Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Tomada de Decisão

European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.

Categories
Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Ragusa. Urban Future, 2022.

Junho. Aproxima-se o Verão e, em conversas ou pesquisas, é possível que nos cruzemos com Dubrovnik. Esta cidade croata é hoje um dos principais destinos turísticos do Adriático, conhecida pela sua costa e pelo seu centro histórico, património mundial da UNESCO. É, hoje, menos conhecida por ter sido uma vibrante cidade, particularmente a partir do século XIV, quando se tornou cidade-Estado da República da Ragusa.

Com autogoverno, era uma cidade liberal e humanista à época, fazendo da ideia da liberdade das pessoas e na economia, princípio de organização incomum naquele tempo. Foi dos primeiros Estados a abolir a escravatura, a acolher pessoas refugiadas, a não encerrar o governo da cidade a um conjunto fechado de representantes e foi mesmo a primeira a criar uma estrutura de saúde pública, incluindo nas suas medidas períodos de quarentena, algo que salvou muitas vidas e foi fundamental para prosperar mesmo no período da peste negra.

Liberdade. Liderança. Abertura, acolhimento e inclusão. Ciência. Saúde e bem-estar. Inovação. Pessoas… Mudança. Alguns dos factores-chave para uma Ragusa vibrante, líder e exemplo para tantas cidades (por ex., no seu modelo de saúde pública) são, grosso modo, os mesmos factores-chave que cerca de 700 translações depois do Planeta Terra ainda determinam a mudança.

Adiadas que foram as edições de Lisboa (2020) e Roterdão (2021), estou em Helsingborg na conferência Urban Future. (https://urban-future.org), integrada na H22 City Expo (https://www.h22cityexpo.com). Exposição que nos apresenta uma Helsingborg que procura a cada dia aprofundar o seu caminho e investimento no sentido da sustentabilidade, inclusão e inovação, como sublinha o seu presidente de câmara, Peter Danielsson. O seu caminho para uma cidade mais inteligente e amiga das pessoas. Caminho que implica mudança. Que implica as pessoas, a sua mobilização e o seu envolvimento. Que implica “City Changers by Heart”, mote da conferência.

Uma oportunidade para (me) inspirar, primeiro, para “expirar” depois. Para sentir e partilhar. Para (me) impactar. Para (me) expandir. Para enfrentar a mudança e as barreiras e obstáculos que a ela se colocam. Para reforçar que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mudança é premiada pelos e pelas eleitoras, não penalizada, particularmente quando ligada à sustentabilidade ambiental e mobilidade. Para contactar e conectar-me com a inovação, as boas práticas e exemplos que, contagiosos que são, podem e devem ser transladados (por isso a expressão atrás), com as devidas adaptações, para Portugal e para todo o Mundo. Para acreditar (ainda mais) e advogar (ainda mais) por cidades com mais qualidade de vida e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Foi a cidade (também Ragusa), enquanto lugar das pessoas e das comunidades, que ajudou a criar e influenciar o Mundo moderno, com tudo quanto de menos bom, mas também de bom, tem.

Mobilizemo-nos e envolvamo-nos na mudança da (nossa) cidade para mudarmos o (nosso) Mundo.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

O bem-estar em todas as políticas (Ao redor…; Sábado; 20.05.2022)

Foram três atletas que representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, edição particularmente marcada pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a intensidade e brutalidade que hoje conhecemos apenas quatro dias após o seu final. Creio não errar se afirmar que não serão muitas as leitoras e leitores deste texto que conseguem nomear três cidades do país mais medalhado desses Jogos Olímpicos. Com pouco mais de metade dos e das habitantes de Portugal e com uma comitiva de atletas consideravelmente mais pequena face a outros países, a Noruega manteve-se como o país mais medalhado (já o fora em 2018), batendo o recorde de medalhas de ouro nuns só Jogos Olímpicos de Inverno.

