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Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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