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Linas por pintar e por escrever…

113 anos.

Tempo suficiente para, depois de se estranhar (ridicularizar até), naturalizarmos (ao ponto de nem nisso pensarmos) as linhas/traços que hoje dividem as estradas e faixas de rodagem Mundo fora. Pistas visuais introduzidas em 1918 (UK) só generalizadas décadas depois, que auxiliam/estimulam o comportamento dos condutores para o seu bem e bem de todas/os. Intervenção, parte de um todo, que deve ser melhorado com outras acções, baseadas na forma como nos comportamos e tomamos decisões e testadas/estudadas para maior eficácia das políticas (prevenção rodoviária, no caso) e o bem-estar delas resultante.

Existem hoje outras linhas por pintar (ou escrever). Pensemos que apenas 55% da população respondeu à SMS de chamada para a toma da vacina COVID-19 que implica uma resposta “SNS.NUMERO UTENTE.SIM/NÃO”.

Estranho, mas fico feliz se testada resultar da escalagem da mais eficaz proposta. Não estranho e não compreendo se não testada, porque sabemos há muito que em 2021 ou 22 haveria vacinação. Testar diferentes textos e aumentar em 10% a resposta (texto com mais incentivo e/ou redução de atritos à resposta) seria possível e dispensaria 300.000 contactos sucessivos até fim do verão, tempo utilizável com outro fim.

Melhorar políticas (públicas) é possível. A psicologia pode ajudar.

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Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?

Na última semana assistiu-se à crescente generalização no espaço público da ideia de que as pessoas não aderiram às últimas medidas restritivas decididas e implementadas pelo Governo. “A generalidade dos portugueses”, a “maioria dos portugueses” não o fez disseram-nos decisores e meios de comunicação social, suportando-se em dados de mobilidade comparados ao primeiro dever de recolhimento obrigatório decretado em Março de 2020. Ora, creio que não é correcto afirmar que a maioria não cumpre – a maioria fá-lo e fá-lo há muitos meses com enorme sacrifício e com sentido de responsabilidade individual e colectivo – como não é correcto suportar essas afirmações em dados de mobilidade comparada em períodos com medidas distintas (desde logo as Escolas ainda abertas nesse momento) e com conhecimento e protecção disponível face a propagação do vírus distintos (por exemplo, a utilização de máscaras e a adequação de alguns espaços públicos).

Mas, não sendo a maioria incumpridora, como vem sendo afirmado, é hoje evidente que existem neste segundo período de dever de recolhimento obrigatório mais barreiras à adesão voluntária às medidas e mais comportamentos inadequados involuntários por parte da população, o que faz com que mais pessoas possam incumprir as restrições decretadas, colocando-se a si e a outras/os em maior risco de contágio, somando mais casos (e com eles mais risco) a um sistema já tragicamente pressionado.

Creio existirem cinco condições distintas, agora, face a Março de 2020, que nos ajudam a compreender esta maior dificuldade na adesão e que, se forem tidas em consideração na acção, na decisão de medidas de Saúde Pública e na comunicação, podem surtir efeito imediato e garantir mais condições para o seu cumprimento e sucesso.

1.     Vulnerabilidade emocional e psicológica da população: Portugal era pré-pandemia um dos países da Europa que apresentava maior prevalência de dificuldades e problemas de Saúde Psicológica, sobretudo porque aos ainda baixos níveis de educação, de competências sócio-emocionais e de literacia em Saúde (Psicológica), acresciam os elevados índices de precariedade, pobreza e exclusão, de isolamento e solidão e as significativas iniquidades e inacessibilidades a serviços de Psicologia e Saúde Mental. Com excepção da literacia, estaremos hoje pior em todos estes aspectos. Quem já tinha problemas de Saúde Psicológica (ansiedade, depressão, stresse, …) estará hoje numa situação mais exigente e agudizaram-se as situações de vulnerabilidade emocional decorrentes desta circunstância desafiante, de imprevisibilidade e de incerteza, do aumento do isolamento, da solidão, da precariedade e desemprego, da pobreza e da exclusão.

Tendo crescido o apoio psicológico disponível (Linha de aconselhamento psicológico do SNS24 e Escolas, por exemplo), esse crescimento foi claramente insuficiente face ao incremento e exigência das necessidades.  Na verdade, foi praticamente inexistente onde poderia ser mais determinante – nos cuidados de saúde primários. Sendo Portugal um país que investiu importantes recursos na formação de 24.000 psicólogas/os, não nos podemos conformar que, 10 meses volvidos da mais grave crise vivida nas últimas largas décadas em Portugal, continuem apenas a existir cerca de 250 psicólogas/os para todas as unidades em Portugal continental, 2,5 por cada 100.000 habitantes.

Todas/os compreendemos que as questões emocionais afectam o nosso comportamento, pela forma como condicionam e determinam as nossas tomadas de decisão e a nossa capacidade de auto-regulação. Por isso as autoridades, em todo o tempo da pandemia, mantiveram sempre restrições específicas a cerimónias fúnebres e a eventos desportivos como o futebol (apenas para dar dois exemplos) em que resta claro que as questões emocionais distintas associadas a estes dois momentos poderiam condicionar a adopção de comportamentos de protecção. Urge, portanto, reforçar o apoio psicológico e social disponibilizado à população, particularmente a quem vive com um problema psicológico ou tem maiores vulnerabilidades. Urge, também, que as medidas decididas e a decidir tenham em consideração o estado emocional e psicológico da população.

2.     Fadiga da Pandemia. A Organização Mundial de Saúde alertou, já em Outubro passado, que 60% da população Europeia sentia fadiga pandémica. Todas/os o compreendemos, estamos há demasiados meses hiper vigilantes, coartados da nossa espontaneidade (e até liberdade), cognitivamente e emocionalmente activados. Estamos cansados e, cansados que estamos, cometemos mais erros: tal como cometemos mais erros no nosso trabalho, estudo ou cuidado aos nossos filhos e pais quando estamos mais cansados, também relativamente à pandemia, cometemos agora mais erros nos comportamentos que adoptamos. Devemos aceitar esta situação e agir em conformidade, apoiando a população na adesão às medidas. Simplificando-as e facilitando o seu cumprimento, por exemplo, permitindo que as pessoas mantenham a possibilidade de andar ou correr (a actividade física é fundamental à manutenção do bem-estar neste momento e esta saída de casa para muitas pessoas é o último reduto de tempo e espaço só para si) mas encerrando espaços propícios a maiores concentrações e sinalizando (com fitas, por exemplo) a impossibilidade de permanência em bancos de jardim e outro mobiliário urbano, algo que não aconteceu no primeiro fim de semana e dias sucessivos deste período. Estimulando o cumprimento de distâncias físicas, por exemplo organizando, com sinalética, filas de espera, algo que foi fundamental no Domingo passado a percepção de segurança relatada pela maioria das/os eleitoras/es que votaram no passado Domingo face aos locais de voto.

3.     Medo e Percepção de Risco. O medo, que apesar do peso da palavra, tem o papel positivo de nos alertar, inquietar e activar para comportamentos de protecção, teve uma função importante no comportamento da população em Março de 2020. Explicou, em parte, o porquê do isolamento a que assistimos ter até antecedido a imposição de restrições do primeiro estado de emergência. Numa pandemia, o medo oscila (não diminui apenas como pareceu assumir-se) e nas últimas semanas, semanas (não dias) responsáveis pelos trágicos números com os quais hoje estamos confrontados, ele não cumpriu esse papel da mesma forma. Tendeu a cumprir, no entanto e ainda que não com a mesma intensidade, nos últimos dias ao sabor da gravidade da situação e de uma cada vez maior proximidade da doença e dos seus impactos nos núcleos familiares. Dias em que, fechassem ou não as Escolas, veríamos pais e famílias a “fechá-las aos seus filhos e educandas/os”, regressando a tensão associada ao “não controlo” da situação (antes pelo desconhecimento, agora pela possibilidade de ruptura de resposta do sistema de Saúde).