Apesar da neve abundante e das condições propícias à prática de desportos de Inverno, que aliás partilha com muitos outros países, muitos deles com muito mais população e atletas, este sucesso não se esgota nestas modalidades (veja-se, entre outros exemplos, Erling Haaland no futebol). Antes resultará, em muito, de políticas diversas e da sua carta dos Direitos das Crianças no Desporto, orientação que define que as crianças devem ter experiências positivas sempre que praticam desporto, que sugere a prática e a experimentação de diferentes modalidades e que não permite, antes dos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings, procurando estimular a alegria, a relação e o bem-estar associado ao Desporto para todas e para todos ao longo de toda a vida.

A promoção e o investimento na alegria, na relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade, como pista para o sucesso desportivo. Como para o sucesso educativo, como cada vez mais evidência científica confirma, desde os ciclos de estudos iniciais ao ensino superior. Como para a (nossa) produtividade laboral, como todas e todos já sentimos. Como para o desenvolvimento das nossas sociedades e para a confiança das pessoas e das comunidades nas suas instituições e nas pessoas.

Já nos últimos dias de 2019, aquando da sua primeira candidatura a presidente do PSD, Luís Montenegro dizia “crer que a política tem de ser medida precisamente pelo bem-estar” propondo “a adesão de Portugal a um novo índice: o Índice de Felicidade Interna Bruta”. Na nova candidatura que hoje abraça, volta ao tema, discordando do facto de hoje “medirmos o bem-estar das pessoas com base apenas no Produto Interno Bruto (PIB)”, dizendo não “temer a palavra felicidade” e reafirmando a intenção de criar um “Índice de Felicidade”. Acompanho Luís Montenegro na perspectiva de que a política e as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e para todos e na consideração de que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Manifesto, porém, as minhas reservas, também conceptuais, em torno de índices referentes à felicidade e, neste âmbito, creio mais sustentada a posição do seu adversário nestas eleições (Jorge Moreira da Silva) que, além de apontar à melhoria considerável do posicionamento do nosso país no ranking do Desenvolvimento Sustentável e do Desenvolvimento Humano, ambos da ONU, aponta também como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, organização junto da qual trabalhou nos últimos anos.

Este índice resulta da combinação de 11 dimensões e, até simbolicamente, permite uma visão mais clara do quão complexo e muito impactante é o conceito de bem-estar. Das condições de habitação, ao rendimento; do trabalho e emprego de qualidade, à conciliação entre vida pessoal e profissional e ao suporte e conexão social; da educação e formação à qualidade do meio ambiente; do envolvimento cívico e participação democrática ao acesso a cuidados de saúde de qualidade; da percepção de satisfação com a vida à segurança. 11 dimensões que respondem a uma questão simples, mas chave do bem-estar: “como vai a (sua) vida?” 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito, tal como tornam claro que o bem-estar (e o impacto das políticas públicas nele) vai além do Produto Interno Bruto sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o. Que o bem-estar é mais que a felicidade da pessoa ou das pessoas num determinado momento sendo, naturalmente, por ela condicionado, mas condicionando-a.

