Categories
Ao redor... (Revista Sábado)

Sonhar (Ao redor…; Sábado; 15.06.2021)

Imagino que o magnético verbo – sonhar – vos estimule a evocação de alguns sonhos, mais ou menos significativos, mais ou menos repetidos. Imagino-o, tal qual imagino que cada uma ou um de nós tenha, em algum momento, sonhado que voava. Como a Gillette e a Maizena são marcas de produtos e, ao mesmo tempo, se tornaram “produtos em si”, voar poderia sê-lo para o sonhar porque, além de sonharmos voar, sonhar, literal ou figuradamente, é sempre voar, de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. O sonho e a possibilidade de sonhar, guiam-nos.

Pensemos no “I have a dream” [Eu tenho um sonho], conceito base feito título do mais marcante discurso de Martin Luther King e reflictamos se não é um ousado plano de voo. Pensemos em quando marcamos aquele golo no último lance de um jogo com um estádio a abarrotar gritando o nosso nome, quando recebemos aquele prémio que todas e todos queriam ou quanto encontramos a solução para o mais complexo dos complexos problemas do Mundo. Ou pensemos quando nos sonhos lúcidos percebemos que estamos a sonhar e por isso temos um papel mais activo nos sonhos. Ou, simplesmente, nos “sonhos pandémicos”, conforme foram definidos, que podemos ter sonhado e que reflectem o sofrimento partilhado e o medo do contágio, em quando caminhamos num espaço público sem roupa ou quando caímos depois daquele passo em frente num precipício; “voares” que partilhamos colectivamente nos nossos sonhos com pessoas de idades, culturas e experiências diferentes das nossas. Sonhar é voar, aqui como em qualquer outro lugar do Mundo.

E porque, como seres humanos que somos, procuramos, invariavelmente, um outro “eu”, sonhar é voar, projectando-nos. Permitindo que nos experimentemos, que nos rejeitemos e rejeitemos outras e outros. Que nos aceitemos e aceitemos outras e outros. Que com e pelo sonho resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos, como Paul McCartney na melodia da canção Yesterday surgida num sonho seu. Mas, um pouco como a pandemia que vivemos nos demonstrou com a COVID-19 e os seus impactos, se todas e todos podemos sonhar, nem todos e todas temos as mesmas condições para o fazer.

Essa viagem, esse “daqui para ali”, implica sempre o contexto em que ocorre, a energia disponível e o atrito que se lhe coloca. Três condições base que são determinantes na construção de quaisquer veículos, desde um carrinho de rolamentos para pequenas, simples e divertidas deslocações a um foguetão para grandes, complexas e transformadoras deslocações. Assim é com a possibilidade de sonhar, em tudo dependente do seu contexto, das características culturais e sociais do mesmo, da experiência da ou das pessoas e do suporte existente. Em tudo dependente da energia feita impulso e motivação, nomeadamente os recursos que a pessoa possui, a confiança, a segurança e saúde psicológica que lhe garanta competências e capacidade de resiliência para se adaptar a potenciais desafios que se coloquem no percurso. Em tudo dependente da coesão social e do seu papel na redução de atritos como as iniquidades, os obstáculos e as discriminações muitas vezes profundamente injustas e longitudinalmente impactantes.

O filme “Inception” (estranhamente, “A Origem” em Portugal) começa com um Di Caprio feito “engenheiro de sonhos” com fins pouco lícitos a “falhar” um objectivo num construído sonho dentro de outro sonho. Escrito e dirigido por Christopher Nolan, que 10 anos antes já tinha escrito e realizado o “Memento” (acerca da memória), o filme gira em torno da arquitectura e ciência dos sonhos (um campo ainda com muito espaço de investigação por explorar e até há pouco tempo fortemente estereotipado, mas em forte expansão), das emoções e da resposta dada a uma pergunta do início do filme: “Qual o parasita mais resiliente? Uma bactéria? Um vírus? Uma ideia… resiliente e altamente contagiosa”.

“I have an idea” [Eu tenho uma ideia]. O estudo “A Saúde dos Portugueses – Um BI em Nome Próprio” pergunta “que espaços de melhoria em saúde podemos estar a perder ao não sugerir o sonho?”, afirmando ser necessário dar “forma e cor ao sonho” na relação das portuguesas e dos portugueses com a sua saúde. A minha ideia é que aspiremos a um sonho dentro de um sonho, um sonhar podermos todas e todos sonhar um sonho que nos impelisse ao florescimento e à possibilidade de cumprimento e de propósito. Que nos permitisse voar na ou nas direcções de um espaço de significado, de saúde e de bem-estar. Um sonho lúcido, onde controlássemos (mais) e pudéssemos prever (melhor).

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, se todas e todos podemos sonhar e até partilhar colectivamente sonhos, a possibilidade de com o sonho voar é, para alguns e algumas, um pesadelo e as 3 horas da manhã “na noite profunda e escura da alma”, conforme Scott Fitzgerald afirmou. Precisamos de um contexto que facilite, promova e suporte o sonho. Precisamos de uma energia baseada na saúde psicológica e da redução dos atritos da iniquidade e da desigualdade para, literalmente, podermos sonhar e com o sonho voar. Que nos contagiemos na criação dessas condições e que possamos sempre sugerir o sonho, por um Mundo melhor, assente na possibilidade de mudança, de “outros eus” e de “outras realidades”. Por um Mundo em que temos direito a sonhar e, com o sonho, a voar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 15.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *