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Fadiga(s)

Fadiga, palavra fortemente associada ao cansaço, provém de fatigari cuja tradução inclui a ideia de “fazer desabar”. De ruir. Se pensarmos em diversas fadigas – muscular, pandemia, compaixão – percebemos que nos mostram (por vezes com sofrimento) que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade física, de permanecer hipervigilantes e responder a medidas restritivas e de relação, cuidado e empatia, são grandes, mas, também não são ilimitadas e, em muito, dependentes da nossa própria condição. Serão, assim, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra na Ucrânia?

“Fadiga da solidariedade?”, 30º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) responde com um “sim, creio que a resposta é sim”. Também, porque, conforme já sentimos com a menor abundância de notícias e de sensibilidade e “urgência” associada ao tema, há hoje mais efeito de “naturalização” e a correspondente diminuição da pressão social para a resposta e para a necessidade de agenciamento e proatividade, fortes incentivos à activação solidária. Ainda porque determinadas/os líderes, representantes e decisoras/es usam hoje do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida/recursos disponíveis” associados a esta situação para benefício próprio, de afirmação pessoal e política.

Por tudo isto importa reforçar e advogar que estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites. Que promovam a humanização e a responsabilidade social prevenindo a progressiva despersonalização e o progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. Ainda, respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários, que este esforço e compromisso seja sempre enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo.

Recordemos que uma das prioridades da política externa da UE é garantir a segurança dos Estados-Membros e que esta depende da confiança, coesão (harmoniosa), solidariedade, apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã. Pelo nosso planeta, nossa saúde, lema deste dia Mundial da Saúde.

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Ainda a Guerra…

“A incerteza cai com a tarde no limite da praia.” Começa assim o poema de Nuno Júdice (A incerteza) que termina como termina este texto: “cai-me da página(…)para dentro da própria alma”. A incerteza, que “cai com a tarde”, é hoje e para o futuro, tão presente na nossa vida como cada umas das tardes e inscrita “dentro” da na nossa “própria alma”. Basta pensarmos quando, ao incerto, acrescentamos espanto, olhando 3 acontecimentos de 3 dias 29 de Março de 3 dos últimos anos: 2004 – 7 países, incluindo 3 com fronteira com a Rússia (Estónia, Letónia e Lituânia) aderem à NATO; 2017 – Reino Unido invoca o artigo 50 do Tratado da União Europeia (UE) e inicia, formalmente, o processo de saída da UE; 2022 – 36ª dia de uma Guerra que resulta da ilegítima invasão da Ucrânia pela Rússia. 3 acontecimentos que, se recuássemos 3 anos a cada um deles, dificilmente poderíamos prever. Um pouco como hoje não podemos, com segurança, prever o que sucederá no Mundo nos próximos 3 anos ou não podemos, com segurança, prever o que sucederá na Guerra na Ucrânia nos próximos 3 meses ou, até, 3 dias.

Quando assim é, creio relevante reflectirmos sobre o presente, pensando e inscrevendo o passado, para nos projectarmos com a maior segurança e controlo possível no futuro. Também por isso, partilho, uma participação no programa Corpo Clínico (10.03.22) do Canal S+ conduzido pelo Vasco Domingos e que, tratando a Guerra, juntou-me a Anna Sukhoviy, Joao Antunes, ao Gustavo Tato Borges, ao Gonçalo Gonçalves Órfão, ao Hugo de Sousa e à Catarina Martins Bettencourt.

Nele reflitco sobre como a complexa crise que vivemos acrescenta imprevisibilidade e incerteza à imprevisibilidade e incerteza que já resultava de outras crises (não apenas da pandemia) e como a guerra nos afecta a todas e todos. Reflicto sobre o encorajamento e a esperança que decorre da mobilização das pessoas, incluindo as psicólogas e psicólogos, que continuam na Ucrânia a apoiar outras pessoas num momento particularmente exigente das suas vidas e que em tantos países procuraram organizar respostas de acolhimento, integração e recuperação de pessoas forçadas a emigrar. Procurei realçar a importância da comunicação com crianças e jovens. Também do propósito, do significado e do agenciamento no lidar com as emoções que naturalmente sentimos e da importância dos primeiros dias e dos primeiros momentos de acolhimento, incluindo os primeiros socorros psicológicos, para processos de integração bem-sucedidos, independentemente das pessoas virem a escolher (ou ter que) estar em Portugal poucos meses, poucos anos ou mais tempo. Falei de medo e da forma como o medo foi, é e será utilizado para explorar vulnerabilidades e construir narrativas que promovem e suportam tomadas de decisão e comportamentos. Falei, finalmente, de trauma, de trauma colectivo, da possibilidade de reparação e de construção de paz.

E…“Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.”

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Putin

“O medo é um catalisador de bom senso.” Frase de Putin (1992) que Malmgren partilha num texto onde explica como este usa o medo como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização (estímulo ao bom senso).

Sabemos, no entanto e porventura porque já o sentimos, que o medo, quando extremo, paralisa. Interfere negativamente na vida de pessoas e comunidades, provoca sofrimento psicológico e faz-nos sentir encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, nos cumprirmos, realizarmos e libertarmos para um futuro diferente. Como usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Sabemos, ainda, que o medo é por vezes utilizado para enfraquecimento do(s) outro(s) e para garantir atenção mediática. Assim é quando um atentado provoca terror, quando o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam ou quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Parte de um conjunto de iniciativas e contributos, dirigidos à sociedade civil, a decisoras/es e a psicólogas/os (Psicologia | Construir a Paz – https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/psicologia-construir-a-paz), “Psicologia em tempo de guerra” resulta da colaboração entre a CNN PORTUGAL e a ORDEM DOS PSICÓLOGOS PORTUGUESES e consubstancia-se num artigo diário que cruza contributos da ciência e prática psicológica para a compreensão da situação de guerra que vivemos e para a possibilidade de construção de Paz. Depois de artigos de @FRANCISCO MIRANDA RODRIGUES; RENATO CARVALHO; PAULO CUNHA; DANIEL COELHO; MIGUEL OLIVEIRA; EDUARDO CARQUEJA; ANA ISABEL MOTA TELES; RAQUEL RAIMUNDO e MIGUEL RICOU, partilho o que escrevi.

Nele reflicto sobre um Putin que se apresenta ao Mundo como medindo 170cm mais, pelo menos, 5cm do que efectivamente medirá e, simbolicamente, tem como referência Pedro, o Grande. Como usa – em proveito de uma narrativa que construiu, que se alimenta de uma “bolha” fechada e que se baseia num ideal identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade – o medo, as TIC, as vulnerabilidades de lideres políticas/os e de pessoas que sofrem com situações de pobreza, precariedade e/ou exclusão e a incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não está a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão ou deslegitimação.

Nele discuto como a psicologia contribui para a compreensão do papel do medo, da solidão, do encerramento e do efeito de “bolha” de grupos fechados ou da percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades e como pode (e deve) contribuir para a construção da Paz.

Nele pergunto se “conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) de Putin, sair da sua propaganda e desvincular-se dele?”, para que possamos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

Ps. Dia da Mulher. Que nunca esqueçamos porquê. Obrigado a vocês

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(Des)informação e conflito violento

“É mais um tabu que cai”.

J.Borrell, líder da diplomacia europeia, disse-o no anúncio da inédita utilização do Mecanismo Europeu para Apoio à Paz para reembolso aos países da UE dos custos da assistência prestada à Ucrânia, seja militar, de equipamento não-letal, de protecção ou de primeiros socorros. No novo pacote de restrições inclui-se o encerramento do espaço aéreo europeu a aviões de entidades/personalidades russas e, não menos relevante/polémico, a proibição da emissão de canais de TV associados ao governo russo. “Não vão mais poder espalhar as suas mentiras para justificar a guerra de Putin e para semear a divisão na nossa União”, disse Von der Leyen.

A gestão de conflitos entre grupos ou países (e a sua “evolução” para formas violentas) vive muito da comunicação e, desde sempre, mas com cada vez maior intensidade/ rapidez, do binómio informação/desinformação. Os inimagináveis e trágicos últimos dias, que se sucedem a meses e anos deste binómio, demonstram-no. Como demonstra o Roskomnadzor, serviço federal de supervisão de telecomunicações, tecnologias de informação e media, apelidado de “regulador” da comunicação social russo, que proíbe as palavras “invasão” e “guerra” sugerindo a descrição da invasão e guerra como “operação militar especial de manutenção da paz”. Serviço criado por Medvedev, hoje Vice-Presidente do Conselho de Segurança presidido por Putin, que sugeriu o “rompimento com todos os países ocidentais” e a possibilidade da Rússia sair do “New START” (acordo de controlo de armamento nuclear), horas antes da Bielorrússia “votar” ontem o fim da sua neutralidade nuclear.