Medo que se relaciona com a percepção de risco (de contágio) que, porque subjectivamente definida, é tão fulcral numa pandemia que vive de comportamentos. Tal como quanto mais testarmos, mais identificamos o vírus (e podemos actuar), quanto mais (e com maior qualidade) avaliarmos a percepção de risco da população, numa base diária e com amostras representativas da população e de grupos populacionais específicos, melhor poderemos prever o seu comportamento e comunicar e decidir de acordo com a percepção de risco existente. Hoje, mais que olhar para trás, importa definitivamente que comecemos a usar, diariamente, este importantíssimo indicador de Saúde Pública na comunicação e na decisão, conforme se utilizam os números e previsões de infecções e da capacidade existente no sistema. Mais tarde, quando vencermos este grave momento, haveremos de poder olhar o que correu mal e lá encontraremos os dados do barómetro COVID-19 da Escola Nacional de Saúde Pública que na última reunião do INFARMED foram publicamente disponibilizados e que indicam que as duas semanas dos últimos largos meses com menor percepção de risco de contágio da população foram, exactamente, as duas semanas do período do Natal e passagem de ano – semanas que pelas medidas adoptadas e pela maior mobilidade, ao invés de menor risco efectivo, tinham naturalmente maior risco efectivo. Ora, nem a comunicação feita permitiu aumentar a percepção de risco (e com ela levar a que mais pessoas adoptassem comportamentos de protecção), nem as medidas o tiveram em consideração, num claro ignorar do Governo deste importantíssimo indicador que também ajudará a explicar porque é que as pessoas naquele período ter-se-ão protegido menos e protegido menos os outros, conforme a situação epidemiológica e as medias implementadas implicariam. A percepção de risco é um indicador central na gestão da pandemia mas, incrivelmente, é a agulha no palheiro desta história triste. A avaliação da percepção de risco, grupo populacional a grupo populacional, tem definitivamente de ser de qualidade e ter uma base permanente (como a testagem), acompanhando taco a taco a decisão e a comunicação de medidas.

4.     Habituação e comunicação negativa. Embora não seja ilimitada, enquanto seres humanos temos uma enorme capacidade de adaptação ao contexto e à informação sendo possível habituar-nos ao extremo, vendo “bondade em agressores” (Síndrome de Estocolmo) ou naturalizando imagens e números de infectados e mortes que, embora em escalada, não sobressaltam por vezes ao nível do que sobressaltou o primeiro caso ou a primeira morte em Portugal. Rapidamente generalizamos excepções e naturalizamos fenómenos. Tendo isto presente é ainda mais difícil compreender como ao arrepio de toda a evidência científica que suporta que a comunicação negativa (culpabilizante – “não cumpriram o contrato de confiança” – e ilegitimadora do cansaço) não promove a adesão ao comportamento esperado, avançamos de uma comunicação (de decisores, sociedade e media) positiva, que enalteceu o esforço e o comportamento da população, que nos mostrava imagens de ruas desertas e reforçava o comportamento adequado com mobilizadores sociais envolvidos (artistas, jogadores de futebol, entre outros) para uma comunicação que nos apresenta como incumpridores, irresponsáveis, que sistematicamente mostra imagens de comportamentos potencialmente desadequados (jardins ou espaços públicos), sem o devido cuidado em separar quem está a ter um comportamento adequado (andar ou correr com as devidas precauções) de quem possa não estar a ter, tratando a parte pelo todo, generalizando e tornando norma o comportamento não adequado.

Mais, hoje não vemos os mobilizadores a apoiarem o esforço comunicacional e vemos ainda mais insuficiente personalização da comunicação para grupos específicos da população (por exemplos os adolescentes e jovens adultos) e grupos com vulnerabilidades específicas. É tão urgente quanto possível, que nos lembremos que somos os mesmos cidadãos de Março, com mais vulnerabilidades é certo, mas os mesmos, e que regressemos a uma comunicação pela positiva, validando as dificuldades e o esforço, salientando e voltando a tornar norma os comportamentos adequados, envolvendo mobilizadores sociais e personalizando as mensagens, utilizando todos os meios ao nosso dispor para conseguirmos chegar a cada pessoa, em cada momento, com a mensagem precisa que a ajude e estimule na adopção dos comportamentos pró-saúde e pró-sociais hoje tão necessários.

5.     Crise de confiança. Raras vezes na história vivemos um momento em que a polarização na sociedade e na política fosse tão significativa e impactante e em que o obscurantismo e a pós-verdade pusessem em causa a democrática diferença entre os factos e as opiniões. À boleia das autoestradas de partilha de informação e de confirmação de estereótipos, opiniões e crenças que são as redes sociais hoje, sem mediadores, é possível que opiniões questionem factos instando a desconfianças, descrenças e até teorias conspirativas pouco úteis a respostas concertadas a grandes desafios societais. É-o assim com a crise climática, com o racismo ou com as migrações. É-o assim com uma pandemia.