Saudando a relevância de ambos os candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí também pode resultar para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais, creio importante sublinhar três transformações relevantes na sociedade portuguesa neste domínio. Desde logo o capital social presente e futuro relativo à aspiração das populações a maior possibilidade de bem-estar para todas e todos e a pressão que isso traz e trará à sociedade e aos decisores e decisoras para o considerarem nas suas propostas e acção. Também o caminho de mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, de rendimentos, de acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar. Medidas e políticas avaliadas pelos seus impactos no bem-estar, e não apenas por indicadores económicos ou de acesso, logo mais dirigidas às especificidades e aspirações da sua população alvo e mais desenhadas considerando o envolvimento em todas as fases das e dos seus destinatários. Finalmente, o evoluir para um modelo e para uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, qualquer que seja a área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas. Bem-estar a que acrescento a saúde mental, nele fundamental. Bem-estar num país que poderá ter factores menos facilitadores de um crescimento significativo (e continuado) do PIB nos próximos anos, mas que tem inúmeros factores facilitadores de um crescimento significativo da possibilidade de bem-estar de todas e de todos e, até, deste alavancar o seu PIB.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensar o desenvolvimento de um país face aos desafios do presente e do futuro, e até à necessidade de alteração de paradigmas de comportamento e consumo da sua população, tendo por referência principal o seu Produto Interno Bruto é potencialmente falacioso e promotor de “águas de bacalhau”. Ao contrário, além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, sugiro importarmos a centralidade do bem-estar das políticas (da Noruega), fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita. Desenvolvendo-o a partir de uma estratégia onde todos os sectores de governação o considerassem e priorizassem, onde se estabelecessem parcerias com entidades, organizações da sociedade civil e empresas, onde se pensasse o quão determinante é hoje o bem-estar na prevenção e na promoção nas áreas económicas, sociais ou ambientais. Onde se apostasse no seu valor na captação de pessoas e investimentos para o país, na promoção da qualidade de vida, da equidade e da coesão social e, afinal, no quão decisivo é na resposta à pergunta chave: “como vai a (sua) vida”?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 20.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-bem-estar-em-todas-as-politicas

Categories
Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

Enough is enough.

“March for our lives”. Na sequência do massacre numa Escola de Parkland (Flórida), a 24 de Março de 2018, participei numa das maiores marchas de sempre advogando por alterações legislativas no acesso a armas de fogo nos EUA. Com cerca de 1 milhão de pessoas – e integrando uma iniciativa da American Psychological Association | “Gun Violence is a Public Health Crisis” – percorri a Pennsylvania Avenue (Washington) com um propósito e uma esperança forte de que nada poderia ficar igual depois de Parkland. “Never again”, gritava-se, sentia-se, mas…

Podia. Ontem, 24 de Maio de 2022 (4 anos e 2 meses depois), morreram pelo menos 19 crianças e 2 professoras num novo massacre numa Escola do Texas, que se sucede a outros, em diferentes contextos e com diferentes motivações. Massacre que nos confronta com as palavras de Rick Santorum, outrora Senador e concorrente à nomeação a candidato presidencial Republicano, quando, no dia da “March for our lives”, disse que as/os estudantes deveriam “aprender como lidar com um atirador em vez de pedir aos legisladores para resolver os seus problemas”. Nos confronta com as/os representantes da NRA que, também nesse dia, nos apelidaram de “manipuladoras/es” e que nos e me chamaram “radical” por participar na marcha. Radical…

A violência resultante do uso de armas (de fogo) é uma crise de saúde pública. Provoca perda, dor, sofrimento, luto. Impacta o sistema de relações da comunidade, é potencialmente traumática, a curto, mas também a médio e longo prazo, tem determinantes e existem acções que, também potencialmente, a podem prevenir ou mitigar. É hoje impossível, até pela coincidência de datas (exactamente 3 meses após o início da nova e brutal invasão pela Rússia da Ucrânia), não associarmos à perda, dor, sofrimento e luto resultantes da Guerra e aos eventos potencialmente traumáticos que dela resultam para diferentes pessoas que de diferentes formas a vivenciam.

Sobre isso e sobre “quem largou tudo para ajudar refugiados” (https://onovo.pt/internacional/o-impacto-em-quem-largou-tudo-para-ajudar-os-refugiados-IB10557834), conversei com a jornalista Sílvia Abreu do NOVO Semanário discutindo os impactos sociais e emocionais, potenciais consequências destes processos e qual o contributo possível da psicologia. Como fiz em entrevista ao Porto Canal (https://youtu.be/Onwh3MPmrDY) a propósito do acolhimento de pessoas em condição de refugiadas, da importância de atendermos às nossas próprias condições e à necessidade de nos adaptarmos aos ritmos/vivências e guardarmos espaço e tempo de cuidado, atenção e validação das pessoas numa situação de especial vulnerabilidade.