“Há aqui uma mudança. Nessa altura [há décadas] era para decidirmos entre champôs. Agora sobre pessoas para presidir países (…) ou para excluir países da UE”. Excerto da conversa que tive com a Gabriela Moita para o “Impaciência do Coração” (RTP2) que volto a partilhar. Conversa sobre (des)informação, impactos e sobre o contributo da ciência psicológica para a sua compreensão, mitigação e prevenção, há qual hoje acrescentaríamos a situação no Leste Europeu. Ou, como a desinformação influi na polarização da sociedade e na quebra de confiança, base da coesão social, discutido numa conversa com a Marisa Anastácio promovida pela CM Torres Vedras.

A comunicação é fundamental na mobilização e no apoio à gestão emocional da população em situações complexas, como crises ou catástrofes, conforme testemunhamos na pandemia e nos incêndios rurais de 2017. Fundamental a comportamentos pró-saúde, de cuidado connosco e com as e os outros, e pró-sociais, de compaixão e empatia. É certo que a verdade tende a ser a 1ª vítima da guerra mas, é também certo, que a verdade (e confiança) é, também, o 1º caminho para a Paz. Pela réstia de previsibilidade na imprevisibilidade. Pelo que representa de empatia, compaixão e de esperança em que se inverta rapidamente o cenário e caminhemos em direcção à Paz.

 

https://www.rtp.pt/play/p8960/e564277/impaciencia-do-coracao

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Conversas difíceis…

Evitar ou promover conversas difíceis?

Alexandra Stein, hoje especialista em extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, culto declarado como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes” por quem, como ela, nele participou. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção”, diz.

“Pelo futuro e pelo bem comum – evitar ou promover conversas difíceis?”, 27º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da necessidade de “procurar fora” e do encontrar de outros espaços para “dirigir a atenção” para discutir a necessidade de não evitar(mos), mas sim, promover(mos) conversas difíceis.

“Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa”, sendo fundamental que construamos espaço para estas conversas difíceis essenciais “à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista”.

No artigo procuro enumerar algumas pistas que considero importantes para melhor gerir estas conversas, nomeadamente a procura de momentos e contextos adequados, bem como de pontos de convergência e entendimento, o respeito, a empatia, a abertura à e ao outro ou a validação, aceitação e escuta activa. Ainda a importância da manutenção da racionalidade e da calma, bem como do questionamento, da reflexão e, quando necessário, do concordar em discordar, sempre no sentido da definição de uma relação de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.

No artigo discuto ainda os muito humanos viés da sobrevalorização (como podemos considerar a priori algo mais desconfortável do que efectivamente será) e ansiedade face ao desconhecido (e a necessidade de se ultrapassar a sensação de ameaça possibilitando a “experimentação”). Bem como a necessidade de criarmos “ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento”, fundamentais a uma polis de encontro, diálogo, sobreposições e penumbras (sociais), assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz.

Numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, manter, com resiliência e optimismo, conversas difíceis “é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.”

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Direito a Confiar (Revista Líder – 24.01.2022)

Pensemos no dinheiro. Y. N. Harari convida-nos a pensá-lo como “o sistema mais pluralista de confiança mútua já existente”. Como, usando e mediatizando abundante conhecimento, nos convida a reflectir sobre como a nossa capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram um caminho de evolução. Foi assim ao longo de centenas de milénios, desde as primeiras e os primeiros Homo sapiens. Foi assim nos últimos séculos, com a emergência e desenvolvimento da ciência e da cultura, com forte impacto na quantidade e qualidade de vida. Foi assim nas últimas décadas, com a emergência e desenvolvimento dos direitos humanos, com forte impacto na possibilidade de bem-estar e de equidade. É-o assim hoje.

Pensemos – através da pandemia COVID-19 que ainda vivemos, mas com olhos nos complexos desafios societais que se avizinham e que incluem a crise climática e demográfica, as migrações ou a transição digital – em tudo quanto aqui nos trouxe, à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Tudo, ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar).

A empatia influencia e é influenciada pela confiança num diálogo essencial à coesão e ao propósito das sociedades, elementos fulcrais em contexto de prolongada incerteza como o que vivemos e que resulta da convivência com uma pandemia que, além da imprevisibilidade que comporta, implicou e acelerou significativas transformações e revelou e aprofundou também significativas vulnerabilidades. A empatia e a confiança são fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais de cada pessoa e à adesão a recomendações, complementares a medidas restritivas e logo assentes no comportamento individual, como o distanciamento físico, a (boa) utilização de equipamentos de protecção individual e a vacinação. Estes comportamentos, com especial destaque para o exemplar (porque por muitos países estudado e desejado) processo de vacinação português, permitem-nos, ao dia de hoje, ser um dos países da Europa com menores medidas restritivas e que mais faz depender a resposta ao momento ainda difícil da pandemia do comportamento de cada cidadão e cidadã.