Um pouco por tudo o que atrás referi a confiança nos decisores, nos profissionais e até nos jornalistas tem decrescido com os meses de pandemia, abrindo mais espaço à multiplicação da desconfiança e da dúvida que, necessariamente, contribui para que hoje olhemos mais para fora de nós, buscando culpa nos outros (nas suas decisões, posições ou comportamentos) do que nos centrando em nós, confiando e fazendo o que está sob nosso controlo (além de comportamentos de protecção, o apoio a outras pessoas ou o cuidado na partilha de informação factual sobre a pandemia). Será decisivo nas próximas semanas voltarmos a um quadro de maior confiança, sendo para tal necessária mais clareza, transparência e honestidade na comunicação, reiterando que a dúvida e o erro são parte da decisão, até porque é tomada por seres humanos, também há muito expostos a uma pressão constante, mas tendo sempre presente acções (e apresentando-as) de melhoria contínua, actuando no sentido da prevenção de erros futuros.

Cinco factores condicionantes dos processos de tomada de decisão e dos comportamentos, fundamentais para compreender o momento que vivemos. Cinco condições que, se permanentemente avaliadas e consideradas no desenho e comunicação de medidas, podem produzir efeitos desde já.

Precisamos de uma atitude mais responsiva perante as/os portuguesas/es que contribua para o esforço que tantos profissionais da linha da frente fazem há meses e farão nas próximas (duríssimas) semanas que enfrentaremos, na esperança e com um propósito que também difere do primeiro isolamento de Março passado. Aí lutávamos para “achatar” a curva de um vírus e de uma doença que desconhecíamos, cuja vacina era uma miragem e com o intuito exclusivo de ganharmos tempo para nos prepararmos para segundas e terceiras ondas. Hoje, o propósito é lutarmos para resistir ao enorme desafio que enfrentamos, com a expectativa de nas próximas semanas chegarmos a um momento de crescente imunização da população, particularmente dos grupos mais vulneráveis com o processo de vacinação em curso (que soma à imunização “natural” que cresceu e crescerá significativamente). De chegarmos a um tempo em que, paulatinamente, recuperemos algum controlo, levantaremos algumas restrições e possamos estar fisicamente mais próximos uns dos outros, algo tão fundamental ao nosso bem-estar. A um tempo em que, também pela recuperação das pessoas, recuperaremos o país, o bem-estar e a coesão social.

Num contributo que julgo importante para o conseguirmos, respondo à pergunta que alguns colunistas e intervenientes no espaço público têm feito: Sim, existe conhecimento da ciência psicológica e das ciências comportamentais e sociais disponível. Sim, existem profissionais desta área empenhados, disponíveis e mobilizados. Porque não chamá-los até junto de si, senhor/a decisor/a?

Tiago Pereira

in Observador; 27.01.2021

Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?

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Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?

Vulnerabilidade emocional e psicológica; Fadiga da pandemia; Medo e percepção de risco; Habituação e comunicação negativa; Crise de confiança. Cinco condições que explicam diferentes desafios (com impacto na decisão e comunicação) à adesão hoje a comportamentos pró-saúde/sociais face a Março de 2020.

Condições que aprofundo neste pequeno ensaio a que acresce outra importante diferença: a esperança e o propósito deste 2º momento. Porque, se antes “lutávamos para achatar a curva de um vírus e de uma doença que desconhecíamos, cuja vacina era uma miragem e com o intuito exclusivo de ganharmos tempo para nos prepararmos para 2ªs e 3ªs ondas, hoje o propósito é lutarmos para resistir ao enorme desafio que enfrentamos, com a expectativa de nas próximas semanas chegarmos a um momento de crescente imunização da população, particularmente dos grupos mais vulneráveis com o processo de vacinação em curso (que soma à imunização “natural” que cresceu e crescerá significativamente). De chegarmos a um tempo em que, paulatinamente, recuperemos algum controlo, levantaremos algumas restrições e possamos estar fisicamente mais próximos uns dos outros, algo tão fundamental ao nosso bem-estar. A um tempo em que, também pela recuperação das pessoas, recuperaremos o país, o bem-estar e a coesão social.”

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3 Antónios; 3 “T”

Guterres, Damásio, Horta-Osório. Três “Antónios” que além-fronteiras projectam e afirmam Portugal pelas melhores razões em três áreas distintas: Guterres na política, pela confiança; Damásio na ciência, pela verdade; Horta-Osório na gestão, pela transparência.

