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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

Confiar, confiar…

. Permanecer membro da União Europeia ____

. Sair da União Europeia ____

Todo o processo associado ao referendo que resultou no apelidado “Brexit” é, a meu ver, merecedor de atenção e reflexão ao concentrar em si e concretizar três fenómenos com forte impacto na nossa sociedade: 1) a simplificação, normalmente polarizada, de questões complexas, algo que se observa nas “simples” opções de resposta no referendo face à questão complexa relativa à relação do UK com a UE; 2) o julgamento, normalmente polarizador, que pessoas com uma posição assumem face a pessoas com outra posição, assumindo-se como as boas (face as más), as sensíveis (face às insensíveis) ou as morais (face às imorais); 3) o aproveitamento, normalmente alheio ao bem-comum, da incerteza e destas polarizações de pessoas com o fim único de se garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo (políticas, ideológicas ou outras), sem pensar nos impactos negativos desse aproveitamento nas instituições ou na sociedade a médio e longo prazo.

“Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança”, 21º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura discutir a crise de confiança que trespassa várias áreas da sociedade, desde as suas instituições, às políticas, à ciência e às pessoas e como, a velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação destas crises de confiança. Uma associação que “gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).”

Em qualquer momento, mas particularmente em momentos de complexidade e incerteza, o confronto com as “nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições”, enquanto “melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social.”

Cumpre-nos promover e manter “consenso social consentâneo com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem.

Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.

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Política Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas

Allerweltspartei. Previsivelmente, poucas e poucos conheceremos esta palavra. Original alemão do mais vulgar em inglês catch-all party, significa (tradução minha) partido (político) “onde todas e todos cabem”. Partido “de massas”. Conceito sempre problematizado, explanado por Kircheimer em 1966 para descrever partidos que, por serem de largo espectro e menos ideológicos, procuravam atrair o maior número possível de pessoas. Partidos actualmente, embora a ritmos diferentes, em perda e quebra um pouco por toda a Europa face a partidos políticos que, mais individualizados e singularizados, se centram em causas e se dirigem a grupos específicos de pessoas, originando maior fragmentação política.

“Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas”, 19º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) reflecte sobre esta fragmentação a partir de dois fenómenos que nela considero essenciais: a forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, nesse sentido, com desinformação; a enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, que, cada vez com mais eficácia e menor custo, preparam e personalizam a informação para cada pessoa e grupo de pessoas. Procura, também, reflectir sobre o impacto destes fenómenos na maior volatilidade das votações; quebra de confiança; e na emergência de lideranças providenciais, salvíficas, populistas e de perfil mais autoritário.

Procura, depois, olhar a “outra face da moeda” e a possibilidade destes fenómenos, se utilizados com outro fim (bem-comum), produzirem efeitos também significativos mas na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social, nomeadamente se utilizados para uma maior personalização das políticas públicas, tornando-as mais contingentes, baseadas nas singularidades das pessoas e, por isso, mais eficientes e eficazes – abordo, com propostas, o exemplo das políticas de emprego estagnadas há décadas no seu modelo. Discuto, ainda, a importância de uma atitude de compromisso entre partidos, pela construção de espaços de entendimento centrados na abertura, na empatia com as pessoas e as e os adversários e no desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas capazes de influenciar o comportamento, a tomada de decisão e as negociações.

Fecho apelando a que a um certo colocar em causa dos Allerweltspartei corresponda um colocar em causa das Allerweltspolitik, políticas catch all. Porque, se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas. Precisamos, de transformar e personalizar as políticas. Personalizar com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

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Política Psicologia

As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.

“As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.” Na passada 6ªF participei na conferência “A Psicologia e a Administração Local – O que podem fazer as/os psicólogas/os pelo seu município?”, promovida pela DRMadeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses integrada nas comemorações do Dia Nacional do Psicólogo.