Por isso, pelo que representa e significa, não nos surpreendemos que “vacina” seja “palavra do ano”, superando a muito badalada segunda posicionada – “resiliência”. No futuro, quando recuarmos à palavra do ano de 2021, espero que lembremos quanto a confiança (nas vacinas) e o quanto a empatia e relação, por oposição à estigmatização ou exclusão (também de quem tem dúvidas legitimas sobre o processo de vacinação), foram garantes neste período de crise e pilares da coesão social. Em como estas fundamentais abstrações se concretizaram num processo complexo, que respondeu a um problema das pessoas e da sociedade.

E, se assim é na resposta à COVID-19, com os resultados cuja democrática distinção entre factos e opiniões e entre ciência e não-ciência tornam evidência, é-o também com outros desafios societais e com desafios e problemas complexos de organizações, do presente e para o futuro. Aqui, a relação, a empatia e, principalmente, a confiança são base para a concretização de projectos, programas ou acções que respondem a problemas concretos do seu dia-a-dia, como foi a necessidade de passagem ao teletrabalho ou a manutenção da actividade em período de pandemia ou são e serão os desafios da digitalização e automação, transição energética, os crescentes riscos psicossociais do trabalho, a conciliação vida pessoal-profissional e o bem-estar das pessoas.

Ser consequente com esta consideração implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro. Implica, também, que a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças. Que se desenhem processos, procedimentos, construam relações e se invista (também recursos), primeira e prioritariamente com base na confiança e não na desconfiança, porque mais empoderador. Que se use do conhecimento de que as pessoas tendem a envolver-se mais no que se sentem auto-eficazes e quando sentem consequente a sua participação, criando agenciamento sobre a confiança na organização, valorizando ao invés de penalizar, quem confia e promove a confiança. Que, afinal, se entenda a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas).

Se assim for – como quando investem em locais de trabalho saudáveis e na promoção do bem-estar das pessoas – as organizações estarão simultaneamente a ganhar valor, a cumprir-se, a preparar o futuro e a contribuir significativamente para a coesão social e para a equidade. E porque, como desconfiança gera desconfiança, mas confiança também gera confiança, para o desenvolvimento de outros poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

Voltemos às vacinas. Aquando do último fórum do G20, António Guterres referiu-se-lhes afirmando que “ciência está sobre ataque e a solidariedade desaparecida” pela hesitação face às mesmas e pela dificuldade da sua disseminação a todo o Mundo, sublinhando que “um surto de desconfiança e de desinformação está a polarizar as pessoas e a paralisar as sociedades”. Desinformação que Roberta Metsola, no primeiro discurso como nova presidente do Parlamento Europeu, afirma “alimentar um cinismo fácil e soluções baratas de nacionalismo, autoritarismo, proteccionismo e isolacionismo”. É, assim é, com as consequências que conhecemos.

Invistamos na confiança e no direito a confiar como recurso do país. Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro. Preservemos e invistamos na confiança a partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.

 

Tiago Pereira

Revista Líder

Direito a Confiar

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Legislativas 2022 – Que papel da psicologia?

Faltam poucas horas para o encerramento da campanha eleitoral e “momentos extraordinários exigem um texto diferente”. Um texto sobre “contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem”.

“Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político”, 25º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte de um debate (20.01) entre representantes de 8 dos 9 partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e moderado pela jornalista Maria Flor Pedroso. Debate assente num contributo científico da OPP que procurou compilar um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social.

Nos programas e no debate três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das/os psicólogas/os nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Constantes a que se soma uma inquietação: “a necessidade de, ao fim da pandemia, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária”, são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).”

Do debate sobressai o “papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano”.

“Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social.” Como saiba que, promover a participação implica que, quem (pode) vota(r), “se sinta representada/o, envolvida/o e que o seu voto conta e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas”.

Votemos, pelo presente e pelo futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Política

Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

2022, tempo de construirmos mais paz

Chegamos às últimas (difíceis) horas de um 2021 desafiante para todas e todos, dificílimo para muitas e muitos. Muitas vezes, ao longo do ano, aqui, convosco, procurei sublinhar que a saúde mental é muito mais que a ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e bem-estar global. Termino o ano a pensar que em 2022 o farei com a paz, sublinhando ser muito mais que a ausência de guerra, representando a harmonia, civilidade entre pessoas e comunidades e serenidade e que compreendê-lo é fulcral para a promovermos.

“Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”, 23º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata a necessidade da promoção da paz, não apenas na Síria ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas em Portugal ou nos EUA. Reflecte sobre o fosso no posicionamento de Portugal nos índices de Paz Global/Negativa (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra; 3ª posição em 2020 e 4ª em 2021) e Paz Positiva (civilidade, cooperação e cuidado com outras e outros; 13ª em 2020). Também sobre um 2022 de condições desafiantes da paz em Portugal, pelo agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade da resposta dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições. Não espero que possamos “cair” em guerra, mas creio pudermos “cair” em paz, involuindo em dimensões que a sustentam pelo não investimento na promoção da paz e não assunção do “nosso contributo individual (pessoa) e colectivo (comunidade e sociedade).

No artigo penso a forma como a quebra de confiança, cá como noutras partes do Mundo, contribuirá para o acelerar da degradação dos mediadores sociais e como, em conjugação com a forte e crescente polarização social, isso nos “empurra para um ambiente de (potencial) tensão civil”, com impacto no comportamento das autoridades, incluindo de segurança, decisoras/es e num dado inquietante: 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Também por isso, em 2022, precisamos de construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Precisamos de desenvolver a partilha e a pertença, de gratidão e de pensar que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrar que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e governos. De investir na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco.

Estou-vos grato por me lerem, questionarem e por conferirem propósito e significado ao que procuro reflectir e contribuir.

Que 2022 seja tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz, juntas e juntos. Tudo de bom.

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Psicoterapia, sociedade, poder e política – Podcast “Psicoterapia na torre de Babel”

Em 2006 Inãrritu mostrou-nos Babel. Terceiro filme de uma desafiante triologia – Amor cão (2000) e 21 Gramas (2003) – confronta-nos com quatro histórias em tudo distantes (geografia; condições sócio-económicas; expectativas) mas relacionadas entre si na e pelo trágico. “Percebi que o que nos torna felizes como seres humanos pode ser bastante diverso mas que o que nos torna vulneráveis e miseráveis é o mesmo” disse Iñarritu para justificar porque Babel é um filme “sobre o que nos une e não sobre o que nos separa”.

“A psicoterapia na torre de Babel” é um podcast sobre o que nos une… Parte da ideia, do empenho e do entusiasmo da Constança Biscaia e do David Dias Neto (com o apoio da APTCCI – Associação Portuguesa de Terapias Comportamental, Cognitiva e Integrativa) e tem como fim suscitar reflexão a partir de diálogos sobre “as ligações entre a psicoterapia e domínios como a arte, filosofia, ciência.” Um dos episódios/diálogo (que agora partilho) tratou a “Psicoterapia, sociedade, poder e política” e resulta de uma conversa entre mim e o David Dias Neto moderada e estimulada pelo Telmo Mourinho Baptista, duas pessoas com que muito admiro e com quem muito aprendi, aprendo e aprenderei.

Pensamos a “contradição” entre uma intervenção que visa a mudança (individual) e praticada junto do individuo no seu papel de interacção com a sociedade e o que isso significa na necessidade da sua disseminação e maior acessibilidade, também pela reflexão sobre princípios psicoterapêuticos, pela intervenção em contextos e com públicos que o facilitem e pelo reforço da identidade e da solidez dos princípios éticos e deontológicos da intervenção. Falamos como a personalização, o significado, a literacia e o poder influenciam a acção das e dos decisores políticos nesta área. Como a eficácia e eficiência das intervenções é essencial e como temos que investir em demonstrá-las e generalizar esse conhecimento e continuar um caminho de fazer transformar a dictomia assente no modelo biomédico de doença vs ausência de doença (mental) para uma ideia de bem-estar e de florescimento. De liberdade, responsabilidade (auto-contenção, hetero-contenção e auto-regulação), ganho de autonomia e empoderamento. De crescimento, crise e transformação, também nas organizações. De aceitação, abertura à e ao outro e à possibilidade de mudança. De equidade, de coesão social e dos riscos do populismo. Terminamos com os contributos da ciência psicológica para uma “melhor sociedade” e com a necessidade de assumirmos o “poder” que pode(mos) ter nesse processo partindo da auto-confiança e de uma ideia de “poder empático”, assente em auto-crítica.

Uma conversa que foca como diferentes línguas se intersectam numa complexidade que, também como no filme, nos desafia.

Ps. Deixo a nota de que existem outros episódios do podcast já disponíveis (Psicoterapia e meios de comunicação social; Psicoterapia e arte; Psicoterapia e corpo; e Psicoterapia e culturas) e outros vêm a caminho.