“Já chega!”, disse Kamala Harris, acrescentando: “Como nação temos de ter a coragem para agirmos e percebermos o nexo daquilo que é uma política pública razoável e sensata, para garantirmos que algo assim nunca mais volta a acontecer.” Que estas perdas, que este sofrimento, resultado da Guerra ou de um Massacre, não se repita.

Ideia “radical” dizem…

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Educação Política Psicologia

O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eleicoes-la-como-ca-a-relatividade-do-ganhar-e-do-perder

Categories
Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

“Tudo se resume a escolhas humanas…” / OPP e OCDE

A dias do início da invasão e da actual guerra na Ucrânia, Y.N.Harari escrevia na “The Economist” que a “mais óbvia consequência deste regresso à lei da selva seria um forte aumento das despesas militares à custa de tudo o resto”. Por “lei da selva” referia-se à “possibilidade de países poderosos conseguirem esmagar impunemente os seus vizinhos mais fracos”. Por “à custa de tudo o resto” referia-se a que “o dinheiro que deverá ir para professoras/es, enfermeiras/os e assistentes sociais será investido em tanques, mísseis e armas cibernéticas” bem como à “fragilização da cooperação mundial, especialmente na prevenção das alterações climáticas ou na regulação de tecnologias potencialmente perigosas como a inteligência artificial e a engenharia genética”, resultante da impossibilidade de se “trabalhar ao lado de países que se estão a preparar para nos apagar do mapa”. O texto (“A história da humanidade está em jogo”), embora não os mencionando, é um excelente ensaio para pensarmos como evoluiu a sociedade e o Mundo no sentido de se organizar em torno dos objectivos do desenvolvimento (hoje sustentável) (ODS) e de como os tratados de direito e cooperação internacional e a carta da ONU que os sustentam podem, rapidamente, ser questionados e desinvestidos.

Também a dias de uma iniciativa da Ordem dos Psicólogos Portugueses na OECD – OCDE foi, por esta organização para a cooperação e desenvolvimento económico, publicado um relatório sobre o (in)cumprimento actual dos 17 ODS e das suas metas para 2030. Na perspectiva do copo (meio cheio ou vazio) creio que a imagem permite que sintamos, provavelmente em simultâneo, que há caminho já (e a ser) percorrido (por ex. nas áreas da saúde e bem-estar ou da qualidade da água e saneamento) e que há (muito) caminho por percorrer (por ex. na fome ou na igualdade de género). Permite-nos, também, intuir que, após retrocessos resultantes da pandemia por COVID-19, a Guerra e a sucessiva instabilidade internacional ameaçam o comprometimento e empenhamento nos ODS e nas suas dimensões chave: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceiras, esta, talvez, a área menos desenvolvida face aos objectivos estabelecidos.

Junto com o Francisco Miranda Rodrigues, a Sofia Ramalho, a Alexandra Antunes e a Patrícia Batista foi exactamente a parceria com a OCDE que procuramos estimular neste dia de reuniões de trabalho, contactos e de colaboração com as suas áreas de “Desenvolvimento e Cooperação”, “Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais”, com o “Centro de bem-estar, inclusão, sustentabilidade e igualdade de oportunidade” e com a Associação de Trabalhadores da OCDE. Falamos de cooperação e de contributos da psicologia. Falamos de desafios societais complexos “sem fronteiras”, de ODS e do seu futuro e de como, já hoje, devemos preparar e contribuir para o pós-2030. Porque no presente preparamos o futuro. Porque, tal como Harari fecha o artigo, não podemos esquecer que “o que é velho já foi novo” e que “tudo se resume a escolhas humanas.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Política

Noves de Maio…

Eis-nos a 9 de Maio. Nas últimas semanas, comentadores e comentadoras, têm-se desdobrado em reflexões sobre o conteúdo do discurso de Putin neste dia de parada militar na Rússia, comemorativa da capitulação da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial. Sobre ganhos e perdas, narrativas e o “reescrever da história”, ódios e medos. Sobre volatilidade. Sobre relatividade. Sobre tudo isto com uma constante: independentemente de quem ou como se ganhe ou perca e do que isso signifique, nada, hoje e no futuro, Mundo fora, permanecerá como antes da absurda e ilegítima invasão da Ucrânia.

“Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder”, 32º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a relatividade do ganhar e do perder, discutindo ganhos associados a derrotas de partidos [particularmente de direita nacionalista, populista e antissistema] em diferentes países, mas com resultados crescentes e significativos. Toca a “generalização da política do ódio e do e pelo medo” que “se espalha e alimenta em grupos e redes sociais, cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras”. Toca a polarização extrema que se alimenta “do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigas e inimigos”, rompendo pontes e “ameaçando a harmonia necessária em política e a possibilidade e a crença de mudança”. E toca a crise de direitos, da democracia e de confiança, também resultante de uma “centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou privilegiados, para a colectivização da culpa e promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos”.

Em resumo, mesmo com derrotas assistimos à institucionalização progressiva e naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional; ao maior crédito e penetração, discussão e propagação de ideias e posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência; e à profissionalização das estruturas destes partidos, particularmente da sua comunicação.

Isto, lá (EUA ou França, em Itália ou Espanha), como cá, onde um candidato presidencial nacionalizou a expressão “portugueses de bem”, arrogando-se de decidir quem o é ou não é. Lá, como cá, onde “a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade” ou não fosse “o seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social – dependente não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo”.

Eis-nos a 9 de Maio, também Dia da Europa. Dia de celebrar a reflectir para preservar e promover os seus valores.

Categories
Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

3 dias para o 25.4.2022

Auto-determinação, direitos humanos, não discriminação, equidade, coesão social, saúde (e saúde mental), educação, capacitação, trabalho, ciência (e evidência), dignidade, confiança, inclusão, participação, abertura à/ao outra/o, diversidade, cooperação, ética, cidadania, responsabilidade, solidariedade e bem-estar.

A 22.04.1974 muitas pessoas, país e Mundo fora, em diferentes contextos e com diferentes proveniências, partilhavam da aspiração e do desejo de verem possibilitados e cumpridos em Portugal estes 22 valores. Faltavam, como hoje, 3 dias para o dia 25 de Abril. Dia em que em 1974 se lhe acrescentou a liberdade, a democracia e a Paz. Dia em que de 1975 a 2022, o celebramos e, ao celebrá-lo, nos recordamos que estes 25 valores se constroem todos os dias, por e com todas as pessoas, por e em todos os contextos.

Eu pude estudar esta ciência que é a psicologia numa Universidade também e muito pelo 25 de Abril. Não apenas porque a abertura que trouxe, permitiu, finalmente, um outro olhar para esta ciência e possibilitou a sua emergência, contributo e desenvolvimento na sociedade portuguesa. Também porque pertenço a uma geração (e a um contexto) que é, porventura, das que mais se pode transformar face às possibilidades que teria pelos valores acima… Num conceito da psicologia, uma geração cuja zona de desenvolvimento potencial foi bastante expandida por um país a acreditar nas suas pessoas e a dar-lhes condições, com dificuldades é certo, para se desenvolverem, florescerem e se cumprirem.

Hoje continuo a estudar e no meu pequeno (mas devido) contributo a fazer e a praticar esta ciência (psicologia) com a certeza (e responsabilidade) de que partilha grande parte dos 25 valores acima. De que partilha e de que para eles procura contribuir, estando próxima das pessoas e das comunidades, ao longo de todo o ciclo de vida, em cada um dos contextos, nos acontecimentos de vida mais significativos, sejam eles “positivos” ou geradores de sofrimento psicológico.