À sua margem da conferência, em declarações à RTPMadeira discuti como no presente podemos perspetivar o futuro, referindo que mesmo confirmando-se (como todas e todos esperamos) a diminuição progressiva das restrições, “as muitas dificuldades não pesam só no presente e pesarão também para o futuro se estas pessoas não forem apoiadas” e que “há muito trabalho a fazer para recuperar as pessoas para termos um país de bem-estar e coesão social”. Abordei ainda a necessidade da intervenção “estar mais disponível e próxima” e a importância da literacia e reconhecimento da importância da saúde psicológica, alcançado por ser hoje mais “comum as pessoas falarem não apenas porque conhecem [situações] mas porque na comunicação social se fala da psicologia” resultando “num aumento de procura muito significativo”. Na mesma peça o Renato Gomes Carvalho havia abordado o aumento dos problemas de saúde psicológica, sublinhando, bem, que além do agravamento das situações de “ansiedade e depressão”, verificou-se um aumento da “impulsividade, reactividade, agressividade descontrolada e perturbações das dinâmicas familiares”. Falou ainda das autarquias enquanto contexto potencial de intervenção nestas áreas, pela promoção de “locais de trabalho mais saudáveis e produtivos, por exemplo através da avaliação dos riscos psicossociais” mas também do potencial alargamento do papel das e dos psicólogos nestes contextos, sublinhando a necessidade de se desenharem as políticas públicas com base no conhecimento e na evidência científica referindo que não podemos “aplicar uma medida para milhares de pessoas sem ter evidência científica e uma base sólida em termos técnicos e científicos para aplicá-la”.

Sobre a minha conferência propriamente dita e a reflexão sobre o papel e os contributos da psicologia para autarquias de bem-estar e coesão social, partilho dois textos que escrevi para a rubrica “Ao redor… (Sábado)” guardando uma palavra para a sessão de partilha, da tarde deste dia, com colegas de diferentes contextos sobre a vivência da pandemia. Momento de celebração da ciência e profissão, onde se validaram dificuldades pessoais e profissionais e se sentiu como fazemos a diferença na vida de tantas pessoas em contextos tão diferentes. Obrigado a todas e todos.

 

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (05.05.21) | https://www.linkedin.com/pulse/autárquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira/

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (07.09.21)| https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia

Conjugação…

Qual a relação entre o facto do gás natural distribuído em Londres a partir de meio do século XX ter passado a ser mais limpo de monóxido de carbono; a aprovação de Leis restritivas do acesso a pesticidas tóxicos no Sri Lanka; e ter deixado de ser possível às e aos jovens militares Israelitas terem consigo armas de fogo fora do período laboral? A diminuição da taxa de suicídio no momento subsequente às mudanças naqueles três contextos. A conjugação, nos exemplos associada ao muito complexo desafio de saúde pública que é o suicídio (ver nota de fim), mas que se verifica noutros exemplos, das lojas em que somos “forçadas e forçados” a “visitar” na totalidade ainda que queiramos um único artigo e o possamos encontrar logo entrada (não raras vezes compramos algo mais) ao debate em torno da proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares.

“A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19”, 15º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) trata a conjugação, ou seja, a forma como “pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes” e a oportunidade que resulta do facto do momento actual conjugar a crise COVID-19 com as Autárquicas 2021, que já havia abordado nesta rubrica a 05.05.21.

É que, sendo “a aldeia, a vila e a cidade o resultado da expressão da existência e da relação humana e o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes”, o artigo discute a importância das autarquias verem os seus projectos mais informados pela ciência psicológica, as suas equipas reforçadas com psicólogas e psicólogos e a amplitude do seu papel aumentar em seis áreas nele discutidas, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações.

Também porque “à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos” e por Portugal ter já cerca de 25000 psicólogas e psicólogos “disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas” que podem e querem “contribuir no presente para o futuro do país.”

 

Nota: A 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa é agente na prevenção deste gravíssimo problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

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Democracia Desafios da Psicologia Política

Teorias da conspiração – uma perspectiva da psicologia (Público; 19.08.2021)

As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido.  Remetem para tentativas de explicação das causas últimas de eventos políticos ou sociais relevantes já acontecidos ou por acontecer, baseadas na acusação de alguém ou de algum grupo visto como um inimigo poderoso e malévolo. São, normalmente, explicações curtas e simples para grandes e complexos problemas; são, regra geral, apelativas ao apresentarem soluções também elas simples e, sobretudo, definitivas para problemas das pessoas e da sociedade; são, finalmente, propagáveis porque usam e abusam da dimensão emocional e muitas vezes de mentiras e manipulações pelo que, com ou sem intenção, são facilmente disseminadas pelas pessoas junto de outras pessoas.

