Evitar ou promover conversas difíceis?
Alexandra Stein, hoje especialista em extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, culto declarado como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes” por quem, como ela, nele participou. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção”, diz.
“Pelo futuro e pelo bem comum – evitar ou promover conversas difíceis?”, 27º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da necessidade de “procurar fora” e do encontrar de outros espaços para “dirigir a atenção” para discutir a necessidade de não evitar(mos), mas sim, promover(mos) conversas difíceis.
“Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa”, sendo fundamental que construamos espaço para estas conversas difíceis essenciais “à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista”.
No artigo procuro enumerar algumas pistas que considero importantes para melhor gerir estas conversas, nomeadamente a procura de momentos e contextos adequados, bem como de pontos de convergência e entendimento, o respeito, a empatia, a abertura à e ao outro ou a validação, aceitação e escuta activa. Ainda a importância da manutenção da racionalidade e da calma, bem como do questionamento, da reflexão e, quando necessário, do concordar em discordar, sempre no sentido da definição de uma relação de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.
No artigo discuto ainda os muito humanos viés da sobrevalorização (como podemos considerar a priori algo mais desconfortável do que efectivamente será) e ansiedade face ao desconhecido (e a necessidade de se ultrapassar a sensação de ameaça possibilitando a “experimentação”). Bem como a necessidade de criarmos “ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento”, fundamentais a uma polis de encontro, diálogo, sobreposições e penumbras (sociais), assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz.
Numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, manter, com resiliência e optimismo, conversas difíceis “é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.”