Há dias brincava com o meu filho e… “Rebenta a bolha”, disse-me. Há anos que não escutava esta expressão tão do meu (julgo que do de muitas e muitos) imaginário e que percorreu jogos e brincadeiras na minha infância. Utilizada em forma de “assim não”, interrompia jogos e brincadeiras quando uma regra não era cumprida ou algum facto inesperado acontecia no seu decorrer.
Hoje penso (julgo que muitas e muitos pensamos) noutras bolhas. As conjunturais, relacionadas com a pandemia que vivemos de turmas, de conjuntos de trabalhadoras e trabalhadores ou até de adeptos. As já mais estruturais que, muito potenciadas pelas redes sociais, novas tecnologias e seus algoritmos, nos agregam por crenças, gostos e opiniões e nos polarizam crescentemente. Polarizam, afastando-nos de outras e outros por terem outras crenças, gostos ou opiniões, gerando uma sociedade progressivamente menos assente na confiança, com menor oportunidade de relacionamento e partilha e até, de certa forma, tribalizada.
Também há dias foi apresentado o novo programa Erasmus +. Programa da União Europeia com 3 décadas que movimentou pela Europa já mais de 10 milhões de pessoas – um Portugal de Erasmus. Usa do nome do Teólogo, Filósofo e, essencialmente, Humanista Erasmo que nascido em Roterdão viajou por muitos países da Europa nos séculos XV e XVI, incluindo Portugal, onde este novo programa foi apresentado. Também há anos fui um dos 10 milhões de pessoas que do Erasmus beneficiou, podendo compreender o “poder” de contactar e de me relacionar com outras e outros com crenças, gostos, opiniões e experiências distintas. Podendo experimentar-me noutro contexto e beneficiar da riqueza da diversidade.
Muitas vezes, por muito me interessar, perguntam-me como pode a ciência psicológica informar e contribuir mais para políticas públicas? A investigação em Psicologia tem amplamente demonstrado o poder do que atrás refiro no respeito pela diferença, pelas liberdades e garantias de todas e todos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus, como diversos estudos de impacto demonstram, é das políticas da União Europeia com maior impacto na construção de uma identidade Europeia e na promoção dos principais desígnios da União (“a dignidade humana, a igualdade e respeito pelos direitos humanos”), tão postos em causa nos últimos tempos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus merece ser saudado e “utilizado” por quem tem essa oportunidade, também para que no futuro outras e outros possam vir a ter essa oportunidade e para que aspiremos a um país, a uma Europa e a um Mundo com menos bolhas.