
Voltaremos hoje a vacinar (contra a COVID-19) crianças em Portugal, conforme acontece por estes dias em diversos países. Isto acontece inúmeros passos depois de um momento simbólico – a 1ª aprovação pela FDA (USA) da vacina da Pfizer para jovens adolescentes (12-15 anos) a 10.05.2021. Nesse mesmo dia, o Mundo perdia J. Kagan, um dos principais precursores da Psicologia do Desenvolvimento e do estudo da forma como as experiências, as relações e os processos desenvolvimentais no geral na infância e adolescência contribuem para o que somos (o que sentimos, pensamos e como nos comportamos) e quem somos (identidade) ao longo de toda a vida, sublinhando, sempre, o papel do contexto ao longo de todo o ciclo de vida. A este propósito, disse em 1972 que somos “bombardeados com incerteza no nosso dia-a-dia” e que uma das “motivações primárias das pessoas é resolver [anular, ultrapassar, diminuir] essa incerteza”.
As vacinas foram (são) um importantíssimo recurso das sociedades (infelizmente não de todas, da mesma forma) face à grave crise de saúde pública que enfrentamos há muito tempo. Em todo o caso, e talvez ao contrário da expectativa de parte significativa da população e das e dos decisores, não “anularam” (por vezes, nem diminuíram) aquele que é um dos principais desafios à saúde psicológica e bem-estar das pessoas – a incerteza, particularmente quando prolongada; a incerteza, que acresce imprevisibilidade à imprevisibilidade expectável da nossa vida.
“Mais um ano de pandemia e de tanta incerteza? Não sei se aguento”, 2º episódio do Podcast “Comum dos Mortais” do PQ produzido pela @Madremedia. Episódio assente em 2 diálogos da @Margarida Alpuim com a @Ana Rita Caldeira e comigo sobre o porquê da incerteza associada a esta pandemia ser distinta de outra(s) incerteza(s). Falamos de vidas “ioiô”; de restrições, oscilações e instabilidade; de uma “incerteza colectiva”, que a globaliza, intensifica e prolonga no tempo; de hipervigilância e ausência de espontaneidade; de cansaço; de um dia-a-dia também feito de experiências que nos reactivam momentos e experiências menos positivas e de como, ainda que neste contexto, podemos garantir algum controlo, segurança e previsibilidade, essenciais ao bem-estar. De como estes são fulcrais na nossa capacidade de auto-regulação e resiliência, essenciais à nossa saúde e saúde psicológica.
Mas falamos, também, do papel da aceitação da incerteza e imprevisibilidade como parte da vida. Construímos um diálogo que espero estímulo para reflectirmos sobre a incerteza que sentimos e como nos sentimos com e na incerteza. Para activarmos níveis de auto-compaixão que nos permitam vivenciá-la pessoalmente e de hetero-compaixão, empatia e de coesão social que nos permitam vivenciá-la colectivamente.
Estímulo para que resistamos, para que procuremos (e encontremos) propósito(s) e significado(s), para que estejamos “juntas e juntos”.