Então porquê esta preocupação agora? Porque é hoje tão importante compreender as bases deste problema? Diríamos por três motivos fundamentais: (1) porque, com o desenvolvimento das redes sociais digitais e da sua arquitetura, o impacto é hoje muito maior. Posições minoritárias têm agora um eco muito maior, pela lógica de “bolhas” e de facilidade de disseminação da informação e, particularmente, da desinformação (até 6 vezes mais rápida segundo alguns estudos). Isto pode potenciar a utilização das teorias da conspiração para fins menos claros de manipulação das pessoas, seja para se obterem ganhos económicos diretos, através das partilhas das publicações, seja como forma de fragilizar o poder e as instituições em sociedades democráticas; (2) porque vivemos um período sério de crise (veja-se a pandemia COVID-19), onde as teorias da conspiração tendem a ser mais eficazes. Preenchem “vazios” e oferecem “controlo”, compensando uma menor confiança nas autoridades, instituições e comunicação social e beneficiando da crescente diluição de mediadores; (3) porque, enfim, podemos. Temos hoje uma vasta evidência científica, particularmente uma ciência psicológica mais desenvolvida, que nos pode ajudar a compreender, prevenir e mitigar o fenómeno e as suas amplas consequências.

Apesar de todas e todos sermos suscetíveis a acreditar e/ou disseminar desinformação, é cientificamente relevante a maior propensão de algumas pessoas para acreditarem em teorias da conspiração. A ciência parece mostrar que as pessoas que acreditam numa determinada teoria da conspiração têm tendência para acreditar noutras, que muitas vezes são até contraditórias entre si. Este facto sublinha a existência de traços (ou pelo menos características) partilhados por estas pessoas, pelo que é fundamental observar as dimensões psicológicas associadas às pessoas mais vulneráveis a estes fenómenos.

Logo à partida parece clara a utilização das teorias da conspiração numa procura por sensações de controlo e de segurança. Segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais. Consegue, deste modo, responder à incerteza, à imprevisibilidade e ao contraditório, um pouco à semelhança do que acontece quando se usam crenças paranormais ou superstições. Neste sentido, estarão mais vulneráveis pessoas mais alienadas ou revoltadas face à organização social vigente. Igualmente, pessoas com menor capacidade de regulação emocional e que, por isso, utilizam mais automatismos e estão mais expostas a viés deles decorrentes nos seus processos de tomada de decisão.

Além do controlo e segurança, vários estudos têm também demonstrado que as teorias da conspiração são particularmente apelativas junto de pessoas com outras necessidades psicológicas por satisfazer como a auto-estima. Ao explicarem o desconhecido, as teorias da conspiração permitem às pessoas uma sensação de satisfação por conseguirem explicá-lo, fazendo-as sentirem-se especiais e resultando em acréscimos de auto-estima. Não será por isso estranho que o narcisismo, pautado por maior individualismo, centração em si e por uma extrema necessidade da pessoa afirmar a sua superioridade e de se considerar melhor do que a maioria das pessoas, se constitua como uma predisposição para adotar teorias conspirativas que colocam a culpa noutras pessoas ou grupos. Associando este fator aos comuns traços de impulsividade nestas pessoas e à sensação de angústia, desespero e mau estar psicológico, viver num Mundo com “pessoas malévolas” pode ser de algum modo “reconfortante”, pois fornece uma explicação para as suas emoções mais “negativas” como o medo, a raiva ou o ódio. Poderá ainda ser mais reconfortante pela associação a um grupo especial, que consegue perceber coisas que os outros não são capazes de compreender, o que será ainda mais reforçado com a diabolização de outros grupos. Este fenómeno gera maior polarização e tribalismo e ajuda a explicar também porque pessoas socialmente mais vulneráveis poderão ter uma maior tendência de identificação com estes grupos.