Recordo-o ao sabor dos três “T” de uma explicação recente de W. Ischinger a F. Zakaria acerca das razões determinantes da cooperação – Trust (confiança); Truth (verdade); Transparency (transparência) – e da importância da cooperação na resposta aos grandes desafios societais actuais e futuros. Cooperação hoje essencial, entre ciência (profissionais), decisores e media, na resposta à pandemia. Cooperação amanhã essencial, entre decisores políticos, na resposta para a recuperação das pessoas e do país.

Pensar o dia de ontem – dia com o actual maior número de vítimas mortais da pandemia e das eleições presidenciais de 2021 – também implica reflectir sobre a confiança, a verdade e a transparência dos “actores” e a cooperação e não-cooperação que daí pode resultar. Uma cooperação que nos deve mobilizar, para que como os “Antónios” nos mostram possível, cumpramos Portugal. Um Portugal de direitos, de bem-estar, de exemplos e referência.

Um Portugal possível.

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Desafios da Psicologia Política

Primeiros dias de 2021

A primeira semana de 2021 lembrou-nos, eficaz e violentamente, que os desafios de 2020 permanecem bem vivos, resistindo a resoluções de ano novo Mundo fora.

Por cá os 30000 casos de COVID-19 notificados nos últimos 3 dias garantem dias complexos e desafiantes nas próximas semanas. Nos EUA, os últimos 3 dias e as sondagens que indicam que 45% dos 74 milhões de votantes de Trump apoiam a invasão do Capitólio, garantem-nos anos complexos e desafiantes decorrentes da enorme polarização política e social (não exclusiva dos EUA).

Lerner defende que se o “oposto de uma verdade é uma mentira” o “de uma verdade absoluta pode ser outra verdade absoluta”. Verdades absolutas abundam hoje a internet e viajam velozmente e sem mediação via redes sociais, polarizando e sectarizando mais e mais (uma quase “fé”).

Vi recentemente séries que permitem reflexões complementares ao fenómeno. Plot against America, adaptação do romance de Roth sobre “a pessoa providencial” que no momento/contexto certo pode virar a história e num ápice destruir anos de construção de instituições democráticas e direitos humanos. Pátria, adaptação do romance de Aramburu sobre como em contexto de forte polarização todas/os somos vítimas. Todas/os.

Aqui e não só, muito preocupante semana num muito preocupante Mundo.

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Desafios da Psicologia Política

1 agora ou 2 depois…

1 agora ou 2 mais tarde?

O “teste do marshmallow” – estudo científico da área da Psicologia desenvolvido por Mischel nos anos 60 – colocou crianças perante a possibilidade de comer algo prazeroso no momento (goma) face a esperarem que a/o investigador/a retornasse à sala (depois de sair) e assim comer 2 gomas.

Estudos sucessivos têm mostrado que as crianças hoje conseguem esperar mais tempo que as da década de 60 (em média, mais 2 minutos em 2000 e mais 1 minuto em 1980), demonstrando maior auto-controlo, preditor de indicadores importantes ao longo da vida (desde logo de saúde e de desempenho, incluindo escolar), aumento que tem vindo a ser associado à maior frequência de educação pré-escolar.

Em Portugal debatemos mais o alargamento da escolaridade obrigatória para “a frente” e, embora a frequência tenha aumentado nos últimos anos, o acesso ao pré-escolar é ainda desigual (município a município, família a família – 47% de matrículas em instituições privadas face a 27% de média na UE).

Este é, a meu ver, um bom exemplo de como a Psicologia pode contribuir para políticas públicas mais promotoras de equidade e coesão social. Políticas que, desde cedo, promovam competências e garantam oportunidades a todas/os, respondendo a dificuldades precoces e não deixando ninguém para trás.

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Activismo…

“Não ser racista não basta. Há que ser anti-racista”.

O debate em torno do racismo – impulsionado nos últimos meses pelas mortes em Maio de G. Floyd (e crescimento do movimento blacklivesmatter) e, em Julho em Portugal, de B. Candé – confronta-nos com duas atitudes possíveis das/os não-racistas: não ser (racista) Vs ser anti (racista). Entre elas a ideia/conceito de activismo.

Infelizmente o activismo continua a ser associado a radicalismos, extremismos e até, por vezes, a acções violentas. Fenómenos que se verificam em grupos que se dizem activistas mas fenómenos que não o descrevem. Antes, o activismo remete para a acção face a algo… Para a participação e envolvimento.