Uma ciência (e uma prática) que também se procura afirmar pela presença na sociedade, não apenas mas também pela opinião, pela informação, pelo comentário e pela literacia que procura promover. Por isso, e pelo seu simbólico num país também antes encerrado a este nível, partilho hoje este “Afirmar os psicólogos nos media 2021”, onde se reúnem contributos meus e de colegas dos órgãos da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Ana Meira, Carla Fernandes, Carla Rocha, Filipe Fernandes, Francisco Barrocas, Francisco Miranda Rodrigues, Gaspar Ferreira, Jaime Ferreira da Silva, Joana Amen, Marco Santos, Marisa Alexandre, Miguel Ricou, Paula Domingues, Paulo Cunha, Raquel Raimundo, Renata Benavente, Renato Gomes Carvalho e Sofia Ramalho.

Um nosso contributo para a memória e inscrição destes valores. Para a sua co-construção, todos os dias em todos os contextos, também com o contributo das psicólogas e psicólogos.

 

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Política

Putin: 5 centímetros de altura fictícios, 30 anos de medo real (CNN Portugal; 08.03.2022)

“O medo é um catalisador de bom senso.” São estas as palavras que H. Malmgren, ex-conselheiro de vários presidentes dos EUA, guarda de uma conversa com Putin em 1992 em que este lhe explicou como, na ausência de uma lei sobre direitos de propriedade, os litígios eram rapidamente resolvidos na Rússia com um jantar entre representantes armados de cada uma das partes litigantes, dispensando anos de desnecessárias disputas jurídicas. Mais tarde, Putin utilizaria argumentação semelhante relativamente a conflitos entre países para os quais a solução, a seu ver, resultaria do medo gerado pela possibilidade de respostas desproporcionais ao conflito por uma ou pelas partes. Num pequeno texto, Malmgren conta-nos como Putin usa esta emoção natural (medo) como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização, apresentando-a como estímulo ao bom senso.

Quando extremo, o medo paralisa como porventura saberemos por já o havermos experienciado e sentido. Interfere negativamente na vida de pessoas, grupos e comunidades e faz-nos sentir presos, encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, para nos cumprirmos e realizarmos. O medo extremo comporta sofrimento psicológico e partilha com o sofrimento psicológico o agrilhoar da pessoa a um presente que é marcado pelo passado e nos impossibilita, pela ansiedade, de nos libertarmos para um futuro diferente. O medo usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Apesar do seu papel primordial de protecção, o medo não sendo normalmente racional, é, não raras vezes, utilizado e instrumentalizado junto de pessoas ou grupos por pessoas ou grupos que se percepcionam em “vantagem” (superioridade) mas também por pessoas ou grupos que se percepcionam em “desvantagem” (inferioridade). A utilização do medo como estratégia ou “arma” possibilita, pelas suas consequências e impactos opressores, o enfraquecimento do(s) outro(s). Pode ainda, paralelamente, garantir atenção e espaço mediático pela forma como influencia várias dimensões da vida das pessoas e altera a vida nas sociedades. Assim é quando um atentado provoca terror junto da população. Assim é quando um grupo como o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam e atemorizam a população. Assim é quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Putin apresenta-se ao Mundo como medindo 170 centímetros mais, pelo menos, 5 cm do que efectivamente medirá. Simbolicamente tem como grande referência Pedro, o Grande, imperador russo, fundador da sua São Petersburgo natal e responsável pela modernização e reforma do país na transição do século XVII para o século XVIII. Usa (e abusa) da história (da sua visão e interpretação da história) para, no que se intitula de uma “guerra híbrida” – usando das novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo os media e a diferenciação e personalização de mensagens e ataques – impactar a vida de um número cada vez mais significativo de pessoas e grupos. Usa das vulnerabilidades de líderes políticas e políticos que o seguem (ainda hoje), pelo que representa no questionar de um certo progressismo social, de uma ordem democrática liberal ou em virtude as condições e apoios que lhes concede. Usa das vulnerabilidades de pessoas que sofrem com a pobreza, a precariedade, a migração forçada, a exclusão e/ou outras condições que as tornam mais suscetíveis e vulneráveis à sua propaganda da ideia de um Mundo que necessita de uma grande, influente e extensa Rússia. Usa, finalmente, da incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não se encontra a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão e/ou deslegitimação.