Resta assim claro que as teorias da conspiração promovem prejuízos sérios, uma vez que contribuem para a diminuição da confiança e para a dicotomização e polarização das opiniões e consequente incapacidade para encontrar soluções equilibradas (veja-se, por exemplo, o impacto na saúde pública dos movimentos anti-vacinas alimentados por teorias da conspiração).

Mas nem tudo é negativo. Este fenómeno pode concorrer para acelerarmos e intensificarmos seis mudanças urgentes na sociedade: (1) investir em maior transparência nas ações políticas, questionando as inconsistências de algumas decisões e abrindo a discussão de temas que de outro modo poderiam não ser discutidos; (2) promover a educação, a diversidade e acesso ao contraditório e a literacia das pessoas e da sociedade como antidoto e fator de inoculação face às teorias da conspiração. Em paralelo, influenciar mudanças nos algoritmos utilizados nos motores de busca e redes sociais nesse sentido, permitindo que uma busca de um qualquer tema ou o simples navegar em redes sociais permita acesso ao contraditório e diverso e não apenas a posições reforçadoras das ideias ou crenças de quem procurou; (3) desencadear mecanismos de reforço da confiança, de reforço da coesão e da conexão entre pessoas e grupos (incluindo políticos) por oposição ao extremar ideológico dos mesmos; (4) apostar na promoção da saúde psicológica da população, prevenindo as situações que expõem as pessoas a estes fenómenos, através da promoção da capacidade de adaptação, de resiliência (individual e social) e da crença na possibilidade de bem-estar e num Mundo tendencialmente justo e seguro; (5) investir na literacia digital e na capacitação das pessoas para uma utilização consciente das tecnologias de informação e comunicação e das redes sociais, assente no desenvolvimento de pensamento crítico sobre a informação disponibilizada e da capacidade de distinção entre factos / evidências e opinião; (6) investir no combate às iniquidades, desigualdades e a todas as formas de exclusão.

Bem sabemos quão longo, complexo e desafiante é este caminho. As desigualdades, as dificuldades económicas e sociais, a vulnerabilidade a abusos e as sensações de injustiça são um combustível ótimo para as pessoas embarcarem neste conforto de se sentirem parte de algo importante e poderoso. Parecem poder acabar com o mal do Mundo, punir os culpados e, enfim, sentirem-se compensados de todos os males sofridos. As psicólogas e os psicólogos podem ter um papel importante no trabalho com estas pessoas pelo seu papel na facilitação do desenvolvimento de mecanismos mais funcionais que as possam ajudar a lidar com as suas dificuldades. A ciência psicológica pode contribuir com evidência para a compreensão do fenómeno e para ajudar quem decide a desenvolver políticas que o possam prevenir e mitigar. Enquanto sociedade, temos a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.

 

Miguel Ricou e Tiago Pereira

Jornal Público; 19.08.2021

https://www.publico.pt/2021/08/19/sociedade/opiniao/teorias-conspiracao-perspetiva-psicologia-1974559

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos (Ao redor…; Sábado; 10.08.2021)

“Não há vestígios de mim no quarto onde a Meredith foi assinada (…) mas tentam encontrar a resposta nos meus olhos, quando a resposta está mesmo ali. Estão a olhar para mim. Porquê? Estes são os meus olhos. Eles não são provas objectivas.” Amanda Knox, jovem Americana duas vezes condenada e outras duas vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Além dos quatro anos que esteve detida e dos oito anos de processo, ainda hoje muitas e muitos a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

Todas e todos julgamos. Todas e todos tendemos a crer, a supor, a formar juízo, normalmente valorativo, e até a sentenciar outras e outros, conheçamo-los ou não. Fazemo-lo para minimizar a incerteza que nos causa desconforto, particularmente quando estamos ou nos sentimos em situação de maior vulnerabilidade. Fazemo-lo porque assumimos conhecer o ou a outra e a situação, sendo-nos, portanto, possível compreender e expiar, distribuindo culpa e a afirmando a superioridade moral e de comportamento face às ou aos culpados (por vezes grupos). “São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”, diz Amanda Knox. Algo tão comum que, em alguns círculos, é não apenas a norma mas identitário, funcionando o julgamento de outros e outras como parte de um todo em que quem o constitui, mais do que se identificar entre si, identifica-se nesse julgar, nesse combater, do e dos inimigos. Do ou dos inimigos, reais ou não, porque muitas vezes estes fenómenos resultam da utilização de desinformação ou mesmo da construção e proliferação de teorias da conspiração.

