados manipulatórias.

Num e noutro caso, confirmando o insight de Jorge A. Fernandes do Público: “Sopra um vento soberanista e autoritário sobre o mundo”.

Sopra e, como numa tempestade, temos que preparar-nos para os ventos (compreendê-los, prevê-los, ter um protocolo de actuação para eles) e cuidar dos seus danos nas pessoas, espaços e comunidade.

Tudo isto, com urgência e para diminuir o seu impacto.

Tudo isto, também com Psicologia.

Categories
Democracia Política Psicologia

75 anos depois…

Há 75 anos aquele sombrio portão abria-se definitivamente.

Portão, lugar, que o nazismo queria “sem história” (Arendt).

Portão de uma das Auschwitz’s “construídas pelo ódio, pavimentadas de indiferença” (Kershaw).

Hoje é dia da memória. Da história. Inscrevê-lo, lembrando-o, é contributo mínimo do nosso dever para com tantos seres humanos que ali sofreram atrocidades inimagináveis. Inscrevê-lo, documentando-o, pela literatura, pelo cinema (quem não se recorda do Guido, do Brody ‘Pianista’ ou de Neeson como Schindler?) outro.

Inscrevê-lo procurando pela ciência prevení-lo ainda outro. Assim o fará amanhã com o fórum das políticas públicas o IPPS ISCTE, reflectindo sobre como podem estas melhorar, promovendo bem-estar, equidade e confiança dos cidadãos no sistema democrático. Assim fará 5ªF a Ordem dos Psicólogos Portugueses, no Diálogos da Psicologia, pensando as pontes da psicologia com o jornalismo (tão importante nestes fenómenos).

De uma ou de outra forma, ao inscrevermos, combatemos os ‘antis’ e o negacionismo que cresce em alguns grupos (veja-se a capa do jornal i de hoje e pensem-se nas comunidades Tutsi, Rohingya, …). Se rima… Se rima…

 

Categories
Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Combater a pobreza, o desígnio.

(combater o) “medo persistente de que o declínio dos EUA seja inevitável e da próxima geração ter que diminuir as suas aspirações.”

Há precisamente 11 anos Obama sinalizava-o no seu discurso de tomada de posse.

(combater a) “pior doença que uma pessoa pode ter – ser pobre.”

A pobreza nesta excelente entrevista da Céu Mateus –  https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/a-pior-doenca-que-uma-pessoa-pode-ter-e-ser-pobre

Dois ‘combates’ relacionados e essenciais hoje. Não há bem-estar com pobreza e a promoção do bem-estar faz-se (muito) da erradicação da pobreza.

Ser pobre hoje é ter elevado de risco de doença, de stress, de baixa auto-estima, de, de. A pobreza, injusta, custa muito aos países, em custos sociais, de saúde, de, de. Isto apesar de ser pobre hoje não ser uma inevitabilidade.

A pobreza combate-se intervindo nos determinantes sociais, com intervenções sociais/comunitárias.

Combate-se intervindo nos determinantes pessoais, promovendo competências, promovendo a auto-estima, a auto-eficácia.

Combate-se intervindo nas consequências, apoiando/suportando as pessoas, as famílias.

Combater a pobreza não custa mais do que a pobreza nos custa.

Ousemos (seriamente) erradicar a pobreza. Testar numa comunidade. Avaliar custos/benefícios. É um dever que temos. Pela justiça e bem-estar de todos.

Categories
Democracia Política Psicologia

(boas) políticas públicas e defesa da democracia

Ontem alguém com responsabilidades políticas (e públicas) dizia-nos que o combate ao populismo também se fazia com melhores políticas públicas e com outra relação entre Estado e cidadãos. Nada mais certo.

O populismo combate-se com políticas eficazes que respondam às expectativas dos cidadãos,às desigualdades e promovam o desenvolvimento sustentável e o bem-estar. Combate-se com democracia que por sua vez vive “da auto-contenção dos líderes/decisores (da não utilização de instrumentos democráticos para fragilizar o contraditório e o sistema pesos-contrapesos) e do trabalho conjunto com os adversários políticos.” (Levitsky & Ziblatt; Como morrem as democracias)

Num momento sem igual em que “o ecossistema digital beneficia personagens polarizadoras(…)porque os seus algoritmos vivem do envolvimento emocional das pessoas” (A.Marantz; Anti-social), os políticos e a sociedade civil devem responder integrando mais as pessoas e a ciência no desenho, implementação e avaliação das políticas (públicas).

As pessoas, através de iniciativas como as “Oficinas de Participação” promovidas pelo Governo. A ciência, neste caso a comportamental e psicológica, por exemplo conforme conversávamos na reunião.

Tudo urgente porque “a história nunca se repete, mas muitas vezes rima”. Se rima, Mark Twain.

Categories
Comportamento Política Psicologia

Eficiência do Estado 2020

“E se não salvo a ela, não me salvo a mim.”

Esta é a segunda parte, normalmente não mencionada, da frase de Ortega y Gasset que todos conhecemos:

“Eu sou eu e a minha circunstância…”

Trago-a no início desta semana rica em debate e conteúdo político que nos levará à votação na generalidade na 6ºF da proposta do Orçamento do Estado (OE). O OE (como cada um/a de nós) é o OE e a sua circunstância e a resposta a parte dos desafios que procura atender não termina com as dotações (orçamentais) que propõe.

É neste sentido que incentivo a que depois do OE se discuta o Eficiência do Estado (EE), procurando-se a rentabilização dos recursos disponíveis para melhores políticas públicas.

Que se discuta um programa de eficiência do Estado e que este incorpore 3 temas que me são caros, pouco desenvolvidos em Portugal:

a) a disponibilização e utilização de dados existentes (ex. dados longitudinais da autoridade tributária seriam fulcrais para se estudar os impactos das políticas públicas);

b) a pilotagem/testagem de políticas/programas pré-implementação;

c) a informação das políticas públicas com conhecimento das ciências comportamentais – como nos comportamos, mudamos ou tomamos decisões (veja-se o livro de Kenneth Maton).

Porque, “se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. Porque, o OE é o OE e a EE.

Categories
Educação Política Psicologia

Estado da (Psicologia da) Educação

Foi hoje publicado o Estado da Educação 2018 e, com ele, indicadores muito positivos para um país que em 1970 tinha 26% da população analfabeta e 0,6% com ensino superior. Positivos mas também desafiantes porque, se na globalidade os indicadores melhoraram muito, ainda nos mobilizam.

Também hoje começou o seminário Psicologia da Educação, co-organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e DGE. 800 participantes, 700 destes colegas psicólogas/os com intervenção em contexto escolar.

Também aqui aspectos positivos, como o aumento de psicólogas/os e a crescente valorização do seu papel, mas também desafios à sua intervenção.

Reflectimos sobre a necessidade de uma visão positiva e pró-activa das/os psicólogas/os, como tão bem a Profª Margarida Gaspar de Matos sublinhou. Assistimos à apresentação do livro “A prática da psicologia escolar” da Sofia Mendes, alguém que muito contribui para a inscrição (conforme José Gil define) da psicologia neste contexto.

O relatório, o seminário o reencontro com tantas/os colegas tornam saliente em mim o desafio da promoção da utilização da Psicologia no desenho de políticas e o artigo que recentemente escrevi a este propósito.

Também na legislação na Educação, embora com pontos positivos (como o DL da Educação Inclusiva) persistem tantos desafios…