Sabe-se hoje que, forçadamente ou por seu desejo, Putin viveu particularmente isolado durante os últimos dois anos de pandemia. Menos exposto à diferença, à diversidade, ao contraditório, terá aprofundando e sido reforçado na narrativa histórica que construiu. Durante esse período, também certamente percepcionando “janelas de oportunidades” no momento que vivemos, intensificou a propaganda e a utilização da desinformação e da destabilização de países e governos, bem como publicou um marcante ensaio sobre uma pretensa “unidade histórica de russos e ucranianos” que na sua visão se consubstancia num “único povo” hoje não cumprido pela criação artificial de um território que tende, se não a não legitimar, a não totalmente reconhecer – a Ucrânia. Retorna, portanto, ao ideal e ao movimento identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade, hoje politicamente em voga num Mundo e numa Europa demasiado necessitados de respostas simples, fortes e, por vezes, salvíficas para os muitos e muito complexos desafios societais contemporâneos.

Conforme a ciência psicológica pode contribuir para a compreensão de fenómenos como o medo, a solidão/isolamento, o encerramento e o efeito de “bolha” de grupos fechados ou a percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades, também, pode (e deve) contribuir para a sua prevenção e para a construção da Paz. Mais do que a partir de um modelo tendencialmente biomédico, de procura das doenças (incluindo mentais) do líder, que possam neste caso justificar as acções e intenções do regime russo, precisamos de pensar a grave crise e a guerra que vivemos considerando dimensões psicológicas e sociais. Considerando que, factualmente, a guerra não é uma inevitabilidade, embora também não seja uma impossibilidade. Considerando que é hoje claro que é cientificamente incorrecto que os seres humanos tenham uma predisposição inerente para o comportamento agressivo, para a resolução violenta de conflitos ou para a guerra. Enfatizar essa incorrecção deve ser o pilar base para a promoção da convivência, dos relacionamentos entre pessoas e grupos e da Paz. Considerando, ainda, que é incorrecta qualquer percepção de que o tempo e a sua passagem, por si só, resolverão traumas passados, sejam eles pessoais ou colectivos, sendo, portanto fundamental desenvolver acções de reparação histórica, de pacificação do presente e de construção de um futuro sem violência.

Termino como comecei: voltando a Malmgren. No mesmo texto diz também que a Rússia, quando Putin chegou ao poder, “precisava desesperadamente de um líder forte”. A Rússia acreditou que precisava dele. Putin acreditou na sua visão da e para a Rússia. O Mundo mudou. Putin vê o Mundo não como o Mundo é, mas como ele é, a partir da sua própria propaganda, reforçada pelo seu círculo próximo e pela sua interpretação das vitórias e objectivos que até hoje cumpriu. Isso não muda(rá). Conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) dele, sair da sua propaganda e desvincular-se de Putin? Aqui está parte significativa, que merece a meu ver ser investida, de um caminho para a Paz. Oxalá consiga porque, assim, mais facilmente poderemos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no e para o futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

 

Tiago Pereira

in CNN Portugal; 08.03.2022

https://cnnportugal.iol.pt/guerra-ucrania/tiago-pereira-psicologia-em-tempo-de-guerra-putin-5-centimetros-de-altura-ficticios-30-anos-de-medo-real/20220307/62261e9a0cf2cc58e7e73b12