Isto, apesar da sociedade ter instrumentos democráticos que asseguram direitos às pessoas visadas ou mesmo investigadas, quando se trata de processos formais. Apesar de existirem normativos autorregulatórios sociais, das forças policiais ou de um conjunto de associações profissionais como a minha, cujo código deontológico, por exemplo, convoca os psicólogos e as psicólogas para uma atitude de “não julgamento” face a “outros colegas ou outros profissionais”. Isto, apesar de todos e todas já termos experienciado dúvida – se não mesmo arrependimento – após um julgamento de uma situação, pessoa ou grupo que mais tarde consideramos desadequado ou injusto. Isto, apesar de já todos e todas termos experienciado que detectar uma mentira, conforme inúmeros estudos têm demonstrado (ver, por exemplo, Paul Ekman ou Timothy Levine) nos é difícil (muito mais do que achamos). E isto, finalmente, quando, também ao contrário do que pode parecer, julgar é muito desafiante e difícil.

A conectividade, a velocidade e a globalidade que caracterizam o Mundo, hoje, fazem com que vivamos certamente as décadas em que mais pessoas contactam, por múltiplas razões, com pessoas de si diversas e para si desconhecidas. Viagens, de lazer ou de trabalho, organizações ou eventos multinacionais, redes sociais e outras tecnologias de contacto e conexão fizeram dos últimos 20 anos os 20 anos da história da humanidade em que mais nos relacionamos directamente com outras e outros nossos desconhecidos. Este facto explicará parte da colaboração nos fantásticos desenvolvimentos nos últimos anos nas áreas científica, desportiva ou artística para dar apenas três exemplos, que vivem da riqueza da diversidade e da complementaridade, mas também os mal-entendidos potenciais (não necessariamente problemáticos) quando contactamos com desconhecidos que, ao contrário do que intuitivamente poderíamos esperar (e do que achamos), até podem aumentar com mais contacto. Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas. Ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.

“Todas as pessoas julgam e por isso não estamos aqui para mudar a mente das pessoas e dizer que não julguem (…) antes para tornar a informação disponível em ambiente seguro para que possam tomar decisões, esperamos, mais informadas”. Palavras de Ronnin Abergel, fundador e Director da Humam Library (Biblioteca Humana) criada em 2000 com o lema “Unjudge someone” (Não-julgues alguém) e cujo objectivo último visa a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Um projecto cujo fim último é relevantíssimo para a coesão social, qualidade de vida e vida em sociedade de todas e todos e que usa da transposição da biblioteca (de livros para humana), do ditado popular “não julgues um livro pela capa” (de um livro para uma pessoa) e da arte enquanto veículo primordial para a compreensão, aceitação e para a ideia de não julgamento – “Don´t let me be misunderstood” (Não me deixes ser mal-entendida), cantava Nina Simone.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, também pela promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmar a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas, enfrentando os reveses de quando se comprova que assim não é, mas prevenindo os que resultam de uma atitude em que, por princípio, assim nunca é. Aqui e ali, no Mundo ao redor, ganhemos, desta forma, mais tempo e energia para nos (re)centrarmos no que controlamos, investindo em nós, no nosso autocuidado e na promoção de competências que nos permitam crescer e contribuir para um Mundo tendencialmente justo e seguro e enquanto espaço possível de bem-estar para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflictamos na situação vivida por Amanda Knox e nas suas palavras – “Há quem acredite na minha inocência. E há quem acredite na minha culpa. Não há meio termo. E, se sou culpada, isso significa que sou derradeira figura a temer. Porque não sou a óbvia. Mas, por outro lado, se sou inocente, isso significa que todos somos vulneráveis e esse é o pesadelo de todos” – buscando o efeito tranquilizador de sabermos que o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eu-julgo-tu-julgas-elas-e-eles-julgam-nos-julgamos

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Política Psicologia

Erasmo…

Há dias brincava com o meu filho e… “Rebenta a bolha”, disse-me. Há anos que não escutava esta expressão tão do meu (julgo que do de muitas e muitos) imaginário e que percorreu jogos e brincadeiras na minha infância. Utilizada em forma de “assim não”, interrompia jogos e brincadeiras quando uma regra não era cumprida ou algum facto inesperado acontecia no seu decorrer.