Hoje, aniversário de uma amiga de sempre, passam 120 anos sobre o desaparecimento de O. Wilde e 81 de F. Pessoa, poetas e escritores que foram também activistas no e do seu tempo: Wilde na luta pelo respeito e direitos LGBTI+; Pessoa na luta contra os fascismos.

É tempo de celebrarmos o activismo e de o desassociarmos do extremismo e da violência.

Activismo que advogo para a minha profissão porque creio essencial a acção, participação e envolvimento de todas/os no combate às diversas formas de discriminação e exclusão por um país e um Mundo com maior coesão social, bem-estar e oportunidades para todas/os.

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Desafios da Psicologia Política

Eleições EUA/Mundo 2020

What makes Joe run, pergunta a Time. Porque se candidata? Preparo-me para acompanhar a madrugada (aqui) dos 1os resultados (das decisões?) das eleições dos EUA.
Quem me lê sabe que reflicto muito sobre contributos da ciência psicológica na compreensão de fenómenos que se expressam na (forma de fazer) política e nos seus resultados. Sabe ainda que me (pre)ocupam questões como a desinformação, a polarização ou o tribalismo. Que entendo objecto maior da Psicologia (e do “eu psicólogo”), no micro e macro, a procura de um Mundo com maior coesão social e equidade. São, assim, eleições que considero de todos porque a todos impactam.
Recentemente um colega explicava a polarização nos EUA com uma metáfora: alguém tinha de escolher entre frango ou vidros para jantar e perguntava se o frango estava bem cozido (se não for perfeito, legitimamos a escolha “absurda”).
Biden não é perfeito. É, talvez, “mal cozido”. Mas não é Trump. Resistiu à morte de um filho já depois da perda da mulher e de uma filha de 13 meses num acidente. Resistiu como enquanto eleitores devemos resistir a não polarizar entre a perfeição ou o absurdo pois, se assim for, mais cedo que tarde teremos o absurdo.
Porque se candidata Joe? Porque hoje, espero, ajudará os EUA e o Mundo a resistir a Trump. A resistir ao absurdo
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PanConspirações

No início da década que termina no actual contexto de incerteza, foi anunciado um cabo transatlântico entre a costa leste dos EUA (NY) e Inglaterra (LON). Objectivo: ganhar 5 milissegundos de velocidade de troca de dados; Preço: $300M; Modelo de Negócio: trocar informações da evolução das cotações nas bolsas de valores e realizar transacções antes dos concorrentes.

A utilização da informação e conhecimento sempre permitiu vantagem. Desequilíbrio. Tal sucede(u) também com o conhecimento da ciência psicológica, num e noutro sentido e nem sempre pelo bem-comum. Tenho sempre presente como se utilizaram “testes de inteligência” com fins de discriminação racial, como se desenharam programas de testemunho (e tortura) da CIA ou, recentemente, perfis (profiling) via redes sociais com fins políticos.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da democracia, liberdade e auto-determinação.

Aqui neste “PanConspirações” reflectimos sobre a emergência e disseminação das conspirações, seus impactos e como se poderiam prevenir.

Aqui, neste site, encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade” e “PanPopulismo”.

 

 

 

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Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Godinho fez música da expressão “homem dos 7 instrumentos” que, de frase em frase, “segue para a rosa-dos-ventos”. Imagem dos 4 pontos cardeais, volta completa ao horizonte (diferentes lados). Imagem que ampla, inclui, por oposição à da fotografia que nas palavras de Sontag enquadra, excluindo.

Penso-o ao reflectir a polarização societal Mundo fora que por cá teve ressonância no brutal homicídio de Bruno Candé. Creio as reacções paradigmáticas de 3 fenómenos: “tunelamento”– foco num determinado ponto negligenciando outros relevantes; julgamento– procura de respostas imediatas e certas não raras vezes baseadas em preconceitos estigmatizantes para os quais depois procuramos “factos”; redes sociais – algoritmos que nos dão mais do que vá vimos (conhecemos) e confirmam / aprofundam as nossas crenças.

A democracia vive do diálogo e discussão construtiva, dificultados quando se extrema e polariza. Protegê-la implica prevenir a polarização promovendo maior interesse e conhecimento do outro, mais proximidade, empatia e valorização da diversidade. Para tal, muito contribuiriam outros algoritmos das redes sociais que, inspiradas no “paternalismo libertário”, sem nos impor, nos dessem acesso ao contraditório e a outros pontos de vista. Algoritmos mais “rosa-dos-ventos”, menos “fotografia”