Hoje penso (julgo que muitas e muitos pensamos) noutras bolhas. As conjunturais, relacionadas com a pandemia que vivemos de turmas, de conjuntos de trabalhadoras e trabalhadores ou até de adeptos. As já mais estruturais que, muito potenciadas pelas redes sociais, novas tecnologias e seus algoritmos, nos agregam por crenças, gostos e opiniões e nos polarizam crescentemente. Polarizam, afastando-nos de outras e outros por terem outras crenças, gostos ou opiniões, gerando uma sociedade progressivamente menos assente na confiança, com menor oportunidade de relacionamento e partilha e até, de certa forma, tribalizada.

Também há dias foi apresentado o novo programa Erasmus +. Programa da União Europeia com 3 décadas que movimentou pela Europa já mais de 10 milhões de pessoas – um Portugal de Erasmus. Usa do nome do Teólogo, Filósofo e, essencialmente, Humanista Erasmo que nascido em Roterdão viajou por muitos países da Europa nos séculos XV e XVI, incluindo Portugal, onde este novo programa foi apresentado. Também há anos fui um dos 10 milhões de pessoas que do Erasmus beneficiou, podendo compreender o “poder” de contactar e de me relacionar com outras e outros com crenças, gostos, opiniões e experiências distintas. Podendo experimentar-me noutro contexto e beneficiar da riqueza da diversidade.

Muitas vezes, por muito me interessar, perguntam-me como pode a ciência psicológica informar e contribuir mais para políticas públicas? A investigação em Psicologia tem amplamente demonstrado o poder do que atrás refiro no respeito pela diferença, pelas liberdades e garantias de todas e todos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus, como diversos estudos de impacto demonstram, é das políticas da União Europeia com maior impacto na construção de uma identidade Europeia e na promoção dos principais desígnios da União (“a dignidade humana, a igualdade e respeito pelos direitos humanos”), tão postos em causa nos últimos tempos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus merece ser saudado e “utilizado” por quem tem essa oportunidade, também para que no futuro outras e outros possam vir a ter essa oportunidade e para que aspiremos a um país, a uma Europa e a um Mundo com menos bolhas.

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Política Psicologia

Que cidade e território queremos?

“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”, 6º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado), centrado na feliz coincidência de 2021 ser ano de Autárquicas e do seu potencial papel “no repensar e no recuperar a que estamos obrigados e na mudança que daí pode e deve resultar”.

Ao expor “vulnerabilidades, iniquidades e a forma como intrinsecamente se relacionam”, a pandemia reforçou “a importância da proximidade e a pertinência da adaptação e personalização das respostas em crises às características, necessidades e aspirações das pessoas, grupos e comunidades”. Noutro prisma, permitiu-nos reiniciar e “voltar ao mais básico do que queremos das cidades e dos territórios (a possibilidade de fruição dos mesmos por todas e todos que os habitam ou visitam) e aspirar a um Portugal de ABC – Autarquias de Bem-estar e Coesão social”.

Considerando-o, o artigo é um singelo estímulo para que as equipas candidatas promovam a participação activa da população neste processo (do desenho de projectos considerando as suas necessidades/aspirações à sua concretização futura) e nele recorram a contributos de diversas áreas científicas, nomeadamente da ciência psicológica.

A vós que, ao ler-me, me estimulam a reflectir, pergunto: que cidade e território querem? O que podem(os) fazer para a/o tornar possível?

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

“Demasiado(s) polarizados, todos iguais” (Ao redor, Sábado, 06.04.2021)

“Demasiado(s) polarizados, todos iguais”, 4º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) que trata o tempo que vivemos.

“Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor ou fica melhor assim?” J. Sócrates, então 1º ministro demissionário, preparava-se para comunicar ao país o pedido de assistência financeira e, em directo (sem saber), tentava cuidar a melhor forma de o fazer. Hoje passam 10 anos deste momento em que vivíamos uma grave crise socioeconómica, era anunciado algo com significativo impacto nos anos subsequentes e seria esta inesperada situação e o vídeo que proporcionou, a “trend” da noite nas redes sociais.

No artigo reflicto sobre como a forma de acesso, criação e partilha de informação e comunicação se transformou, como isso explica, em parte, a polarização da sociedade e como a podemos prevenir e mitigar.

Como “o “choque” dos triângulos populismo-crise sócioeconómica-crise migratória / internet-redes sociais-Cambridge Analytica ajuda a explicar como chegamos ao fim de 2016 com Trump presidente dos EUA e com o UK, pós-referendo Brexit, a debater como sair da UE (…) a compreender como viajamos do “todos diferentes, todos iguais” a um “demasiado(s) polarizados, todos iguais”, e como poderemos regressarmos ao original, belo e significativo “todos diferentes, todos iguais”.

Aqui…

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É uma casa! (para as ciências comportamentais) (Ao redor; Sábado; 23.03.2021)

Passava das 23 horas da quarta-feira dia 10 de Outubro de 2018 quando, junto a uma das casas do projecto “É uma casa”, se acordou a reunião da segunda-feira seguinte em que se concretizaria e operacionalizaria uma proposta apresentada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ao Secretário de Estado Adjunto e da Saúde (SEAS) para a criação de um programa nacional que, a partir dos contributos das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas para a melhoria das políticas públicas de saúde em Portugal.

O SEAS associou-se nesse dia à OPP numa visita à “Crescer” para assinalar o dia Mundial da Saúde Mental e a relevância e custo-efectividade de políticas públicas de promoção da intervenção comunitária de proximidade junto da população com maiores vulnerabilidades neste âmbito. Nesse final de tarde e noite, conhecemos 3 projectos da Associação com o director executivo (Américo Nave) e diferentes técnicas/os da sua empenhada equipa, parte das/os quais psicólogas/os: “É uma rua” que acompanha em proximidade pessoas que consomem substâncias lícitas e ilícitas e que se encontram em situações de extrema vulnerabilidade; “Marhaba” que promove a inclusão social e comunitária de população refugiada através da gastronomia; “É uma casa”, projecto de housing first que promove a inclusão de pessoas em situação sem abrigo, contribuindo para a erradicação das situações crónicas de sem abrigo.

“Só uma casa o permite”. Foi depois de visitarmos uma das então 34 casas deste projecto – onde havíamos ouvido que “ao início, não conseguia dormir deitado na cama do meu novo quarto” e a explicação “viva” que “quase 14 anos de rua são quase 14 anos de necessidade de vigilância constante e de impossibilidade de segurança” – que se acordou a reunião da segunda-feira seguinte. Acontece que – como também quase 14 anos antes quando a OPP esteve a dias de ser criada e tal só aconteceu 3 anos depois (2008) pela dissolução da Assembleia da República (2005) – na manhã desse domingo (14.10.2018) foi anunciada uma remodelação no Governo e a substituição do então Ministro da Saúde. Com a sua saída, saiu o SEAS e, também neste tema ficávamos a dias de algo que, curiosamente, também apenas 3 anos depois aconteceria pela insistentemente proposta e apenas recentemente constituída (Despacho 3027/2021) task force de ciências comportamentais aplicada ao contexto da pandemia de COVID-19. Conforme nos fora dito, “só uma casa o permite”.

É certo que daquele Outubro ao actual Março não distam apenas 850 dias. Naquele Outubro, mesmo quem tivesse visto o hoje mediático vídeo de 2015 de Bil Gates (“O próximo surto – Não estamos preparados”), não preveria que vivêssemos hoje há mais de um ano numa pandemia com impactos múltiplos e significativos (incluindo já mais de 2.700.000 mortes no Mundo e mais de 16.700 em Portugal) na qual o comportamento das pessoas assume um papel fundamental. Hoje é mais claro, para decisoras/es e não apenas, a importância de estudar e compreender quais os factores que influenciam a tomada de decisão e o comportamento das pessoas e quão relevante para apoiar a tomada de decisão e o desenho de políticas podem ser indicadores desta natureza, bem como testar as melhores abordagens que favoreçam, facilitem e removam obstáculos da população à adopção de comportamentos que vão muito além da hoje indispensável correcta utilização da máscara ou da toma da vacina de inoculação do vírus que provoca a COVID-19. O SEAS reconhecia-a já em 2018 e talvez isso ajude a compreender porque o Centro Hospitalar de São João, a cujo conselho de administração hoje preside, seja apontado como exemplo na resposta à pandemia em Portugal, tenha um Serviço (autónomo) de Psicologia – superiormente coordenado pelo Eduardo Carqueja e exemplo na resposta aos utentes e profissionais (incluindo os de saúde) nesta grave crise – ou desenvolva hoje um inovador projecto piloto que permite a existência em permanência de um/a psicóloga/o no Serviço de Urgência, tão importante na estabilização emocional e comunicação com utentes e cuidadoras/es nos episódios de urgência.

A visão da importância das ciências comportamentais era já então (2018) partilhada por um conjunto de actores da sociedade civil. A OPP tinha constituído um think tank com psicólogas/os e outros profissionais para reflectir sobre as possibilidades da sua utilização em diferentes contextos e desafios da sociedade portuguesa e organizou já em 2019, com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, um workshop para dirigentes de diferentes áreas da administração pública sobre benefícios e formas de utilização deste conhecimento. Alguns exemplos em Portugal de uma realidade que crescia e percorria o Mundo, desde a equipa que trabalhou a partir de 2009 na administração Obama, às equipas da Comissão Europeia e Banco Mundial, passando pela Behavioral Insights (BI) Team, inicialmente ligada ao governo britânico, a cuja equipa pertence o António Silva que connosco dinamizou esse workshop e que havia conhecido em 2017 na Sede desta equipa em Londres. A BI Team era (é ainda) um dos principais exemplos da utilização deste conhecimento em colaborações com governos e administrações em áreas como a Educação, Emprego ou Saúde e países como a Austrália, Canadá ou UK mas também em projectos de prevenção da corrupção na Colômbia, Nigéria ou Tanzânia ou de promoção da credibilidade das eleições no Bangladesh, apenas para dar alguns exemplos concretos de milhares de intervenções desta equipa Mundo fora que em 10 anos estimam, pela promoção da eficácia nas políticas públicas, impactos de cerca de 6 mil milhões de libras (“6 unicórnios”). Intervenções normalmente simples, cientificamente sólidas, testadas antes de escaladas, que contribuíram no Reino Unido para a redução de consumos de energia, prevenção do insucesso escolar ou das faltas a consultas agendadas, três exemplos claros de áreas em que em Portugal poderíamos melhorar significativamente com pequenos e muito custo-efectivos investimentos a partir da experiência e conhecimento das ciências comportamentais.

Conhecimento que – quando utilizado no melhor interesse e, portanto, quando promotor da autodeterminação das pessoas e comunidades (for good) e não sob a forma de “engenharia social”, conforme por vezes se pretende utilizar – é uma poderosa e muito estudada ferramenta para melhorar o envolvimento dos cidadãos e a qualidade das políticas públicas. A criação em Portugal desta task force e a nomeação de uma equipa competente e motivada (que bem conheço e a quem desejo felicidades) para disponibilizar este conhecimento de forma planeada e organizada aos decisores é, a par do aumento da importância da literacia em saúde psicológica, do reforço das/os psicólogas/os nas Escolas e da criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico na Linha SNS24, uma excelente notícia neste ano tão carregado de desafios e dificuldades. Uma boa notícia no presente e para futuro porque “é uma casa” para as ciências comportamentais. Uma casa, segura, sustentável, sem retrocesso… Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje e no futuro desafios societais complexos onde o comportamento é essencial. Para lhes responderemos necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras da equidade, bem-estar e da coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 23.03.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-uma-casa-para-as-ciencias-comportamentais